Ontem, aconteceu uma coisa muito engraçada. Sai de casa com minha prima para encontrar uma amiga la na beira do Tamisa. Depois de um certo desencontro, certo stress e de nos perdermos um pouco, resolvemos caminhar ao inves de ir ao ta bar. Começamos a caminhar, em direção a ponte de "vauxhall" ( não sei se esse e o nome da ponte), e quando estávamos quase chegando perto dela para cruzar para o lado norte de Londres, fomos abordadas por um senhor.
O senhor estava vestido de terno muito alinhado, xadrez, em vários tons de verdes, lenço no bolso, e falava com alguem pelo telefone. Achamos que queria uma informação e paramos. Ele para la de galanteador, quis saber de onde eramos. Contei que eramos brasileiras, e ele me pediu para " educa-lo" sobre o brasil. Naturalmente, ele nao esperava que eu fosse responder seriamente, pois assim que comecei a contar um pouco sobre a historia e colonização do brasil ele mudou o assunto para a beleza das brasileiras. Minha prima, queria fugir na primeira rua, mas eu como sempre, achei que o coitado devia ser solitário e resolvi ficar conversando com ele, ou melhor deixando ele falar.
E ele foi falando, teatralmente, tirou um lenco do paleto, fingiu umas lagrimas de emocao.. e eu tentando nao rir, e ao meu lado a minha prima estava absolutamente muda. De repente ele me perguntou por que eu falava ingles bem, e quando eu respondi que tinha estudado no eua, ele quis saber o que. Contei que era antropologia, e ele mais uma vez me pediu para"educa-lo". O que significava a palavra? Eu nesse momento ja me sentindo na pegadinha do faustao expliquei que antropologia, queria dizer estudo do homem. Uma ma escolha de palavras pois o velho, respirou fundo, com enorme prazer tirou um lenco branco, deu uma girada nele e disse " perfeito porque eu sou homem!". Tentei explicar que eu queria dizer humanidade mas a essa altura o homem que de comeco nao era dos mais contidos se liberou de vez. E ele ia falando, e ia abordando a minha prima que timida por natureza permanecia muda, e eu ia tentando guinar a conversa para uma coisa seria. naturalmente sem exito.
Quando chegamos quase no meio da ponte ele interrompeu o que eu dizia para dizer que tinha conhecido muitas pessoas que ja tinham pulado daquela ponte naquele lugar. "Pronto", disse minha prima, "ou ele pula, ou ele nos joga". Eu estava mais confiante, afinal ele era velho, como ele mesmo nao deixava de lembrar, tinha 73 anos, bem vividos, uma curiosidade de vida, uma vontade de viver. As pessoas, que passavam por nos iam nos olhando intensamente, o que faz com que eu pense que ele talvez seja uma lenda viva daquela regiao. Quando perguntei seu nome, ele me disse " no underground eu sou conhecido como o wizzard" e fora dele perguntei eu? " freddie". E porque Wizzard? " Por que eles querem saber como eu faco dinheiro". Eu naturalmente nao fiz questao de saber, mesmo porque a esta altura estavamos chegando do outro lado da ponte. E ele de repente tentou nos beijar. Um beijo no dedo dele, meio melado, vindo em minha direcao e eu disse que nao. Ele tentou tocar o dedo na minha prima que desesperadamente resistiu. Ele foi ficando tao insistente, que quando passaram 3 garotos do meu lado, agarrei- me a eles e pedi que por favor nos salvassem. O wizzard ficou parado no sinal. do outro lado da rua, como uma pintura, um dom juan meio decrepito.. E ele dizia insistentemente, "it is fate, we were meant to meet!!! It is god who put us together!!!!
Virei para agradecer o meus salvadores e vi que eles carregavam no peito um placa escrita jesus cristo. Nao quis perguntar nada, mas logo eles se identificaram como missionarios. Pergunta vai, pergunta vem, e eles vinham de Utah, e eu nao pude conter minha curiosidade " Mormons?" Sim! Tirou um cartao e me entregou. Eram gentis, mas a Ironia era tamanha que eu tive que me controlar para nao rir. Se o Wizzard tinha razao e foi deus que o colocou no nosso caminho, quem sera que mandou os mormons para nos salvar?
And herein lies the tragedy of the age:not that men are poor,.. all men know something of poverty;not that men are wicked,.. who is good? Not that men are ignorant,..what is the thruth? Nay, but that men know so little of man. W.E.B du Bois (The souls of Black Folk)
quarta-feira, julho 30, 2008
sábado, julho 26, 2008
A vida
Eu sei que faz muito tempo que eu não escrevo mas são tantas as coisas que tem acontecido, que quando eu penso em escrever fico sem saber no que focar. Mal de quem passa muito tempo sem falar nada :) No entanto, esse período de digestão dos meus sentimentos talvez tenha sido importante. Minha avó, tias, e prima estão aqui em Londres, eu estive na Grécia por 10 dias com elas na semana passada, estou indo para Romenia na próxima semana, e desisti de ir a India e ao Nepal em setembro. Não por falta de vontade, mas por não poder fazer tudo já que eu escolhi ir para a Romênia passar o mês num acampamento de Yoga. E tem Yoga na Romênia?? Tem. E eh sobre isso que eu quero escrever hoje. Sobre o acampamento de Yoga na Inglaterra onde fui passar uma semana faz mais ou menos um mês.
Eu decidi ir a este tal acampamento no ultimo minuto. Tinha tido uma semana difícil, ou melhor, um ano cheio de reviravoltas, e quando eu angustiadíssima liguei para o meu professor de Yoga ele me perguntou porque eu não me juntava a eles no acampamento de Yoga. Eu nem sabia do acampamento, fazia tempos que nem estava indo a Yoga, mas eu estava tao desesperada que aceitei na hora, aceitei embarcar numa viagem no dia seguinte. Depois de horas de mudança de opinião, as 11:30 da noite do Domingo ficou decidido que eu iria para o Ashram no dia seguinte as 7 da manha.
Eu acordei nervosa, ansiosa, perdida, e sem vontade de ir. Tinha medo de me sentir totalmente fora de lugar, presa sem acreditar em nada, num lugar cheio de pessoas diferentes de mim. Coloquei minha mochila nas costas, e decidi que iria, assim como se fosse fazer trabalho de campo, como se fosse para uma experiencia antropológica.
Eu me juntei ao acampamento de yoga e meditação não inteiramente aberta a ele, mas tambem nao totalmente fechada. Eu fui meio assim por acaso e logo no primeiro dia algo aconteceu. Eu que sempre analiso rituais, simbolismos, comportamento social, talvez na tentativa de me afastar do evento, eventualmente me abandonei. Isso aconteceu num momento que dançamos juntos de olhos fechados. Eu dancei e enquanto eu dançava, e sentia as pessoas a minha volta, eu transbordei em lagrimas, em "energia" que eu não conseguia entender. Pela primeira vez nem tentei. E de repente, eu senti como se estivesse reencontrando com partes minhas que eu tinha perdido em algum lugar.
Aos poucos eu fui sendo reapresentada a criança, a mulher, a artista, a musicista etc.. Elas estavam la, mesmo eu tendo lutado tao fortemente contra elas, elas continuavam la, pedindo para sair, para respirar, para vir a tona. E eu percebi que eu nem sabia quando, ou como, ou por que eu tinha resolvido ser um dia apenas a cientista social. Eu tinha por alguma razao rejeitado a tudo que eu sou sem nem saber direito o porque. E de repente, me pareceu tao claro o porque eu tinha ficado doente. O porque eu tinha lutado organicamente contra meu cerebro. E eu senti a musica em mim, em cada celula, assim como eu nao havia sentido em muito tempo. Eu senti a perfeicao daquilo tudo, o ritmo, a harmonia, um total sentido.
Os dias que se seguiram foram importantes, as meditacoes, as sessoes de Yoga, a vida comunal, mas eu guardo o primeiro dia como o mais importante. Durante a semana, eu tive todos os tipos de pensamentos, experiencias, sentimentos, e no final eu me senti como se tivesse completado um circulo. Eu tinha comecado a constuir uma pontezinha entre as partes tao segregadas de mim.
Eu eu mudei em muitos aspectos e mudanca nao e sempre tao facil. Eu continuo me sentindo espantada com todas essas coisas novas dentro de mim que eu nao entendo direito. Eu sinto um amor enorme pelas pessoas a volta. Eh claro que eu ainda analiso muito, ainda tenho muitas duvidas. No entanto, eu sinto que o acampamento de yoga, foi o apice de um processo que comecou um ano atras com a minha doenca, e de ser apresentada ao Yoga como caminho e nao apenas posturas. O acampamento foi parte desse acordar, desse "wake up call" para me trazer de volta a viver a vida, porque enquanto eu ficava so assistindo e analisando eu estava aos poucos matando tudo o que eu sou.
Eu decidi ir a este tal acampamento no ultimo minuto. Tinha tido uma semana difícil, ou melhor, um ano cheio de reviravoltas, e quando eu angustiadíssima liguei para o meu professor de Yoga ele me perguntou porque eu não me juntava a eles no acampamento de Yoga. Eu nem sabia do acampamento, fazia tempos que nem estava indo a Yoga, mas eu estava tao desesperada que aceitei na hora, aceitei embarcar numa viagem no dia seguinte. Depois de horas de mudança de opinião, as 11:30 da noite do Domingo ficou decidido que eu iria para o Ashram no dia seguinte as 7 da manha.
