segunda-feira, março 16, 2009

Os Sonhos



Continuo voluntariando na escola primaria aqui em Londres. E cada vez que vou la gosto menos das professoras, e mais da criancas. O professor da minha classe é um cara legal, Sultao Khan, que diferentemente das professoras estericas nunca grita e se diverte dando aula. Eu vou la todas as sextas, nunca me disseram nada muito explicito, nunca me deram uma lista com os nomes das criancas, entao eu vou aprendendo meio assim... por osmose :)

Os nomes eu vou ounvindo. Nomes diferentes de criancas que vem de tudo que é lugar do mundo (há muitos filhos de imigrantes e refugiados). Um desses dias, quando eu chamei o Tamin para ler comigo, ele me olhou com os seus lindos olhos negros, e cilios enormes e disse. "Tudo bem que vc diga todos os nossos nomes errados, porque voce é estrangeira." Eu comecei a rir, confesso que eu nem tinha percebido que minha pronuncia era tao pessima. Pedi a ele que que me ensinasse a pronunciar corretamente o nome dele. "That is not so important, Juliet.". De fato, talvez nao seja. Eu tao pouco me importo que eles me chamem de Juliet.

A Martine, veio até a mim na primeira semana para perguntar se podia ir ao banheiro. A classe é aquela bagunca com professores que entram e pegam coisas, alunos de outras classes que vem buscar material, Mr.Khan ensinando sobre o Sherpas e a Martine, uma menininha minuscula, de pe na minha frente. Ela veio ate a mim, porque eu era a responsavel nao ocupada naquele momento. Eu so tinha que deicidir se ela podia ou nao ir ao banheiro. Por mim, claro que ela podia mas nao sabia como era a dinamica da classe, entao fiquei tentando olhar para o mr. Khan e descobrir se eu podia ou nao deixa-la ir. Ela esperou uns segundos, e percebendo a minha aflicao colocou a mao no meu ombro e disse " Juliet, it is ok, voce tem o direito de me deixar ir ao banheiro!." Eu fiquei desconcertada, aquele pinguinho de gente, estava nao so percebendo a minha duvida mas me amparando ali no meu primeiro dia. "Voce tem certeza disso????" eu perguntei seria meio brincando" "Tenho." "Entao va ". Ela foi, e quando voltou veio ate a mim e disse "See I am already back".


E eu fui entrando assim nessa classe, pelas maos das criancas, que com toda delicadeza e percepcao iam me explicando a dinamica da escola. Eu aprendo muito mais do que ensino, e essa estoria de voluntariar fica ate parecendo meio injusto, como se eu ganhasse muito mais do que dou. Eu leio, eu ajudo, eu explico, me reviro... mas oque eu masi faco é ouvir. E estar ali para aquelas criancas que tem um milhao de coisas para contar e ninguem muito que preste atencao é simplesmente incrivel! Entao, quando o Mr.Khan contou que eu ia passar ferias no Brasil, o Severum veio me abracar e me me dizer para voltar logo. Depois que ele veio, vieram todos. Com varios conselhos importantes do que eu devia fazer e evitar enquanto estivesse longe.

Voltei, semanas depois achando que eles talvez eles nao lembrassem de mim. O sorriso no rosto eh daqueles que desmonta. Mr. Khan perguntou se eles queriam golden time ( brincar) ou conversar comigo. Quiseram conversar comigo para saber do brasil. Um milhao de perguntas. Tem borboleta? E arco-iris? E que tipo de bicho? "Micos, Tucanos, Araras, "Leopards", eu disse" . " Eu acho que o que vc quer dizer é "Jaguar", pq os "Leopards" vivem na Africa me explicou o Cecai. "

Faz umas semanas eu tive que ir embora mais cedo porque eu tinha uma aula. Expliquei que eu tinha que ir a aula e de repente as criancas me olharam em total espanto. "Do you go to school???" Eu confirmei. Eles ficaram perplexos. Incredulos. "Juliet, are you an ADOLESCENT????". Percebi que tinha usado a palavra errada e expliquei que nao. Eu ia a faculdade. Achei que com isso eu fosse acalma-los. O olhar se tornou ainda mais de fascinio. "do you go to the UNIVERSITY?????". Sim eu disse. "Wow. I dont know anyone who goes to the University!!!" Todos iam repetindo isso.

Essa sexta, semanas depois dessa conversa, quando eu tava indo embora o Tamim veio me perguntar se eu tava indo para minha aula. Eu disse que sim. Eu que to meio cansada do meu mestrado, disse que sim. "you know what ...my neighbour goes to the University too!". Ele me disse com todo orgulho. "Does he?". Eu perguntei. "Yes! and I told him about you! Now I know 2 people in University!!!" Quem me conhece sabe que eu tenho os meus criticismos sobre escolas em geral. Inevitavel sintoma de quem ja fez muita aula de antropolgia e de post-colonialism. Mas o Tamim, me desmontou. "Juliet, I am going to go to University too! You know why? . No why? " Cause I want to meet people like you, and learn all those things that you know."

Eu queria ter explicado para ele, que ele nao precisava ir a universidade. Que aquela percepcao, que aquela docura e gentileza tao valiosas nao eram ensinadas. Que tudo isso a gente as vezes vai perdendo nas escolas, nas universidades da vida. Que la nos mandam sentar bem quietos. Ficar calados. Reproduzir ideias dos outros. Atacar pensamentos. Eu queria dizer para ele que eu aprendo muito mais ali numa classe de criancas de seis anos. Mas eu nao disse, porque com todos os seus problemas as escolas sao lugares de encontro. De aprender a lidar com o social. Com o abstrato. Com os livros.Aprender sobre outros mundos. E talvez essa troca seja isso. Eu vejo nele o meu ideal de pureza, de bondade, e ele ve em mim alguem que ele acha que eh admiravel, alguem que vem de um mundo de misterio, alguem da universidade. Talvez estejamos os dois errados, talvez nao. O mais provavel é que estejamos na metade. Mas ali eu abandonei o meu criticisimo a toa.. para permitir so o sonho. Afinal de contas, oque seria do mundo sem os nossos sonhos?

domingo, março 08, 2009

Drury Lane



Ontem eu fui assistir ao show da minha grande amiga e talentosa cantora/compositora Sabrina Rabello. Eu conheco as musicas tao bem, que um desconhecido ao meu lado, ate me perguntou como eh que eu sabia todas as letras. Eu pude contar a ele com um certo orgulho que a Sabrina aquela talentosa belissima mulher, doutora em fisica, compositora,e cantora era uma das minhas melhores amigas.

Para mim cada show da da Sabrina eh tocante. Talvez porque ela tenha vindo de outro mundo, talvez porque ela tenha se rendido a musica tarde. Ela estava fazendo seu doutorado em matematica aplicada e fisica quando resolveu comprar um piano ha dois anos atras e comecar a compor. Assim, como ela mesmo explicou, terapia para doutorandos que nao podem se permitir terapia.

E dessa compra veio o mundo de musica e letra que existe dentro dela. Eu entendo esse sentimento bem. O que eh ter um mundo dentro e ter que que encontrar algum veiculo para coloca-lo para fora. Simplesmente para nao explodir, simplesmente para tansbordar um pouquinho. E em apenas dois anos, ela coloca de maneira tao irreverente, tao profunda, tao verdadeira que arrebata.

Eu tenho as minhas musicas favoritas eh claro. Na verdade, sao quase todas favoritas. Mas eu escolhi colocar Drury Lane aqui porque eh a musica que fala do escritorio onde a Sabrina fez o seu doutorado. Onde ela teve suas duvidas existenciais, onde ela vivia rodeada por muitos que mesmo tendo suas proprias questoes particulares imagino que nao devem chegar nem perco de entender a intensidade daquela mulher. E que mulher...

Eu coloco Drury Lane aqui para lembrar a todos nos que mesmo de um doutorado de fisica pode se passar a musica. Drury Lane eh para mim a musica que nos lembra que assim como na Turquia muitos mundos coexistem. Eles estao ai, em equacoes, em notas, em palavras, ligados por portas invisiveis. E eh necessario as vezes ter coragem de procurar essa porta pouco "credivel" para entrar num outro mundo que ja eh seu. Um mundo pelo qual sua alma ja suplica. Procuremos a tal porta, tenhamos a coragem de fazer a travessia..mas lembremos tambem que nao eh necessario fechar a porta, deixemos a aberta pois afinal de contas todo o resto ainda existe.

quinta-feira, março 05, 2009

Full Circle :)

Parto de Istanbul em algumas horas, e mais dificil do que chegar até aqui é ir embora. Cheguei ha mais de uma semana, e exausta como relatei no meu ultimo post fui parar no aniversario de Nesli num pequeno restaurante. Ontem, voltamos la, para encontrar meus novos amigos e despedir-me. Um circulo completo. O Lonely Planet não deve considerar que em Istanbul eu estive... nao fui a um Hamman turco, nao fui ao Grand Bazar, nem a Mesquita de Souleimane ( estava fechada). Eu fiz é claro algumas coisas turisticas, visitei mesquitas lindas, a Haya Sofia, Sulthanamet, a Cisterna??. O que eu mais gostei no entanto foi de andar pelas ruas, cruzar o bosphorus, e conhecer a vida das pessoas que eu encontrei.

Não aquela vida que se imagina, de veu, e conservadora. Não, eu conheci os ativistas, quem lutou pelos direitos para os gays e os conseguiu. Eu conheci os dancarinos, os artistas, os arquitetos, os pintores, os yogis, os musicos. Eu participei de um workshop de consciencia corporal e danca, pude ouvir musica tradicional e ver como o corpo dos outros de outras culturas se movem diferentemente ao meu.

Eu conheci os inumeros cafes, e bares, tao mais aconchegantes dos que os que eu conheco em outras partes do mundo. Lugares desses que so se chega com quem aqui mora, porque eh sempre atras de uma rua, pegando um elevador, descendo uma escada, abrindo uma porta e entrando em outro mundo. E sao tantos os mundos que aqui co-existem.

Eu ainda escrevo mais precisamente depois. Agora é só para dizer que Istanbul é para mim as pessoas que eu encontrei. E nessa interacao maluca das pessoas fazerem o lugar, e o lugar fazer as pessoas descobri muitas coisas sobre mim. Por que distante do conhecido a viagem para dentro é mais facil. Em meio a muita fumaça, a um calor humano inacreditavel, enorme e contraditoria tolerancia existe Istanbul. Assim dividida entre a Europa e o Oriente Medio. De modernos e liberais, e conservativos e religiosos. Assim, cruzando de um lado para o outro, observando, encantando, guardando para si muito do que os por aqui passam essa cidade maluca vai se criando.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Meu Primeiro Dia em Istanbul

Sai de londres de madrugada depois de passar a noite numa festa. Dormi a viagem inteira, e acordei em Istanbul. Peguei o onibus que me levaria a Taksim, onde minha amiga Nese mora. Desci, pedi umas informacoes numa mistura de turco mal falado e ingles, e recebi respostas em ingles mal falado, gestos e sorrisos. Andei ate finalmente encontrar a casa da minha amiga

Subi os muitos degraus carregando a minha mala ate chegar a casa dela no ultimo andar. E finalmente eu estava ali. Depois de tantas tentativas, depois de muitas viagens canceladas, depois de muitas passagens perdidas, depois de ter pego onibus, trem, aviao, onibus, taxi eu finalmente tinha chegado a casa dela. Nos abraçamos, nem ela acreditava mais que eu chegava. Conheci seu Flat mate alemao que parte para Siria em alguns dias. E comemos uma refeicao deliciosa de queijo turco mais tomates, ovos, pepino, pao. Enfim, um pequeno lanche para esperar para o jantar de aniversario de uma conhecida dela.

Eu adormeci no chao, enquanto Nese foi tomar banho. Exausta que eu estava de ter varado a noite numa festa e pego tudo que é meio de transporte para chegar a casa dela. Acordei com Nese ao meu lado bem quietinha. Se eu prefirisse nao precisava ir ao tal jantar. Eu podia ficar dormindo ela disse. Mas nao, havia tempo para dormir depois, agora na minha primeia noite em Istanbul eu iria.

Andamos pelas ruas do bairro até chegar num pequeno, muito pequeno restaurante. La dentro havia 4 pessoas. Em cima da mesa pratos com uma variedade de entradas. Lembrou me o marrocos. Berinjela, cenoura, tomate, tabuli e outras coisas em pratinhos com temperos diferente. O dono um simpatico armenio que fazia de tudo para tornar o lugar o mais agradavel possivel. Aos poucos foram chegando outras pesssoas. Eles eram arquitetos, fotografos, pintores, artistas.

