quinta-feira, maio 21, 2009

Das Viagens



Este é o terceiro ano que trabalho part time de vigia de prova na Birkbeck College. O trabalho consiste em dar uns 5 minutos de informacao, e depois, bom oficialmente acho que era para vigiarmos, mas o que acontece mesmo eh que como a maioria dos vigias sao doutorandos e mestrandos, portanto passamos o tempo todo a ler e estudar. Nada mais conveniente.

Na minha primeira sessao de de trabalho ha tres anos atras, eu trouxe para ler o guia Lonely Planet do Marrocos. Quem trabalhou comigo foi um rapaz silencioso que nao disse nada nesse primeiro dia. Depois conversamos mais ele me contou que era da Argelia, e que fazia doutorado em economia, falou da tese essas coisas.

O ano passado quando encontrei com o Karim numa prova eu estava lendo o Lonely Planet da India. Ja me conhecendo melhor dessa vez ele nao hesitou.

- Jules, eu nao me conformo o que eh que voce quer fazer nesse lugares caoticos?

Eu fiquei meio surpresa. Ele entao continouou:

- No ano passado voce foi para o Marrocos, agora voce quer ir para a India???

- Karim, voce é Argelino como pode dizer isso?

- Ueh posso dizer com toda propriedade, de zona ja basta o meu pais. Quando eu vou
viajar eu gosto de sossego! Lugares organizados!

Eu achei aquilo muito engracado. Trabalhamos mais algumas vezes juntos. E depois disso mais um ano se passou sem eu encontrar o Karim. Ja no meu terceiro ano de trabalho de vigia na epoca de provas, eu posso dizer que conheco mais ou menos todo mundo. E os vigias que nao estao sei que terminaram suas teses, e os novos sei que estao comecando. Faz ja algumas semanas que eu comecei a trabalhar e ate ontem eu nao tinha encontrado o Karim. Na verdade eu nem tinha pensado nisso ate encontra-lo no corredor.

- Karim, voce nao esta trabalhando?
- Nao,esse ano eu to muito atarefado.

Nos despedimos e assim que eu sai andando ele me chamou:

- Jules, I am very curious, which Lonely Planet are you carrying around this time?

Eu sorri, e expliquei que nao tinha nenhum Lonely Planet comigo. Eu estava estudando durante todo o meu tempo de vigia.

- Are you serious? Voce nao esta planejando ir a nenhum lugar caotico nesse verao?
Nenhum Lonely Planet do Iraque ou do Afeganistao na sua bolsa?
- "Nao. Da uma olhada." eu disse brincando.

Ele sorriu meio espantado, e eu nao resisit e tive que confessar.

- Karim, eles estao em casa.
- Pakistan? Mongolia?
- Eu adoraria ir a esses lugares. Mas nao dessa vez. Dessa vez eu to indo passar
tres meses no sudeste Asiatico:) Voce?
- You know me, I ll stick to Europe! So which guides did you get?
- Thailand, Laos and Cambodia :)

segunda-feira, maio 18, 2009

Eternamente

"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

terça-feira, maio 12, 2009

Listas

A Sabrina foi embora de Londres na quinta-feira passada. Foi assim sem ser muito bem definido se volta para ficar, se mudar para outro lugar, que lugar seria esse, enfim, foi assim em meio a uma enorme incerteza. Foi no dia do seu aniversario que celebramos no mesmo lugar onde tomamos muitos brunches e onde passamos muitas horas conversando das coisas mais variadas. Falamos de teses, de fisica, de antropologia, de filosofia, cinema das coisas mais profundas as mais banais tambem. Nessa quinta falamos de tudo menos é claro da despedida.

Anteontem eu fui a despedida da Marisa. Marisa que tambem esta terminando doutorado, que eu conheci num outro churrasco de um outro amigo que tambem ja partiu. Eu fiquei amiga da Marisa por causa da minha enorme distracao. Todas as vezes que eu ia mandar uma mensagem para Marisa Portuguesa que estuda comigo na LSE eu mandava a mensagem para a Marisa Brasileira que eu pouco conhecia. Todas as vezes ela me avisava, e todas as vezes eu ligava de volta para pedir desculpas. O tamanho do pedido de desculpa ia aumentando, tornavam-se no comeco saudacoes, depois conversas, e enfim amizade, logo assim bem pertinho dela ir embora. Bem pouco tempo antes da Marisa se mudar para os Estados Unidos.

Quantas pessoas tem que conscientemente escolher em que continente vao morar? Muitas no mundo eu imagino, mas nao sao tantas assim. A maioria das pessoas muda so de casa, de bairro. Outras mudam de cidade, mas assim de país não são tantas. E sao ainda menos as que mudam de paises varias vezes. Essas pessoas se encontram pelo mundo. Se encontram onde é que estejam. Pois essas conhecem bem a angustia que vem com a "liberdade" de mudar de paises. Essas sabem bem o que é uma vida de olas para muitos desconhecidos e adeus para muitas pessoas queridas.

E nao há momento que sintetize isso melhor do que deletar o nome de alguem querido do seu celular. Eu evito por um longo tempo fazer isso. Deixo o nome la, como varias desculpas "caso a pessoa volte", ou simplesmente so para me sentir acompanhada. Mas aí voce passa por aquele nome a quem tanto ligava e sabe que agora ja nao pode mais disca-lo. Passa, passa, passa varias vezes até que chega o dia em que voce vai até as funções do seu celular e escolhe "apagar". E fica ali olhando a ampulhetinha virando enquanto aquela pessoa está sendo apagada da sua vida.

E é claro que nos refugiamos em outras coisas, prometemos usar o skype, o facebook, o e-mail, o orkut, o msn afinal a pessoa nao vai desaparecer "de verdade". Depois de um certo numero de numeros apagados, no entanto, sabe se bem que apesar daquele pessoa nao estar de fato sendo apagada, do seu dia-a-dia ela está.

E é por isso que olha a ampulhetinha é tão duro. Por isso ela é tão simbólica. Ela mostra o tempo passando. E as amizades quando se mora fora parecem ter data de vencimento. "Quando termina o seu doutorado?" "E o seu mestrado?" "Quando voce deixa de receber a sua "grant" ? " "Até quando é o seu posto?" "Seu visto?" É mais ou menos assim que parecem ser "medidas" as amizades.

E eu me escancaro todas as vezes. Seja numa amizade de 3 dias no deserto do Sahara, seja com um companheiro de musica num posto diplomatico, seja com uma querida amiga que talvez va fazer post doc num outro continente. Porque eu estou convencida que por mais dificil que seja deletar alguem do seu dia-a-dia, um dia-a-dia vazio é pior. Entao de todas essas MUITAS despedidas que tenho tido fica um enorme sentimento de alegria e gratidao. Nesse eterno ciclo de deletar pessoas da minha lista do celular eu tenho criado uma lista bem mais importante: a lista das pessoas que fazem parte da minha vida.

sábado, maio 09, 2009

Solidão na Paraiba



Faz muito tempo que um amigo meu me pede para colocar aqui a estoria do Edivaldo. Eu resisto pois existe alguma coisa da estoria do Edivaldo que não me deixa escreve-la. Não que ela seja uma estória secreta, na verdade eu já contei essa estoria a muitas pessoas. Pessoas de diversos países e continentes, eu a conto toda vez que toco a musica que eu escrevi para ele, e toda vez que eu conto eu volto naquele momento, naquela praia onde eu o conheci.

Durante toda minha adolescência eu viajei para Ubatuba com meus amigos de escola. Iam os meus amigos que convidavam seus amigos, que levavam seu violões, seus tambores, suas sanfonas, suas flautas, enfim levávamos tudo que pudéssemos tocar. Iam os do Jazz, os do Blues, os da MPB, os do rock ate mesmo os do forró! De comum todos nos nunca tínhamos passado dificuldade financeira séria na vida.

Toda vez que encontro com alguem que na minha casa esteve, eu ouço suas lembranças. Todos nós guardamos memórias bem musicais, bem divertidas dessas viagens. Mas tem uma memória que me marcou mais. E essa é claro, a memória do meu encontro com o Edivaldo.

Eu estava na praia tocando violão, rodeada pelos meus amigos. Era um dia lindo, eu estava tocando e cantando quando de repente me dei conta que minha amiga Carol estava falando com um vendedor de redes. Eu estava meio longe, mas ouvi ela dizer meio que brincando:

-" Mas voce já tentou me vender essa rede todos os dias. No comeco da praia, no meio da praia.."

antes que ela terminasse, ele a interrompeu dizendo:

_ "Se lhe encontrar no final da praia tento de novo e pode ser que você comrpre"

Eu achei aquilo muito engraçado e comecei a inventar na hora uma musica falando da tal rede. Ele me olhou chocado e disse:

-"Oxe, que essa mulher é mae de santo!!!!"
- Que isso, nao sou nao.
- Claro que é eu conheço muito bem, só de olhar, e você é!

Quem era eu para discordar de um expert :)

- "Qual seu nome?", perguntei
- "É Edivaldo"

Disse num sotaque forte e melódico do nordeste.

- De onde voce é Edivaldo?
- De Catolé, la na Paraiba!
- Catole do Rocha, terra do Chico Cesar!??!!?

Ele ficou super impressionado de eu conhecer Catolé, e ainda mais de eu conhecer o Chico César. Comecei a fazer mil perguntas sobre como ele tinha vindo parar em são paulo, e aos poucos ele foi me explicando toda a estoria da vida dele. A cada palavra nos íamos ficando mais quietos. Ele foi explicando da vida em Catole, da dificuldade, da chance de vir ganhar dinheiro em sao paulo, das redes que ele pegou para vender, de quantas ele precisava vender por semana, da divida que ia crescendo pois ele nao conseguia vende-las, do dono das redes que cobrava aluguel e a comida de onde ele estava. Enfim, a cada palavra que ele juntava ia se configurando ainda mais um caso de trabalho "semi" escravo.

- Edivaldo, faz quanto tempo que voce esta aqui?
- Oxe ja tem mais de dois anos.
- E voce tem vontade de ir embora?
- Uma vontade doida. Eu achava que a vida era ruim, mas eu sinto uma falta da Paraiba, uma saudade da minha mulher.
- Nossa, faz dois anos que voce nao a ve?
- Faz. E voce quer saber o pior de tudo???
- O que?
- Ela ta grávida!!!!!

Eu nunca vou me esquecer desse momento. Todos nos, todos nos que estávamos prestando a maior atenção paramos ali. Meio que sem saber o que dizer. Suspensos. Eu fiquei olhando para o Edivaldo, e depois de hesitar um pouco disse

- Edivaldo, mas voce entende que se voce nao ve a sua mulher ha dois anos, e ela ta gravida, esse filho nao é seu??
Ele me olhou na maior naturalidade e disse:
- Oxe, e pai nao é o que cria???

Um pouco chocada e arrebatada eu perguntei

- E voce vai criar essa crianca?
- Oxe minha filha, voce nao sabe como é duro ficar sozinho no meio do nada.

De fato nenhum de nos entendia. Nos todos fomos avassalados por essas palavras. Nos todos tao cheios de convcicoes fomos arrebatados pela singeleza das palavras do Edivaldo. Eu lembro do silencio. Dentro de mim, até o mar parecia ter parado de fazer barulho. Como se tudo ali tivesse ficado suspenso. E eu fiz a única coisa que eu sabia fazer: eu toquei. Toquei uma musica do Chico Cesar, e enquanto eu tocava eu vi o Edivaldo viajar para Catole, vi seus olhos distantes visitando seus lugares queridos. Vi seus olhos se encherem de lágrimas, senti as lagrimas no meu. Assisti Edivaldo engolir as lágrimas com os olhos.

_ Edivaldo, chora.
_ Que isso, é pecado chorar sem razão.
_ Mas uma lágrima seca dói mais...
_ É pecado chorar sem razao, ele repetiu.

E assim eu tive que engolir as minhas também.

- Sabe o que voce faz. Procura todos os dias uma coisa bonita. Se voce ficar mais 10 dias voce tera 10 coisas para contar. Se ficar 20 vai ter mais :)
- Que bonito isso. Voce pode escrever essa ideia num papel?

Sem papel eu sugeri que ele guardasse na cabeça, que não precisava ser escrito.

-"É verdade, eu num sei nem ler." E deu uma gargalhada.

Eu é claro comprei a rede. A que ele escolheu para mim, a mais bonita segundo ele, a mais colorida.

-" Eu nem precisei lhe encontrar no final da praia :)" disse sorrindo.