Eu acordei nervosa, ansiosa, perdida, e sem vontade de ir. Tinha medo de me sentir totalmente fora de lugar, presa sem acreditar em nada, num lugar cheio de pessoas diferentes de mim. Coloquei minha mochila nas costas, e decidi que iria, assim como se fosse fazer trabalho de campo, como se fosse para uma experiencia antropológica.
Eu me juntei ao acampamento de yoga e meditação não inteiramente aberta a ele, mas tambem nao totalmente fechada. Eu fui meio assim por acaso e logo no primeiro dia algo aconteceu. Eu que sempre analiso rituais, simbolismos, comportamento social, talvez na tentativa de me afastar do evento, eventualmente me abandonei. Isso aconteceu num momento que dançamos juntos de olhos fechados. Eu dancei e enquanto eu dançava, e sentia as pessoas a minha volta, eu transbordei em lagrimas, em "energia" que eu não conseguia entender. Pela primeira vez nem tentei. E de repente, eu senti como se estivesse reencontrando com partes minhas que eu tinha perdido em algum lugar.
Aos poucos eu fui sendo reapresentada a criança, a mulher, a artista, a musicista etc.. Elas estavam la, mesmo eu tendo lutado tao fortemente contra elas, elas continuavam la, pedindo para sair, para respirar, para vir a tona. E eu percebi que eu nem sabia quando, ou como, ou por que eu tinha resolvido ser um dia apenas a cientista social. Eu tinha por alguma razao rejeitado a tudo que eu sou sem nem saber direito o porque. E de repente, me pareceu tao claro o porque eu tinha ficado doente. O porque eu tinha lutado organicamente contra meu cerebro. E eu senti a musica em mim, em cada celula, assim como eu nao havia sentido em muito tempo. Eu senti a perfeicao daquilo tudo, o ritmo, a harmonia, um total sentido.
Os dias que se seguiram foram importantes, as meditacoes, as sessoes de Yoga, a vida comunal, mas eu guardo o primeiro dia como o mais importante. Durante a semana, eu tive todos os tipos de pensamentos, experiencias, sentimentos, e no final eu me senti como se tivesse completado um circulo. Eu tinha comecado a constuir uma pontezinha entre as partes tao segregadas de mim.
Eu eu mudei em muitos aspectos e mudanca nao e sempre tao facil. Eu continuo me sentindo espantada com todas essas coisas novas dentro de mim que eu nao entendo direito. Eu sinto um amor enorme pelas pessoas a volta. Eh claro que eu ainda analiso muito, ainda tenho muitas duvidas. No entanto, eu sinto que o acampamento de yoga, foi o apice de um processo que comecou um ano atras com a minha doenca, e de ser apresentada ao Yoga como caminho e nao apenas posturas. O acampamento foi parte desse acordar, desse "wake up call" para me trazer de volta a viver a vida, porque enquanto eu ficava so assistindo e analisando eu estava aos poucos matando tudo o que eu sou.
domingo, maio 18, 2008
Fora de Casa
Conheci uma pintora esses dias. Uma pintora Iraniana. "Pintora mesmo!" meu amigo me disse ao apresentá-la. Irã que para mim é tão querido, por seus filmes, historia, e pelas pessoas que eu conheci de la. Uma delas, em particular, que me faz muita falta é a minha amiga Sara.
Conheci a Sara, anos atrás quando eu ainda morava e estudava em NY. Se eu nao me engano, foi dentro de um trem, eu conversava em francês com minha roomate, e ela nos abordou pois adorava francês. Por coincidência, estudávamos na mesma faculdade, ela jornalismo e francês, e eu cinema e musica. Hoje ela volta a Columbia para estudar cinema, e eu que me formei em antropologia e politica Internacional, vou me meter na área de antropologia do aprendizado e da cognição, aqui em Londres na LSE.
Não demorou nada para eu me apaixonar por aqueles olhos azuis cor de piscina e toda aquela intensidade Iraniana. E em pouco tempo ficamos muito amigas. Junto de uma americana de igual sensibilidade, e uma chinesa de total leveza formamos um grupo de encontros. Fazíamos diversos jantares, que terminavam em infidáveis conversas que se passavam em todos os continentes.
Me lembro perfeitamente, de quando a Sara nos contou de sua saída e volta ao Iran. A revolução já tinha acontecido, a Sara ainda criança, lembrava de homens com armas fora do portão de casa. Ela ja não podia brincar na rua, e a família ia sobrevivendo como podia. Um dia, se nenhum aviso, a mãe a acordou e disse que eles estavam indo embora.Ela não sabia para onde, e provavelmente nem porque. Saíram, assim como muitos outros, fugidos, carregando o que podiam e se tornaram umas das muitas famílias Iranianas espalhadas pelo mundo.
Depois de muitos anos, voltou. E a casa ainda estava la. Igualzinha. Tudo no mesmo lugar, a cama desarrumada, os objetos no chão, o dinheiro já sem valor na parede. O mundo ruíra la fora, na casa tudo continuava o mesmo, com um pouco de poeira, mas tudo no mesmo lugar. Ela não, ela já não podia viver mais lá.
Eu nunca vou me esquecer da intensidade daquele momento, de entrar assim na memoria de uma outra pessoa, de enxergar as rugas no lençol. De por um segundo dividir um mundo a parte, num momento tao forte como o de ser expulso da sua própria casa.
E nesses 60 anos de Israel, eu tenho que pensar nisso. Na violência que é arrancar alguem do seu lugar. Não só do seu lugar físico que para um materialista representa a base da cultura, mas de arrancar alguem do seu lugar social. Lugar onde a pessoa se define por suas relações. Mais difícil ainda é para os que nascem nesse "limbo" ( fora do lugar de onde se julgam de origem), presos entre a idéia de uma passado perfeito e inexistente, e um presente inaceitável.
Eu e a pintora, trocamos e-mails, eu vi seus quadros e me encantei. E ela me escreveu naquela intensidade da Sara de quem aprecia os pequenos momentos do dia. No meio do e-mail me perguntou, quanto tempo eu ficaria em Londres. Se eu estava de passagem. E eu entendi, pois tendo morado em muitos países também sinto o mesmo medo. Medo de ser arrancada da minha casa, não da casa física, mas da social. Dessa que me define como pessoa. Ser arrancada e levada para um outro lugar onde de repente sou menos. Sem relação com o outro acabamos não sendo ninguém.
Conheci a Sara, anos atrás quando eu ainda morava e estudava em NY. Se eu nao me engano, foi dentro de um trem, eu conversava em francês com minha roomate, e ela nos abordou pois adorava francês. Por coincidência, estudávamos na mesma faculdade, ela jornalismo e francês, e eu cinema e musica. Hoje ela volta a Columbia para estudar cinema, e eu que me formei em antropologia e politica Internacional, vou me meter na área de antropologia do aprendizado e da cognição, aqui em Londres na LSE.
Não demorou nada para eu me apaixonar por aqueles olhos azuis cor de piscina e toda aquela intensidade Iraniana. E em pouco tempo ficamos muito amigas. Junto de uma americana de igual sensibilidade, e uma chinesa de total leveza formamos um grupo de encontros. Fazíamos diversos jantares, que terminavam em infidáveis conversas que se passavam em todos os continentes.
Me lembro perfeitamente, de quando a Sara nos contou de sua saída e volta ao Iran. A revolução já tinha acontecido, a Sara ainda criança, lembrava de homens com armas fora do portão de casa. Ela ja não podia brincar na rua, e a família ia sobrevivendo como podia. Um dia, se nenhum aviso, a mãe a acordou e disse que eles estavam indo embora.Ela não sabia para onde, e provavelmente nem porque. Saíram, assim como muitos outros, fugidos, carregando o que podiam e se tornaram umas das muitas famílias Iranianas espalhadas pelo mundo.
Depois de muitos anos, voltou. E a casa ainda estava la. Igualzinha. Tudo no mesmo lugar, a cama desarrumada, os objetos no chão, o dinheiro já sem valor na parede. O mundo ruíra la fora, na casa tudo continuava o mesmo, com um pouco de poeira, mas tudo no mesmo lugar. Ela não, ela já não podia viver mais lá.
Eu nunca vou me esquecer da intensidade daquele momento, de entrar assim na memoria de uma outra pessoa, de enxergar as rugas no lençol. De por um segundo dividir um mundo a parte, num momento tao forte como o de ser expulso da sua própria casa.
E nesses 60 anos de Israel, eu tenho que pensar nisso. Na violência que é arrancar alguem do seu lugar. Não só do seu lugar físico que para um materialista representa a base da cultura, mas de arrancar alguem do seu lugar social. Lugar onde a pessoa se define por suas relações. Mais difícil ainda é para os que nascem nesse "limbo" ( fora do lugar de onde se julgam de origem), presos entre a idéia de uma passado perfeito e inexistente, e um presente inaceitável.
Eu e a pintora, trocamos e-mails, eu vi seus quadros e me encantei. E ela me escreveu naquela intensidade da Sara de quem aprecia os pequenos momentos do dia. No meio do e-mail me perguntou, quanto tempo eu ficaria em Londres. Se eu estava de passagem. E eu entendi, pois tendo morado em muitos países também sinto o mesmo medo. Medo de ser arrancada da minha casa, não da casa física, mas da social. Dessa que me define como pessoa. Ser arrancada e levada para um outro lugar onde de repente sou menos. Sem relação com o outro acabamos não sendo ninguém.
sexta-feira, maio 09, 2008
Onde Andaras?