Se esforcavam para me envolver. Para me explicar. Para falar em ingles, em frances. E eu amando estar ali. com aquelas pessoas. Ouvindo a musica turca. Comendo, ouvindo, comendo. Eu experimentei e desgostei da bebida de anis. Fiquei na agua. Fui me inebriando de estar ali naquela pequena celebracao. A aniversariarante, um doce, todos tao atenciosos, e eu fui me apaixonando por aqueles turcos desconhecidos que eu nem se quer entendia direito.

Ai comecou a musica. E para isso nao precisa linguagem. Dancamos. Ali naquele pequeno restaurante a Nesli, aniversariante, ficou de pe e comecou a dancar danca do ventre. Me puxou, eu puxei a Nese e de repente todo mundo estava dançando. Chegou o café turco. E eu que nem tomo café, tomei. Virei. E deixei la esperando para que pudesse ser lido. Sarkan, um turco gay (que me contou sobre a gay scene em Istanbul), desvirou a xicara e comecou a falar. E assim, sem saber nada sobre mim foi falando. Olhando para a borra e falando. E eu que nao tava levando muito a serio no comeco, fui ficando impressionada com os comentarios cada vez mais precisos. Eu so ouvi, nao disse nada. E aos poucos, eu fui sentindo uma conexao com aquele cara. Que parecia de fato estar lendo minha vida.

Num certo ponto disse que eu tinha estado doente, e que aquilo tinha sido um “turning point” para mim. Lembrei-me entao, do primeiro dia quando sai do hospital e fui a um templo hindu enquanto esperava a hora de ir para o encontro da yoga ( do qual eu tanto falei). Um homem la no templo saiu de nao sei onde e veio diretamente a mim. Trouxe um livro chamado de turning point . Eu nem me lembrava dissso, mas falando com o Andrew sobre meus exames no Brasil (meu amigo que me levou a casa dos lordes, a yoga e ao templo hindu) esses dias, ele me lembrou de como ele tinha ficado impressionando com aquele homem do templo que tinha me trazido esse livro em meio a tantas pessoas, como ele achava aquele momento simbolico. Hoje o "turning point" vinha a tona de novo. Sorri. Coincidencia, ou sincronicidade, boabagem ou destino fez meu enontro com Sarkan parecer mais significante.

E ai Nesli fez um discurso. Em turco. Eu sem entender nenhuma palavra fui me sentindo emocionada. Ali naquele minusculo restaurante turco. Eu ali ouvindo uma lingua que eu nao entendia fiquei emocionada. Eu sabia dentro de mim que ela devia estar falando de alguma transformacao.

Na mesa tambem havia Ahmet, curdo, que nao falava uma palavra de ingles. Nossa comunicacao entao, era so no olhar. no gesto. Depois veio a dona do restaurante sentar se perto de mim. Dizer como eu era bonita. Ou melhor, dizer para a Nese, pois ela tao pouco falava ingles. Falou de energia, e de repente eu fiquei sabendo que ela era uma yogi. Que coisa, no meu primeiro dia na Turquia eu vou parar num minusculo restaurante onde a dona é uma yogi!!! Nao faz propaganda, acredita que as pessoas chegam la porque tem que chegar. Cozinha como forma de encontro com o outro, cozinhar é sua meditacao mais profunda. Seu momento de criar. Nunca um prato é igual ao outro. E eu a olhei e de repente ficou tao evidente que as palavras eram pouco importantes. Mesmo sem saber nada disso eu ja tinha sentindo uma enorme afeição por aquela mulher. Ao mesmo tempo, tão presa ao verbal, como é dificil estar numa situacao que voce nao pode falar com o outro. Da a ilusao que aquele mundo existe ali do seu lado, mas está fora do seu alcance.

E ali fora "do alcance" eu pude abandonar o verbal. E me comunicar sem me comunicar. E sentir. E ser sentida. E olhar, e trocar. E sentir essa enorme gratidao por poder ver um outro mundo. Ter outros encontros. Por poder trocar as vezes de maneiras inusitadas. No meu primeiro dia de Istambul eu nao vi nada de turistico. Eu vi muitos olhos. Muitos gestos e e eu senti muito. E em poucas horas eu ja estou apaixonada por Istanbul.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Claro que Pond's!



Postaram esse video dessa propaganda Indiana da Ponds num forum de debate que eu participo e ao assisti-lo eu fiquei perplexa. Assim, é engraçado como é facil termos uma reação sem nem sabermos direito porque. Bom, primeiro o video nao é assim tao claro. A minha visao, é que o cara sai com uma mulher de pele mais clara, e que a outra nao se sente a altura, e tem seus problemas solucionados por um tal creme que pode deixar a pele mais clara, ou ate rosada.

Tenho a impressao que a propaganda espanta por diversas razoes. Primeiro porque ela nao usa meias palavras, ela vai direto ao ponto. Algo do tipo "Voce esta se sentindo mal por ter a pele escura ?? Nao se preocupe nos temos o creme para te deixar rosa!".

Invertindo a situacao e pensando num creme que deixa a pessoa morena ( como por exemplo auto-bronzeamento), nao me senti tao revoltada. Seria porque bronzear se é natural, mas clarear se nao? Eu acho que nao. Para mim, me parece que é porque se clarear tem uma conotação politica.

Essa propaganda fala diretamente de preconceito. A mulher é rejeitada por ter a "pele errada" de acordo com o padrão (mais uma vez) determinado ou reinforcado pela midia. Portanto, em vez de aprendermos sobre diversidade, de abraçarmos o pluralismo, somos obrigados a engolir uma propaganda que quer um mundo monocromático. Um mundo que continua julgando as pessoas por qualidades tolas.

No Brasil por exemplo eu conheco pouquissimas pessoas que gostam dos seus cabelos com cachos. A onda é todo mundo ter o cabelo escorrido! O que eu acho mais triste de tudo isso. E que nós os da periferia do mundo e de certa forma estamos todos numa periferia, ou nao temos a cor certa, ou o cabelo, ou o genero, ou a etnia, ou a nacionalidade, ou a profissao, ou sei la oque. Nos aprendemos que precisamos mudar a nós mesmos. E nao é um mudar profundo, que nos transforme como pessoas. Não é só mudar a cor do cabelo, fazer uma plastica, comprar um produto aqui que me de mais status, outro ali que me de mais sei la o que. É um mudar para satisfazer os preconceituosos.

Essa propaganda é infeliz nao so porque ela cria a ilusao de que o rejeitado esta ESCOLHENDO ser mais claro e assim quem sabe tendo mais poder. Ela é infeliz porque nessa falsa escolha esta a rejeicao do que voce é. Que nao esta na cor, nem no cabelo, nem na sua profissao. Ela é mediocre porque ela coloca na mao do outro a decisão de quem voce deve ser. Essa propganda idiota nos leva para longe do que é realmente importante, que é quem somos como pessoas.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Let It Go

Ha tres coisas que eu ainda quero aprender a fazer: tocar clarineta, surfar e escalar. A clarineta é um sonho cada vez mais distante. Praticamente motivo de piada para o meu amigo Caue, que ha anos, me desencoraja a tocar clarineta e tenta a me fazer aprender sax. Guilherme se refere a esse evento com a "Lenda da Clarineta". Há um tempo eu fui a uma loja aqui em londres perto da Baker Street que so vendia clarinetas. Eu estava decidida a comprar uma. De fato estava ridicula aquela estoria de eu viver dizendo que queria aprender e nao fazendo nada a respeito. Eu iria compra-la e aprender a tocar sozinha. Chegando na loja, eu expliquei ao vendedor que queria uma clarineta usada, que eu tinha visto que estava a venda no site. O vendedor me perguntou se eu tocava, se eu tinha professor, e literalmente nao me deixou comprar. Mandou-me alugar uma para ver se gostava que era muito provavel que em 3 dias eu ja estivesse odiando (meus vizinhos com certeza estariam). Imagine e isso quem disse foi o vendedor!!!! Nao pude alugar na hora pois nao tinha prova de endereco. Ganhei a lista dos professores e escrevi para uns 10. Nenhum me respondeu. Ironicamente todo lugar que eu ia encontrava um saxofnista. Estariam os astros conspirando a favor do Caue??? Finalmente conheci um clarinetista vurtuoso. Um russo, que na sua enorme eficiencia (leia-se chatisse) conseguiu acabar de me desmotivar em 5 minutos.

Surfar tambem fica complicado porque morando em londres nao da. Minhas tentativas foram menos desastrosas. Mas eu confesso que quando eu finalmente quebro a arrebentacao, nao entendo para que eu vou sair de la... tao bom eh ficar sossegada no mar calmo.....

Entao dos meus tres planos escalar me parece o mais plausivel. Fazia dias que eu e o Haiko estavamos enrolando para ir conhecer o Swiss Cottage Leisure Centre onde tem um muro de escalar. E hoje pela primeira vez nos aventurarmos pelas paredes de escalada que podem ser vistas da Adelaide Road. O Haiko que ja escalou antes garantiu que eu adoraria, afinal de contas eu vivo me pendurando em arvore, no metro, subindo muro que nao precisa subir etc...

Chegamos la e fazia um frio tremedo. Da rua de onde se ve o muro parece que ha um vidro separando um lado do ourto. Mas nao, o vidro vai so ate metade do muro, para cima é aberto !!! Nao sei quantos graus fazia, mas com certeza nao muitos. Nosso instrutor era um Kiwi lesado, que fazia High 5 conosco depois de tudo que falava. E nossa terceira companheira uma proficiente, nata escaladora de 7 anos e MEIO, como ela me explicou.

Coloquei todos aqueles cintos e cordas, que eu morrendo de frio nao conseguia nem verificar se estava fechado, let alone, aprender o nome e fomos la brincar primeiro de atravessar o muro de um lado para o outro. Eu sou super flexivel, e o segredo é usar a perna. Mas fazia tanto frio que meus dedos congelavam. Divertidissimo... Atravessamos, e atravessamos ate o nosso instrutor neo-zelandres achar que era suficiente.

Ai fomos finalmente subir o muro. E nao é que eu que adoro subir coisa fiquei com medo. Claro que eu subi. Mas eu percebi uma coisa terrivel, quando eu subo minhas arvores, viro de ponta cabeca, equilibrio em banco, fico de pe em rede e etc e tal eu tenho todo o controle. Eu avalio o meu equilibrio, o meu peso, a minha flexibilidade e faco decisoes baseadas no que eu conheco do meu corpo. Na escalada nao. Eu fui subindo, tranquila, tranquila, mas derepente eu percebi que eu tava sedo "segurada" por um outro. um outro que nao eu. e que mesmo que eu me bastasse enquanto subia na hora de descer "I had to let it go". E isso é com certeza a coisa mais dificil para mim. Relaxar e colocar minha vida na mao do outro. Confiar no outro. E talvez seja esse o aspecto mais valioso de aprender a escalar. Voce sobre, usa os seus musculos, a sua forca, a sua decisao, o seu cerebro mas chega num certo ponto que voce precisa let it go.

domingo, fevereiro 08, 2009

Oriente Medio ou Europa?



Normalmente, eu nao escrevo pois to meio sem coisa para contar, ou entao é porque tem coisa demais. Dessa vez é o segundo caso. Semana passada foi realmente fascinante, eu fiz tanta coisa diferente que eu nao sei nem no que focar. Meu unico amigo ingles, Andrew, aquele que me levou para yoga, é filho de um lorde Ingles. E na semana passada acabei indo conhecer o parlamento com eles. Assim, com direito a assistir a casa dos lordes em sessao, aprender um milhao de rituais e estorias, e até beber no parlamento na sala dos peers. Ou seja, um evento para la de surreal. No dia seguinte, continuando "o Fabuloso Destino de Julieta Falavina" como diria um amigo meu, fui fazer uma coisa totalmente diferente. Posei para um pintor russo. Assim, essa foi uma experiencia digna de ser relatada em detalhes por todas as suas consequencias ( por exemplo meus pais ficaram tao bravos que resolveram nao mais pagar meu mestrado ), mas tambem pela experiencia em si. Imaginem eu que ja fiz um milhao de aulas sobre feminismo, pos-feminismo, orientalismo, de repente vi o outro lado da moeda. O que é ficar la e ser pintada. O que é colaborar para construir uma imagem do feminino idealizada pelo mundo masculino. Como eu disse topico para um outro post.