Antes de ir embora mandou os meninos tomarem conta de mim, " se nao eu venho com a peixeira! vocês tem que tratar essa menina muito bem!" E assim ele partiu. Eu sem dizer nada levantei, andei em direção ao mar, entrei no mar sem chorar em respeito a ele. Eu que choro até em propaganda engoli toda a emoção que eu senti ali no mar, ali naquele total silencio. Eu transbordei mais tarde na musica que eu fiz para ele: "Solidao na Paraiba".

Faz mais de 10 anos que isso aconteceu. E todas as vezes que eu vou para Ubatuba eu olho os vendedores de rede pensando no Edivaldo. Eu olho na ansia de NAO encontra-lo. Eu gosto de imaginar que ele voltou para ser pai, eu gosto de imaginar que ele voltou sem ter muitas coisas bonitas para contar para a mulher. Então eu o procuro mas confesso que não muito atentamente, eu olho assim de longe e espero nunca ter que contar a ele que hoje eu entendo bem melhor a solidão.

quinta-feira, maio 07, 2009

Lonely Planet



Toda vez que eu resolvo ir para um lugar novo eu compro o Lonely Planet. Eu sei, eu sei que é onde estao os mesmos turistas, eu sei que é pouco original, sei que tem gente que prefere o Rough Guide, enfim, o fato é que eu me acostumei com o Lonely Planet, e quando pego o rough guide detesto. "Man is a creature of habit' como diria o Mustapha meu ex professor e amigo. Quase tudo que eu preciso saber eu procuro no Thorn Tree, forum do Lonely Planet online onde viajantes deixam suas perguntas e respostas. Sempre que eu me deparo com o tanto de informacao que pessoas comuns colocam la, respostas detalhadas para totais desconhecidos, conselhos, dicas, eu me surpreendo. Sempre fico alegre pois para mim o Thorn Tree sempre parece como um pequeno exemplo do altruísmo das pessoas..

Outra coisa que sempre acontece é que assim que eu escolho o destino, assim que eu olho para o mapa uma coisa estranha acontece. Nao que eu planeje muito minhas viagens antes de ir, eu olho mais como quem quer começar a se familiarizar, assim como alguem que se diz " la vou eu para um lugar bem diferente com todas essas possibilidades". Toda vez me da um medinho, e toda vez que eu abro um novo guia é como se todas as minhas outras viagens acordassem dentro de mim. Aparecem lugares, pessoas, momentos, coisas que eu as vezes não visitei ha tanto tempo. E vem uma cascatas de momentos, de cheiros, e os cheiros são as memorias mais fortes, pois as vezes eu nem sei de onde eles vêm. E eles sao sentidos dentro de mim, distantes e eu me sinto meio que viajando no tempo.

Hoje eu fui transportada para um mercado no Peru, talvez tenha sido porque meu colega e amigo peruano Gabriel tenha vindo jantar aqui, talvez tenha sido porque eu abri a gaveta da cozinha e vi o lindissimo "jogo americano" que eu comprei no Peru. Sei la, eu sei que de repente veio o mercado, suas cores fortes, e assim que vieram as cores vieram os cheiros e as pessoas. Lembrei-me de como eu que nunca compro nada, fiquei encantada naquele mercado, com tudo feito a mao, eu que nunca compro nada comprei o jogo americano, e depois pinturas, e uma escultura, e logo na horinha de ir embora um tapete! Eu que nao tinha nem casa, nem chao, comprei um tapete. Nao, na verdade eu nao comprei o tapete, eu comprei as cores, eu comprei o mercado, era isso que eu queria: aquele momento.

E quando cheguei de volta ao ônibus com todas as minhas compras tive um acesso de riso. Eu viajando o Peru e a Bolivia sozinha, de mochila, ia ter agora um TAPETE(!) para carregar. Que ideia. Paramos para almocar, e para minha total surpresa eu tinha gastado TODO o meu dinheiro. O problema nao era nem ficar sem comer, mas ficar sem beber naquele calorao. Uma senhora do meu grupo se aproximou e me perguntou se eu nao ia almoçar. Eu expliquei a estoria e ela disse" deixe de bobagem eu te pago o almoco!" Era uma senhora Peruana de uns cinquenta e poucos anos viajando com a sobrinha. Eu fiquei sem graça, ela insistiu, e eu concordei com a condição que me deixasse paga-la assim que chegássemos de volta a Cuzco. Almoçamos juntas, visitamos todas as ruinas do vale sagrado juntas e quando eu voltei para Cuzco por acaso nos perdemos. Eu sabia que ela iria estar na rodoviária naquela noite, então fui la desesperada para encontra-la. Encontrei as, devolvi o dinheiro e agradeci. Ela me contou que iria para Aguas Calientes no dia seguinte de manha, e eu contei a ela que eu pegaria o trem da tarde. Nos veríamos la.

Peguei o trem na tarde seguinte, e a viagem inteira eu senti uma sensação estranha na minha barriga. Eu nao estava entendo muito bem oque estava me acontecendo, eu nunca tinha sentido nada daquele tipo. Acabei dormindo, ou desmaiando nao sei. Só sei que cheguei em Aguas Calientes me sentido mal, muito mal. Sai do trem, o pessoal da minha guesthouse devia estar me esperando. Estilo placa na mao e letras garrafais com meu nome, tudo isso (des)organizado pela senhora do meu hotel em Cuzco. Eu estava me sentido péssima, nao conseguia nem entender direito o que estava acontecendo. Eu nao sabia o nome do hotel, só tinha o contato da senhora de Cuzco que tinha me organizado a viagem. Eu estava realmente abalada. Nao estava nem nervosa pois estava me sentindo tao mal que estava até calma. Estilo po da rabiola, fundo do poço :)

Sai do trem, olhei todas as placas e nao vi nenhuma com meu nome. Eu tava tao fraca que nao conseguia nem ler direito. Achei que fosse desmaiar. O que podia ser aquilo??? Tambem nao pensei muito nisso, pois para pensar é preciso energia. Eu me lembro de ficar ali parada, prostrada quando de repente no meio das pessoas veio vindo uma mulher de vermelho, sorrindo, demorou um segundo para eu reconhece-la. Dona Carmen assim apareceu como um verdadeiro anjo, ela e a Sandra. Queriam ter certeza que eu chegaria bem. Percebendo minha palidez ela me fez sentar, perguntou onde eu estava hospedada, e em poucos minutos ligou para a mulher de Cuzco, encontrou os atendentes do meu hotel, brigou com elas por nao estarem la, e ainda me comprou uma coca. Tudo isso enquanto eu suava frio, enquanto eu fazia toda forca do mundo para explicar a ela o quao grata e feliz eu estava em ve-la.

Como era de se esperar nessas situações meu hotel era o ultimo de uma ladeira imensa. A mulher do hotel que ate entao nao tinha aparecido, agora nao parava de falar. Cada palavra dela me deixava mais enjoada. Eu nao tinha a menor ideia do que ela estava dizendo, eu tava meio que num mundo paralelo torcendo para o hotel aparecer, e aquela mulher ficar quieta. Ela falava de um guia que ia me mostrar e explicar tudo sobre as ruinas, um guia que eu ja tinha pago, de um papel, de um milhao de coisas. Queria que eu fosse encontrar o tal guia naquele segundo. Eu mal tinha forcas para subir a ladeira, imagina ir discutir uma expedição arqueológica!. Eventualmente chegamos no hotel. A mulher falava, falava, falava, e assim que eu parei de andar sobrou energia para eu pedir a ela " por favor eu preciso ir deitar eu estou me sentindo muito mal." Ela insistia que eu precisava organizar com o guia a minha visita. Nesse momento Dona Carmen mais uma vez me salvou, disse a moca que me deixasse em paz, que me levasse ate o quarto antes que eu desmaiasse no saguão. A moca concordou, resolveríamos depois " mas e o guia", " eu nao preciso do guia" "mas voce ja pagou" "otimo, entao deixa eu ir pro quarto". Entrei no quarto, Dona Carmen e Sandra se ofereceram para procurar um medico. Eu agradeci mas disse que achava que eu so precisava descansar. Despediram-se, mandaram-me descansar, disseram-me que voltariam depois para ver se eu estava melhor.

Eu nunca fiquei tao feliz de ver uma cama. Deitei com uma dor na minha barriga inexplicável. Eu suava frio, sentia calafrios, me contorcia. De repente eu pensei, talvez eu precise ir ao banheiro. Nao eu nao queria, eu sou muito regulada sempre sei quando preciso ir ao banheiro, nao era o caso, e alem do mais nao queria me levantar da cama. Eventualmente acabei resolvendo que talvez ajudasse. Assim que sentei na privada, eu tive uma baita diarreia. Foi uma coisa realmente incrível, porque eu nao tinha percebido que eu precisava ir ao banheiro. Eu nao tinha percebido que eu estava completamente intoxicada por alguma coisa que meu corpo precisava expelir desesperadamente. O que mais me surpreendeu foi eu nao perceber isso. A melhora foi quase que imediata.

O tapete por outro lado acabou nunca estando em nenhum chao de nenhuma casa onde eu morei. Ele foi bem mais util. Ele me cobriu quando fez -10 graus na reserva Eduardo Avaroa perto do salar do Uyuni, foi meu travesseiro quando cruzei a Bolivia de onibus serviu para embrulhar a escultura. E foi por causa do tapete que eu acabei conhecendo a Dona Carmen. É engraçado o cerebro, tudo isso, toda essa estoria e mais todas as outras estorias nao articuladas, nao verbalizadas estao no simples ato de abrir o Lonely Planet.

sexta-feira, maio 01, 2009

Os Vermes

Quem me conhece sabe que eu fui de ateia militante a interessada em questoes metafisicas e ontologicas. Buscando pelo caminho a meditacao, yoga, budismo, filosofia e até mesmo perguntas ou respostas nos meus amigos fisicos. Engracado, que hoje eu raramente entro em qualquer discussao desse tipo. Estou super acostumada com os argumentos do Dawkins ( afinal eu era uma "fiel leitora"), o Dennet, os neurocientistas, enfim, todas as visoes materialistas da consciencia. Com quase tudo isso eu sei lidar. Com o povo do outro lado tambem, eu escuto quase tudo, e enfim, para ser sincera ja nem tenho muita necessidade de estar certa :) Como colocaria um amigo meu "The TRUTH is overated :)

Nao é que hoje no entanto, eu estava voluntariando quando uma coisa engracada aconteceu. Estava eu la brincando com o Severum, quando de repente um grupo de alunos da minha classe comecou a ter uma disussao. Uma discussao daquele tipo de discussao de crianca, cada um repetindo a mesma coisa varias vezes. Eu nao estava escutando do que se tratava, na verdade so me dei conta do evento, quando ouvi meu nome.

Alguem la tinha decidido " Let s go ask Juliet! She will know!!!!" Nisso concordaram e veio um grupo de umas 6 criancas correndo em minha direção. No comeco eu nem conseguia entender o que estava acontecendo, nem o que eles estavam me perguntando. "Guys, I cant understand anything." De repente a Nadja, uma pequena menininha muculmana da Somalia me pergunta: " Julieta nao é verdade que vermes NAO vao para o céu.?"

Parecia cena de filme, eu fiquei muda, eles todos em silencio e esperando a minha resposta, a resposta "Correta". Que foi é claro " Nao sei, o que voces acham?". Bom, uns comecaram a explicar que sim é logico porque um verme é um animal e todos os animais vao para o ceu, outros diziam que nao que nao tem animal no ceu, um outro menininho disse que ceu nem existia!. E eu repeti que nao sabia. Foi tao engracado estar ali rodeada de criancas de crenças completamente distintas, e escuta-las ponderando sobre a questao.

Quando eu cheguei em casa contei ao Haiko sobre a estoria. E ele me perguntou imediatamente: "e voce o que acha?" Ele que nem acredita em ceu, com sua visao "neuro-cientifica" disse que ainda que existisse um ceu, ele achava que os vermes nao qualificavam pois nem tem "consciencia". Eu resolvi entao usar o perspectivismo do Viveiro de Castro, assim como exercicio mental. Alondra, minha roomate, foi categorica "Claro que sim. Claro que eles vao.!!". Eu expliquei a ela que essa visao nao condizia com o catolicismo dela. "Claro que vao, é vida e é isso o que importa!". Paralelamente na minha mente eu podia ate exergar meu amigo Emanuel dizendo" Is that a serious question???? É obvio que nao ! E voce deiva ter dito a essas criancas, e nao ficar colaborando com crencas sem sentido!".