Estava colocando fotografias on-line, quando de repente me deparo com uma foto de um amigo, desses de viagem, com quem subi o Wayna Pichu. Como eu já escrevi aqui antes, fui a Bolívia por causa da Vesna, fui junto do meu amigo Sho, mas como ele tinha menos tempo do que eu para viajar nos separamos no terceiro dia já em La Paz ( depois da saga Santa Cruz- La Paz by bus). Sho desceu rumo ao Salar do Uyuni no Sul da Bolívia, e eu decidi cruzar a fronteira para o Peru.
Fui sozinha, e mais uma vez fui enganada pela companhia do ônibus que me prometera um ônibus que não existia. Aquela velha estoria, eu queria um ônibus com banheiro, a mulher me garantiu que tinha, e naturalmente não existia. A esta altura eu já tava acostumada. Viajei do lado de um Sueco que tinha estado nos lugares mais inóspitos do mundo. Dentre eles Afeganistão ( onde ele inclusive havia sido preso aos 18), Ruanda e Burundi (onde ele pagou o exercito para poder viajar e ter mais "segurança"),e mais alguns outros lugares de que já nem me lembro mais. O cara era muito simpático, e dentre as pessoas que eu conheci continua sendo ate hoje o viajante que esteve em mais países.
Acabei chegando na rodoviária de Cuzco muito mais tarde do que eu imaginava. A chegada inesquecível, com um monte de vendedores, e agentes de turismo gritando a toda altura para tentar te convencer a ir com eles. Eu, preparada, ja tinha reservado minha pousada, e deveria estar sendo aguardada. E claro que não os encontrei. A essas alturas, depois de um monte de horas em um ônibus desconfortável, resolvi correr um risco, resolvi ir com uma agente dessas gritantes. Escolhi uma mulher que eu achei de cara confiável e fui. A mulher de quem tbm já não me lembro o nome era ótima, e acabou meu ajudando em tudo que eu precisei.
No dia seguinte, resolvi ir conhecer o vale sagrado, peguei uma dessa excursões, e levei comigo dinheiro mais do que necessário para passar o dia fora. Passeamos por lugares lindos, subimos e descemos ruínas, e mais ruínas, e eventualmente paramos num desses mercados peruanos. Eu nao sou nem um pouco consumista ( voltei do marrocos sem trazer nada!), nao gosto de fazer compras, mas fiquei encantada com as coisas do tal mercado. Acabei comprando um tapete ( que alias me salvou do frio na Bolívia mas isto eh uma outra estoria), e umas pinturas. Naturalmente, sem saber ainda muito bem a conversão, sem ter nenhum lugar que aceitasse cartão, acabei voltando para o ônibus sem nem perceber que estava sem nenhum tostão.
Quem me salvou foi uma senhora Peruana, que me deu ( quer dizer emprestou pq eu a encontrei para devolver no dia seguinte) dinheiro para comida, e para pagar a entrada de algum lugar. Mais tarde eu a reencontraria em Aguas Calientes onde ela mais uma vez agiria com um anjo da guarda para mim. Isto também fica para um outro post.
Enfim, o fato eh que eventualmente eu cheguei no Machu Pichu e conheci um bombeiro de brasília que me convenceu a subir com ele o Wayna Pichu ( montanha mais alta que fica ao lado do Machu Pichu). Ao passar pelo portão que nos levaria a montanha tivemos que assinar uma lista. So depois eu ficaria sabendo que era para conferir que ninguém tinha caido. Fomos conversando sobre musica, se nao me engano ele tocava trompete, sobre a viagem dele pela america latina, ele pretendia chegar ate a América Central. Ele bombeiro florestal, tinha chegado ao Macchu Pichu seguindo a linha do trem. Estava com os pés doloridos por causa das pedras, mas cada real economizado, seria um km a mais na sua viagem. Sei que subimos, ate a ultima pedra, e vimos la de cima o Machu Pichu. Vimos la de cima uma das mais belas vistas que eu já vi.
Sentamos, apreciamos a paisagem, mortos de sede, esperando que quem sabe uma Cholita aparecesse milagrosamente de algum lugar :) Depois disto nunca mais nos vimos. Nao me lembro o nome dele, ainda que esteja na ponta da língua, e ao ver essa foto hoje tive que pensar sobre isso. Como as coisas são inusitadas. As vezes dividimos momentos preciosos com perfeitos desconhecidos. E eh impressionante como esses momentos tornam desconhecidos mais próximos do que muitos próximos. Ainda que eu não me lembre o nome, ainda que infelizmente não tenhamos trocado e-mails, ainda que eu não saiba ate que pais ele chegou, eu olho para essa foto e sei que dividimos esse momento. Olho e sei que ele esta la. Sei que na fotografia dele eu estou, como a invisível fotografa, de quem o nome ele talvez também nem se lembre. Olho e fico muito grata por ele ter insistido para que eu subisse ate la.
quarta-feira, abril 23, 2008
Pelo sul da Africa

Vesna está no sul da Africa. Falei com ela esses dias e ela já esta em Malawi. Vesna, minha amiga, de quem alias ja falei em muitos posts. Eslovena, que conheci na Ilha Grande no final da sua viagem de um ano pelo mundo. Meses depois, por sua recomendação, fui parar na Bolívia. Bolivia, que alias,continua sendo um dos lugares que mais gostei de conhecer. Quase um ano depois fui cumprir minha promessa feita em tom jocoso na Ilha grande, fui finalmente visita-la la na Eslovênia. Juntas fomos para Croacia, onde conheci sua tia Jelka de quem também tanto já falei.
Vesna, foi picada, pelo o que aqui chamam de travel bug. Depois de voltar para Europa trabalhou um pouco e foi para o Egito. Voltou, e foi para Israel e Jordânia. Ela que viajou sozinha India, China, indonésia, Egito achou a Jordânia difícil. Foi depois dessa viagem que nos encontramos aqui em Londres. Um ano depois de nosso primeiro encontro na Ilha Grande. Logo em seguida, fui visitá-la. Nunca vou me esquecer da estoria que ela contou durante a nossa viagem da Eslovênia a Croácia. Nos viajávamos de trem, e ela contava da rodoviária num vilarejo Jordano há alguns kms da fronteira de Israel. Rodoviária sem funcionários, sem avisos, sem horários e sem ônibus. So com um homem que queria levá-la de taxi ate Petra. Ela ficou. E esperou por 4 horas ate o ônibus, que ela nem sabia se existia, chegar.
Eu que dizia que Vesna já não podia mais me surpreender tive que morder minha língua quando há alguns meses recebo uma mensagem dela dizendo que ela ia a Africa. Para onde você vai?- pergunto. "Estou planejando entrar pelo Quênia e sair pela Africa Sul". E como você vai do Quênia a Africa do Sul? "Por terra". Sou tomada por uma grande emoção. Adoro viagens adoro ver o mundo. " Com quem?" . "Sozinha." Sou tomada por um misto de admiração e apreensão. Não digo nada, desejo boa sorte, pois eu sei que as estas alturas a decisão já foi tomada. Também sei que ela quase nunca vai estar sozinha, pois viajantes são assim, vão se juntando, se conhecendo pelo caminho, se reencontrando, e não importa quão cansativa, difícil tenha sido a viagem, assim que chegam em casa já começam a planejar a próxima saída.
segunda-feira, abril 14, 2008
A Massai Branca

Assisti esses dias o filme a Massai Branca. Na hora eu até gostei um pouco, pois achei a fotografia muito bonita, e afinal de contas não é toda hora que temos a chance de ver um guerreiro Samburu. Durante o filme, no entanto, eu tive uma sensação constante de desconforto. Antes de escrever sobre ela, vou falar um pouco sobre a estória do filme.
O filme é baseado na estória real, de uma suíça, que ao passar ferias no Kenya, se apaixona por um guerreiro Samburu. Ela abandona o namorado ( que está com ela no Kenya), a loja que ela tem na suíça e vai atrás do tal guerreiro. Depois de pegar um monte de ônibus, ela vai parar num vilarejo onde ela encontra um padre italiano, e uma outra mulher européia. A mulher também casada com um Kenyano explica a ela que se o guerreiro quiser, ele a encontra, que no Kenya a mulher espera. E é o que ela faz: espera até o guerreiro ir buscá-la. Então, eventualmente ela muda para tribo do guerreiro, e engravida. No total fica uns dois anos la antes de voltar meio que fugida para Suiça.
Em poucas linhas, essa é a estória do filme. Como eu já disse antes, eu tive sentimentos mesclados ao assisti-lo. A fotografia é bonita, o Kenya é lindo, as cores, as pessoas, e a tribo dos Samburu são fascinantes. O filme é bem manipulador, pois força ao espectador constantemente a visão dessa suíça. Tudo bem, a estória é escrita por ela.
No entanto, alguns aspectos me incomodam, alguns deles são: primeiro que obviamente o que ela sentiu pelo cara que ela viu um segundo não foi amor mas atração sexual que alias termina em pouquíssimo tempo quando ela o conhece mas já está grávida. Ate ai, tudo bem, todo mundo sente. O que me deixa um pouco incomodada é essa noção bem ocidental que temos direito a experimentar tudo. Muitas vezes sem levar em consideração as consequências para os outros.