Nesse post eu quero falar da minha grande amiga Nese. Nese, minha amiga turca que estudou comigo na Holanda, apareceu inesperadamente em londres. Fazia anos que eu nao a via. E encontra-la foi sem duvida um dos momentos mais alegres dessa semana. A visita foi breve pois ela estava a caminho de outro lugar. Foi incrivel ter em casa alguem que olha para os mil textos que eu tenho que ler e tem uma opiniao consistente a respeito. Nao, nem as pessoas na LSE que estao estudando a mesma coisa tem uma opiniao assim tao informada. E ai eu me lembrei de como eu a conheci.

No meu primeiro dia em Amsterda, fui para universidade para me registrar. Entrei numa fila e a primeira pessoa que eu vi foi a Nese. Ela era radiante, bonita parecia uma abelhinha voando de um lado para o outro. Rindo, falando em frances com um, em ingles com outro, e numa lingua que eu nao conhecia com outro. Eu fiquei um tempao olhando, porque a Nese é realmente assim: cativante. Lembro de ter pensado "Quero muito conhecer essa menina. Ela é tão alegre, parece ser muito legal!"

Não é que dias depois ela estava na minha"animada" aula sobre Guerras Civis. Eu fiquei feliz de ve-la. E mais feliz ainda de ouvir as coisas que ela dizia. Opinioes bem construidas, bem formuladas, e diferentes. Depois fiquei sabendo que ela nao era da aula, ela estava assistindo como ouvinte. E mesmo assim de ouvinte ela era a pessoa que mais lia, mais participava, mais questionava. Num certo dia, tivemos que fazer uma apresentacao, e ela mesmo nao estando oficialmente na classe, resolveu faze-la. Para minha alegria ela escolheu fazer sobre a mesma organizacao que eu tinha escolhido. Fiquei radiante :) finalmente eu iria conhece-la.

Marcamos um encontro, e quando ela chegou e comecou a falar eu achei que ela devia saber mais sobre a organizacao escolhida do que o proprio presidente da tal organizacao. Eu que ja achava que sabia muito mais do que era necessario para 15 minutos de apresentacao tive um acesso de riso quando ela disse que nao se sentia preparada. Ela sabia tudo. Tudo sobre a organizacao, tudo sobre os projetos da organizacao, tudo sobre os paises onde havia projetos, enfim TUDO. Ficamos amigas imediatamente. Eu contei para ela que queria conhece-la desde o primeiro dia. Ela me contou que escolheu a tal organizacao porque queria fazer o trabalho comigo. rimos.

Fizemos um milhao de coisas juntas enquanto estive em Amsterda. Ou melhor ela fez bilhoes, eu acompanhei algumas e ouvi sobre outras. Tentei acalma-la toda a vez que ela estava delirando e nao se sentindo preparada para alguma coisa. Impressionei-me com o tanto de organizacoes que era ela envolvida, aprendi muito sobre a Turquia. E desde que partimos da holanda eu tento ir a Istanbul, e sempre alguma coisa acontece que me impede. Toda vez eu tenho passagem alguma coisa acontece. Por isso nessa quinta, quando no estudio do pintor eu recebi a ligacao de Nese dizendo que estava no aeroporto nao pude conter minha alegria.

Nos encontramos na frente do metro perto de casa. Ela continua igual. Ainda mais magra e como sempre com aquele rosto radiante. Nos abraçamos. Como se eu a tivesse visto ontem. Tudo igual ainda que tudo tenha mudado na minha vida esse ano. Ainda que ela tenha passado por depressoes, doencas, relacionamentos dificeis, teses enlouquecedoras, trabalhos que roubam dela todo o tempo. Desanimo sobre o doutorado. Desanimo da vida academica. Desanimo da arte. Tudo continuava igual quando nos abracamos. E tudo isso nem se fazia muito necessario contar.

Ela entra na minha casa ve um texto da Abu -Lughod no sofa e comeca a falar da etnografia dos beduinos. Olha para o livro do Bourdieu e diz que eu devia le-lo em frances que a traducao em ingles é quase sem sentido. E eu fico radiante. Assim. Eu que detesto ler Bourdieu fico radiante. Eu que nao li sobre os beduinos mas sei que a Abu Lughod fala que quando ela vai estuda-lo e chega num lugar tipo favela fica desapontada achando que eles nao sao mais beduinos. E entao percebe que para eles, o que os faz beduinos eh o sangue. Que tudo pode mudar a volta que se eles preservarem a "essencia" todo o exterior nao faz diferenca. Eu fico radiante de ver que é isso: tanto faz o exterior. Por que é o interior que importa.

Nese me convida para ir a Istanbul. Eu conto que tenho até medo agora considerando quantas vezes tudo deu errado quando eu quis ir para Istanbul. Haiko acha que eu devo acabar com essa supersticao. Eu concordo afinal de contas nao precisa muito para me convencer a viajar :) Eu concordo afinal eu nunca estive no Oriente Medio. Digo isso a Nese ja antecipando sua resposta.

"Jules, mas voce sabe que nos somos europeus, né?. "

Rimos. Rimos muito. Que mude tudo a volta. Que mudem todos os conceitos. Todas as fronteiras. Os continentes. Os paises. Todas as categorias. Que eu um dia visite os lordes, que no outro pose para um pintor russo. Que eu largue o meu mestrado, que eu passe meses no sudeste da asia. Que eu estude cognicao, o cerebro, e medite. Que eu viva ciencia na universidade e respire poesia. Que eu esteja no oriente medio na minha mente, e na europa na mente de outros. Que mude tudo. Mas que a essencia continue. Que encontremos essa essencia. E que a celebremos!

domingo, fevereiro 01, 2009

Enganando o Cerebro

Bom, agora que eu já escrevi toda a saga, posso voltar as coisas inúteis que eu escrevo :) Não posso escrever muito pois queimei minha mão direita. Não, não foi tentando cozinhar, mas fazendo uma coisa muito mas muuuuuuito mais inútil. Quem me conhece sabe que eu vou a cabeleireiro raramente, uso qualquer shampoo, se não tiver shampoo uso sabonete, quando perco meu pente penteio cabelo com o dedo. Enfim, não exatamente primo por esses cuidados. Não é que ontem, eu resolvi fazer uns cachos no meu cabelo com um (não sei como chama) aparelho da minha house-mate e amiga Alondra, e isso acabou num verdadeiro desastre :)

Primeiro já foi dificílimo encontrar um plug para poder ligar o aparelho mexicano na tomada. Quando finalmente eu o fiz. deixei-o no chão, enquanto fui fazer qualquer outra coisa que já nem me lembro mais. Ai passei por ele, e ao me lembrar dos famosos cachos que eu queria fazer, eu abaixei e peguei o aparelho, que parece uma escova de metal, pelo lugar errado. Não o "handle" mas o próprio ferro quente. Não sei quantos segundos levou para eu processar que estava quente, provavelmente milésimos de segundos. Eu sei que foi tempo suficiente para eu me levantar, ter um segundo de confusão, e largar o negocio. E é claro, foi o tempo suficiente para eu queimar a mão direita inteirinha.

Ai começou a saga das sugestões...coloca a mão na água gelada. Coloca pasta de dente. Coloca oleo. Coloca manteiga. Coloca óleo de lavanda. Eu coloquei picrato de butesin, uma pomada que sempre existiu na minha cozinha no brasil e que minha prima uma vez me surpreendeu muito por carregar com ela para uma viagem em Ubatuba e salvar algum queimado.

Coloquei a mão também na água gelada. Depois de muita meditação com o haiko achamos que faz sentido. Podemos estar errados, mas nossa dedução é que além de esfriar o local, também manda sinais para o cérebro de que o local esta frio e não quente. Assim numa tentativa de enganar o cérebro. Que eu imagino que pela evolução deve ter selecionado para criar dor numa situação dessas para evitar que você continue queimando o mesmo lugar. Ou machucando ainda mais uma área que esta frágil.

O pior na verdade é perceber quão difícil é de repente ter que fazer tudo com a mão esquerda. A maioria das coisas da para pedir para alguem ajudar, mas tem coisa que não dá. Escrever. Ou fazer um nó no cabelo. Ou amarrar e desamarrar a calca no banheiro publico. Coisinhas simples que dão de repente um trabalhão.

Eu no meu mode " o que eu posso aprender com isso." Na hora pensei " aprender a ficar longe desse aparelho que uma vez me queimou a testa, e agora a mão :)". Mas é claro, que não, não adianta culpar o externo. E eu mais uma vez aprendi a mesma coisa: o quão importante é estar presente nas coisas que fazemos. E é claro machucar um lugar, seja ele qual for, nos faz mais conscientes daquele lugar. Mais conscientes de como nosso corpo funciona como um organismo interligado e completo. Qualquer mudança afeta tudo ( Hoje meu músculo do ante-braco esquerdo esta dolorido :). E quão fascinante é ver como qualquer evento tem ramificações interessantes. Deixar minha mão na água gelada para enganar meu cérebro, sendo eu o meu cérebro, e tendo de certa forma o próprio cérebro encontrando uma solução dessas ( de se enganar) me faz pensar como nos somos seres muito, mas muuuuito interessantes.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

VI

E ai eu cheguei no Brasil. Para fazer meu exame de ressonancia magnetica. Eu antes tinha pavor de ficar fechada la dentro. Desta vez meditei. Em total paz. Sentia a presenca do meu Yogi comigo o tempo todo. Eu estava completamente em paz. O exame demoraria uma semana para ficar pronto. E eu fiquei é claro um pouco ansiosa.

Ai chegou o dia de ir buscar. E eu peguei o exame para ir a consulta logo em seguida. Tudo que eu queria era que meu cerebro nao tivesse piorado. So isso. Tudo isso :) Abri o exame sentada na padaria que ficava ao lado do consultorio do meu medico. Minha mae perguntou " mas voce vai abrir o exame, ju??." " Claro mae. Ninguem tem mais direito a ver esse resultado do que eu. Ainda que eu nao entenda nada." E eu abri. Sentada no balcao da padaria. Com um cha de menta a minha frente. E olhei para tudo que estava escrito que eu nao entendia. No conclusao lia-se " Nao se apresentam novas alterações.'' E eu comecei a chorar. Aliviada . Feliz. Emocionada. Profundamente grata. Lembro-me do garcom que me olhou preocupado. " Eu to chorando porque eu to feliz." eu disse a ele. " Entao voce deve estar muito feliz." E eu estava muito!.

Fui ao medico e quando ele colocou minhas ressonancias na luz para compara-las com as antigas.Vimos que nao só o meu cérebro nao tinha novas inflamacoes mas que das 3 inflamacoes que eu tinha 2 tinham sumido e uma cicatrizado. Eu nunca vou conseguir colocar aqui em palavras o que isso significou para mim. Para mim é claro teve um significado metafisico. Eu sentia dentro de mim que eu estava melhor. No entanto, ver materializado numa ressonancia magnetica, num exame medico, uma mudança organica. Isso nao tem como explicar.

Então eu mudei. Eu hoje não levo nada mais tão a sério. E é claro que eu hoje continuo errando. No entanto, tenho uma enorme vontade de acertar. Nao acertar a resposta de uma pergunta, ou arrumar o emprego certo. Acertar o comportamento certo que nos faz viver melhor. Acertar em escolher o caminho certo, o do coracao e nao o do ego. Ainda que muitas vezes eu siga o ego. Hoje eu quero transformacao, trocar com outro de maneira profunda. E eu tenho encontrado pessoas incriveis pelo caminho que eu tenho podido ajudar, assim como fui ajudada. Com outras tem sido mais dificil pois elas se sentem ameacadas por toda essa busca de liberdade.