Engraçado, nessas questoes metafisicas, e ontologicas, nos podemos ate usar palavras mais elaboradas, podemos ate desconsiderar linhas de pensamentos, "customize" as nossas ideologias, podemos buscar fatos e mais mitos. No entanto, observando o nosso comportamento eu senti que ele nao se diferenciara muito das minhas criancas de 6 anos. Alguns tem ideias fortes, outros tem perguntas, alguns nao sem importam, muitos buscam alguem que seja mais validado pela sociedade para ter a respota "correta", mas "ultimately" nos sabemos muito pouco. E afinal os vermes vao para o ceu???

quinta-feira, abril 30, 2009

Na Teoria

Semana passada fui a Oxford visitar dois amigos meus. Andrew, que estudou comigo em Amsterdam, e Francois que eu conheci aqui na Inglaterra. Engraçado, eu sempre soube que o Andrew tinha estudado estudos religiosos mas so na semana passada que eu fiquei sabendo o nome exato do mestrado dele. O Andrew fez um mestrado sobre Misticismo e Esoterismo Ocidental. E eu só descobri isso porque tinha resolvido apresentar o Francois que esta fazendo post doc em matematica e fisica (ainda nao conhece ninguem) ao Andrew.

Foi divertidissimo. Fomos juntos jantar no restaurante do Jamie Oliver, e o François que se interessa por questoes metafisicas ficou impressionadissimo de um mestrado desses existir. Todos nos comecamos a fazer mil perguntas. Alguns com perguntas mais pragmaticas do tipo "o que fazer com isso depois?" e outros com perguntas mais teoricas. Relembramos do primeiro dia em que conheci o Andrew na Universidade de Amsterdam, dele me contar que estudava "religious studies", e de eu perguntar incredula " But are you a believer?. No nosso primeiro dialogo Andrew me disse ser um "believer trapped in the de body of an atheist" e eu disse a ele que eu era "an atheist trapped in the body of a believer". É claro ficamos amigos. Depois disso tanta coisa se passou. Lembramos nos de como ele tinha me levado a uma yoga para la de estranha. E de como ele ultra ingles, filho de lorde, tinha acabado sendo meu "dupla" num exercicio de massagear a bunda do parceiro com o pé. Tudo isso narrado por uma romena que estava substituindo a professora original de yoga que tinha, prestem atencao ao detalhe: tido um "nervous breakdown".

De la para ca o Andrew ja me levou a outra yoga, a casa dos lordes, ao templo hindu, a lugares incriveis em Amsterdam. Estivemos juntos em acampamentos, em restaurantes, enfim, o que comecou com um super desconcertante encontro virou uma grande amizade. Por isso eu queria apresenta-lo ao Francois que chegou ha pouco tempo em Oxford e quase nao conhece ninguem. E foi tao engracado coloca-los os dois ali frente a frente, tao diferentes mas com tantas das mesmas buscas e perguntas. Estranho, mas só até eu me lembrar de uma estoria muito engraçada que o Francois tinha me contado. Ele contou de quando ele foi explicar para uma amiga da mae dele o que ele estudava. Contou que estudava alguma coisa do tipo "analise das equacoes matematicas na fisica teorica". Segundo ele, a mulher ficou muda, mas depois de um certo desconcerto ela perguntou "mas afinal o que eh essa fisica teorica?? por acaso é aquela fisica que nao funciona?" Ele falou que ate perdeu o folego de tanto rir. Eu tambem, mas relembrando o encontro dos meus amigos tao improvaveis, eu pensei nessa mulher, de fato na teoria as coisas nem sempre vao tao bem é melhor ver na pratica.

sexta-feira, abril 10, 2009

Meu Irmao

As vezes quando o tempo passa rapido demais, e eu vou fazendo coisa atras de coisa me da uma sensação de não estar tendo tempo de interiorizar quase nada. Ou melhor, parece me que quando eu nao tenho tempo ou vontade de pensar sobre os eventos analitcamente é como se elas nem tivessem acontecido. Aconteceram, eles me mudaram e só quando eu entro no meu blog buscando um tema para escrever é que eu eventualmente percebo o que é que eu quero colocar para fora para poder de uma certa forma revisitar. Assim, como quase tudo na minha vida, pouco planejado, e parecendo mais uma consequencia inevitável, de alguma coisa que antes eu também não planejei:)

Entao, hoje eu queria escrever sobre minha viagem a Paris na semana passada, que na verdade, nao foi bem visitar Paris. Nao que eu nao ache Paris bonita e etc e tal, mas dessa vez eu nem estava com muita vontade de sair de Londres. Essa vez eu fui para acompanhar meu irmão que depois de terminar com a namorada veio me visitar. Fomos para Paris assim, como poderiamos ter ido para qualquer outro lugar. Ele para fugir de dentro da cabeça, eu para tentar tira-lo de la. Bem tolo é claro, como se nao fossemos juntos para todos os lugares onde vamos :) Mas eu resolvi leva-lo a Paris. La tenho amigos. Dentre eles um muito especial de quem tanto ja falei: Marcelo Fortaleza Flores.

Fui tambem para assistir seu filme Claude Lévi-Strauss: Auprès de l'Amazonie do qual tanto ja tinha ouvido falar. Assisti-lo foi sem duvida um momento muito tocante. Foi reconhecer ali tantas das coisas que eu ja tinha ouvido o Marcelo falar, ver as imagens das cancoes que eu compus para ele.

Entao fizemos coisas turisticas é claro. O dia estava lindo. E meu irmao e eu caminhamos, e caminhamos, e falamos obsessivamente, e calamos com a mesma obsessao. Numa certa hora na margem do Sena, nos demos conta que talvez nunca tivessemos passado tanto tempo juntos. Faz pelo menos uns oito anos que nem se quer moramos no mesmo continente. Primeiro eu na Australia ele no Brasil, depois ele na Nova Zelandia eu no Brasil, entao eu em NY, quando eu fui para Amsterdam ele chegou nos EUA para fazer universidade, depois eu vim para Inglaterra e ele voltou para o Brasil. Lembramos das tragicas vaigens em familia, onde todos nos brigavamos, onde todo mundo tinha um ideal diferente construido do que devia ser uma viagem em familia. Cada um de nos sempre frustrado. Rimos de tudo isso ali andando na beira do Sena.

Conheci alguns dos seus amigos, ele conheceu os meus. Tao diferentes, de mundos tao distintos somos. Eu que nao como carne, e ele que nao come vegetal. Eu que gosto de arte e ele do mercado financeiro. Ouvimos juntos o marcelo contar sobre os Nambiquara. Tribo indigena onde os nomes das pessoas sao secretos. Ouvimos ele falar da importancia do segredo de proteger na verdade o que ha de mais importante. Ouvimos ele contar da mulher que dizia que existimos no olho do outro, quando o outro fecha o olho, voce nao esta mais la. Foram tantas as conversas, foram tantas as estorias.

Meu irmao foi embora e de todos esses anos essa é a vez que eu sinto mais falta dele. Eu acho que na verdade eu nem o conhecia direito. Nunca tinha dado tempo. Durante todos os anos que moramos juntos estavamos ocupados demais com as nossas diferencas. De todos os anos que moramos separados sobrava tempo demais para pensar no que era que nos fazia semelhantes, com tempo demais tudo é adiado. Dessa vez nao, ali na beira do Sena, aqui na beira da minha cama, nos metros, nos onibus, nos avioes, nos encontramos. As vezes em encruzilhadas, as vezes nos acostamentos, as vezes no meio do caminho. E tanto faz a circunstancia o importante é que nos encontramos.

quarta-feira, março 25, 2009

O telefone

Eu estava ontem no metro quando o homem ao me lado ao sair derrubou o celular. Engraçado da aquela sensação de "ai meu deus", querer chamar o cara e ele ja estar longe. De perceber, que na verdade, eu nem me lembrava quem é que estava ali ao meu lado. Nesses muitos trens que dividimos sem nem sorrir para o vizinho. Nessas cidades onde somos todos estranhos e encontrar um conhecido é um evento festivo.

Bom ele saiu, não vi quem ele era, mas o telefone dele estava ali do meu lado. Quase no meu colo. Eu peguei e decidi que iria descobrir de quem era o telefone e devolver para a tal pessoa. Nada mais chato que perder seu telefone, hoje em dia não só pelo telefone, não só pelos contatos, mas por todo resto que tem ali dentro. Quase que uma mini-biografia da pessoa. Suas fotos, suas musicas, o que voce escreveu, o que te escreveram, enfim um pequeno aparelho que deixa de ser só uma maquina para virar algo pessoal.

Parei na proxima estação. Obviamente eu nao podia ligar para o cara. Entao, eu tive que olhar o telefone dele. Ver para quem ele mais tinha ligado, e para quem tinha mandado mais mensagens. O telefone era cheio de fotos de mulheres semi-nuas. Nao, eu nao fiquei vasculhando o telefone do homem. As fotos eram na tela principal. quando abria, quando apertava, quando ligava.

Eventualmente eu achei uma pessoa chamada Mami com quem ele estava indo se encontrar logo em seguida. Era para essa pessoa que eu iria ligar. Liguei, e tentei explicar "Olha, eu estava sentada no metro, quando o moço ao meu lado derrubou o telefone. Eu estou em Bond street, e vou ficar com o telefone se voce quiser vir busca-lo." Bom, levou uns segundos para menina entender do que se tratava. Quem é que estava ligando do telefone do amigo dela. Quando ela entendeu, ficou radiante, me agradeceu mil vezes e disse que chegaria ali em 20 minutos e me perguntou se eu podia esperar. Eu disse que podia.

Entrei num cafe, e enquanto tomava meu cha, contei a estoria para o atendente brasileiro. Ele se impressionou com a minha gentileza. A maioria das pessoas, segundo ele, ficaria com o telefone. Eu prefiro acreditar que não. Imagino que muita gente nao saisse do seu caminho, mas propositalmente roubar o telefone de uma outra pessoa, ainda acho que seria uma minoria. Esperei tomando meu cha e inventando mil estorias para a tal Mami, para o tal desconhecido. Imaginando quem eles seriam. Que tipo de relação teriam, enfim um filme inteiro :)

De repente, recebo, no telefone dele, uma mesagem dela. Tem alguma coisa estranha de ficar lendo mensagens no telefone de outra pessoa. Eu leio. Ela explica que esta chegando, pede mil desculpas. Eu tenho que escrever desse telefone uma mensagem. Nao sei opera-lo, fico entre envergonhada e me divertindo com as fotos semi pornograficas. Torco para nao ser a Mami a mulher que eu vejo enquanto eu teclo.

Alguns minutos mais passam, e ela me liga. Corro ate a esquina da Oxford Street com a James Street. Explico que eu estou ali de preto e cachecol verde. Que estou ali na frente do Body Shop. O homem ao meu lado, que entrega jornais meio olha divertido, talvez imaginando que eu estou ali esperando uma bind date. Eu espero ansiosa. Nem sei porque.

E ela chega. Linda, preta, bem arrumada, sorrindo, se desculpando. Eu entrego o telefone, ao lado dela percebo um homem indiano. Ela me pergunta como ele tinha perdido o telefone. Eu explico, assim que saiu do metro, eu acho, nao sei direito. Foi rapido. Ele abre a carteira e tira 20 libras. Eu fico meio chocada. Explico que nao, que eu nao vou aceitar dinheiro para devolver um telefone que é dele. Eles ficam desconcertados. Insitem. Eu insisto que não. Ele me pede para comprar algo para mim entao na Bodyshop. Eu digo que nao, eu entendo so agora que o telefone era dele. Ele me explica que teria sido muito mais caro para ele se ele tivesse perdido o telefone. Eu insisto que nao vou aceitar dinheiro so por ajuda-lo. Ele insiste que nao pode ir embora assim sem me dar nada. Eu peço a ele que faça o mesmo por outra pessoa qualquer que precise. Eles ainda desconcertados, me agradecem, e quando eu estou virando para ir embora, ele me pergunta: "Me diz pelo menos o seu nome?". "Julieta".

E assim nos separamos e eu fiquei pensando na ironia. Ele que sentou ao meu lado, sabe se la por quantos minutos. Ele que largou o telefone praticamente no meu colo. Eu que pude ver um pouco dele pelo que eu olhei do telefone para achar a tal Mami. Eu que esperei para encontra-los ali numa esquina de Londres. Precisei nao aceitar dinheiro, para que ele se interessasse um pouquinho no humano por tras da ação. Eu precisei nao aceitar o dinheiro para tornar uma ação totalmente comum e banal em uma simbolica. Será que foi meu egocentrismo de querer ser correta? Será que foi o sentimento dele de querer retribuir, ou de nao ficar devendo e que eu impedi? Sera que era a maneira, a unica maneira que ele podia expressar gratidao? Sera que era o meu jeito de me sentir bem comigo mesmo? Deve ter de tudo isso um pouco. Eu gosto de pensar, no entanto, que ali naquela esquina, nessa grande cidade ainda é possivel com completos estranhos momentos singelos e humanos.

quarta-feira, março 18, 2009

Dos Pintores

Eu não sei o que está acontecendo mas eu fui de não conhecer nenhum pintor para de repente estar rodeada por eles. Tudo começou com a Mounia, minha amiga marroquina de quem eu tanto ja falei, me mandando um e-mail dizendo que tinha virado pintora. Eu que não sabia que ela pintava, fiquei morrendo de medo, porque nao tem nada pior que ver um quadro horroroso e ter que dar sua opinião. Eu entrei no site dela, meio relutante, mas para minha surpresa os quadros eram incriveis. Ela comecou a pintar quando foi morar no Canada e ficou deprimida. De la seus quadros foram parar em NY, Paris, Londres, Marrocos, Oriente Medio, e quando eu cheguei no Marrocos no ano retrasado nao so a Mounia tinha sido escolhida para fazer o poster do festival de filme Africano mas tambem tinha sido convidada para expor no Guggenheim de NY.