O filme mostra o lado dela, o que ela sofreu, como foi difícil, e de fato, foi. O que me deixa bem decepcionada é o pouco crédito que é dado a tribo, que a recebe de braços abertos. Uma européia que acha todos os costumes deles meio bárbaros, e que quer mudar a maneira das pessoas se relacionarem como se ela estivesse em Zurich.
Para culminar o descaso total, ela basicamente rouba a filha do pai, mente para ele dizendo que vai passar ferias na Suiça, e vai embora. É claro que eu não estou dizendo que ela tinha que ficar la, nem nada disso. Eu só acho, que o filme é uma grande ´romantização´ ( como deve ser o livro), de uma estória na verdade de uma mulher meio egoísta e impulsiva. Que não mediu as consequências dos seus atos na vida dos outros em nenhum momento. O filme, a retrata como a grande aventureira que foi la, se apaixonou, ficou, e quando não deu mais partiu. Ta certo, é o lado dela. Para mim, pareceu um pouco mais aquela velha estória do ocidental que tem direito de fazer o que quer, e ir embora quando não quer mais. O guerreiro Samburu, a tribo, e todas as pessoas pessoas que se abriram, que a aguentaram, que tiveram de certa forma um membro da familia ( a filha) roubado, são quem pagam o preço. São os que aliás não têm nem seu nome escrito na capa do livro ou filme. Em vez de Samburu, ela escolheu a palavra Massai, um tribo relacionada aos Samburu mais conhecida mas distinta.
segunda-feira, março 31, 2008
Cinema, Aspirinas e Urubus

A minha primeira aula de antropologia, foi sobre as populações indígenas da América do Sul. Peguei meio por acaso, pois tinha conhecido o professor que a ensinava andando pelo jardim da faculdade. Gostei tanto, que no semestre seguinte me inscrevi em mais duas aulas dele. Uma delas era uma aula sobre documentários e filmes etnográficos.
Eu sempre gostei de cinema europeu, de fellini, truffaut, dos iranianos por isso achei que seria natural para mim esta aula. Não foi, logo no primeiro filme,achei difícil me focar. Percebi que me faltava a atenção, talvez maturidade, ou mesmo paciência. E dessas coisas que acontecem por acaso, assim que eu desisti eu comecei a achar cada vez mais interessante.
Os detalhes. A humanidade, não aquele discurso de filme que quer ser cult, mas o olhar perdido num cinema verite, ou detalhe posto numa cena, que no meio da correria do dia a dia nem percebemos. Comecei a gostar cada vez mais destes filmes liricos, humanos. E paralelamente comecei a desgostar daquela formula simples do cinema (primeiro cada um na sua, depois conflito e resolução) onde todo mundo se transporta e sai resolvido.
Meio como a musica que tem formulas cada vez mais repetitivas e simples. Tenho a impressão que sempre gostamos dos momentos de reconhecimento. Estes também acontecem em qualquer sinfonia, ou sonata, demoram mais do que na musica moderna, os temas vem meio modificados ou em outro tom, mas da um prazer enorme quando eles reaparecem. Parece-me no entanto que as pessoas parecem ter cada vez menos paciência. Menos paciência para esperar esses momentos, que de esperados se tornam tao belos e poéticos.
Fui assistir um dia desses o cirque de soleil. Gostei, eh impressionante mas eh muito. Achei demais. O James Thieree com 5 pessoas criou um espetáculo para mim, bem mais bonito. Um espetáculo que ainda conseguimos nos relacionar com quase tudo do que ta acontecendo.
Este meu texto de pura divagação era para falar do filme Cinema, Aspirinas e Urubus, que eh lindo. Com momentos absolutamente plásticos e tocantes. Quando fui aluga-lo perguntei se o filme era bom. O moco me olhou serio e disse, 'olha eh parado então eh meio chato ne ?'
terça-feira, março 25, 2008
Bom tempo
Estou bem. A todos que mandaram energias, pensamentos muito obrigada! Estou bem. Me sinto bem assim como me senti todos os dias antes, todos os dias no hospital, e todos os dias depois. Quer dizer, tirando o intervalo de uma reação alérgica que tive a um remédio. irônico, eu que ja odeio remédios halopaticos, tive sintomas muito piores por causa do remédio do que da minha pequena, muito pequena, convulsão parcial.
Me sinto bem e eu já fui para Gonçalves no sul de Minas passar a pascoa. Subi montanha, fiz horas de Yoga, entrei em cachoeira gelada e ate assisti Indiana Jones. Alias como e racista aquele começo de filme. Com os índios todos terríveis, e o americano bom, professor de arqueologia indo ROUBAR artefatos!!! Enfim. Para não falar nos outros estereótipos.. alemães, árabes etc..
Em busca de bons tempos, coloco aqui um vídeo gravado em Marrakech por minha amiga Mounia. Um video de mim, enrolando tragicamente em Bom Tempo do Chico. Mas em busca de bons tempos, e na celebração da minha decisão de voltar a musica, eu celebrarei tbm os meus erros :)
Me sinto bem e eu já fui para Gonçalves no sul de Minas passar a pascoa. Subi montanha, fiz horas de Yoga, entrei em cachoeira gelada e ate assisti Indiana Jones. Alias como e racista aquele começo de filme. Com os índios todos terríveis, e o americano bom, professor de arqueologia indo ROUBAR artefatos!!! Enfim. Para não falar nos outros estereótipos.. alemães, árabes etc..
Em busca de bons tempos, coloco aqui um vídeo gravado em Marrakech por minha amiga Mounia. Um video de mim, enrolando tragicamente em Bom Tempo do Chico. Mas em busca de bons tempos, e na celebração da minha decisão de voltar a musica, eu celebrarei tbm os meus erros :)
terça-feira, março 04, 2008
A vida
Faz hoje exatamente 1 semana que eu sai do Hospital. Sai bem, e no dia seguinte já fui fazer Yoga. Achei que depois de 10 dias meio que numa cama, ia ficar cansada, mas não, foi tudo tranqüilo. Ainda bem.
Neste post no entanto, não quero falar nem em doença, nem no meu processo de cura, mas da vida. Sexta passada, acordei e vim tomar cafe da manha para descobrir que minha prima que tinha trabalhado um dia antes, e estado comigo na tarde anterior com sua barriga enorme, tinha ido para a maternidade. Fui tomada por uma emoção sem limites. Claro que eu já tinha estado perto de outras gravidas, ja tinha me emocionado antes, mas saber que a minha prima estava na maternidade me arrebatou.
Liguei la, não queria ser um incomodo, mas o marido dela, disse que eu podia ir para la se quisesse. Sai correndo, queria vê-la antes de ir para a cesária. A cesária tava marcada para as 9, cheguei as 8:58. Corri, e cheguei a tempo, mesmo pq ela so foi mesmo para a sala as 10:30.
Minha prima uma rocha, muito diferente de mim que estaria gritando e reclamando. ela não. austera, controlada, com contrações a cada 2 minutos, fazia as vezes umas caretas. não muitas. E de repente ela foi, com minha tia que queria muito assistir ao parto. E eu fiquei do lado do de fora, com o pai, calmo. mais que calmo que eu umas mil vezes. Ficamos aguardando, o que se sabe que vai dar certo, mas ansiosos mesmo assim.
E de repente fomos chamados, na porta e através do vidro, vimos, eu e o pai, aquelas 3 pequeninas deitadas de toquinha. E a vida ela eh arrebatadora, porque ali na sua forma mais frágil e forte sai derrubando tudo e todos pela frente.
Minha prima, que viveu sempre para ser discreta, teve num ano bissexto, no dia 29 de fevereiro três lindas meninas.
Neste post no entanto, não quero falar nem em doença, nem no meu processo de cura, mas da vida. Sexta passada, acordei e vim tomar cafe da manha para descobrir que minha prima que tinha trabalhado um dia antes, e estado comigo na tarde anterior com sua barriga enorme, tinha ido para a maternidade. Fui tomada por uma emoção sem limites. Claro que eu já tinha estado perto de outras gravidas, ja tinha me emocionado antes, mas saber que a minha prima estava na maternidade me arrebatou.
Liguei la, não queria ser um incomodo, mas o marido dela, disse que eu podia ir para la se quisesse. Sai correndo, queria vê-la antes de ir para a cesária. A cesária tava marcada para as 9, cheguei as 8:58. Corri, e cheguei a tempo, mesmo pq ela so foi mesmo para a sala as 10:30.
Minha prima uma rocha, muito diferente de mim que estaria gritando e reclamando. ela não. austera, controlada, com contrações a cada 2 minutos, fazia as vezes umas caretas. não muitas. E de repente ela foi, com minha tia que queria muito assistir ao parto. E eu fiquei do lado do de fora, com o pai, calmo. mais que calmo que eu umas mil vezes. Ficamos aguardando, o que se sabe que vai dar certo, mas ansiosos mesmo assim.
E de repente fomos chamados, na porta e através do vidro, vimos, eu e o pai, aquelas 3 pequeninas deitadas de toquinha. E a vida ela eh arrebatadora, porque ali na sua forma mais frágil e forte sai derrubando tudo e todos pela frente.