De qualquer maneira naquele minuto de catarse eu me senti profundamente grata. A todos os catolicos, judeus, espiritas, ortodoxos, pagaos, muçulmanos, hindus, budistas, yogis que rezaram, meditaram, fizeram buscas metafisicas em meu nome. Grata aos humanistas, agnosticos, ateus que tiveram pensamentos positivos. Grata aos medicos, enfermeiras, atendentes. Profundamente grata a 3 pessoas em especial. SS Karmapa que me tocou de maneira indescritivel na India. Grata a Cecilia que com a Euritimia me abriu para outras visoes. E é claro, enormemente grata ao Raphael, Yogi, que foi o anjo que caiu na minha vida logo no primeiro dia. Alem de ser um grande amigo, um grande confidente, é a quem eu sempre vou atribuir o começo dessa mudança. E finalmente: a mim. Naquele segundo, o mundo parou. O mundo dentro de mim. E eu senti um indescritivel amor, e orgulho de mim.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

V

Depois de todo esse acordar eu comecei a sentir um milhao de sentimentos dentro de mim. Meio como se eu tivesse saido do coma e de repente sido jogada no meio de New Delhi. Todos os meus sentidos se acordaram. Todos. E eu queria sentir com todos o tempo todo. E eu exagerei. Fui procurar a verdade em tudo. Meu marido me apoiou o tempo todo. Em tudo. Ainda que toda essa mudança tenha nos feito quase nos separarmos diversas vezes. Por mais dificil que fosse para ele, e para mim, nos sabiamos que do jeito que era antes, nao era possivel. Eu queria me descobrir e para isso tinha que me libertar. É dificil nao virar uma total hedonista no meio a tudo isso, mas tudo bem porque a vida é uma busca.

No meio a todo esse tumulto resolvemos ir para India. Ja tinhamos a passagem, mas como eu tinha passado um mes na Romenia, tinhamos desistido de ir. Haiko, exausto do Phd, e eu nessa busca frenetica, resolvemos que talvez melhor do que sermos coerentes ( e nao gastar mais dinheiro) que talvez fosse melhor irmos juntos a India. E fomos, juntos ao pais da grande espiritualidade ver oque encontravamos.

Encontramos de tudo. O caos de Delhi. Todos os nossos sentidos. O desespero. O momento de enorme interiorizacao. Fomos a capital da Yoga, onde eu nao fiz yoga, e passei mais tempo vivendo o ar da india. Olhando as cores. Sentada a beira do ganges. Desesperada com as buzinas. Conheci Prateek, um brhamane, que me organizou um ritual de purificacao. Conheci Natalie de quem tanto falei. Encontrei o significado da minha grande paixao pelas viagens. Nao como fuga, como um milhao de pessoas teima em achar, mas como encontro. Encontro comigo. Isso que eu sou que nao tem muito a ver com o que o outro ve em mim. Encontro com o outro. Isso que vc é que não tem a ver com o que os seus amigos, familia, amores acham que voce é. Encontro com as outras mil linguagens que consituem a nossa existencia na terra.

E aí encontrei o budismo. Em McLeod. Fizemos aulas de meditacao com SS Dalai Lama. Que apesar de mega pop é uma figura tocante de presença marcante. E o budismo é o caminho do meio. Talvez nao o meu caminho do meio, mas um caminho que começou a me ajudar a encontrar o meu caminho. Esse que eu ainda estou buscando.

terça-feira, janeiro 20, 2009

IV

Voltei para Londres. E fui para minha Yoga. Entre na minha aula que dura normalmente umas 3 horas. E pela primeira vez fui capaz de fechar os olhos o tempo todo. Fechei-os. E ali eu senti que pela primeira vez na minha vida, depois de 8 anos eu fazia Yoga. O resto tinha sido ginastica. E não me leve a mal, eu gosto de qualquer Yoga.

Comecei a ter pesadelos diários. Antes eu era tao controladora, que nunca dormia sem fazer uma analise mental das coisas que tinham me feito ma durante o dia para não sonhar com elas. Meu Yogi disse que os pesadelos eram bons, era meu corpo que estava liberando o que tinha para ser liberado, estava entrando num processo de cura. Então deixei que os pesadelos viessem. O estranho ( havia sempre um estranho de quem eu sentia pavor, fugia dele etc) do meu pesadelo, foi ficando cada vez mais conhecido, e apesar de eu ter medo dele, num certo dia tocamos piano junto como cúmplices. Eu eu reconhecia pela música. Fui aos poucos baixando a guarda.

Ai eu fui parar num acampamento de Yoga. Do qual também já falei aqui. Lá a segunda e mais profunda mudança ( sendo a primeira a do hospital) aconteceu. Ao abandonar o habito de ficar analisando tudo e finalmente me envolver em umas da atividades senti uma explosão dentro de mim. De olhos fechados dancei. Sentindo a musica no meu corpo como eu não sentia ha anos. Cada pulso. Cada nota. Sentia as pessoas a minha volta dançando. E sentia o ritmo cíclico que deve ser o ritmo do mundo. De olhos fechados senti tudo que eu sou vir a tona. A mulher, a criança, a musicista, a dançarina, a incongruente, a paixão, o amor, o desejo, a alegria. Todos vieram vindo, e eu pudia enxergar cada uma. Sufocada, meio desminlinguida, enfraquecida, tentando respirar. E um pequeno pedacinho do que eu também sou, a racional, não deixando. Para mim, esse sempre será a explicação simbólica da minha doença.

E eu sei que a maioria das pessoas comprometem muito do que são sem adoecer, eu sei que varias pessoas tem pensamentos distintos, para mim no entanto aquele momento de enorme liberação fica como uma das coisas mais importantes que aconteceu na minha vida. A descoberta pelo amor de tudo que eu sou. A certeza de que pelo menos eu não posso abandonar-me.

E é claro que uma mudança dessas tira tudo fora do lugar. Tudo que antes estava encaixado de uma certa maneira passa a não ser mais possível. Com a força de quem quer se curar, eu fui procurar tudo. De maneira, eu reconheço, as vezes exagerada. Tudo que eu não tinha sentido eu resolvi que queria sentir. E essa época com todos os seus exageros também foi importante para eu ir me encontrando.

sábado, janeiro 17, 2009

A Despedida do Henrique

Hoje eu quero fazer uma pausa na estoria do meu ultimo ano, para falar da minha ultima noite. Ontem, eu fui a despedida de um amigo querido. Uma dessas pessoas que modifica o mundo a sua volta. Que causa conflitos, intrigas, conversas, polemicas, e por isso mesmo não parte sorrateiramente. Eu nem o encontrei tantas vezes na minha estadia em Londres. Nossas conversas foram na maioria das vezes politicas. Nos dois sempre lutando por um ideal de justica. Os programas que fizemos juntos foram sempre os que a maioria das pessoas achariam chatos.

Ontem na despedida dele eu chorei. Não choro soluçado de desespero, mas lagrimas que transbordam de ver o tempo passar. Um choro leve. Comovido de ver o mundo mudando. E o mundo muda o tempo todo é claro, alguns eventos, no entanto, tornam isso mais evidente. Olhar para o nosso fórum de discussões e não ter visto ultimamente as opiniões do Henrique bem escritas e formuladas já antecipava o que seria Londres sem o Henrique. Uma Londres menos completa. Ainda que o Henrique não faça parte do meu dia a dia.

E ontem enquanto eu olhava dezenas de pessoas que foram se despedir dele, eu não pude deixar de pensar na vida de todos nos viajantes. Imigrantes. Perdidos no mundo. Como é difícil esse processo de viver dizendo adeus. Como é difícil esse processo de recomeçar em tudo que é lugar. Se tornar em relação ao outro e ter que partir, ou vê-lo/a partir. Lembrei de quando minhas flatmates Leila ( marroquina) e Joss ( americana) saíram de casa e eu fiquei para trás em NY. Era o mesmo sentimento. Sentimento de final de era. A vida como vivíamos não existia mais.

Eu sempre fugi desses sentimentos. Desses rituais. Não fui a formaturas. Não liguei para casamentos. Mudei de países enquanto meus amigos se formavam. Não que eu não pudesse explicar as funções de um ritual, mas talvez achasse que por entende-los eu estava alem deles. Ontem, no entanto, olhando o Henrique partir, olhando ele se despedir comovido das pessoas que foram a vida dele aqui eu soube como eram importantes esses rituais. Importante para todos nos. E eu me permiti chorar. Pois dizer adeus não é fácil. Nem para quem fica, nem para quem vai. O bonito talvez esteja nisso mesmo. Que não seja. Se saissimos incólumes de países onde moramos anos, sem nenhum pingo de sofrimento é que seria estranho.
E finais de eras são começo de novos tempos. Lutar contra isso é uma grande perda de tempo. Fingir que não sofremos com essas mudanças também é tolice. A importância do ritual é exatamente essa: de marcar. Marcar essa transição, que não é fácil, que não é insignificante. Marcar simbolicamente.

Ontem ficou marcado. Num boliche lotado de amigos do Henrique ficou claro quantas pessoas ele tocou enquanto esteve por aqui. De diversas maneiras. Quantas pessoas o transformaram por suas idéias, suas presenças, por seus comportamentos. Em graus diferentes é claro. E eu confesso que pensei em não ir. Não gosto de despedidas. É mais fácil quando uma pessoa parte sem percebemos, ou melhor quando achamos que não percebemos. Quer dizer parece mais fácil. Mas eu fui e hoje quando acordei eu pensei na Joss e na Leila. Devíamos ter feito uma festa! Uma festa de despedida. Pois uma festa de despedida não celebra a partida e sim o nosso encontro com outro.

III

Eu é claro mudei a cor da calcinha, os livros que eu lia. Tentei parar minha mente a cada pensamento critico. No fundo, eu estava sempre com medo. Sempre sem saber o que estava acontecendo com meu cérebro. Meu cabelo caia. Eu tentava eliminar qualquer pensamento que pudesse ser negativo. Comecei a ir as aulas de Yoga. Elas eram distintas. Falavam de Tantra. Falavam de Deus. Meus olhos reviravam. Eu achava que aquelas interpretações eram sócio-construídas. Odiava ouvir a palavra Deus numa aula de Yoga. Eu estava com medo. Tinha que ir la. Aos poucos, fui parando, parando, parando.

Em fevereiro, depois de passar o mês viajando, liguei para minha mãe. Estava conversando com ela, quando de repente, perdi minha fala. Nao perdi o discurso mental. So não fui capaz de articular. Foi travando. Travando. E eu fiquei nervosa. E soube imediatamente " É meu cérebro! Eu não posso mais fingir que nada está acontecendo." Meus pais, mandaram me para o aeroporto imediatamente, e 4 horas depois eu ja estava voando. Na manha seguinte internada."

De fato eu estava com uma anomalia. Não se sabia o que era. A minha perda de fala era uma crise parcial epilética. Façamos então todos os exames. Assim que eu entrei no hospital perdi o medo. Façamos então. Não adianta ficar evitando. Meu Yogi me ligou e disse o que ele já tinha dito antes, que achava que meu sistema imunológico estava lutando contra meu cérebro. Parecia sintomas de Esclerose Múltipla. As explicações dele eram é claro esotéricas.

Fiquei 11 dias internada. Depois de tudo que é tipo de exame, meu neurologista, um homem da ciência, contou me que eu tinha inflamações. Perda de mielina. Como isso acontece ? Era o meu sistema imunológico que lutava contra mim. Por que? Não havia respostas medicas muito claras. Se isso se repetisse seria uma doença cronica, eslcerose multipla, se nao, teria sido uma versão aguda, também sem muita explicação.

Eu nao quero dizer aqui, que eu acho que os médicos não sabem o que dizem. Nem que eles não tenham me ajudado muito. Nem encorajar alguem a não ir no medico. Cada caso é um caso. Aqui eu só posso dizer do meu caso. Do que significou para mim ouvir o medico me dizer que o meu sistema imunológico estava lutando contra o meu cérebro. Para mim, foi como olhar as pinturas da minha amiga marroquina. Foi como se o evento em si transcendesse tudo. Não me importava qual era a explicação cientifica, o fato de não existir uma explicação muito concreta. Para mim foi o momento que dentro de mim aconteceu um clic. Um clic de responsabilidade.

"Meu deus, como é que o meu corpo luta contra o meu corpo? O que é que está errado." E não precisou de quase nenhum segundo para eu perceber quão infeliz eu era. Não que ninguém me fizesse infeliz. Não que houvesse alguma tragédia na minha vida. Simplesmente, observei com eu tinha abandonado aos poucos o sentir. Como eu tinha amputado tudo que eu sou, meio por acaso. Como eu não ria. Como eu não tocava. Como eu não fazia nada. Como eu na verdade acordava todos os dias sem um propósito. Como eu estava esperando os dias passarem. E pronto.