Um pouco mais para frente eu conheci a Maryam. De quem eu tambem ja falei, pintora Iraniana talentosissima, mas num tipo de arte diferente do da Mounia. Pinta quadros que sao fotografias, e assim, por causa disso nos ultimos anos tem sempre tido seus quadros expostos na National Portrait Gallery. Eu fiquei encantada ao conhecer a Maryam, não porque ela fosse pintora, e na verdade foi muito antes de ver os quadros dela. Eu a conheci no lugar mais improvavel, um bar bem trash no centro de Londres, um lugar que nem eu e nem ela tinhamos estado antes, e nem ela e nem eu estivemos depois. Ficamos amigas assim meio que imediatamente.

Depois eu fui passar um mes na Romenia no famoso acampamento de Yoga e quando la cheguei no aeroporto de Bucareste pela segunda vez no mesmo mes conheci um pintor. Eu estava negociando com os taxistas ( ja que eu ja sabia os precos), quando fui puxada pelo italiano que tinha sentado ao meu lado no voo, e levada para conhecer o amigo dele de infancia, um pintor Romeno. Disseram-me que era bobagem eu gastar dinheiro que me levariam com prazer até a estação de trem. Usando um metodo cientifico para avaliar a proposta :) eu fui. O pintor era uma figura. Um bon vivant, daqueles que vivem meio na cabeça. Queria me pintar a qualquer custo. E eu que tinha que continuar minha viagem para a costa do mar Negro, expliquei que nao podia ser pintada. Eles entao me levaram para almocar, ele me rabiscou num guardanapo, e meio a contragosto acabou por me deixar na estacao de trem.

Ai, foi o pintor Russo, para quem fui apresentada virtualmente pelo meu amigo yogi polones. E porque nao? Porque nao ser pintada? Era um part time job e como a Maryam e o Romeno ja tinham pedido para me pintar antes, isso acordou em mim uma certa curiosidade. Como seria ser pintada? Então num dia tenebroso, frio e chuvoso, eu fui parar no estudio do tal pintor Russo. Foi uma tarde divertidissima, conversamos, toquei violao, tomei cha, e fui pintada. Uma experiencia dessas incriveis que te faz mais consciente de todos os musculos, do olhar do outro, da sua respiracao, da sua feminilidade. Da relacao arquetipa, da dinamica de poder, da construcao da imagem. Um sentimento meio estranho de ter o que o outro julga a sua essencia ser ali grafado num papel. E com isso eu podia de certa forma me identificar, pois eu ja grafei muitas pessoas na minha musica.

Ai na Turquia conheci um pintor Curdo que nao falava nenhuma palavra de ingles. Toda a nossa interacao portanto em silencio. Ele timido ate na lingua dele. Observava-me introspecto, e de repente do outro lado da mesa, uma mesa com poquiissimas pessoas, estendeu a mao e tocou o meu rosto. Nao assim do nada, na verdade eu tinha olhado para ele achando que ele fosse dizer alguma coisa. E o instante para eu me lembrar que ele nao falava nenhuma lingua que eu falava foi longo demais para eu simplesmente virar como se nada tivesse acontecido. Entao eu parei, porque ele ficou me olhando. Fiquei um pouco desconcertada, numa conversa normal eu teria comentado sobre o tempo, sobre a comida, mas ali sem ter lingua eu fiquei em silencio. Olhando e entrando num certo acordo silencioso, de compreensao que nao podiamos falar. E nesse momento, quando eu estava quase confortavel com o silencio ele esticou o braco e tocou o meu rosto. Eu fiquei completamente derrubada, desconcertada. E ele olhava com os dedos o meu rosto com uma delicadeza indescritivel. O olhar de um artista. E eu a pessoa mais verbal do mundo sem poder dizer nada... Ele olhou por um longo tempo, e eu olhei o artista que me olhava, e assim como ele tocou meu rosto, assim com a mesma delicadeza ele o largou. E eu sem ter acesso a lingua dele...nunca vou saber o que ele viu.

Entao hoje, estou eu voltando para casa. Um dia lindo. O sol transbordado dentro do onibus, entrando pela janela e amarelando suavemente tudo que estava dentro. Eu olhando essa luz meio fascinada, luz que muda tudo, que aquece, que transforma, que impressiona... comecei a pensar nos pintores,... no impressionismo, em monet e debussy quando de repente um senhor bem velho ao meu lado diz " You are a painter arent you?". Assim do nada. Percebendo o meu silencioso, meditativo espanto ele continuo num sotaque forte "It is the way you look at the light. At everything around. It is an artist's look." Eu nao disse nada. Pensei em explicar que eu sou um fracasso com um lapis na mao. Mas alguma coisa ali tinha sido mais profunda do que isso. Eu sorri "in agreement". De fato eu sou uma artista dentro de mim. Lutando sempre para ver o mundo cientificamente, mas uma artista dentro de mim. E sera que é tao distante a arte da ciencia? A contemplacao do mundo? Nao sei. Tanto faz, naquele momento aquele sentimento de "encontro" me aqueceu. Eu nao disse nada. Nao era necessario. Nem ele me perguntou esperando uma resposta. Ele so me reconheceu. E ali juntos continuamos o nosso caminho em silencio contemplando a luz.

segunda-feira, março 16, 2009

Os Sonhos



Continuo voluntariando na escola primaria aqui em Londres. E cada vez que vou la gosto menos das professoras, e mais da criancas. O professor da minha classe é um cara legal, Sultao Khan, que diferentemente das professoras estericas nunca grita e se diverte dando aula. Eu vou la todas as sextas, nunca me disseram nada muito explicito, nunca me deram uma lista com os nomes das criancas, entao eu vou aprendendo meio assim... por osmose :)

Os nomes eu vou ounvindo. Nomes diferentes de criancas que vem de tudo que é lugar do mundo (há muitos filhos de imigrantes e refugiados). Um desses dias, quando eu chamei o Tamin para ler comigo, ele me olhou com os seus lindos olhos negros, e cilios enormes e disse. "Tudo bem que vc diga todos os nossos nomes errados, porque voce é estrangeira." Eu comecei a rir, confesso que eu nem tinha percebido que minha pronuncia era tao pessima. Pedi a ele que que me ensinasse a pronunciar corretamente o nome dele. "That is not so important, Juliet.". De fato, talvez nao seja. Eu tao pouco me importo que eles me chamem de Juliet.

A Martine, veio até a mim na primeira semana para perguntar se podia ir ao banheiro. A classe é aquela bagunca com professores que entram e pegam coisas, alunos de outras classes que vem buscar material, Mr.Khan ensinando sobre o Sherpas e a Martine, uma menininha minuscula, de pe na minha frente. Ela veio ate a mim, porque eu era a responsavel nao ocupada naquele momento. Eu so tinha que deicidir se ela podia ou nao ir ao banheiro. Por mim, claro que ela podia mas nao sabia como era a dinamica da classe, entao fiquei tentando olhar para o mr. Khan e descobrir se eu podia ou nao deixa-la ir. Ela esperou uns segundos, e percebendo a minha aflicao colocou a mao no meu ombro e disse " Juliet, it is ok, voce tem o direito de me deixar ir ao banheiro!." Eu fiquei desconcertada, aquele pinguinho de gente, estava nao so percebendo a minha duvida mas me amparando ali no meu primeiro dia. "Voce tem certeza disso????" eu perguntei seria meio brincando" "Tenho." "Entao va ". Ela foi, e quando voltou veio ate a mim e disse "See I am already back".


E eu fui entrando assim nessa classe, pelas maos das criancas, que com toda delicadeza e percepcao iam me explicando a dinamica da escola. Eu aprendo muito mais do que ensino, e essa estoria de voluntariar fica ate parecendo meio injusto, como se eu ganhasse muito mais do que dou. Eu leio, eu ajudo, eu explico, me reviro... mas oque eu masi faco é ouvir. E estar ali para aquelas criancas que tem um milhao de coisas para contar e ninguem muito que preste atencao é simplesmente incrivel! Entao, quando o Mr.Khan contou que eu ia passar ferias no Brasil, o Severum veio me abracar e me me dizer para voltar logo. Depois que ele veio, vieram todos. Com varios conselhos importantes do que eu devia fazer e evitar enquanto estivesse longe.

Voltei, semanas depois achando que eles talvez eles nao lembrassem de mim. O sorriso no rosto eh daqueles que desmonta. Mr. Khan perguntou se eles queriam golden time ( brincar) ou conversar comigo. Quiseram conversar comigo para saber do brasil. Um milhao de perguntas. Tem borboleta? E arco-iris? E que tipo de bicho? "Micos, Tucanos, Araras, "Leopards", eu disse" . " Eu acho que o que vc quer dizer é "Jaguar", pq os "Leopards" vivem na Africa me explicou o Cecai. "

Faz umas semanas eu tive que ir embora mais cedo porque eu tinha uma aula. Expliquei que eu tinha que ir a aula e de repente as criancas me olharam em total espanto. "Do you go to school???" Eu confirmei. Eles ficaram perplexos. Incredulos. "Juliet, are you an ADOLESCENT????". Percebi que tinha usado a palavra errada e expliquei que nao. Eu ia a faculdade. Achei que com isso eu fosse acalma-los. O olhar se tornou ainda mais de fascinio. "do you go to the UNIVERSITY?????". Sim eu disse. "Wow. I dont know anyone who goes to the University!!!" Todos iam repetindo isso.

Essa sexta, semanas depois dessa conversa, quando eu tava indo embora o Tamim veio me perguntar se eu tava indo para minha aula. Eu disse que sim. Eu que to meio cansada do meu mestrado, disse que sim. "you know what ...my neighbour goes to the University too!". Ele me disse com todo orgulho. "Does he?". Eu perguntei. "Yes! and I told him about you! Now I know 2 people in University!!!" Quem me conhece sabe que eu tenho os meus criticismos sobre escolas em geral. Inevitavel sintoma de quem ja fez muita aula de antropolgia e de post-colonialism. Mas o Tamim, me desmontou. "Juliet, I am going to go to University too! You know why? . No why? " Cause I want to meet people like you, and learn all those things that you know."

Eu queria ter explicado para ele, que ele nao precisava ir a universidade. Que aquela percepcao, que aquela docura e gentileza tao valiosas nao eram ensinadas. Que tudo isso a gente as vezes vai perdendo nas escolas, nas universidades da vida. Que la nos mandam sentar bem quietos. Ficar calados. Reproduzir ideias dos outros. Atacar pensamentos. Eu queria dizer para ele que eu aprendo muito mais ali numa classe de criancas de seis anos. Mas eu nao disse, porque com todos os seus problemas as escolas sao lugares de encontro. De aprender a lidar com o social. Com o abstrato. Com os livros.Aprender sobre outros mundos. E talvez essa troca seja isso. Eu vejo nele o meu ideal de pureza, de bondade, e ele ve em mim alguem que ele acha que eh admiravel, alguem que vem de um mundo de misterio, alguem da universidade. Talvez estejamos os dois errados, talvez nao. O mais provavel é que estejamos na metade. Mas ali eu abandonei o meu criticisimo a toa.. para permitir so o sonho. Afinal de contas, oque seria do mundo sem os nossos sonhos?

domingo, março 08, 2009

Drury Lane



Ontem eu fui assistir ao show da minha grande amiga e talentosa cantora/compositora Sabrina Rabello. Eu conheco as musicas tao bem, que um desconhecido ao meu lado, ate me perguntou como eh que eu sabia todas as letras. Eu pude contar a ele com um certo orgulho que a Sabrina aquela talentosa belissima mulher, doutora em fisica, compositora,e cantora era uma das minhas melhores amigas.