Minha prima, que viveu sempre para ser discreta, teve num ano bissexto, no dia 29 de fevereiro três lindas meninas.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
10 dias no Hospital
Estou no Hospital faz 10 dias. Estar no hospital nem eh tao ruim assim. Em outubro um dia antes de voltar do Marrocos, senti um choque na mão. senti de novo no avião, em casa e ai acabei indo ao hospital. La chegando achando que eu tinha uma nervo pinçado me fizeram ir fazer uma tomografia. Saindo da tomografia ainda tranqüila, vi o neurologista chegando com cara de pesar e me informando que eu tinha uma assimetria no cérebro. Quis me jogar pela janela. Eu que nunca tomei nem aspirina. Medrosa. Fui mandada para fazer ressonância... usei todos os exercícios de respiração que eu conhecia para me acalmar. Fui internada. Queriam que eu fizesse uma punção (exame onde se tira um liquido da espinha), e eu que morro de medo disse que não. Fugi do hospital e joguei o meu ateísmo pela janela para ir procurar todas as pessoas religiosas e templos que eu conhecia.
Haiko, ateu, e Juliana agnóstica, me acompanharam em tudo. Apesar de terem opiniões distintas eles respeitaram as minha decisões. Por isso serei eternamente grata! . Conheci um Yogi, que falou comigo, e disse que eu precisava mudar minha vida. Ele,um homem moderado, me falou para continuar tomando os anti-convulsivos que me tinham sido dados e mudar a minha vida. Eu que não estava estudando, nem trabalhando meio que definhando e arrumando um milhão de viagens para fugir da minha vida tinha que mudar. Mudei radicalmente no começo, e me lembro do Yogi me dizer que moderação e longevidade seria mais importante do que radicalismo a curto prazo. Foi categórico: senão isso desaparece nesse lugar e aparece em outro.
Então, eu que não gosto nem de tomar aspirina fui procurar um medico que me mandasse parar de tomar o remédio. O encontrei.Parei. Passou outubro, novembro, dezembro, janeiro, e no dia 15 de fevereiro enquanto eu falava com minha mãe no telefone perdi a fala. Não o pensamento, não a voz, mas a articulação. Eu que estava ansiosa há 4 meses, soube na hora que nao havia mais desculpa eu precisava entra ir ao medico.
Sem articular muito bem consegui contatar o Haiko que em 20 minutos estava em casa. Fomos ao GP (clinico geral), que a 1 da tarde me mandou voltar as 3:50. Esperei ate as 3:50 e ao ver meu histórico a GP achou melhor marcar uma consulta com o neurologista. Quanto tempo?? perguntei. Dentro de 3 semanas. E se eu tiver outros ataques??? Ao que ela respondeu 1 por dia tudo bem, mas se tiver mais que isso vá ao Hospital.
Quando relatei isso aos meus pais, eles me mandaram pegar o avião imediatamente. Encontro meu pai comprava uma passagem para 4 horas depois, eu jogava umas coisas na mala. saímos direto para o aeroporto. E mais uma vez a Juliana e o Haiko foram me apoiar la.
Cheguei em são paulo no sábado de manha e vim direto para o hospital. Como minha mãe já havia falado com o medico, já me esperavam aqui. O primeiro achou meus sintomas meio difusos parecia mais uma coisa psicológica . De qualquer jeito imediatamente me mandou para ressonância. 2 horas depois estava la meu resultado e de fato com uma anomalia. Não tinha mais jeito, eu ia ter que fazer a punção. Todo o meu medo tinha sido injustificado. O medico um artista, tirou licor da minha espinha sem eu sentir NADA!
Ai veio o time de neurologistas. Eu tenho 4. E me contaram que eu tinha 2 lesões do lado esquerdo. Fiquei em estado de choque.. Como esquerdo, em Londres era no direito?? Os médicos acharam que eu estava enganada, mas eh claro que não me disseram isso. Haiko no entanto, conseguiu mandar os exames.... e um por um ficou perplexo. Fui mandada ate ao Sao Jose, novo hospital da Beneficiencia Portuguesa para que um outro medico avaliasse. La passei 1 hora e 50 minutos dentro da melhor maquina de ressonância de sao paulo.
Quando sai de la. Os médicos tinham um diagnostico. Nao totalmente claro, pois eu tenho algumas contradições. O que eu tenho são lesões causadas por desmielinação ( em termos simples a perda das capas dos fios do cérebro). Bom, isso pode ser causado por Adem (ACUTE DISSEMINATED ENCEPHALOMYELITIS), uma doença aguda que acontece uma vez por contato com vírus ou bactéria. Ou Múltipla Esclerose uma doença cronica que não se sabe porque acontece. De qualquer maneira são doenças auto-imunes, ou seja ou meu corpo reagindo contra meu corpo.
Das ironias da vida, meu Yogi deu esse diagnostico sem nem ver nenhum exame. Para ele eh de fundo psicosomatico , mas que eu preciso tratar do orgânico e depois e junto do resto. Do lado positivo eu fui aceita para fazer mestrado na LSE de Antropologia da Aprendizado e da cognição.
A equipe aqui eh um doce. E eu serei eternamente grata a cada enfermeiro, assistente de enfermeiro, faxineiro, medico, nutricionista que não apenas me atenderam mas que me fizeram sentir da melhor forma possível num hospital sem saber o que eu tinha.O choque eh você entrar achando que não tem nada e ter. Depois eh torcer pelo menos pior. Coloca-se as coisas em perspectiva, e faz repensar a vida. Aceitei e sou grata a cada prece e pensamento positivo que tenho recebido de muçulmanos, espiritas, católicos, budistas, yogues, adventistas, agnosticos e ateus. Hoje sou capaz de compreender não só intelectualmente mas emocionalmente por que os dervixes viram, porque os muçulmanos se abaixam 5 vezes, porque tem que vá a missa. Indepentemente de se acreditar em deus ou não, nesse momentos da uma forca enorme pensar no seu poder próprio de mudar as coisas, e da mais conforto ainda saber que os que crêem um pouquinho e ate os que nao creem se manifestam.
Haiko, ateu, e Juliana agnóstica, me acompanharam em tudo. Apesar de terem opiniões distintas eles respeitaram as minha decisões. Por isso serei eternamente grata! . Conheci um Yogi, que falou comigo, e disse que eu precisava mudar minha vida. Ele,um homem moderado, me falou para continuar tomando os anti-convulsivos que me tinham sido dados e mudar a minha vida. Eu que não estava estudando, nem trabalhando meio que definhando e arrumando um milhão de viagens para fugir da minha vida tinha que mudar. Mudei radicalmente no começo, e me lembro do Yogi me dizer que moderação e longevidade seria mais importante do que radicalismo a curto prazo. Foi categórico: senão isso desaparece nesse lugar e aparece em outro.
Então, eu que não gosto nem de tomar aspirina fui procurar um medico que me mandasse parar de tomar o remédio. O encontrei.Parei. Passou outubro, novembro, dezembro, janeiro, e no dia 15 de fevereiro enquanto eu falava com minha mãe no telefone perdi a fala. Não o pensamento, não a voz, mas a articulação. Eu que estava ansiosa há 4 meses, soube na hora que nao havia mais desculpa eu precisava entra ir ao medico.
Sem articular muito bem consegui contatar o Haiko que em 20 minutos estava em casa. Fomos ao GP (clinico geral), que a 1 da tarde me mandou voltar as 3:50. Esperei ate as 3:50 e ao ver meu histórico a GP achou melhor marcar uma consulta com o neurologista. Quanto tempo?? perguntei. Dentro de 3 semanas. E se eu tiver outros ataques??? Ao que ela respondeu 1 por dia tudo bem, mas se tiver mais que isso vá ao Hospital.
Quando relatei isso aos meus pais, eles me mandaram pegar o avião imediatamente. Encontro meu pai comprava uma passagem para 4 horas depois, eu jogava umas coisas na mala. saímos direto para o aeroporto. E mais uma vez a Juliana e o Haiko foram me apoiar la.
Cheguei em são paulo no sábado de manha e vim direto para o hospital. Como minha mãe já havia falado com o medico, já me esperavam aqui. O primeiro achou meus sintomas meio difusos parecia mais uma coisa psicológica . De qualquer jeito imediatamente me mandou para ressonância. 2 horas depois estava la meu resultado e de fato com uma anomalia. Não tinha mais jeito, eu ia ter que fazer a punção. Todo o meu medo tinha sido injustificado. O medico um artista, tirou licor da minha espinha sem eu sentir NADA!
Ai veio o time de neurologistas. Eu tenho 4. E me contaram que eu tinha 2 lesões do lado esquerdo. Fiquei em estado de choque.. Como esquerdo, em Londres era no direito?? Os médicos acharam que eu estava enganada, mas eh claro que não me disseram isso. Haiko no entanto, conseguiu mandar os exames.... e um por um ficou perplexo. Fui mandada ate ao Sao Jose, novo hospital da Beneficiencia Portuguesa para que um outro medico avaliasse. La passei 1 hora e 50 minutos dentro da melhor maquina de ressonância de sao paulo.
Quando sai de la. Os médicos tinham um diagnostico. Nao totalmente claro, pois eu tenho algumas contradições. O que eu tenho são lesões causadas por desmielinação ( em termos simples a perda das capas dos fios do cérebro). Bom, isso pode ser causado por Adem (ACUTE DISSEMINATED ENCEPHALOMYELITIS), uma doença aguda que acontece uma vez por contato com vírus ou bactéria. Ou Múltipla Esclerose uma doença cronica que não se sabe porque acontece. De qualquer maneira são doenças auto-imunes, ou seja ou meu corpo reagindo contra meu corpo.