Para mim foi um momento de mudança, pois eu decidi dentro de mim que não importava o que custasse que eu iria me buscar. Buscar o que era me sentir viva. Com o corpo todo. Que eu não ia abandonar o meu cérebro, mas usa-lo ao meu favor e não para criticismo a toa. Ali no Hospital eu comecei a mudar.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

II

Naquela noite, tive um choque na mão. NãO sabia o que era. Eu estava dormindo. Isto aconteceu um dia antes de eu voltar para Londres. Já em Londres fui ao medico que me pediu para ir ao Hospital. Fui. Depois da tomografia, uma senhora com cara de pesar, me pediu para dormir no hospital. Havia uma anomalia no meu cérebro. "Uma o que? Como assim? Onde. Eu sei tanto sobre o cérebro?!?!?!? Meu marido é neuro-cientista. Como assim??? Como assim??" Sem respostas. Fiquei. No dia seguinte, eu devia fazer a Ressonância Magnética. Fiz. A "anomalia" se confirmava. Eu teria agora que fazer uns outros exames. Uma punção lombar. Ou seja, retirar um liquido da minha espinha. Não. Eu não queria. Não queria fazer de jeito nenhum. Entendam eu não estava com medo de morrer, de ter tumor. Eu estava com medo do exame! E portanto, resolvi que ia embora. O medico desesperado me explicando que era importante, eu fazendo perguntas e mais perguntas. Eles poucas respostas.

E eu pensei dentro de mim " O que é que eu posso fazer." Dentro das minhas possibilidades eu só via uma. Eu queria ir embora do Hospital e ignorar tudo! O que eu podia fazer. Onde eu podia encontrar essa saída?? De repente ficou claro, como ateia militante o meu único caminho era abandonar meu ateísmo. O único jeito que podia abandonar o caminho cientifico era substitui-lo por outro. No entanto, é importante perceber, que eu não o fiz porque eu estivesse de repente sentindo algo dentro de mim. Eu o fiz para fugir do meu medo. E como eu descobriria mais tarde: isso não da certo.

Sai do Hospital. E liguei para um único amigo meu espiritualizado. Ele, por coincidência ou sincronicidade, depois de 7 meses sem vir a Londres estava vindo para o encontro do Ashram da Yoga que ele frequentava. Perguntou-me se eu queria ir. Não hesitei. Cheguei e em pouco tempo o "líder" da casa veio falar comigo. Tivemos uma conversa de 3 horas. Onde ele só de me olhar me resumiu. Disse que eu tinha que mudar, que eu estava me sabotando. Falou de coisas que eu achava pouco cientificas. Debateu as comigo. Discutimos. E eu estava tão disposta a aceitar qualquer coisa que disse a ele " Diga-me o que fazer." Ao que ele respondeu " Vá fazer o exame. O que esta manifestado no orgânico precisa ser lidado no orgânico. Para as causas estruturais volte aqui. Comece a fazer Yoga. " Eu já fazia Yoga ha anos. Não entendia como isso poderia possivelmente mudar alguma coisa. Disse a ele, que não voltaria ao medico. E ele foi categórico. " Julieta, Não adianta você mudar tudo a sua volta. A mudança tem que ser interna. Enfrente os seus medos."

quarta-feira, janeiro 14, 2009

I

Como a Charo me deixou uma mensagem muito delicada, perguntando se eu tinha estado doente, resolvi responder em forma de post. Não é exatamente que eu tenha evitado fazer isso, mas é que durante todo o processo do que aconteceu eu fui escrevendo e tinha a impressão que fosse claro. Vou escrever por partes. Pois o que aconteceu, que alias hoje eu considero uma benção, nao pode ser contado assim em uma frase. Bom quer dizer, pelo menos não por mim :) Então, lá vai. Eu vou começar de quando começou para mim. Que é claro, no simbólico.

Há um pouco mais de um ano atras eu fui para o Marrocos. Viagem que eu esperava ha anos. Lugar de onde tenho amigos queridos. Pessoas que de diversas maneiras foram muito importantes para mim. So que quando eu fui para o Marrocos eu já não era a mesma pessoa que tinha sido quando tinha conhecido esses amigos. Eles me conheciam carregando um violão, eu cheguei la achando que arte era uma perda de tempo. Que tudo que não fosse politico, que não fosse justo, que no fosse preocupado com resolver a desigualdade do mundo não tinha valor. Não sei direito como fui parar nisso, mas foi entre abandonar musica, me perder na antropologia e enveredar na politica internacional. Cheguei la, vivendo no meu cérebro. So no meu cérebro.

Deparei-me com minha amiga, pintora, linda, que veio me buscar de tomara que caia no aeroporto. Fiz analises sobre como as classes baixas e altas nunca seguem as regras da sociedade. Observei os rituais. Tive conversas intelectuais, e me senti muito bem com isso. E eu fiquei la no Marrocos 35 dias. 20 deles sozinha. Participei do Ramada, peguei trem, camelo, andei a pé, charrete, carro, e tudo que é meio de transporte. Quando depois de ter estado em muitos lugares voltei para casa da minha amiga. Vi seus quadros. Levou uns 20 dias para eu VE-LOS.

Eram corpos que se soltavam das telas. E eu tendo viajado naquela sociedade. Sentido a coerção e coesão social. A contenção, a tensão. A aflição. O nervosismo. Quando eu voltei e olhei para os quadros eu senti uma coisa arrebatadora dentro de mim. Aquelas imagens transcendiam tudo. Transcendiam o politico, o real, o concreto. Aqueles quadros não precisavam de palavras ou analise para ir no amago. Eu olhei. Olhei. Olhei sentindo me arrebatada por dentro. Pequena. Tola. Sem palavras. E talvez tenha sido ai, que tudo começou.

domingo, janeiro 11, 2009

Das Idas E Vindas

Um mês no Brasil. Em algumas horas volto para Londres. Mais uma estadia que se encerra. E com meus amigos que partem da casa, com as risadas que ficam, com os abraços apertados fica um pedaço meu. Difícil. Difícil voltar para Londres. Era para eu já estar acostumada, com todas essas idas e vindas, e eu sei que assim que chegar em Londres e encontrar todos aqueles que fazem parte de mim lá, tudo volta a fazer sentido. Agora não. Agora eu sinto a vontade de ficar aqui. De falar com minha prima com quem não falei o suficiente, de trocar mais palavras com o amigo silencioso, de abraçar mais o que saiu cedo, de ouvir mais estorias de todos. Agora que eles todos partiram de mais uma festa de despedida minha, mais uma das muitas festas de despedida nesses últimos 8 anos, fica um vácuo. O vácuo de quem queria mante-los todos aqui. De quem queria ficar.

Essa temporada foi profunda. Eu estive no médico, e pude ver toda aquela mudança que eu já sentia no meu corpo materializada ali na minha ressonância magnética. Todo aquele ano que vocês que aqui estiveram bem conhecem produziu em mim uma recuperação espantosa. E eu que já a sentia, já a intuía, ao vê-la num exame médico chorei. Em celebração a vida dancei. Dancei a noite toda. Busquei resolver estórias mal resolvidas. Viajei, encontrei com um amigo querido que há tempos não via. Fui a praia, subi arvore, cachoeira, fiz yoga, karaoke, nadei, toquei violão, cantei. Fui ao samba no Rio. Encantei-me com a musica, com o musico, com os que cantavam, encantei-me comigo. Com quem sou. Com o que voltei a ser.

Então eu sento aqui, nessa madrugada tendo fechado a porta para os últimos convidados. E no anseio de manter tudo isso comigo escrevo. São tantas essas pessoas que amo, que chega a ser espantoso.Como são belas... Não quero partir. Já não entendo como é que vivo sem elas? Mas eu sei que é tolice, e claro que eu não vivo sem elas. Elas são sempre parte de mim. Agora eu só sei disso mentalmente, meu corpo mesmo ainda não se lembrou. Mas logo logo ele se lembra. Ele lembra quando eu encontrar as pessoas que eu amo no outro lado do Atlântico. Mas agora não precisa, agora ainda não.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

"Anjos da Guarda"

Semana, que vem estou indo para o Brasil, e portanto, acho que vou ficar sem atualizar o blog por pelo menos um mês. Eu na verdade, não tenho muito o que contar ultimamente. Fato esse decorrente de eu estar passando muito tempo na LSE. Estava eu aqui pensando que eu queria escrever alguma coisa e o fato de não ter muito o que contar por causa da universidade me fez lembrar de uma estória muito bonita, que eu venho adiando há muito tempo. Talvez por um certo medo de não fazer justiça a estoria original. Essa estória, é a estória de como eu comecei a estudar antropologia.

Quando eu fui para NY estudar, eu tinha de fato ido para estudar cinema. Não que isso fosse uma idéia muito profunda, e pensada, foi meio por acaso. Diga se de passagem que quanto mais eu converso com as pessoas mais eu vejo como nossas escolhas por uma área são muitas vezes por acaso, por ter empatia por algum professor, pela idéia daquela profissão, as vezes até pelo lugar físico ( conheci uma menina que foi estudar na FAU pois quando era adolescente tinha visto um menino pichando o muro da FAU e achado lindo. Naquele minuto decidiu "é aqui que quero estudar!"). O engraçado é que essas escolhas lá atrás acabam definindo muito do que somos, muitas vezes sem nem percebermos. Eu vejo isso claramente hoje em dia, na minha aula de antropologia do aprendizado e da cognição. É simplesmente incrível, colocar os antropólogos, psicólogos, filósofos e neurocientistas e ate uma bióloga juntos numa classe. Nos entramos la, com os preconceitos da nossa área, com perguntas distintas, com interesses completamente diversos, e muitas vezes super passionais. E é difícil de se abrir de verdade para uma nova visão. Aliás até o fato de ter ido a uma universidade ( no meu caso nos EUA) e estar agora na Inglaterra muda tudo. Mas já divago.

O fato, é que eu tinha ganhado uma bolsa, e tinha que escolher uma área de estudo. Quando eu cheguei em NY, mandaram me falar com um "advisor", e como o sistema de ensino é completamente distinto ( os alunos tem que pegar aulas de diversas áreas independente do major- área de especialização) ele me aconselhou a pegar aulas de inglês, teoria da música ( para satisfazer créditos de arte), cinema, e astronomia ( créditos de ciência). Bom, sai de lá, e liguei para meus pais para contar sobre o meu primeiro dia. Quando desliguei, um professor que estava ao meu lado, se dirigiu a mim, dizendo que era brasileiro, e que dava aulas de antropologia. Convidou-me então a ir assistir a uma aula dele. Perguntei sobre o que era a aula, e ele me respondeu que era sobre os Nambikwara, e outra populações indígenas da América do sul. Lembro-me de ter agradecido, dito que tentaria ir, mas pensando. " Nossa, de jeito nenhum. Não tenho interesse nisso."

Como a vida da voltas, acabei mudando de idéia e resolvendo ir assistir a tal aula de antropologia.

O professor, começou a aula por contar sua estória. Tinha estudado música e antropologia. E quando foi fazer seu trabalho de campo, resolveu ir estudar a tribo como musicólogo. Passou um ano com os Nambikwara e quando achou que já sabia tudo que tinha para saber sobre a música para os Nambikwara partiu para escrever sua tese. Assim que voltou a sua universidade (americana se não me engano) resolveu que queria voltar a morar com os Nambikwara, afinal, agora que ele já falava a língua poderia estudar outros aspectos da tribo mais profundamente. Queria estudar religião.

Voltou e passou um bom tempo observando. E num dia, quando finalmente sentiu que era capaz de falar o suficiente para fazer uma pergunta elaborada. Foi até o Xamã para perguntar se eles tinham esta palavra. Este conceito. Lembro-me que ele disse que levou meia hora para fazer a pergunta, explicou que religião vinha de religere, religare.. do latim.. conectar-se. Explicou sobre as religiões no ocidente. Enfim, levou um tempão, e no final da pergunta, disse " e vocês, tem essa palavra religião?" ao que o Xamã, sem hesitar respondeu " Claro: Música!"

Eu me lembro de estar sentada na minha mesa. Prestando enorme atenção na estória. E de repente sentir-me completamente nocauteada. Eu nunca tinha sido religiosa, mas se existia um momento que eu me sentia em outro mundo, ou conectada com algo além, era tocando, compondo. Naquele minuto eu soube que eu queria ficar. Eu queria aprender sobre outras culturas. Eu queria aprender sobre esse dialogo entre populações que tece a nossa humanidade. Eu queria conectar-me com o outro. Aprender as outras mil linguagens que explicam a existência.