Para mim cada show da da Sabrina eh tocante. Talvez porque ela tenha vindo de outro mundo, talvez porque ela tenha se rendido a musica tarde. Ela estava fazendo seu doutorado em matematica aplicada e fisica quando resolveu comprar um piano ha dois anos atras e comecar a compor. Assim, como ela mesmo explicou, terapia para doutorandos que nao podem se permitir terapia.

E dessa compra veio o mundo de musica e letra que existe dentro dela. Eu entendo esse sentimento bem. O que eh ter um mundo dentro e ter que que encontrar algum veiculo para coloca-lo para fora. Simplesmente para nao explodir, simplesmente para tansbordar um pouquinho. E em apenas dois anos, ela coloca de maneira tao irreverente, tao profunda, tao verdadeira que arrebata.

Eu tenho as minhas musicas favoritas eh claro. Na verdade, sao quase todas favoritas. Mas eu escolhi colocar Drury Lane aqui porque eh a musica que fala do escritorio onde a Sabrina fez o seu doutorado. Onde ela teve suas duvidas existenciais, onde ela vivia rodeada por muitos que mesmo tendo suas proprias questoes particulares imagino que nao devem chegar nem perco de entender a intensidade daquela mulher. E que mulher...

Eu coloco Drury Lane aqui para lembrar a todos nos que mesmo de um doutorado de fisica pode se passar a musica. Drury Lane eh para mim a musica que nos lembra que assim como na Turquia muitos mundos coexistem. Eles estao ai, em equacoes, em notas, em palavras, ligados por portas invisiveis. E eh necessario as vezes ter coragem de procurar essa porta pouco "credivel" para entrar num outro mundo que ja eh seu. Um mundo pelo qual sua alma ja suplica. Procuremos a tal porta, tenhamos a coragem de fazer a travessia..mas lembremos tambem que nao eh necessario fechar a porta, deixemos a aberta pois afinal de contas todo o resto ainda existe.

quinta-feira, março 05, 2009

Full Circle :)

Parto de Istanbul em algumas horas, e mais dificil do que chegar até aqui é ir embora. Cheguei ha mais de uma semana, e exausta como relatei no meu ultimo post fui parar no aniversario de Nesli num pequeno restaurante. Ontem, voltamos la, para encontrar meus novos amigos e despedir-me. Um circulo completo. O Lonely Planet não deve considerar que em Istanbul eu estive... nao fui a um Hamman turco, nao fui ao Grand Bazar, nem a Mesquita de Souleimane ( estava fechada). Eu fiz é claro algumas coisas turisticas, visitei mesquitas lindas, a Haya Sofia, Sulthanamet, a Cisterna??. O que eu mais gostei no entanto foi de andar pelas ruas, cruzar o bosphorus, e conhecer a vida das pessoas que eu encontrei.

Não aquela vida que se imagina, de veu, e conservadora. Não, eu conheci os ativistas, quem lutou pelos direitos para os gays e os conseguiu. Eu conheci os dancarinos, os artistas, os arquitetos, os pintores, os yogis, os musicos. Eu participei de um workshop de consciencia corporal e danca, pude ouvir musica tradicional e ver como o corpo dos outros de outras culturas se movem diferentemente ao meu.

Eu conheci os inumeros cafes, e bares, tao mais aconchegantes dos que os que eu conheco em outras partes do mundo. Lugares desses que so se chega com quem aqui mora, porque eh sempre atras de uma rua, pegando um elevador, descendo uma escada, abrindo uma porta e entrando em outro mundo. E sao tantos os mundos que aqui co-existem.

Eu ainda escrevo mais precisamente depois. Agora é só para dizer que Istanbul é para mim as pessoas que eu encontrei. E nessa interacao maluca das pessoas fazerem o lugar, e o lugar fazer as pessoas descobri muitas coisas sobre mim. Por que distante do conhecido a viagem para dentro é mais facil. Em meio a muita fumaça, a um calor humano inacreditavel, enorme e contraditoria tolerancia existe Istanbul. Assim dividida entre a Europa e o Oriente Medio. De modernos e liberais, e conservativos e religiosos. Assim, cruzando de um lado para o outro, observando, encantando, guardando para si muito do que os por aqui passam essa cidade maluca vai se criando.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Meu Primeiro Dia em Istanbul

Sai de londres de madrugada depois de passar a noite numa festa. Dormi a viagem inteira, e acordei em Istanbul. Peguei o onibus que me levaria a Taksim, onde minha amiga Nese mora. Desci, pedi umas informacoes numa mistura de turco mal falado e ingles, e recebi respostas em ingles mal falado, gestos e sorrisos. Andei ate finalmente encontrar a casa da minha amiga

Subi os muitos degraus carregando a minha mala ate chegar a casa dela no ultimo andar. E finalmente eu estava ali. Depois de tantas tentativas, depois de muitas viagens canceladas, depois de muitas passagens perdidas, depois de ter pego onibus, trem, aviao, onibus, taxi eu finalmente tinha chegado a casa dela. Nos abraçamos, nem ela acreditava mais que eu chegava. Conheci seu Flat mate alemao que parte para Siria em alguns dias. E comemos uma refeicao deliciosa de queijo turco mais tomates, ovos, pepino, pao. Enfim, um pequeno lanche para esperar para o jantar de aniversario de uma conhecida dela.

Eu adormeci no chao, enquanto Nese foi tomar banho. Exausta que eu estava de ter varado a noite numa festa e pego tudo que é meio de transporte para chegar a casa dela. Acordei com Nese ao meu lado bem quietinha. Se eu prefirisse nao precisava ir ao tal jantar. Eu podia ficar dormindo ela disse. Mas nao, havia tempo para dormir depois, agora na minha primeia noite em Istanbul eu iria.

Andamos pelas ruas do bairro até chegar num pequeno, muito pequeno restaurante. La dentro havia 4 pessoas. Em cima da mesa pratos com uma variedade de entradas. Lembrou me o marrocos. Berinjela, cenoura, tomate, tabuli e outras coisas em pratinhos com temperos diferente. O dono um simpatico armenio que fazia de tudo para tornar o lugar o mais agradavel possivel. Aos poucos foram chegando outras pesssoas. Eles eram arquitetos, fotografos, pintores, artistas.

Se esforcavam para me envolver. Para me explicar. Para falar em ingles, em frances. E eu amando estar ali. com aquelas pessoas. Ouvindo a musica turca. Comendo, ouvindo, comendo. Eu experimentei e desgostei da bebida de anis. Fiquei na agua. Fui me inebriando de estar ali naquela pequena celebracao. A aniversariarante, um doce, todos tao atenciosos, e eu fui me apaixonando por aqueles turcos desconhecidos que eu nem se quer entendia direito.

Ai comecou a musica. E para isso nao precisa linguagem. Dancamos. Ali naquele pequeno restaurante a Nesli, aniversariante, ficou de pe e comecou a dancar danca do ventre. Me puxou, eu puxei a Nese e de repente todo mundo estava dançando. Chegou o café turco. E eu que nem tomo café, tomei. Virei. E deixei la esperando para que pudesse ser lido. Sarkan, um turco gay (que me contou sobre a gay scene em Istanbul), desvirou a xicara e comecou a falar. E assim, sem saber nada sobre mim foi falando. Olhando para a borra e falando. E eu que nao tava levando muito a serio no comeco, fui ficando impressionada com os comentarios cada vez mais precisos. Eu so ouvi, nao disse nada. E aos poucos, eu fui sentindo uma conexao com aquele cara. Que parecia de fato estar lendo minha vida.

Num certo ponto disse que eu tinha estado doente, e que aquilo tinha sido um “turning point” para mim. Lembrei-me entao, do primeiro dia quando sai do hospital e fui a um templo hindu enquanto esperava a hora de ir para o encontro da yoga ( do qual eu tanto falei). Um homem la no templo saiu de nao sei onde e veio diretamente a mim. Trouxe um livro chamado de turning point . Eu nem me lembrava dissso, mas falando com o Andrew sobre meus exames no Brasil (meu amigo que me levou a casa dos lordes, a yoga e ao templo hindu) esses dias, ele me lembrou de como ele tinha ficado impressionando com aquele homem do templo que tinha me trazido esse livro em meio a tantas pessoas, como ele achava aquele momento simbolico. Hoje o "turning point" vinha a tona de novo. Sorri. Coincidencia, ou sincronicidade, boabagem ou destino fez meu enontro com Sarkan parecer mais significante.

E ai Nesli fez um discurso. Em turco. Eu sem entender nenhuma palavra fui me sentindo emocionada. Ali naquele minusculo restaurante turco. Eu ali ouvindo uma lingua que eu nao entendia fiquei emocionada. Eu sabia dentro de mim que ela devia estar falando de alguma transformacao.

Na mesa tambem havia Ahmet, curdo, que nao falava uma palavra de ingles. Nossa comunicacao entao, era so no olhar. no gesto. Depois veio a dona do restaurante sentar se perto de mim. Dizer como eu era bonita. Ou melhor, dizer para a Nese, pois ela tao pouco falava ingles. Falou de energia, e de repente eu fiquei sabendo que ela era uma yogi. Que coisa, no meu primeiro dia na Turquia eu vou parar num minusculo restaurante onde a dona é uma yogi!!! Nao faz propaganda, acredita que as pessoas chegam la porque tem que chegar. Cozinha como forma de encontro com o outro, cozinhar é sua meditacao mais profunda. Seu momento de criar. Nunca um prato é igual ao outro. E eu a olhei e de repente ficou tao evidente que as palavras eram pouco importantes. Mesmo sem saber nada disso eu ja tinha sentindo uma enorme afeição por aquela mulher. Ao mesmo tempo, tão presa ao verbal, como é dificil estar numa situacao que voce nao pode falar com o outro. Da a ilusao que aquele mundo existe ali do seu lado, mas está fora do seu alcance.

E ali fora "do alcance" eu pude abandonar o verbal. E me comunicar sem me comunicar. E sentir. E ser sentida. E olhar, e trocar. E sentir essa enorme gratidao por poder ver um outro mundo. Ter outros encontros. Por poder trocar as vezes de maneiras inusitadas. No meu primeiro dia de Istambul eu nao vi nada de turistico. Eu vi muitos olhos. Muitos gestos e e eu senti muito. E em poucas horas eu ja estou apaixonada por Istanbul.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Claro que Pond's!



Postaram esse video dessa propaganda Indiana da Ponds num forum de debate que eu participo e ao assisti-lo eu fiquei perplexa. Assim, é engraçado como é facil termos uma reação sem nem sabermos direito porque. Bom, primeiro o video nao é assim tao claro. A minha visao, é que o cara sai com uma mulher de pele mais clara, e que a outra nao se sente a altura, e tem seus problemas solucionados por um tal creme que pode deixar a pele mais clara, ou ate rosada.

Tenho a impressao que a propaganda espanta por diversas razoes. Primeiro porque ela nao usa meias palavras, ela vai direto ao ponto. Algo do tipo "Voce esta se sentindo mal por ter a pele escura ?? Nao se preocupe nos temos o creme para te deixar rosa!".

Invertindo a situacao e pensando num creme que deixa a pessoa morena ( como por exemplo auto-bronzeamento), nao me senti tao revoltada. Seria porque bronzear se é natural, mas clarear se nao? Eu acho que nao. Para mim, me parece que é porque se clarear tem uma conotação politica.

Essa propaganda fala diretamente de preconceito. A mulher é rejeitada por ter a "pele errada" de acordo com o padrão (mais uma vez) determinado ou reinforcado pela midia. Portanto, em vez de aprendermos sobre diversidade, de abraçarmos o pluralismo, somos obrigados a engolir uma propaganda que quer um mundo monocromático. Um mundo que continua julgando as pessoas por qualidades tolas.

No Brasil por exemplo eu conheco pouquissimas pessoas que gostam dos seus cabelos com cachos. A onda é todo mundo ter o cabelo escorrido! O que eu acho mais triste de tudo isso. E que nós os da periferia do mundo e de certa forma estamos todos numa periferia, ou nao temos a cor certa, ou o cabelo, ou o genero, ou a etnia, ou a nacionalidade, ou a profissao, ou sei la oque. Nos aprendemos que precisamos mudar a nós mesmos. E nao é um mudar profundo, que nos transforme como pessoas. Não é só mudar a cor do cabelo, fazer uma plastica, comprar um produto aqui que me de mais status, outro ali que me de mais sei la o que. É um mudar para satisfazer os preconceituosos.