Das ironias da vida, meu Yogi deu esse diagnostico sem nem ver nenhum exame. Para ele eh de fundo psicosomatico , mas que eu preciso tratar do orgânico e depois e junto do resto. Do lado positivo eu fui aceita para fazer mestrado na LSE de Antropologia da Aprendizado e da cognição.
A equipe aqui eh um doce. E eu serei eternamente grata a cada enfermeiro, assistente de enfermeiro, faxineiro, medico, nutricionista que não apenas me atenderam mas que me fizeram sentir da melhor forma possível num hospital sem saber o que eu tinha.O choque eh você entrar achando que não tem nada e ter. Depois eh torcer pelo menos pior. Coloca-se as coisas em perspectiva, e faz repensar a vida. Aceitei e sou grata a cada prece e pensamento positivo que tenho recebido de muçulmanos, espiritas, católicos, budistas, yogues, adventistas, agnosticos e ateus. Hoje sou capaz de compreender não só intelectualmente mas emocionalmente por que os dervixes viram, porque os muçulmanos se abaixam 5 vezes, porque tem que vá a missa. Indepentemente de se acreditar em deus ou não, nesse momentos da uma forca enorme pensar no seu poder próprio de mudar as coisas, e da mais conforto ainda saber que os que crêem um pouquinho e ate os que nao creem se manifestam.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Carnaval em Maastricht
Passamos o carnaval em Maastricht, cidade onde o Haiko cresceu. Maastricht eh uma cidade medieval no sul da holanda. Holanda, ou melhor, Paises Baixos que sao divididos em sul catolico e norte protestante, no sul celebra-se o carnaval.
A primeira vez que o Haiko me falou para irmos passar o carnaval la, fiquei um pouco apreensiva imaginando como seria o carnaval holandês... Dessa vez levei um casal de amigos com o filho e uma amiga... todos brasileiros. O Haiko nao se cansava de explicar a eles as maravilhas do carnaval de Maastricht e eu imagino que eles devam ter ficado como eu no passado: meio na duvida.
E assim como eu, eles se encantaram. Cada um com seu motivo. O meu encanto eh ver todo mundo fantasiado na rua. Da para ver que as pessoas planejam, fazem a mao, se preparam. E o resultado eh um mar de cores, de idéias, de lirismo.
As criancas, os velhinhos, os adultos todos vao para rua cantar e dancar. Cantam musicas carnavalescas que parecem as nossas marchinhas de antigamente, as vezes em ritmo meio de valsa, noutras um pouco mais alegrinha. Em meio a festa ouvimos ate hilarie em holandes!
Meus amigos acharam surpreendente perceber que com toda essas gente na rua, toda a cerveja, toda a musica nao vimos sequer uma briga, um desentendimento, ou um policial. Chama a atencao. Nao so chamou a nossa mas também de uma outra brasileira que conhecemos no aviao.
E eh incrível perceber o poder desses 3 dias na vida das pessoas. Tres dias onde ha troca de papeis e todo mundo volta a criar. Volta a pintar o rosto, dancar, rir, dividir, cantar. E eh bonito de ver as pessoas criando. Criando fantasias, personagens, ideias, pinturas, atos. E percebe-se que dentro do ambiente 'certo' todo mundo volta a brincar.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
What´s love got to do with it?
Depois que eu escrevi sobre a sociedade doente, adoeci. Nada grave, e mais fruto da minha exaustão do que qualquer outra coisa. Estive viajando nesse final de ano. Passei pela holanda, belgica, luxembourgo, espanha e irlanda. No final de noites mal dormidas e caminhadas sob a chuva eu fiquei doente. Mal estou me recuperando e ja embarco para Maastricht na sexta que vem.
Na espanha fiquei num apartamento de estudantes onde conheci um menino que me tocou com suas palavras. Um Venezuelano que pensa muitas coisas que eu nao penso, que viveu em Miami muitos anos e agora vive em Madrid.
Discutimos muitas coisas logo nos primeiros dias. Deixando de lado, tudo que eu discordei dele no principio vou direto a tal noite. Uma noite onde eu estava sentada rodeada por um brasileiro, uma francesa, uma espanhola, e o Venezuelano.
Nao sei do que falávamos, e como foi que chegamos ao tópico. Eventualmente, nao sei como, Carlos, o venezuelano, disse que tinha amigos neo nazistas. Eu, fiquei estarrecida. COMO??? Como ASSIM?? Ele explicou que nao concordava com a visao deles, mas que como eles o tratavam bem, não os destratava. Cada um tem sua opinião.
Quem me conhece pode imaginar o que isso me causou. Total desespero. ´Como assim???´ O cara propaga o ódio mas é legal com vc entao é seu amigo???? ~sim~ E se fosse um cara da KKK e te tratasse bem??? ~tbm trataria~ eu realmente nao sabia o que dizer. me senti tão revoltada. fraca. perplexa. como assim????? um cara que batesse aqui no nosso amigo que é gay?? ou estuprasse a sua amiga e te tratasse bem???
Carlos, dizia que ele o trataria bem. E eu dizia que precisamos de legislação para evitar isso. Carlos dizia que eu estaria fazendo o mesmo. Como o mesmo?? ~Sao diferenças de opinião~Como diferença de opinião?? Diferença de opinião é : eu gosto de amarelo e você de azul, não eu acho que você não deve existir!!!!
E eu argumentava, argumentava, e ele me explicava que não concordava com as opinioes do neo nazi, mas que os tratava bem. e de repente veio
`eu sei que voces não acreditam, mas eu sou evangélico, e acredito que só há mudança através do amor. eu os trato bem porque espero que assim eles reconsiderem seu comportamento. Isola-los não resolve.´
Me nocauteou. E eu nem sabia direito porque. E eu concordo com o Carlos que isolar, detestar não traz mudança positivas. No entanto, não podemos viver numa sociedade onde eu como mulher tenha que esperar o amor, a transformação dos outros para poder votar, ganhar o mesmo, não ser discriminada.Não podemos esperar o amor do do outro para o chico poder casar com quem ele quer. Para o Ahmed, ou Chinua, ou Severino serem bem tratados.
Me nocauteou porque toca num ponto polêmico. Eu reconheço que muitas das lutas por defesa dos direitos humanos, segue mais uma agenda política e econômica do que real interesse nos tais seres. Também reconheço que são muitas vezes coloniais. O que é mais difícil de reconhecer é que sim, respeitar os direitos humanos é um paradigma arbitrário como qualquer outro. Isso é mais difícil de aceitar. Assim como é difícil aceitar que não existe liberdade de expressão e que nem seria bom existir. Que alguns tem mais liberdade do que outros, dependendo de quem são, do que dizem de onde estão.
Frases como ~meu direito acaba onde o do outro começa~ são vazias. Não dizem quase nada e são mais para terminar discussões. O que toda essa discussão me faz perceber é que apesar de todo a minha luta por querer respeitar o outro, nela eu sempre ferirei o direito do que quer um mundo distinto.
Será que só há realmente mudança positiva através do amor altruísta e respeito?? Num mundo mais avançado, num outro zeitgeist eu até acredito que sim. Por enquanto, no entanto, acho imprescindível que nos que acreditamos na defesa dos direitos humanos os defendamos. Acho que é importante que nós, mesmo correndo o risco de sermos um pouco arbitrários continuemos advogando por respeito e mais igualdade.
Na espanha fiquei num apartamento de estudantes onde conheci um menino que me tocou com suas palavras. Um Venezuelano que pensa muitas coisas que eu nao penso, que viveu em Miami muitos anos e agora vive em Madrid.
Discutimos muitas coisas logo nos primeiros dias. Deixando de lado, tudo que eu discordei dele no principio vou direto a tal noite. Uma noite onde eu estava sentada rodeada por um brasileiro, uma francesa, uma espanhola, e o Venezuelano.
Nao sei do que falávamos, e como foi que chegamos ao tópico. Eventualmente, nao sei como, Carlos, o venezuelano, disse que tinha amigos neo nazistas. Eu, fiquei estarrecida. COMO??? Como ASSIM?? Ele explicou que nao concordava com a visao deles, mas que como eles o tratavam bem, não os destratava. Cada um tem sua opinião.
Quem me conhece pode imaginar o que isso me causou. Total desespero. ´Como assim???´ O cara propaga o ódio mas é legal com vc entao é seu amigo???? ~sim~ E se fosse um cara da KKK e te tratasse bem??? ~tbm trataria~ eu realmente nao sabia o que dizer. me senti tão revoltada. fraca. perplexa. como assim????? um cara que batesse aqui no nosso amigo que é gay?? ou estuprasse a sua amiga e te tratasse bem???
Carlos, dizia que ele o trataria bem. E eu dizia que precisamos de legislação para evitar isso. Carlos dizia que eu estaria fazendo o mesmo. Como o mesmo?? ~Sao diferenças de opinião~Como diferença de opinião?? Diferença de opinião é : eu gosto de amarelo e você de azul, não eu acho que você não deve existir!!!!