Ironicamente, eu acho que é muito fácil perder esse verdadeiro interesse pelo outro na universidade. Vira meio que aquela visão do "analisador" X "analisado". Explicações muitas vezes funcionais das outras linguagens. Isso no entanto não vem ao caso para esse post. Meu professor e querido amigo Marcelo Fortaleza Flores foi responsável por despertar em mim o interesse pelo o outro. Que eu já tinha é claro, mas um interesse num outro plano. Anos mais tarde, ele foi responsável por me fazer voltar a música. Essas pessoas que aparecem assim nas nossas vidas, meio por acaso, acabam de fato transformando quem somos. E o engraçado é que as vezes são pessoas que nos levam para bem longe do que somos, mas tenho cá para mim, que os mais transformadores, e as melhores e mais profundas transformações ocorrem quando encontramos pessoas que nos trazem para dentro, mostrando o que já intuímos (sem nem saber) numa outra linguagem.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Universo Paralelo

Bom, como eu ja disse antes eu sempre me surpreendo quando alguem diz que le meu blog! E é óbvio que se eu o escrevo e coloco na rede isso não deveria ser um fato em si tão estranho. Mas eu me surpreendo porque eu fico tocada eu acho. Sei la, de certo modo, eu acho incrivel que alguem leia o que eu tenho para dizer. Ainda mais alguem que nem me conhece. Eu já nao me lembro mais como foi que eu comecei a escrever o meu primeiro blog. Eu ainda morava em NY, e acho que tinha mais a função de manter meus amigos informados das minhas andanças. Depois eu mudei de blog, o blog foi mudando, até que chegou nesse formato, que é meio sem formato. Um pouco de viagens, de analises, um pouco do dia a dia. E eu vou escrevendo meio sem saber onde meu texto vai parar. São reflexoes, tenho vontade de dividir algumas das experiencias que tenho. Tenho vontade de contar sobre as pessoas incriveis que eu encontro pelo caminho, e das estorias incriveis que elas me contam. Ultimamente tenho recebido muitas mensagens. E eu fico feliz. Feliz mesmo. Obrigada!

Um dos meu melhores amigos, André, que é a pessoa que mais me cobra atualizações, me pediu uma vez que eu colocasse as musicas que eu componho no Blog. Bom, eu expliquei para ele, "André eu nem componho mais". Ele achou impossivel. É que eu o conheci, quando morava em NY, estudavamos juntos, ele jornalismo e eu ... bom deixa para la... foram tantos os departamentos que eu visitei. Naquela época eu vivia grudada ao meu violão. Não ia a lugar nenhum sem ele. E tudo, tudo que me acontecia virava música. E eu não sei como foi, mas parei de compor. Nesse meu ultimo ano, de que tanto ja falei, uma das minhas buscas, é reencontrar a música dentro de mim.

E vou seguir o conselho do Andre. e vou colocar aqui a minha ultima musica. A primeira desde muito tempo que vem de dentro. Chama-se Universo Paralelo. E foi gravada aqui em casa com a maquina de fotografia, portanto a qualidade é para la de duvidosa.

sexta-feira, novembro 21, 2008

No Meio do Caminho

Faz três semanas que eu comecei a voluntariar numa escola pública aqui de Londres. Faz parte de um programa da LSE, e tirando eu e uma meia duzia de gatos pingados, eu tenho a impressão que a maioria dos voluntários esta fazendo isso só para ficar bonito no curriculum. Pelo menos foi a impressão que eu tive, mesmo porque na apresentação do programa la na LSE, a coordenadora passou 5 minutos falando na importância da experiencia para o individuo, mais 5 na diferença que faz para os alunos da escola publica, e uns 50 citando estatísticas que mostram que empregadores preferem empregados que tenham voluntariado. Enfim, o importante é que ela conseguiu muito voluntários, que tanto faz a motivação, ajudarão pela simples presença, e atenção que dispensarão com alunos.

Na minha primeira visita a escola, encontrei mais 7 estudantes da LSE. Eu estava um pouco preocupada que a escola fosse muito rígida ( eu sou muito mais da linha de escolas democráticas). La chegando meus medos se dissiparam, a escola uma bagunça, a diretora uma simpatia, e a alegria que ela estava de nos receber era evidente. Nos perguntou com qual idade queríamos trabalhar, e tirando eu, todo mundo escolheu o ultimo ano da escola primaria, os alunos de 11 anos. De fato, eles tem bastante necessidade, por causa de um exame que tem que fazer nessa fase. Eu pedi para ficar com as crianças de sete anos, porque eu acho fascinante essa fase de estar aprendendo a ler, escrever, compreender um texto. Enfim, a minha escolha foi meio intuitiva, guiada por um interesse em cognição, por querer ver esse processo de "socialização", "hopefully" ajudar nessa fase de fundamento de base, e é claro porque as crianças de 7 são umas fofuras!!!

A diretora nos levou para visitar, a escola, e nos fomos interrompendo classe, depois de classe, e quando finalmente chegamos na classe dos de 11. Ela nos apresentou. Eles estavam assistindo um discurso do Obama :), e ela parou e disse: " Guys, eu quero apresentar vocês a essas pessoas, eles são voluntários, eles são especialistas na área deles, estudam na UNIVERSIDADE, e vão vir aqui no tempo livre deles, para ensinar VOCÊS, ajudar VOCÊS !!!" Ela falou isso, super dramática, e eu fiquei meio sem saber o que achar, mas ao ver a reação daquelas crianças de 11 anos, que eu imaginei que ia ser tipicamente de pré-adolescente (ou seja: nem ligar, ou bufar, e ficar infeliz com mais uns adultos na aula deles), fiquei super emocionada. TODAS as crianças da classe, gritaram "YES!!!!! Really????? para estudar conosco??? todos eles??? aqui??YES!!! YES!!!!"

Assim, que na próxima, semana cheguei e fui recebida por uma mulher de pijama. Era um dia especial na escola, para arrecadação de dinheiro para uma caridade. Fui levada a minha classe, e obviamente me apaixonei. Não, sério, tudo que eu sei é teórico. De ler. De estudar. Tudo que eu sei é de ver crianças de amigos, crianças de escola privada, de pais informados. Agora, numa classe pobre, de criança de tudo que é lugar. Nossa, isso é outra coisa. Por que aqueles processos cognitivos que ficamos discutindo na minha aula, de domínios específicos, e não sei mais o que, de repente ganham outra dimensão. E a politica, e o processo violento que é ser educado , socializado ( e aqui eu digo em qualquer sistema, em qualquer escola), da para ver..ali na pratica. É incrível.

Eu não quero falar hoje, das coisas que eu acho erradas. Ou das praticas que eu questiono. Especialmente, porque hoje o professor da minha classe, um bonito e motivado professor que no primeiro dia mal tinha falado comigo se aproximou. Perguntou se eu estava fazendo curso para ser professora. Eu disse que não, que era voluntaria. " A voce é da Universidade então?" Eu confirmei. e ele disse meio que brincando, "você esta aqui para ver o que a gente faz de errado ? :)", "e ali meio brincando ele expôs o medo dele, da intrusa." Eu disse " Não! eu to aqui porque eu estudo cognição, e eu quero ajudar, e por que eu me interesso em educação" "Eu na verdade devia ter dito, " nao na universidade a gente não sabe nada, você que devia ir ver la as coisas que dizemos sobre aprendizado!!!!" " E ele sorriu e me disse "se você quiser fazer alguma coisa, uma atividade, ensinar alguma coisa, ou pesquisar fique a vontade! " Depois disso ele me envolveu em todas as atividades, eu ajudei crianças a ler, a escrever, a inventar frases, a fazer ginastica. E eu sai radiante de la.

Só quando eu cheguei em casa que eu pensei no significado de tudo isso. Eu nunca imaginei que um professor tao exuberante pudesse estar intimidado por causa de uma aluna. Ele estava intimidado pelo fato de eu estar na universidade, uma universidade reconhecida. E que eu sem pratica nenhuma fosse juga-lo. E ele estava certo. Pois é o que nós fazemos. Nos julgamos, teorizamos, sem ter muita noção da realidade. Mas ele veio até o meio do caminho para sondar ao que eu vinha, e eu fui até o meio do caminho para dizer que eu não sou um perigo. E nesse meio, pudemos nos unir para dar mais atenção para varias crianças.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Estar Presente



Ontem foi meu aniversario. E como eu já falei aqui antes, eu adoro, fazer aniversário. Nunca liguei para datas formaturas, casamentos, natal, pascoa etc.. Mas fazer aniversario me toca. Me toca, pois é a celebração da vida. De mais uma volta em torno do sol. E como (quase) tudo é cíclico, estou aqui de novo falando disso :) Eu gosto tanto de fazer aniversario que ate calculo que horas é o horário certo que eu nasci. (Esse ano por exemplo, levando em conta que o ano é bissexto, o momento exato do meu aniversario cairia no dia 20 as 5:35 da manha, e nao no dia 19 :) )Eu nunca vou conseguir colocar em palavras o que isso realmente significa para mim, pois os fatos banais,são os mais difíceis de se explicar. Então, todo ano, eu paro, naquele momento, e fico imaginando mais uma volta, mais uma volta desde a primeira vez que eu respirei no mundo. E para muitas tradições, “a respiração” é a própria vida. Mais uma volta ao redor do sol se completando, mais um ciclo terminando, e portanto mais um novo começo.

Para mim, depois de ter ficado doente, no ano passado isso ganhou especial significado. Pois a vida em si, se tornou mais preciosa. Então, nesse aniversario, o meu objetivo era estar presente. Presente no momento, como dizem os budistas. Eu meditei por uma hora nos estados de compaixão e alegria. Acima de tudo tentei estar presente. E estar presente, é um ato difícil, pois invariavelmente estamos no passado ou no futuro. Que é para muitas tradições a razão do nosso sofrimento. Desejo é sempre no futuro, angustia também, raiva eu acho que fica nos dois. No presente, não, é tudo perfeito.

Então, eu comecei o meu novo ciclo invocando buscando estar no momento e invocando a compaixão. E a noite, convidei alguns amigos para vir em casa. Comprei um monte de baloes coloridos, comprei flores, e a casa ficou colorida. Meus amigos foram chegando, um a um. Eles de mundo tão distintos, amigos de lugares diferentes foram se conhecendo. E tocamos violão, e cantamos. E jogamos todas os balões para o céu, brincamos, e rimos a noite toda. E eu que não tinha comprado bolo, recebi um bolo feito por um casal de amigos queridos. E quando cantamos parabéns. E olhei para todas aquelas pessoas numa quarta feira a noite na minha casa eu fiquei tao tocada. Tao bonitas. Tao únicas. Tao diversas. Matemáticos, yogis, filósofos, artistas, antropólogos, consultores. Que são é claro muito mais do que isso. Olhando, aquelas pessoas que fazem coisas tão diferentes durante o dia, que são de países distintos, que sentem em línguas diferentes. Olhando para toda aquela alegria estampada no rosto de cada um, eu me senti incrivelmente grata. Incrivelmente presente. Devastadoramente feliz.