Essa propaganda é infeliz nao so porque ela cria a ilusao de que o rejeitado esta ESCOLHENDO ser mais claro e assim quem sabe tendo mais poder. Ela é infeliz porque nessa falsa escolha esta a rejeicao do que voce é. Que nao esta na cor, nem no cabelo, nem na sua profissao. Ela é mediocre porque ela coloca na mao do outro a decisão de quem voce deve ser. Essa propganda idiota nos leva para longe do que é realmente importante, que é quem somos como pessoas.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Let It Go

Ha tres coisas que eu ainda quero aprender a fazer: tocar clarineta, surfar e escalar. A clarineta é um sonho cada vez mais distante. Praticamente motivo de piada para o meu amigo Caue, que ha anos, me desencoraja a tocar clarineta e tenta a me fazer aprender sax. Guilherme se refere a esse evento com a "Lenda da Clarineta". Há um tempo eu fui a uma loja aqui em londres perto da Baker Street que so vendia clarinetas. Eu estava decidida a comprar uma. De fato estava ridicula aquela estoria de eu viver dizendo que queria aprender e nao fazendo nada a respeito. Eu iria compra-la e aprender a tocar sozinha. Chegando na loja, eu expliquei ao vendedor que queria uma clarineta usada, que eu tinha visto que estava a venda no site. O vendedor me perguntou se eu tocava, se eu tinha professor, e literalmente nao me deixou comprar. Mandou-me alugar uma para ver se gostava que era muito provavel que em 3 dias eu ja estivesse odiando (meus vizinhos com certeza estariam). Imagine e isso quem disse foi o vendedor!!!! Nao pude alugar na hora pois nao tinha prova de endereco. Ganhei a lista dos professores e escrevi para uns 10. Nenhum me respondeu. Ironicamente todo lugar que eu ia encontrava um saxofnista. Estariam os astros conspirando a favor do Caue??? Finalmente conheci um clarinetista vurtuoso. Um russo, que na sua enorme eficiencia (leia-se chatisse) conseguiu acabar de me desmotivar em 5 minutos.

Surfar tambem fica complicado porque morando em londres nao da. Minhas tentativas foram menos desastrosas. Mas eu confesso que quando eu finalmente quebro a arrebentacao, nao entendo para que eu vou sair de la... tao bom eh ficar sossegada no mar calmo.....

Entao dos meus tres planos escalar me parece o mais plausivel. Fazia dias que eu e o Haiko estavamos enrolando para ir conhecer o Swiss Cottage Leisure Centre onde tem um muro de escalar. E hoje pela primeira vez nos aventurarmos pelas paredes de escalada que podem ser vistas da Adelaide Road. O Haiko que ja escalou antes garantiu que eu adoraria, afinal de contas eu vivo me pendurando em arvore, no metro, subindo muro que nao precisa subir etc...

Chegamos la e fazia um frio tremedo. Da rua de onde se ve o muro parece que ha um vidro separando um lado do ourto. Mas nao, o vidro vai so ate metade do muro, para cima é aberto !!! Nao sei quantos graus fazia, mas com certeza nao muitos. Nosso instrutor era um Kiwi lesado, que fazia High 5 conosco depois de tudo que falava. E nossa terceira companheira uma proficiente, nata escaladora de 7 anos e MEIO, como ela me explicou.

Coloquei todos aqueles cintos e cordas, que eu morrendo de frio nao conseguia nem verificar se estava fechado, let alone, aprender o nome e fomos la brincar primeiro de atravessar o muro de um lado para o outro. Eu sou super flexivel, e o segredo é usar a perna. Mas fazia tanto frio que meus dedos congelavam. Divertidissimo... Atravessamos, e atravessamos ate o nosso instrutor neo-zelandres achar que era suficiente.

Ai fomos finalmente subir o muro. E nao é que eu que adoro subir coisa fiquei com medo. Claro que eu subi. Mas eu percebi uma coisa terrivel, quando eu subo minhas arvores, viro de ponta cabeca, equilibrio em banco, fico de pe em rede e etc e tal eu tenho todo o controle. Eu avalio o meu equilibrio, o meu peso, a minha flexibilidade e faco decisoes baseadas no que eu conheco do meu corpo. Na escalada nao. Eu fui subindo, tranquila, tranquila, mas derepente eu percebi que eu tava sedo "segurada" por um outro. um outro que nao eu. e que mesmo que eu me bastasse enquanto subia na hora de descer "I had to let it go". E isso é com certeza a coisa mais dificil para mim. Relaxar e colocar minha vida na mao do outro. Confiar no outro. E talvez seja esse o aspecto mais valioso de aprender a escalar. Voce sobre, usa os seus musculos, a sua forca, a sua decisao, o seu cerebro mas chega num certo ponto que voce precisa let it go.

domingo, fevereiro 08, 2009

Oriente Medio ou Europa?



Normalmente, eu nao escrevo pois to meio sem coisa para contar, ou entao é porque tem coisa demais. Dessa vez é o segundo caso. Semana passada foi realmente fascinante, eu fiz tanta coisa diferente que eu nao sei nem no que focar. Meu unico amigo ingles, Andrew, aquele que me levou para yoga, é filho de um lorde Ingles. E na semana passada acabei indo conhecer o parlamento com eles. Assim, com direito a assistir a casa dos lordes em sessao, aprender um milhao de rituais e estorias, e até beber no parlamento na sala dos peers. Ou seja, um evento para la de surreal. No dia seguinte, continuando "o Fabuloso Destino de Julieta Falavina" como diria um amigo meu, fui fazer uma coisa totalmente diferente. Posei para um pintor russo. Assim, essa foi uma experiencia digna de ser relatada em detalhes por todas as suas consequencias ( por exemplo meus pais ficaram tao bravos que resolveram nao mais pagar meu mestrado ), mas tambem pela experiencia em si. Imaginem eu que ja fiz um milhao de aulas sobre feminismo, pos-feminismo, orientalismo, de repente vi o outro lado da moeda. O que é ficar la e ser pintada. O que é colaborar para construir uma imagem do feminino idealizada pelo mundo masculino. Como eu disse topico para um outro post.

Nesse post eu quero falar da minha grande amiga Nese. Nese, minha amiga turca que estudou comigo na Holanda, apareceu inesperadamente em londres. Fazia anos que eu nao a via. E encontra-la foi sem duvida um dos momentos mais alegres dessa semana. A visita foi breve pois ela estava a caminho de outro lugar. Foi incrivel ter em casa alguem que olha para os mil textos que eu tenho que ler e tem uma opiniao consistente a respeito. Nao, nem as pessoas na LSE que estao estudando a mesma coisa tem uma opiniao assim tao informada. E ai eu me lembrei de como eu a conheci.

No meu primeiro dia em Amsterda, fui para universidade para me registrar. Entrei numa fila e a primeira pessoa que eu vi foi a Nese. Ela era radiante, bonita parecia uma abelhinha voando de um lado para o outro. Rindo, falando em frances com um, em ingles com outro, e numa lingua que eu nao conhecia com outro. Eu fiquei um tempao olhando, porque a Nese é realmente assim: cativante. Lembro de ter pensado "Quero muito conhecer essa menina. Ela é tão alegre, parece ser muito legal!"

Não é que dias depois ela estava na minha"animada" aula sobre Guerras Civis. Eu fiquei feliz de ve-la. E mais feliz ainda de ouvir as coisas que ela dizia. Opinioes bem construidas, bem formuladas, e diferentes. Depois fiquei sabendo que ela nao era da aula, ela estava assistindo como ouvinte. E mesmo assim de ouvinte ela era a pessoa que mais lia, mais participava, mais questionava. Num certo dia, tivemos que fazer uma apresentacao, e ela mesmo nao estando oficialmente na classe, resolveu faze-la. Para minha alegria ela escolheu fazer sobre a mesma organizacao que eu tinha escolhido. Fiquei radiante :) finalmente eu iria conhece-la.

Marcamos um encontro, e quando ela chegou e comecou a falar eu achei que ela devia saber mais sobre a organizacao escolhida do que o proprio presidente da tal organizacao. Eu que ja achava que sabia muito mais do que era necessario para 15 minutos de apresentacao tive um acesso de riso quando ela disse que nao se sentia preparada. Ela sabia tudo. Tudo sobre a organizacao, tudo sobre os projetos da organizacao, tudo sobre os paises onde havia projetos, enfim TUDO. Ficamos amigas imediatamente. Eu contei para ela que queria conhece-la desde o primeiro dia. Ela me contou que escolheu a tal organizacao porque queria fazer o trabalho comigo. rimos.

Fizemos um milhao de coisas juntas enquanto estive em Amsterda. Ou melhor ela fez bilhoes, eu acompanhei algumas e ouvi sobre outras. Tentei acalma-la toda a vez que ela estava delirando e nao se sentindo preparada para alguma coisa. Impressionei-me com o tanto de organizacoes que era ela envolvida, aprendi muito sobre a Turquia. E desde que partimos da holanda eu tento ir a Istanbul, e sempre alguma coisa acontece que me impede. Toda vez eu tenho passagem alguma coisa acontece. Por isso nessa quinta, quando no estudio do pintor eu recebi a ligacao de Nese dizendo que estava no aeroporto nao pude conter minha alegria.

Nos encontramos na frente do metro perto de casa. Ela continua igual. Ainda mais magra e como sempre com aquele rosto radiante. Nos abraçamos. Como se eu a tivesse visto ontem. Tudo igual ainda que tudo tenha mudado na minha vida esse ano. Ainda que ela tenha passado por depressoes, doencas, relacionamentos dificeis, teses enlouquecedoras, trabalhos que roubam dela todo o tempo. Desanimo sobre o doutorado. Desanimo da vida academica. Desanimo da arte. Tudo continuava igual quando nos abracamos. E tudo isso nem se fazia muito necessario contar.

Ela entra na minha casa ve um texto da Abu -Lughod no sofa e comeca a falar da etnografia dos beduinos. Olha para o livro do Bourdieu e diz que eu devia le-lo em frances que a traducao em ingles é quase sem sentido. E eu fico radiante. Assim. Eu que detesto ler Bourdieu fico radiante. Eu que nao li sobre os beduinos mas sei que a Abu Lughod fala que quando ela vai estuda-lo e chega num lugar tipo favela fica desapontada achando que eles nao sao mais beduinos. E entao percebe que para eles, o que os faz beduinos eh o sangue. Que tudo pode mudar a volta que se eles preservarem a "essencia" todo o exterior nao faz diferenca. Eu fico radiante de ver que é isso: tanto faz o exterior. Por que é o interior que importa.

Nese me convida para ir a Istanbul. Eu conto que tenho até medo agora considerando quantas vezes tudo deu errado quando eu quis ir para Istanbul. Haiko acha que eu devo acabar com essa supersticao. Eu concordo afinal de contas nao precisa muito para me convencer a viajar :) Eu concordo afinal eu nunca estive no Oriente Medio. Digo isso a Nese ja antecipando sua resposta.

"Jules, mas voce sabe que nos somos europeus, né?. "

Rimos. Rimos muito. Que mude tudo a volta. Que mudem todos os conceitos. Todas as fronteiras. Os continentes. Os paises. Todas as categorias. Que eu um dia visite os lordes, que no outro pose para um pintor russo. Que eu largue o meu mestrado, que eu passe meses no sudeste da asia. Que eu estude cognicao, o cerebro, e medite. Que eu viva ciencia na universidade e respire poesia. Que eu esteja no oriente medio na minha mente, e na europa na mente de outros. Que mude tudo. Mas que a essencia continue. Que encontremos essa essencia. E que a celebremos!

domingo, fevereiro 01, 2009

Enganando o Cerebro

Bom, agora que eu já escrevi toda a saga, posso voltar as coisas inúteis que eu escrevo :) Não posso escrever muito pois queimei minha mão direita. Não, não foi tentando cozinhar, mas fazendo uma coisa muito mas muuuuuuito mais inútil. Quem me conhece sabe que eu vou a cabeleireiro raramente, uso qualquer shampoo, se não tiver shampoo uso sabonete, quando perco meu pente penteio cabelo com o dedo. Enfim, não exatamente primo por esses cuidados. Não é que ontem, eu resolvi fazer uns cachos no meu cabelo com um (não sei como chama) aparelho da minha house-mate e amiga Alondra, e isso acabou num verdadeiro desastre :)

Primeiro já foi dificílimo encontrar um plug para poder ligar o aparelho mexicano na tomada. Quando finalmente eu o fiz. deixei-o no chão, enquanto fui fazer qualquer outra coisa que já nem me lembro mais. Ai passei por ele, e ao me lembrar dos famosos cachos que eu queria fazer, eu abaixei e peguei o aparelho, que parece uma escova de metal, pelo lugar errado. Não o "handle" mas o próprio ferro quente. Não sei quantos segundos levou para eu processar que estava quente, provavelmente milésimos de segundos. Eu sei que foi tempo suficiente para eu me levantar, ter um segundo de confusão, e largar o negocio. E é claro, foi o tempo suficiente para eu queimar a mão direita inteirinha.