E eu argumentava, argumentava, e ele me explicava que não concordava com as opinioes do neo nazi, mas que os tratava bem. e de repente veio
`eu sei que voces não acreditam, mas eu sou evangélico, e acredito que só há mudança através do amor. eu os trato bem porque espero que assim eles reconsiderem seu comportamento. Isola-los não resolve.´
Me nocauteou. E eu nem sabia direito porque. E eu concordo com o Carlos que isolar, detestar não traz mudança positivas. No entanto, não podemos viver numa sociedade onde eu como mulher tenha que esperar o amor, a transformação dos outros para poder votar, ganhar o mesmo, não ser discriminada.Não podemos esperar o amor do do outro para o chico poder casar com quem ele quer. Para o Ahmed, ou Chinua, ou Severino serem bem tratados.
Me nocauteou porque toca num ponto polêmico. Eu reconheço que muitas das lutas por defesa dos direitos humanos, segue mais uma agenda política e econômica do que real interesse nos tais seres. Também reconheço que são muitas vezes coloniais. O que é mais difícil de reconhecer é que sim, respeitar os direitos humanos é um paradigma arbitrário como qualquer outro. Isso é mais difícil de aceitar. Assim como é difícil aceitar que não existe liberdade de expressão e que nem seria bom existir. Que alguns tem mais liberdade do que outros, dependendo de quem são, do que dizem de onde estão.
Frases como ~meu direito acaba onde o do outro começa~ são vazias. Não dizem quase nada e são mais para terminar discussões. O que toda essa discussão me faz perceber é que apesar de todo a minha luta por querer respeitar o outro, nela eu sempre ferirei o direito do que quer um mundo distinto.
Será que só há realmente mudança positiva através do amor altruísta e respeito?? Num mundo mais avançado, num outro zeitgeist eu até acredito que sim. Por enquanto, no entanto, acho imprescindível que nos que acreditamos na defesa dos direitos humanos os defendamos. Acho que é importante que nós, mesmo correndo o risco de sermos um pouco arbitrários continuemos advogando por respeito e mais igualdade.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
Sintomas de Uma Sociedade Doente II
Queria falar de duas estorias nesse topico. A relacao entre elas nao é tao obvia mas por alguma razao meu cerebro as ligou imeditamente assim que ouvi a segunda. Uma se passou no EUA em contraponto com a Holanda, e a outra na Holanda em contraponto com a India. Mas nao é bem a holanda o ponto em comum, mas deixemos ele mais para frente.
Passei um ano estudando em Amsterda, e no dia de voltar para NY, para finalmente me formar, meu voo foi cancelado. Com um dia extra, Haiko e eu decidimos fazer algo de diferente: ir a um parque aquatico. Passamos o dia inteiro para chegar até la, e quando chegamos o lugar estava lotado de criancas. Criancas pequenas, correndo de la pra ca no chao molhado, subindo em pequenos cogumelinhos de cimento e pulando de um um cogumelo para o outro. Algumas caiam, choravam e logo depois levantavam e continuavam a brincar. Havia alguns salva-vidas mas ninguem interferiu. Comentei com o Haiko que aquilo ali seria impossivel nos EUA, haveria placas para todos os lados proibindo tais atitudes.
No dia seguinte, vooei para NY, e assim que cheguei fui nadar na piscina da Universidade. Havia um aviso novo, cartazes pelas paredes com letras garrafais "IT IS FORBIDEN TO PLAY BREATHING GAMES!" Espantada e curiosa, fui perguntar o que aquilo significava. O salva vida com cara de pesar me explicou que era muito perigoso atravessar a piscina sem respirar, e que era proibido faze-lo. Nossa, eu realmente estava de volta ao EUA! NA hora, achei aquilo hilario, mas depois pensando mais a respeito achei triste.
A minha segunda estoria, diz respeito a um casal holandes que foi viajar pela India durante 6 meses. Viajaram por muitas regioes, participaram de rituais, e fizeram inumeras fotografias. Quando voltaram a Holanda, mostraram essas fotografias numa noite de slides e estorias. O homem tambem contou que desde que voltara estava um pouco deprimido. Claro que a diferenca de realidades entre os dois paises é suficiente para um choque cultural mas esse choque foi exacerbado por um cartaz. O homem, professor de universidade na holanda, contou que ao voltar ao trabalho tinha encontrado no banheiro da faculdade um cartaz absurdo. O cartaz dizia:"por causa de possivel mal cheiro e barulho é proibido defecar neste banheiro!"
Quando eu ouvi esta estoria, imediatamente me veio a cabeca a proibicao na piscina. O problema nao sao exatamente estes dois cartazes que isolados sao ate engracados. O problema esta nessa tendencia. Como é que nos estamos deixando um geracao de criancas crescer sem ter direito a cair??? Sem poder aprender a levantar, sem tomar uma decisao sem ligar no celuluar dos pais??? Sem se arranhar, sem calcular riscos, sem planejar??? O que acontece numa sociedade onde deslocamos a nossa responsabilidade para os outros, para o governo, processando a tudo e a todos???? Como é que chegamos ao ponto que um banheiro nao é mais lugar para defecar, como se tivessimos que nos "aperfeicoar" tanto, que tenhamos que nos "desvencilhar" das nossa funcoes vitais ??? Como se tivessemos que nos afastar da nossa humanidade.
ps: continuo viajando sem acesso a um teclado que eu conheca.
--
Passei um ano estudando em Amsterda, e no dia de voltar para NY, para finalmente me formar, meu voo foi cancelado. Com um dia extra, Haiko e eu decidimos fazer algo de diferente: ir a um parque aquatico. Passamos o dia inteiro para chegar até la, e quando chegamos o lugar estava lotado de criancas. Criancas pequenas, correndo de la pra ca no chao molhado, subindo em pequenos cogumelinhos de cimento e pulando de um um cogumelo para o outro. Algumas caiam, choravam e logo depois levantavam e continuavam a brincar. Havia alguns salva-vidas mas ninguem interferiu. Comentei com o Haiko que aquilo ali seria impossivel nos EUA, haveria placas para todos os lados proibindo tais atitudes.
No dia seguinte, vooei para NY, e assim que cheguei fui nadar na piscina da Universidade. Havia um aviso novo, cartazes pelas paredes com letras garrafais "IT IS FORBIDEN TO PLAY BREATHING GAMES!" Espantada e curiosa, fui perguntar o que aquilo significava. O salva vida com cara de pesar me explicou que era muito perigoso atravessar a piscina sem respirar, e que era proibido faze-lo. Nossa, eu realmente estava de volta ao EUA! NA hora, achei aquilo hilario, mas depois pensando mais a respeito achei triste.
A minha segunda estoria, diz respeito a um casal holandes que foi viajar pela India durante 6 meses. Viajaram por muitas regioes, participaram de rituais, e fizeram inumeras fotografias. Quando voltaram a Holanda, mostraram essas fotografias numa noite de slides e estorias. O homem tambem contou que desde que voltara estava um pouco deprimido. Claro que a diferenca de realidades entre os dois paises é suficiente para um choque cultural mas esse choque foi exacerbado por um cartaz. O homem, professor de universidade na holanda, contou que ao voltar ao trabalho tinha encontrado no banheiro da faculdade um cartaz absurdo. O cartaz dizia:"por causa de possivel mal cheiro e barulho é proibido defecar neste banheiro!"
Quando eu ouvi esta estoria, imediatamente me veio a cabeca a proibicao na piscina. O problema nao sao exatamente estes dois cartazes que isolados sao ate engracados. O problema esta nessa tendencia. Como é que nos estamos deixando um geracao de criancas crescer sem ter direito a cair??? Sem poder aprender a levantar, sem tomar uma decisao sem ligar no celuluar dos pais??? Sem se arranhar, sem calcular riscos, sem planejar??? O que acontece numa sociedade onde deslocamos a nossa responsabilidade para os outros, para o governo, processando a tudo e a todos???? Como é que chegamos ao ponto que um banheiro nao é mais lugar para defecar, como se tivessimos que nos "aperfeicoar" tanto, que tenhamos que nos "desvencilhar" das nossa funcoes vitais ??? Como se tivessemos que nos afastar da nossa humanidade.
ps: continuo viajando sem acesso a um teclado que eu conheca.
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segunda-feira, dezembro 31, 2007
Feliz Ano Novo
O ano esta para acabar e eu estou aqui escrevendo no meu blog! Estou em Amsterdam junto com o Haiko depois de passar o natal com a familia dele no sul da Holanda em Maastricht. Falei com meus pais e irmao que estao em Ubatuba num calor de 36 graus e ceu azul as 5 da tarde. Incrivel, desde que eu nasci vou para Ubatuba no Reveillon e nunca peguei um final de ano sem chuva! Aqui ta 5 graus, mas pelo menos nao chove.
Liguei para minha avo o dia inteiro, e ela nao atendia seu celular. Finalmente consegui agora... E encontrei minha avo muito alegre. Estava em campos de jordao, com 5 amigas, como ela mesmo disse, um grupos de meninas de 70 a 80.
Minha avo 83, vai a ginastica todos os dias, faz aulas de arte moderna, usa a internet, e viaja com as amigas. Contou me que tinham reservado uma mesa, no terraco de um hotel para as 10 da noite. Pegariam 2 taxis para poder tomar champanhe!
E ai eu desliguei, emocionada, com a eterna jovialidade da minha avo. E eu aqui sentada na casa do meu cunhado,que alias esta com a namorada nos paises basco, sem muito animo para sair. Tinha assistido documentario sobre o outro lado da Benazir, lido sobre a crise no Kenya, e no momento mais ativo do meu dia fiz yoga e assiti o cirque de soleil.