Pois esse meu ultimo ciclo não foi fácil, foi profundo, foi de busca, foi de procura por um caminho. Eu exagerei. Eu oscilei. Eu fui to ateísmo militante, a todos os templos. Da Europa a Índia. Do Tantra ao Budismo. Dos mitos a ciência cognitiva. Eu mudei as cores das roupas. Mudei os livros que lia, buscando mudar no exterior, uma coisa que só pode acontecer dentro. E ela tem acontecido: eu tenho me re-encontrado. E essa busca, tem sido para abandonar a ilusão do racionalismo e para voltar a me apaixonar pelo mundo. Essa busca tem sido para encontrar o equilíbrio entre o meu pensamento critico ( tao valorizado e exacerbado no mundo ocidental hoje em dia), e o meu coração. E eu não estou falando aqui de emoção. Pois as emoções me parecem também mais superficiais, do que este outro plano de ser. E eu poderia passar aqui horas escrevendo, que eu sei que numa visão materialista a consciência é uma propriedade emergente do cérebro. Poderia invocar meu amigo filosofo para dizer que isso não quer dizer nada. Podíamos ter todos esse discursos que eu já tive. No entanto, o meu ponto, não é esse. Mesmo, porque de certa forma, sempre vamos estar escolhendo um paradigma, achando que ele é racional (ainda que a escolha dele seja irracional), se ele for legitimado pela visão cientifica do tempo. No plano pratico, é difícil colocar a experiencia humana em palavras, afinal , essa é uma linguagem limitada. E só o fato, de eu explicar tudo isso, mostra como eu ainda sou tão preza a esse paradigma:)

No entanto, esse meu ano de busca, é um ano para voltar a sentir o que quer dizer viver. Sentir de verdade. Como é que eu me relaciono com um monte de comportamentos que são produtos históricos, que de tao apegada a eles, eu não percebo que não são meus? Como é que eu fico presente? O que é que eu sou mesmo, o que é que eu não sou ? O que é congruente ser ou não? Perceber-se incongruente. Como é que eu abandono a busca por sentido em nome de sentir. E olhando aos meus amigos ontem, e a todos aqueles que não estavam ontem, mas estão aqui em mim, eu sei que eu sou, porque eles são. E eu sei que não faz mal eu ir do filosofo ao neurocientista, do yogi a financista, do lama ao matemático. Eu sei, porque todos nos somos plurais. Eu sei por que na nossa busca nos estamos sempre acompanhados. Eu me senti inteiramente presente e grata e feliz, porque eu me senti ligada a todos eles. Eu senti que eu sou tudo isso. Que eu estou apoiada na minha busca. E apoiando a busca deles. E no meio de tanta gratidão e alegria fica fácil estar presente.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Meu amigo Lama

Em Mcleod Ganj, na India, me pediram um favor. Trazer uma roupa de Lama para um Lama tibetano que mora em Londres. Eu trouxe. Marcamos um encontro perto da Lse, na frente da estação de Holborn e eu fui andando curiosa de como ele estaria vestido. Trocamos mensagens de texto, e eu achei engraçado ter mensagens de um Lama no meu celular. Coisa boba, mas quando se conhece pessoas assim diferentes, de quem temos expectativas não assumidas, os eventos mais banais parecem curiosos. Cheguei na estação nåo o vi. E ele me encontrou, ele de roupa de monge, vermelha e amarela ( como ele diz), para mim mais vinho e laranja. Tão bonita é a visão dessas cores intensas. Andamos até o Hot Gossip cafe, onde as pessoas o conheciam. Eu entreguei a roupa, tomamos chá, eu fiz mil perguntas e partimos. No caminho, de volta a estação, um bêbado, "homeless", meio caindo, ao ver o Lama, levantou, se esticou, se arrumou, colocou as mãos em "Namaste" e sorriu baixando a cabeça em respeito. Lama o saudou de volta, e eu fiquei comovida porque eu esperava isso do Lama, mas nao do bebado (dos preconceitos nao percebidos). Nos encontraríamos de novo.

O segundo encontro foi na minha casa. Lama Lobsang veio para jantar. Eu o apresentei ao Haiko , meu marido, e a Alondra minha flatmate e amiga de longa data. Jantamos, e perguntamos mais coisas sobre budismo. Haiko falou sobre neurociência e Lama Lobsang disse ter ficado muito feliz pois ele sempre tinha querido ter um amigo neuro-cientista. Lama Lobsang como bom monge falava metaforicamente, dando voltas, mas sempre, sempre voltava ao exato ponto da nossa pergunta, que eu precipitada que sou sempre achava pelo começo da resposta que ele não tinha entendido. Mas ainda assim, era mais fácil entender Lama Lobsang do que os monges e Lamas na Índia, talvez porque ele já estivesse acostumado com os ocidentais.

Ontem, eu acordei meio angustiada, algumas coisas não funcionando muito bem como eu queria. E recebi uma mensagem do Lama me convidando para ir almoçar na casa dele. Fui. Ele fez comida tibetana para mim, tomamos um montão de chá, e desta vez eu meio angustiada, não fiz mais perguntas tão teóricas. Eu falei da minha angustia de me sentir dividida pela beleza da filosofia budista, pelo mundo da ciência social, pela visão da minha yoga tântrica, pelos meus ideais de justiça social. Eu estava meio perdida. Falei com jeito, que era difícil para mim, de verdade entender o budismo a fundo. Eu entendia racionalmente algumas coisas. No entanto, sendo ocidental, me parecia de certa forma uma negação da nossa individualidade, das nossas emoções, do ego. Falei para ele sobre a importância do ego na evolução da especie. Enfim, fui ali falando.

Ele me ouviu, e me fez lembrar o que Dalai Lama tinha dito em McLeod. Uma das coisas que ele disse foi para as pessoas não abandonarem suas tradições, suas raizes, suas religiões. Para tomarem para si os ensinamentos do budismo que lhes fizessem sentido mas para não se tonarem budista. Eu tinha achado bonito isso la. Um pouco relacoes publicas, mas bonito. E Lama Lobsang falou disso num outro aspecto. Falou da dificuldade que é de rejeitar sua cultura seus valores, sua maneira de entender o mundo. Falou do self e das emoções, e na boca dele tudo é bem menos radical do que na minha mente.

De tudo que ele falou uma coisa me tocou mais. Eles falou dos inimigos. A importância de um inimigo. "Na verdade seu inimigo é o seu melhor amigo, pois ele lhe da a oportunidade de exercitar compaixão e paciência. Quem é seu amigo ou inimigo é impermanente. Os verdadeiros inimigos estão dentro de nos, e nos seguem não importa onde estejamos. E é preciso reconhece-los dentro de você. E a compaixão vira naturalmente."

E eu saí de lá não budista. Eu sai de lá acompanhada por ele. Eu saí de lá com ensinamentos que me fazem total sentido. E eu saí de lá pela primeira vez sem hesitar em como dizer tchau para um Lama. Eu o abracei, um verdadeiro e forte abraço. Quem sabe, reconhecendo a minha cultura, as minhas raizes. Eu me despedi de uma amigo.

sábado, outubro 25, 2008

Natalie no Afeganistao

Bom. A Natalie entrou no Afeganistao, assim como eu ja expliquei meio sem se preparar. Ja estava no Paquistao ha uns meses, e nada mais natural do que cruzar a fronteira, nao é mesmo? :) Só que dessa vez, ela nao podia ir sozinha, afinal o Taliban não permitia mulheres desaconpanhadas visitando o pais. A ideia dela entao, esperar na fronteira e entrar com algum ocidental que aparece com a mesma ideia. Eventualmente, apareceu Ian, un Ingles, uns 20 anos mais velho que ela.

Entraram, e logo no começo ja foi dificil arrumar lugar para dormir, pois ninguem queria hospedar ocidentais, por medo de ter problemas. Quando finalmente conseguiram arrumar um lugar para ficar, começaram a conversar sobre uma estoria que estava rondando o paquistao de um casal ocidental que tinha sido estuprado pelo Taliban enquanto visitavam o pais. Estavam debatendo se a estoria era verdadeira ou nao, quando de repente alguem comeca a esmurrar a porta. Os dois entram em panico, e o Ian, ja da o primeiro sinal do tipo de companhia que ele ia ser: se esconde no banheiro! Nath fica desesperada, pois como mulher nao deve abrir a porta. Continuam esmurrando a porta, ela gritando com Ian, ele dizendo que nao sai do banheiro. ela sem opção entao vai. Do lado de fora 6 soldados. Com armas, olhos bem negros, pintados embaixo... tentam forçar a porta, ela a segura com toda sua força... ela grita que é mulher, que eles nao podem entrar, que ela é turista. O " irmão" ta no banheiro, eles gritam que querem ver o passaporte. Ela fecha a porta dizendo que vai buscar. Coraçao batendo, encontra os passaportes, vai ao banheiro, mas Ian nao quer sair de la. Ela implora para ele ir entrega-los mas ele diz que nao. Entao, ela vai, e quando abre a porta, os 6 começam a gargalhar. Estavam tirando um sarro dos turistas. Ela. Bom, ela foi hang out com eles no outro lado da rua, e deixou o Ian para tras.

Segundo, Nath, o Taliban, são jovens que querem uma vida melhor, e ela não desgosta deles. São vitimas. Os mullah sim, eram aterrorizantes, mas o Taliban novinhos não. Perguntei se ela tinha ido ao famoso estadio onde as pessoas eram executadas. E ela me disse que sim. Foi levada para assistir um jogo de Buzkashi ( uma outras estoria para um outro post). Para isso fingiu ser jornalista, e teve a coragem, ou irresponsabilidade de levar uma maquina fotografica. Alguns Taliban posaram, outros tentaram chicotea-la. Ela saiu correndo.

Diante dessas estorias perguntei, mas Nath voce nao ficou com medo? Ela parou, pensou, e começou a contar. "Um dia eu tava com uns amigos Afegaos quando enfiei a mão na meu bolso e achei um pouco de maconha. Eu fiquei chocada, pois achei que ja tinha me livrado de tudo antes entrar no Afeganistao. Mas como contei aos Afegaos, eles resolveram que queriam fumar. Eu fiquei um pouco apreensiva, mas eles me garantiram que se subissimos os 1001 degraus, ficariamos num lugar onde se ve longe, e poderiamos perceber caso o Taliban se aproximasse. Subimos. E de fato de la via-se longe. Comecamos a fumar, e de repente eu entrei numa paranoia. E se isso for uma emboscada? E se formos pegos? E se eles forem pegos e contarem que fui que eu que tinha a maconha???Eu vou ser morta no Afeganistao!" Pediu para ir embora, desceram, entraram num carro e começaram a dirigir, entraram num campo de romãs e de repente o carro quebrou. Ian, como sempre foi o primeiro a se oferecer para ir procurar ajuda ( leia: sair dali). "E de repente, eu pensei 'what the fuck' eu estou com 4 Afegaos no meio de um campo de roma, sozinha no Afeganistao! " O unico momento de lucidez ( ou nao) da Nath foi quando ela tava "high" num campo de romãs no Afeganistao :) E ela teve medo, e disse aos Afegaos, que estava com medo, que nao fizessem nada com ela. Eles mandaram-na relaxar. E a levaram embora.

Para o Ian aquela noite tinha sido demais. Ele resolveu que queria ir embora. Nath, nao satisfeita, ja estava querendo visitar os territorios da Alianca do Norte. Com Ian deixando o pais, ela nao podia ficar. Pensou em colocar uma burca e ficar incognita. Seu amigo afegao pensou em deixa-la ficar em casa. Depois temeu pela vida de todos. E ela teve que partir a contragosto. 3 Dias depois os EUA atacaram o Afeganistao. Nath, estava perdida numa montanha no Paquistao, levou semanas para ficar sabendo.

terça-feira, outubro 21, 2008

Dos Viajantes do Mundo



Hoje eu quero falar da Natalie, Australiana que eu conheci em Rishikesh. Logo na primeira noite em que chegamos fomos jantar num pequeno restaurante Nepales a beira do Ganjes. O restaurante era todo feito de Bambu e havia uma mesa que contornava todas as paredes ( eu sei que nao ta muito bem explicado :). A volta dessa tabua havia almofadas. Chegamos cedo, o restaurante ainda estava vazio e pudemos escolher portanto, o lugar que se tornaria o nosso preferido: perto de uma arvore ( dentro do restaurante) e de frente ao Ganjes. Sentamo-nos e logo depois apareceu um casal de dread locks, roupas etnicas, bonitos, que nos cumprimentaram enquanto sentavam nao muito longes de nos. Nem sei como foi, mas de repente estavamos conversando, e logo em seguida mudamos-nos para bem perto deles. Natalie e Andras ( pronunciado Andrash). Ela Australiana e ele Hungaro.

Logo de cara eu fiquei fascinada por ela. Seu estilo, sua calma, seu jeito de falar. E eu de cara percebi que ela era uma pessoa com muitas estorias para contar... mas dessas pessoas que vive uma vida tão espetacular o tempo todo que já nem percebe mais o espetáculo da vida, afinal esses momentos que para nos parecem absolutamente fantasticos, sao para elas o dia-a-dia. Natalie era assim, tinha viajado o mundo por anos, e nem sabia muito bem há quantos anos viajava ou em quantos lugares tinha estado. Não é nem que ela achasse essas perguntas tolas, ela simplesmente não tinha parado para pensar. Ficamos amigas imediatamente. E eu perguntei tudo e mais um pouco nos dias que se seguiram.