Ai começou a saga das sugestões...coloca a mão na água gelada. Coloca pasta de dente. Coloca oleo. Coloca manteiga. Coloca óleo de lavanda. Eu coloquei picrato de butesin, uma pomada que sempre existiu na minha cozinha no brasil e que minha prima uma vez me surpreendeu muito por carregar com ela para uma viagem em Ubatuba e salvar algum queimado.

Coloquei a mão também na água gelada. Depois de muita meditação com o haiko achamos que faz sentido. Podemos estar errados, mas nossa dedução é que além de esfriar o local, também manda sinais para o cérebro de que o local esta frio e não quente. Assim numa tentativa de enganar o cérebro. Que eu imagino que pela evolução deve ter selecionado para criar dor numa situação dessas para evitar que você continue queimando o mesmo lugar. Ou machucando ainda mais uma área que esta frágil.

O pior na verdade é perceber quão difícil é de repente ter que fazer tudo com a mão esquerda. A maioria das coisas da para pedir para alguem ajudar, mas tem coisa que não dá. Escrever. Ou fazer um nó no cabelo. Ou amarrar e desamarrar a calca no banheiro publico. Coisinhas simples que dão de repente um trabalhão.

Eu no meu mode " o que eu posso aprender com isso." Na hora pensei " aprender a ficar longe desse aparelho que uma vez me queimou a testa, e agora a mão :)". Mas é claro, que não, não adianta culpar o externo. E eu mais uma vez aprendi a mesma coisa: o quão importante é estar presente nas coisas que fazemos. E é claro machucar um lugar, seja ele qual for, nos faz mais conscientes daquele lugar. Mais conscientes de como nosso corpo funciona como um organismo interligado e completo. Qualquer mudança afeta tudo ( Hoje meu músculo do ante-braco esquerdo esta dolorido :). E quão fascinante é ver como qualquer evento tem ramificações interessantes. Deixar minha mão na água gelada para enganar meu cérebro, sendo eu o meu cérebro, e tendo de certa forma o próprio cérebro encontrando uma solução dessas ( de se enganar) me faz pensar como nos somos seres muito, mas muuuuito interessantes.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

VI

E ai eu cheguei no Brasil. Para fazer meu exame de ressonancia magnetica. Eu antes tinha pavor de ficar fechada la dentro. Desta vez meditei. Em total paz. Sentia a presenca do meu Yogi comigo o tempo todo. Eu estava completamente em paz. O exame demoraria uma semana para ficar pronto. E eu fiquei é claro um pouco ansiosa.

Ai chegou o dia de ir buscar. E eu peguei o exame para ir a consulta logo em seguida. Tudo que eu queria era que meu cerebro nao tivesse piorado. So isso. Tudo isso :) Abri o exame sentada na padaria que ficava ao lado do consultorio do meu medico. Minha mae perguntou " mas voce vai abrir o exame, ju??." " Claro mae. Ninguem tem mais direito a ver esse resultado do que eu. Ainda que eu nao entenda nada." E eu abri. Sentada no balcao da padaria. Com um cha de menta a minha frente. E olhei para tudo que estava escrito que eu nao entendia. No conclusao lia-se " Nao se apresentam novas alterações.'' E eu comecei a chorar. Aliviada . Feliz. Emocionada. Profundamente grata. Lembro-me do garcom que me olhou preocupado. " Eu to chorando porque eu to feliz." eu disse a ele. " Entao voce deve estar muito feliz." E eu estava muito!.

Fui ao medico e quando ele colocou minhas ressonancias na luz para compara-las com as antigas.Vimos que nao só o meu cérebro nao tinha novas inflamacoes mas que das 3 inflamacoes que eu tinha 2 tinham sumido e uma cicatrizado. Eu nunca vou conseguir colocar aqui em palavras o que isso significou para mim. Para mim é claro teve um significado metafisico. Eu sentia dentro de mim que eu estava melhor. No entanto, ver materializado numa ressonancia magnetica, num exame medico, uma mudança organica. Isso nao tem como explicar.

Então eu mudei. Eu hoje não levo nada mais tão a sério. E é claro que eu hoje continuo errando. No entanto, tenho uma enorme vontade de acertar. Nao acertar a resposta de uma pergunta, ou arrumar o emprego certo. Acertar o comportamento certo que nos faz viver melhor. Acertar em escolher o caminho certo, o do coracao e nao o do ego. Ainda que muitas vezes eu siga o ego. Hoje eu quero transformacao, trocar com outro de maneira profunda. E eu tenho encontrado pessoas incriveis pelo caminho que eu tenho podido ajudar, assim como fui ajudada. Com outras tem sido mais dificil pois elas se sentem ameacadas por toda essa busca de liberdade.

De qualquer maneira naquele minuto de catarse eu me senti profundamente grata. A todos os catolicos, judeus, espiritas, ortodoxos, pagaos, muçulmanos, hindus, budistas, yogis que rezaram, meditaram, fizeram buscas metafisicas em meu nome. Grata aos humanistas, agnosticos, ateus que tiveram pensamentos positivos. Grata aos medicos, enfermeiras, atendentes. Profundamente grata a 3 pessoas em especial. SS Karmapa que me tocou de maneira indescritivel na India. Grata a Cecilia que com a Euritimia me abriu para outras visoes. E é claro, enormemente grata ao Raphael, Yogi, que foi o anjo que caiu na minha vida logo no primeiro dia. Alem de ser um grande amigo, um grande confidente, é a quem eu sempre vou atribuir o começo dessa mudança. E finalmente: a mim. Naquele segundo, o mundo parou. O mundo dentro de mim. E eu senti um indescritivel amor, e orgulho de mim.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

V

Depois de todo esse acordar eu comecei a sentir um milhao de sentimentos dentro de mim. Meio como se eu tivesse saido do coma e de repente sido jogada no meio de New Delhi. Todos os meus sentidos se acordaram. Todos. E eu queria sentir com todos o tempo todo. E eu exagerei. Fui procurar a verdade em tudo. Meu marido me apoiou o tempo todo. Em tudo. Ainda que toda essa mudança tenha nos feito quase nos separarmos diversas vezes. Por mais dificil que fosse para ele, e para mim, nos sabiamos que do jeito que era antes, nao era possivel. Eu queria me descobrir e para isso tinha que me libertar. É dificil nao virar uma total hedonista no meio a tudo isso, mas tudo bem porque a vida é uma busca.

No meio a todo esse tumulto resolvemos ir para India. Ja tinhamos a passagem, mas como eu tinha passado um mes na Romenia, tinhamos desistido de ir. Haiko, exausto do Phd, e eu nessa busca frenetica, resolvemos que talvez melhor do que sermos coerentes ( e nao gastar mais dinheiro) que talvez fosse melhor irmos juntos a India. E fomos, juntos ao pais da grande espiritualidade ver oque encontravamos.

Encontramos de tudo. O caos de Delhi. Todos os nossos sentidos. O desespero. O momento de enorme interiorizacao. Fomos a capital da Yoga, onde eu nao fiz yoga, e passei mais tempo vivendo o ar da india. Olhando as cores. Sentada a beira do ganges. Desesperada com as buzinas. Conheci Prateek, um brhamane, que me organizou um ritual de purificacao. Conheci Natalie de quem tanto falei. Encontrei o significado da minha grande paixao pelas viagens. Nao como fuga, como um milhao de pessoas teima em achar, mas como encontro. Encontro comigo. Isso que eu sou que nao tem muito a ver com o que o outro ve em mim. Encontro com o outro. Isso que vc é que não tem a ver com o que os seus amigos, familia, amores acham que voce é. Encontro com as outras mil linguagens que consituem a nossa existencia na terra.

E aí encontrei o budismo. Em McLeod. Fizemos aulas de meditacao com SS Dalai Lama. Que apesar de mega pop é uma figura tocante de presença marcante. E o budismo é o caminho do meio. Talvez nao o meu caminho do meio, mas um caminho que começou a me ajudar a encontrar o meu caminho. Esse que eu ainda estou buscando.

terça-feira, janeiro 20, 2009

IV

Voltei para Londres. E fui para minha Yoga. Entre na minha aula que dura normalmente umas 3 horas. E pela primeira vez fui capaz de fechar os olhos o tempo todo. Fechei-os. E ali eu senti que pela primeira vez na minha vida, depois de 8 anos eu fazia Yoga. O resto tinha sido ginastica. E não me leve a mal, eu gosto de qualquer Yoga.

Comecei a ter pesadelos diários. Antes eu era tao controladora, que nunca dormia sem fazer uma analise mental das coisas que tinham me feito ma durante o dia para não sonhar com elas. Meu Yogi disse que os pesadelos eram bons, era meu corpo que estava liberando o que tinha para ser liberado, estava entrando num processo de cura. Então deixei que os pesadelos viessem. O estranho ( havia sempre um estranho de quem eu sentia pavor, fugia dele etc) do meu pesadelo, foi ficando cada vez mais conhecido, e apesar de eu ter medo dele, num certo dia tocamos piano junto como cúmplices. Eu eu reconhecia pela música. Fui aos poucos baixando a guarda.

Ai eu fui parar num acampamento de Yoga. Do qual também já falei aqui. Lá a segunda e mais profunda mudança ( sendo a primeira a do hospital) aconteceu. Ao abandonar o habito de ficar analisando tudo e finalmente me envolver em umas da atividades senti uma explosão dentro de mim. De olhos fechados dancei. Sentindo a musica no meu corpo como eu não sentia ha anos. Cada pulso. Cada nota. Sentia as pessoas a minha volta dançando. E sentia o ritmo cíclico que deve ser o ritmo do mundo. De olhos fechados senti tudo que eu sou vir a tona. A mulher, a criança, a musicista, a dançarina, a incongruente, a paixão, o amor, o desejo, a alegria. Todos vieram vindo, e eu pudia enxergar cada uma. Sufocada, meio desminlinguida, enfraquecida, tentando respirar. E um pequeno pedacinho do que eu também sou, a racional, não deixando. Para mim, esse sempre será a explicação simbólica da minha doença.

E eu sei que a maioria das pessoas comprometem muito do que são sem adoecer, eu sei que varias pessoas tem pensamentos distintos, para mim no entanto aquele momento de enorme liberação fica como uma das coisas mais importantes que aconteceu na minha vida. A descoberta pelo amor de tudo que eu sou. A certeza de que pelo menos eu não posso abandonar-me.

E é claro que uma mudança dessas tira tudo fora do lugar. Tudo que antes estava encaixado de uma certa maneira passa a não ser mais possível. Com a força de quem quer se curar, eu fui procurar tudo. De maneira, eu reconheço, as vezes exagerada. Tudo que eu não tinha sentido eu resolvi que queria sentir. E essa época com todos os seus exageros também foi importante para eu ir me encontrando.

sábado, janeiro 17, 2009

A Despedida do Henrique

Hoje eu quero fazer uma pausa na estoria do meu ultimo ano, para falar da minha ultima noite. Ontem, eu fui a despedida de um amigo querido. Uma dessas pessoas que modifica o mundo a sua volta. Que causa conflitos, intrigas, conversas, polemicas, e por isso mesmo não parte sorrateiramente. Eu nem o encontrei tantas vezes na minha estadia em Londres. Nossas conversas foram na maioria das vezes politicas. Nos dois sempre lutando por um ideal de justica. Os programas que fizemos juntos foram sempre os que a maioria das pessoas achariam chatos.

Ontem na despedida dele eu chorei. Não choro soluçado de desespero, mas lagrimas que transbordam de ver o tempo passar. Um choro leve. Comovido de ver o mundo mudando. E o mundo muda o tempo todo é claro, alguns eventos, no entanto, tornam isso mais evidente. Olhar para o nosso fórum de discussões e não ter visto ultimamente as opiniões do Henrique bem escritas e formuladas já antecipava o que seria Londres sem o Henrique. Uma Londres menos completa. Ainda que o Henrique não faça parte do meu dia a dia.

E ontem enquanto eu olhava dezenas de pessoas que foram se despedir dele, eu não pude deixar de pensar na vida de todos nos viajantes. Imigrantes. Perdidos no mundo. Como é difícil esse processo de viver dizendo adeus. Como é difícil esse processo de recomeçar em tudo que é lugar. Se tornar em relação ao outro e ter que partir, ou vê-lo/a partir. Lembrei de quando minhas flatmates Leila ( marroquina) e Joss ( americana) saíram de casa e eu fiquei para trás em NY. Era o mesmo sentimento. Sentimento de final de era. A vida como vivíamos não existia mais.