Natalie viaja há uns 14 anos. Quando tinha 18 teve um namorado que tinha viajado o mundo afora, e ela adorava ouvi-lo falar dos lugares onde tinha estado. Num certo dia depois de muito ouvir, decidiu que ela ia ve-los tambem. Ia passar 3 meses viajando. E assim, nao mais que de repente os 3 meses viraram 3 anos. Como? "Eu ia indo, fazendo arte, crafts, ficando na casa das pessoas que eu conhecia pelo caminho, pegando carona...." E de fato, ela chegou a America do Sul de carona num yacht. Foi parar na Colombia, onde passou 8 meses. Arrumou um namorado, e saiu de la deportada por ter ficado alem do que era permitido no seu visto. Viajou grande parte da America do Sul. A Colombia continua sendo para ela, um dos seus lugares favoritos. E pelos colombianos ela tem um grande amor.

Depois desses 3 anos, ela voltou a Australia, e nunca mais ficou um ano inteiro em casa. Passava 6 meses em casa, 6 meses na Asia. Ja tinha estado na India dezenas de vezes, mas ela gostava mesmo era do Paquistão, onde tinha estado 6 vezes sozinha. "Como sozinha Nat? " As pessoas são maravilhosas no Paquistao, eu sempre sou acolhida nas suas casas!" "Voce nunca teve problemas ??? " Nao, eu adoro os paquistaneses".

A essa altura, eu ja meio brincando, pergunto a ela "e o Afeganistão? " Eu fui ao Afeganistão num visto do Taliban, um pouquinho antes do Afeganistao ser atacado." Ela nao podia entrar sozinha como mulher entao, ficou na fronteira esperando alguem que fosse entrar para entrar junto. E assim, ela entrou com um total desconhecido, num país onde mulher não tem la muitos direitos. " Nat, o que voce foi fazer la????" " Fui ver. Todo mundo dizia que as mulheres eram apedrejadas na rua, que isso e que aquilo e eu quis ir la ver se aquilo que aparecia na televisao era mesmo verdade". E oque ela viu? Bom isso fica para o proximo post, por que a visita dela ao Afeganistao é digna de um filme.

No entanto, sobre o que eu queria escrever nesse post, é sobre o sentimento que desperta em mim encontrar pessoas como a Natalie. Encontrar pessoas como ela me faz questionar a realidade do mundo que acreditamos existir, e do mundo que de fato existe. O perigo real, e esse que nos é imbutido. Eu mesma viajei a Bolivia, o Peru, o Marrocos sozinha contra todo tipo de conselho. Em todos os lugares eu me senti perfeitamente segura. Podemos debater é claro que o sentimento de segurança é abstrato. Mas será que estes reports também nao o são? É claro, que ela é meio maluca de se meter nesses lugares sozinha e sem muito preparo. Mas seria a vida dela de pura sorte? 14 anos de pura sorte? Ou será que no que muitos chamam de ingenuidade está a capacidade dela de realmente conhecer o outro? Não o outro que trabalha no hotel, mas o outro na sua casa, comer da sua comida, beber da sua agua. São perguntas. Eu nao tenho as respostas. O que eu sei, é que esses encontros, assim como as minhas viagens sempre me fazem perceber como o mundo que nos é pintado é muito distante do que deve ser o real.

terça-feira, outubro 14, 2008

Das Coisas Estranhas na Índia

Passamos uma semana em McLeod Ganj, vilarejo ao norte da Índia onde reside Sua Santidade Dalai Lama. Por total acaso, tivemos a sorte de chegar la para 5 dias de ensinamentos dele. Neste post no entanto, não vou escrever sobre isso, pois esse é uma tema que exige mais tempo. Quero escrever de um evento banal, e engraçado que aconteceu enquanto passeava pelos arredores de Dharamsala.

Enquanto viajei a Índia conheci muitas pessoas interessantes. Ainda quero muito falar delas. Em particular da Natalie, australiana que ha 14 anos viaja a Asia. Isso no entanto, também não e importante para esse post. O importante e que eu conheci em McLeod duas brasileiras logo no primeiro dia em que cheguei, Natasha e Julia, e que acabamos ficando amigas.

Numa certa noite, fui com Julia, ouvir uns dinamarqueses tocar violão. Fomos a um bar, e todos nos pegamos um instrumento de percussão para tocar ( alias esse é o problema dos instrumentos de percussão, qualquer pessoa acha que pode toca-los :). Quando o bar fechou, decidiu-se que iriamos a Bagshu, vilarejo vizinho, pois la os bares ficavam abertos até tarde( entenda-se alem das 10 da noite). Como Julia me garantiu que encontraríamos um Rikshaw mais tarde para voltar seguimos os músicos e fomos para o tal vilarejo vizinho. Chegamos em um bar repleto de Israelenses, alias a India é cheia deles, até fiquei na dúvida se haveria algum sobrando em Israel :) Tocavam, dançavam, cantavam, oque alias impediu os Dinamarqueses de tocarem. Sentamos-nos portanto, numa mesa e ficamos um tempo la ouvindo aquela barulheira. Imaginem : tudo que eh tipo de tambor, misturado com didjeredoo, violoes e instrumento de toda a sorte tocando juntos sem nenhum critério ou regente. Como eu tinha que acordar cedo para ir a Siribadhi, e a música era um terror, quando era mais ou menos 1 da manha resolvemos partir.

Naturalmente a essa hora não havia nenhum rikshaw, como eu já deveria ter desconfiado! Nos tão-pouco tínhamos lanterna, e o breu era total! Por sorte encontramos um grupo de australianos e resolvemos andar com eles de volta a McLeod Ganj. Eles também não tinham lanterna, mas em 7 ficamos mais tranqüilos. Começamos a andar, e de repente começamos a ouvir latidos que vinham de todos os lados. Eu que não me vacinei contra raiva comecei a ficar tensa. E de repente vários cachorros ( uns 30) começaram a aparecer de tudo que era lado, e a vir em nossa direção. Eu meio com medo que nos atacassem, não sabia nem o que fazer, nem o que pensar. Fiquei parada. Para minha surpresa, no entanto, eles não fizeram nada, ou melhor, eles nos rodearam, e começaram as nos acompanhar. No começo nos não entendemos nada. O que aqueles cachorros estavam fazendo ali? Mas eles foram andando conosco o tempo todo. Uns iam para frente, olhavam, latiam, voltavam, sem nunca nos deixar sem um circulo completo a nossa volta. Andaram conosco por uns 20 minutos. Quando estávamos finalmente chegando a McLeod pararam. Então, um único cachorro seguiu conosco mais um pouco, mas assim que os cachorros de McLeod começaram a latir, ele parou. Pronto, já tinham nos escoltado de volta. É acho que os cachorros na India também reconhecem os gringos :)

terça-feira, outubro 07, 2008

Macaco- parte 1



Eu sempre gostei de macaco. Mais precisamente dos " Great Apes" Os gorilas, chimpanzes, os bonobos, orangutangos e ate dos gibons. Tive que ler muitos livros na minhas aulas de evolução sobre primatas, e é claro inevitåvelmente sobre a Jane Goodall, Diane Fossey, Franz de Wall, dentre outros que estudam e viveram entre os macacos. Ja assisti varios filmes, sobre os apes, sobre macacos, mandris ( sera que e esse o plural de mandril?), e quase sempre se aprende que nao se deve mostrar os dentes, ou olhar muito nos olhos deles. Eu sabia tudo, mas quando estive cara a cara com um, esqueci de tudo isso.

Pegamos um onibus, de New Delhi para Haridwar. Bom, pegar um onibus ja é em si uma grande saga, pois os motoristas de rikshaw sempre te enrolam. Convencem voce a ir num escritorio para turistas do governo, que obviamente nao é governamental, mudam o preço no caminho, não te levam onde voce quer ir, e ainda inventam um milhão de estórias. Depois de pegarmos 2 Rikshaws para chegar a um lugar do lado de onde estavamos, depois de visitarmos umas agencias, explicar que nao queriamos taxi, que queriamos a rodoviaria, conseguimos depois de horas chegar finalmente a ISBT (rodoviaria) . De fato, os onibus locais eram um lixo . E por isso todos os indianos que passavam por nos queriam nos levar a uma agencia "governamental". Nao precisa mais de uma visita a uma delas, para resolver nao seguir mais ninguem.

Eventualmente achamos uma pequena agencia, e entramos. O homem nos vendeu passagem para um onibus "deluxe" para ir a Haridwar, nos garantiu que seria facilimo chegar de la a noite a rishikesh, e nos disse que o onibus partia em meia hora. Compramos a passagem, e sentamos para esperar. A tal meia hora virou uma, e depois de sermos levados ao tal onibus ( que nao tinha nada de luxuoso), tivemos que esperar mais uma hora ate o onibus lotar.

Eu era a unica mulher no onibus e eu e o haiko os unicos nao-indianos. O onibus era imundo, o banco ou nao abaixava, ou nao subia :) O motor fazia um barulho ensurdecedor, e eu mesmo de tampao de ouvido nao conseguia acreditar na barulheira. Nas estradas como eu ja disse, todos buzinam o tempo todo, se ultrapassam, vao na contramao, aparece vaca, touro, cachorro e o que mais se puder imaginar. umas 8 horas de viagem para percorer uns 300 km. Eh tudo meio assim. Dentro do onibus cada um com seu celular tocando uma musica indiana diferente, e sem fones de ouvido. Eu morrendo de vontade de fazer xixi, e naturalmente o onibus nao parando.

Parou eventualmente, depois de umas 6 horas no Cheetal Deer Park, e fomos finalmente ao banheiro e comer. Pedi uns chapatis com manteiga, e haiko pediu nan. Nada de muito elaborado para nao passar mal ja no primeiro dia :) Sentamos-nos e enquanto comiamos, um macaco enorme apareceu. Eu vi ele chegando, andando devagar, e de repente subiu na minha mesa. Olhou bem no meu olho e bem devagar puxou o meu prato. EU fiquei enfeiticada, esqueci tudo que eu devia fazer e fiquei so olhando. Ele me olhou, acho que medindo a minha reacao, minha respiracao e coracao pareciam ter parado, ai ele pegou um chapati por vez, com sua maozinha pequena, e eu so olhei. Nunca tinha estado tao perto de um macaco. Ele estava quase me tocando. Depois que ele pegou todos, e me deixou com oque estava na minha mao, partiu. Ficamos ali, os dois perplexos, totalmente sem palavras. Tive um acesso de riso. E percebi que eles nao foram na mesa de nenhum indiano so na nossa. Na India ate os macacos reconhecem os gringos!

segunda-feira, outubro 06, 2008

A India



Cheguei da Índia ontem. E nem sei por onde começar. A Índia é intensa. Ela desperta todas as suas emoções, da loucura a completa paz. Seus sentidos são estimulados o tempo todo, e quase tudo é diferente. Os cheiros, os costumes, as pessoas, a sujeira, a beleza, as cores, os bichos, e o incrível barulho. Tudo na Índia eh intenso. E os encontros, ah os encontros... eles são profundos.

Ha momentos de completo desespero, com um milhão de carros, bicicletas, ônibus, rikshaws?, caminhões todos buzinando ao mesmo tempo. Buzinas de todos os tipos, todos os tons, todas as melodias... e elas tocam, gritam, esperneiam o tempo todo... e ao poucos , com os dias passando você vai se esquecendo delas, nem se quer presta mais atenção, e elas parecem perder sua função.

Na verdade, eu não posso dizer A Índia, eh quase tao vago como dizer o Brasil. Afinal, existe mil Índias dentro da Índia. E eu só visitei duas delas. Rishikesh e Dharamsala ( Mc Leod Ganj). As duas ao norte perto do país. Rishikesh é considerada a capital da Yoga no mundo, e Dharamsala, mais precisamente McLeod Ganj, é a cidade onde o governo no exílio do Tibete está. A primeira uma cidade Hindu, enquanto a segunta é mais Budista ( graças ao tibetanso que lá estão).

Eu pretendo escrever em detalhes, contar das mil estorias que vivi na Índia. Vou escrever dos macacos, dos cachorros, do astrólogo/médium que eu conheci, da cerimonia Hindu elaboradissima feita para mim num templo a beira do Ganges, da Australiana que viaja ha 14 anos a Asia vivendo 6 meses na Austrália 6 meses fora, da emoção que foi ver SS Dalai Lama de pertinho varias vezes, de ter escutado seus ensinamentos, penado para entender de fato o budismo, das conversas com os lamas, ao encontro privado com SS Karmapa.

Enfim, a viagem foi intensa, foi cansativa, e foi maravilhosa. Conheci pessoas incríveis de quem ainda quero escrever. Se antes eu estava me sentindo meio sem assunto, agora os assuntos sao demais. Pois na India é tudo assim: tudo em abundancia.