Eu sempre fugi desses sentimentos. Desses rituais. Não fui a formaturas. Não liguei para casamentos. Mudei de países enquanto meus amigos se formavam. Não que eu não pudesse explicar as funções de um ritual, mas talvez achasse que por entende-los eu estava alem deles. Ontem, no entanto, olhando o Henrique partir, olhando ele se despedir comovido das pessoas que foram a vida dele aqui eu soube como eram importantes esses rituais. Importante para todos nos. E eu me permiti chorar. Pois dizer adeus não é fácil. Nem para quem fica, nem para quem vai. O bonito talvez esteja nisso mesmo. Que não seja. Se saissimos incólumes de países onde moramos anos, sem nenhum pingo de sofrimento é que seria estranho.
E finais de eras são começo de novos tempos. Lutar contra isso é uma grande perda de tempo. Fingir que não sofremos com essas mudanças também é tolice. A importância do ritual é exatamente essa: de marcar. Marcar essa transição, que não é fácil, que não é insignificante. Marcar simbolicamente.

Ontem ficou marcado. Num boliche lotado de amigos do Henrique ficou claro quantas pessoas ele tocou enquanto esteve por aqui. De diversas maneiras. Quantas pessoas o transformaram por suas idéias, suas presenças, por seus comportamentos. Em graus diferentes é claro. E eu confesso que pensei em não ir. Não gosto de despedidas. É mais fácil quando uma pessoa parte sem percebemos, ou melhor quando achamos que não percebemos. Quer dizer parece mais fácil. Mas eu fui e hoje quando acordei eu pensei na Joss e na Leila. Devíamos ter feito uma festa! Uma festa de despedida. Pois uma festa de despedida não celebra a partida e sim o nosso encontro com outro.

III

Eu é claro mudei a cor da calcinha, os livros que eu lia. Tentei parar minha mente a cada pensamento critico. No fundo, eu estava sempre com medo. Sempre sem saber o que estava acontecendo com meu cérebro. Meu cabelo caia. Eu tentava eliminar qualquer pensamento que pudesse ser negativo. Comecei a ir as aulas de Yoga. Elas eram distintas. Falavam de Tantra. Falavam de Deus. Meus olhos reviravam. Eu achava que aquelas interpretações eram sócio-construídas. Odiava ouvir a palavra Deus numa aula de Yoga. Eu estava com medo. Tinha que ir la. Aos poucos, fui parando, parando, parando.

Em fevereiro, depois de passar o mês viajando, liguei para minha mãe. Estava conversando com ela, quando de repente, perdi minha fala. Nao perdi o discurso mental. So não fui capaz de articular. Foi travando. Travando. E eu fiquei nervosa. E soube imediatamente " É meu cérebro! Eu não posso mais fingir que nada está acontecendo." Meus pais, mandaram me para o aeroporto imediatamente, e 4 horas depois eu ja estava voando. Na manha seguinte internada."

De fato eu estava com uma anomalia. Não se sabia o que era. A minha perda de fala era uma crise parcial epilética. Façamos então todos os exames. Assim que eu entrei no hospital perdi o medo. Façamos então. Não adianta ficar evitando. Meu Yogi me ligou e disse o que ele já tinha dito antes, que achava que meu sistema imunológico estava lutando contra meu cérebro. Parecia sintomas de Esclerose Múltipla. As explicações dele eram é claro esotéricas.

Fiquei 11 dias internada. Depois de tudo que é tipo de exame, meu neurologista, um homem da ciência, contou me que eu tinha inflamações. Perda de mielina. Como isso acontece ? Era o meu sistema imunológico que lutava contra mim. Por que? Não havia respostas medicas muito claras. Se isso se repetisse seria uma doença cronica, eslcerose multipla, se nao, teria sido uma versão aguda, também sem muita explicação.

Eu nao quero dizer aqui, que eu acho que os médicos não sabem o que dizem. Nem que eles não tenham me ajudado muito. Nem encorajar alguem a não ir no medico. Cada caso é um caso. Aqui eu só posso dizer do meu caso. Do que significou para mim ouvir o medico me dizer que o meu sistema imunológico estava lutando contra o meu cérebro. Para mim, foi como olhar as pinturas da minha amiga marroquina. Foi como se o evento em si transcendesse tudo. Não me importava qual era a explicação cientifica, o fato de não existir uma explicação muito concreta. Para mim foi o momento que dentro de mim aconteceu um clic. Um clic de responsabilidade.

"Meu deus, como é que o meu corpo luta contra o meu corpo? O que é que está errado." E não precisou de quase nenhum segundo para eu perceber quão infeliz eu era. Não que ninguém me fizesse infeliz. Não que houvesse alguma tragédia na minha vida. Simplesmente, observei com eu tinha abandonado aos poucos o sentir. Como eu tinha amputado tudo que eu sou, meio por acaso. Como eu não ria. Como eu não tocava. Como eu não fazia nada. Como eu na verdade acordava todos os dias sem um propósito. Como eu estava esperando os dias passarem. E pronto.

Para mim foi um momento de mudança, pois eu decidi dentro de mim que não importava o que custasse que eu iria me buscar. Buscar o que era me sentir viva. Com o corpo todo. Que eu não ia abandonar o meu cérebro, mas usa-lo ao meu favor e não para criticismo a toa. Ali no Hospital eu comecei a mudar.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

II

Naquela noite, tive um choque na mão. NãO sabia o que era. Eu estava dormindo. Isto aconteceu um dia antes de eu voltar para Londres. Já em Londres fui ao medico que me pediu para ir ao Hospital. Fui. Depois da tomografia, uma senhora com cara de pesar, me pediu para dormir no hospital. Havia uma anomalia no meu cérebro. "Uma o que? Como assim? Onde. Eu sei tanto sobre o cérebro?!?!?!? Meu marido é neuro-cientista. Como assim??? Como assim??" Sem respostas. Fiquei. No dia seguinte, eu devia fazer a Ressonância Magnética. Fiz. A "anomalia" se confirmava. Eu teria agora que fazer uns outros exames. Uma punção lombar. Ou seja, retirar um liquido da minha espinha. Não. Eu não queria. Não queria fazer de jeito nenhum. Entendam eu não estava com medo de morrer, de ter tumor. Eu estava com medo do exame! E portanto, resolvi que ia embora. O medico desesperado me explicando que era importante, eu fazendo perguntas e mais perguntas. Eles poucas respostas.

E eu pensei dentro de mim " O que é que eu posso fazer." Dentro das minhas possibilidades eu só via uma. Eu queria ir embora do Hospital e ignorar tudo! O que eu podia fazer. Onde eu podia encontrar essa saída?? De repente ficou claro, como ateia militante o meu único caminho era abandonar meu ateísmo. O único jeito que podia abandonar o caminho cientifico era substitui-lo por outro. No entanto, é importante perceber, que eu não o fiz porque eu estivesse de repente sentindo algo dentro de mim. Eu o fiz para fugir do meu medo. E como eu descobriria mais tarde: isso não da certo.

Sai do Hospital. E liguei para um único amigo meu espiritualizado. Ele, por coincidência ou sincronicidade, depois de 7 meses sem vir a Londres estava vindo para o encontro do Ashram da Yoga que ele frequentava. Perguntou-me se eu queria ir. Não hesitei. Cheguei e em pouco tempo o "líder" da casa veio falar comigo. Tivemos uma conversa de 3 horas. Onde ele só de me olhar me resumiu. Disse que eu tinha que mudar, que eu estava me sabotando. Falou de coisas que eu achava pouco cientificas. Debateu as comigo. Discutimos. E eu estava tão disposta a aceitar qualquer coisa que disse a ele " Diga-me o que fazer." Ao que ele respondeu " Vá fazer o exame. O que esta manifestado no orgânico precisa ser lidado no orgânico. Para as causas estruturais volte aqui. Comece a fazer Yoga. " Eu já fazia Yoga ha anos. Não entendia como isso poderia possivelmente mudar alguma coisa. Disse a ele, que não voltaria ao medico. E ele foi categórico. " Julieta, Não adianta você mudar tudo a sua volta. A mudança tem que ser interna. Enfrente os seus medos."

quarta-feira, janeiro 14, 2009

I

Como a Charo me deixou uma mensagem muito delicada, perguntando se eu tinha estado doente, resolvi responder em forma de post. Não é exatamente que eu tenha evitado fazer isso, mas é que durante todo o processo do que aconteceu eu fui escrevendo e tinha a impressão que fosse claro. Vou escrever por partes. Pois o que aconteceu, que alias hoje eu considero uma benção, nao pode ser contado assim em uma frase. Bom quer dizer, pelo menos não por mim :) Então, lá vai. Eu vou começar de quando começou para mim. Que é claro, no simbólico.

Há um pouco mais de um ano atras eu fui para o Marrocos. Viagem que eu esperava ha anos. Lugar de onde tenho amigos queridos. Pessoas que de diversas maneiras foram muito importantes para mim. So que quando eu fui para o Marrocos eu já não era a mesma pessoa que tinha sido quando tinha conhecido esses amigos. Eles me conheciam carregando um violão, eu cheguei la achando que arte era uma perda de tempo. Que tudo que não fosse politico, que não fosse justo, que no fosse preocupado com resolver a desigualdade do mundo não tinha valor. Não sei direito como fui parar nisso, mas foi entre abandonar musica, me perder na antropologia e enveredar na politica internacional. Cheguei la, vivendo no meu cérebro. So no meu cérebro.

Deparei-me com minha amiga, pintora, linda, que veio me buscar de tomara que caia no aeroporto. Fiz analises sobre como as classes baixas e altas nunca seguem as regras da sociedade. Observei os rituais. Tive conversas intelectuais, e me senti muito bem com isso. E eu fiquei la no Marrocos 35 dias. 20 deles sozinha. Participei do Ramada, peguei trem, camelo, andei a pé, charrete, carro, e tudo que é meio de transporte. Quando depois de ter estado em muitos lugares voltei para casa da minha amiga. Vi seus quadros. Levou uns 20 dias para eu VE-LOS.

Eram corpos que se soltavam das telas. E eu tendo viajado naquela sociedade. Sentido a coerção e coesão social. A contenção, a tensão. A aflição. O nervosismo. Quando eu voltei e olhei para os quadros eu senti uma coisa arrebatadora dentro de mim. Aquelas imagens transcendiam tudo. Transcendiam o politico, o real, o concreto. Aqueles quadros não precisavam de palavras ou analise para ir no amago. Eu olhei. Olhei. Olhei sentindo me arrebatada por dentro. Pequena. Tola. Sem palavras. E talvez tenha sido ai, que tudo começou.

domingo, janeiro 11, 2009

Das Idas E Vindas

Um mês no Brasil. Em algumas horas volto para Londres. Mais uma estadia que se encerra. E com meus amigos que partem da casa, com as risadas que ficam, com os abraços apertados fica um pedaço meu. Difícil. Difícil voltar para Londres. Era para eu já estar acostumada, com todas essas idas e vindas, e eu sei que assim que chegar em Londres e encontrar todos aqueles que fazem parte de mim lá, tudo volta a fazer sentido. Agora não. Agora eu sinto a vontade de ficar aqui. De falar com minha prima com quem não falei o suficiente, de trocar mais palavras com o amigo silencioso, de abraçar mais o que saiu cedo, de ouvir mais estorias de todos. Agora que eles todos partiram de mais uma festa de despedida minha, mais uma das muitas festas de despedida nesses últimos 8 anos, fica um vácuo. O vácuo de quem queria mante-los todos aqui. De quem queria ficar.

Essa temporada foi profunda. Eu estive no médico, e pude ver toda aquela mudança que eu já sentia no meu corpo materializada ali na minha ressonância magnética. Todo aquele ano que vocês que aqui estiveram bem conhecem produziu em mim uma recuperação espantosa. E eu que já a sentia, já a intuía, ao vê-la num exame médico chorei. Em celebração a vida dancei. Dancei a noite toda. Busquei resolver estórias mal resolvidas. Viajei, encontrei com um amigo querido que há tempos não via. Fui a praia, subi arvore, cachoeira, fiz yoga, karaoke, nadei, toquei violão, cantei. Fui ao samba no Rio. Encantei-me com a musica, com o musico, com os que cantavam, encantei-me comigo. Com quem sou. Com o que voltei a ser.

Então eu sento aqui, nessa madrugada tendo fechado a porta para os últimos convidados. E no anseio de manter tudo isso comigo escrevo. São tantas essas pessoas que amo, que chega a ser espantoso.Como são belas... Não quero partir. Já não entendo como é que vivo sem elas? Mas eu sei que é tolice, e claro que eu não vivo sem elas. Elas são sempre parte de mim. Agora eu só sei disso mentalmente, meu corpo mesmo ainda não se lembrou. Mas logo logo ele se lembra. Ele lembra quando eu encontrar as pessoas que eu amo no outro lado do Atlântico. Mas agora não precisa, agora ainda não.