Mas daqui a pouco saimos, para dar uma volta. ano retrasado passei meu reveillon em NY num templo budista. Foi diferente. Nunca tinha ido. Nao queria ir a festas, o Haiko tava na Holanda, minha familia no Brasil, meu amigos pelo mundo. E eu fui a um templo budista. Ouvi lendas do butao, meditamos pela paz.
Entao nos vamos sair daqui a pouco, dar voltas pelo Jordaan, assistir os fogos. E eu queria meditar pela paz. Com tantos fogos explodindo minha mente voa para guerras. Os fogos, dizem, sao para espantar os maus espiritos. Acho ironico pensar nisso. Eh ano novo entao deix para la...
Esses anos novos, sao meio arbitrarios, mas eu gosto deste ar de novas resolucoes, de planos para o proximo ano. E eu termino o ano pensando na jovialidade da minha avo, e no templo budista onde eu estive faz dois anos. O monge dizia, a cada som de gongo: pensamentos positivos as pessoas que amamos ...boomg .... pensamentos positivos as pessoas que nao conhecemos... bomg..., pensamentos positivos as pessoas que nao gostamos... bomg..e finalmente a tudo que existe.
Feliz Ano Novo
Liguei para minha avo o dia inteiro, e ela nao atendia seu celular. Finalmente consegui agora... E encontrei minha avo muito alegre. Estava em campos de jordao, com 5 amigas, como ela mesmo disse, um grupos de meninas de 70 a 80.
Minha avo 83, vai a ginastica todos os dias, faz aulas de arte moderna, usa a internet, e viaja com as amigas. Contou me que tinham reservado uma mesa, no terraco de um hotel para as 10 da noite. Pegariam 2 taxis para poder tomar champanhe!
E ai eu desliguei, emocionada, com a eterna jovialidade da minha avo. E eu aqui sentada na casa do meu cunhado,que alias esta com a namorada nos paises basco, sem muito animo para sair. Tinha assistido documentario sobre o outro lado da Benazir, lido sobre a crise no Kenya, e no momento mais ativo do meu dia fiz yoga e assiti o cirque de soleil.
Mas daqui a pouco saimos, para dar uma volta. ano retrasado passei meu reveillon em NY num templo budista. Foi diferente. Nunca tinha ido. Nao queria ir a festas, o Haiko tava na Holanda, minha familia no Brasil, meu amigos pelo mundo. E eu fui a um templo budista. Ouvi lendas do butao, meditamos pela paz.
Entao nos vamos sair daqui a pouco, dar voltas pelo Jordaan, assistir os fogos. E eu queria meditar pela paz. Com tantos fogos explodindo minha mente voa para guerras. Os fogos, dizem, sao para espantar os maus espiritos. Acho ironico pensar nisso. Eh ano novo entao deix para la...
Esses anos novos, sao meio arbitrarios, mas eu gosto deste ar de novas resolucoes, de planos para o proximo ano. E eu termino o ano pensando na jovialidade da minha avo, e no templo budista onde eu estive faz dois anos. O monge dizia, a cada som de gongo: pensamentos positivos as pessoas que amamos ...boomg .... pensamentos positivos as pessoas que nao conhecemos... bomg..., pensamentos positivos as pessoas que nao gostamos... bomg..e finalmente a tudo que existe.
Feliz Ano Novo
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Salar do Uyuni- parte I

Uma das coisas mais fascinantes que eu vi na Bolívia foi o salar do Uyuni. Na verdade foi toda a viagem de 3 dias pelo sul da Bolívia beirando a fronteira do deserto do Atacama no Chile. A viagem de ônibus para chegar lá não foi fácil, mas comparada à viagem Santa Cruz- La Paz aqui relatada e à viagem Cuzco- La Paz que eu ainda relatarei, foi um paraíso.
Necessário dizer que eu entrei no ônibus para o Uyuni no mesmo dia em que cheguei de Cuzco e que eu tinha ido direto de Aguas Calientes à Cuzco 2 dias antes. Enfim, fazia uns três dias que eu viajava sem parar! Viajamos a noite toda, num ônibus moderno e confortável, mas por estradas de pedregulhos por muitas e muitas horas. Chegamos muito cedo em Uyuni, e todas as agências que fazem o tour pelo deserto estavam fechadas. Depois de já ter passado um bom tempo na Bolívia, eu sabia que era melhor escolher o melhor tour, com a melhor operadora, pois os imprevistos também aconteceriam mas seriam menos problemáticos.
Como era um domingo, nem todas agencias abriram,e eu acabei deixando todo meu plano de lado e entrando na que abriu primeiro. Escolhi um tour de 3 dias como haviam sugerido todos os viajantes que eu tinha encontrado pelo caminho. Por sorte acabei ficando num carro com apenas quatro pessoas e o motorista. Uma australiana que seguiria para o Equador, um casal de ingleses que estava terminando uma viagem pelo mundo, e eu. E mais uma vez eu era a única que podia me comunicar com o motorista, e mais uma vez fiquei encarregada de traduzir todas as perguntas e pedidos.
Mal começou a viagem, e o carro quebrou. Todos já estávamos na Bolivia havia um certo tempo então não nos surpreendemos. O motorista saiu, tentou arrumar o carro, e eventualmente estávamos de volta ao nosso passeio. O carro quebrou outras vezes, mas a viagem foi fascinante. Primeiro entramos na parte seca do salar, onde havia inúmeros montes de sal por todas as partes. Depois descemos para tirar fotos e almoçar num hotel feito de sal. Continuamos nossa jornada até uma parte do salar ainda mais dura. Paramos o carro no meio daquele deserto de sal e ficamos um tempão admirando aquela paisagem surreal.

Continuamos nossa viagem até chegarmos numa ilha de cactus (qual o plural? cacti?) gigantes. Pagamos alguns bolivianos e fomos passear pela ilha. E realmente era incrível, aquela ilha no meio do sal. E foi aí que eu já comecei a sentir falta de um geólogo que pudesse me explicar o que eu veria pela frente. Sem poder entender, eu ficava apenas encantada com aquele cenário desconcertante.

Continuamos a nossa viagem agora pelo salar molhado, e para mim, nesse primeiro dia, foi um dos momentos mais fascinantes. Dirigíamos em cima do salar, que refletia tudo. O céu estava um pouco nublado e a paisagem ia mudando o tempo, parecia um lago, parecia o ceu, não se via o horizonte, nem onde a terra acabava, nem onde o céu começava. Me senti dentro de um quadro impressionista. Ficamos boquiabertos naquele lugar ..tamanha era a beleza que nos rodeava.

Chegamos eventualmente para dormir num hotel no meio da viagem. Mortos de fome, ansiosos pela sopa boliviana, comemos, conversamos um pouco, e fomos dormir num clima já mais frio! Nada comparado ao dia seguinte, quando chegaríamos a quase 5 mil metros e a temperatura despencaria.
quarta-feira, dezembro 12, 2007
O mundo
Não sei quando começou minha paixão por mapas mas imagino que cedo. Não estou falando aqui do eurocentrismo e distorções de Mercator, nem dos recortes arbitrários dos colonizadores, mas daquela curiosidade que emerge ao ver o nome de uma cidade, rio ou montanha desconhecida.
Minha mãe sempre os adorou, nunca deixou, nenhum nome de cidade, rio, que ela não conhecesse, passar sem averiguar onde ficava, que latitude, longitude etc..
Lembro-me de bem pequena, na escola francesa onde estudei, ouvir Jerome dizer que sabia todas as capitais do mundo. Achei aquilo impossível.Tentei pensar o lugar mais difícil que eu conhecia, e só consegui dizer Sri Lanka. Ao que ele respondeu sem dificuldade Colombo. É bem verdade, que naquela época era mais fácil já que quase todos os ´istãos´ainda faziam parte da União Soviética.
Já na Universidade, Joss, minha ex-flatmate, pegou uma aula de geografia da Africa. Como eu que tinha que tomar a lição acabei aprendendo muito sobre os países africanos. Aí eu quis aprender onde todos os países e suas capitais ficavam, e durante um bom tempo eu soube até as ilhas do Pacífico.
Depois Joss e eu achamos que aquilo era pouco, devíamos destinar cada semana a aprender um pouco sobre algum lugar. Fizemos isto de maneira mais informal que imaginávamos, através de aulas, amigos, e livros. E é incrível como as pessoas ficam felizes em perceber que você que nasceu num outro mundo, sabe alguma coisa do lugar onde ela veio.
No começo somos exigentes, temos sonhos de grandeza, achando que deviam saber mais do que rio de janeiro, futebol e carnaval. Mas quando alguém de Bishkek ou Bandar Seri Begawan sabe 3 informações sobre o seu país enquanto você não sabe nem onde fica o dele, fica-se mais humilde.
Tenho um amigo que diz que se aprende sobre outros lugares viajando. E eu concordo que viajar ajuda muito, mas não acho nem que seja fundamental, e nem que garanta que se aprenda. Afinal tem quem viaja sem querer que nada mude, sem aprender coisa nenhuma.
Ontem por acaso eu cai num site chamado amores expressos. Um projeto, se nao me engano, da companhia da letras. Aparentemente, escritores brasileiros foram mandados para passar um tempo em diversas cidades no mundo e quando voltassem teriam que escrever uma crônica sobre amor. Fiquei absoluamtne perplexa com o que a escritora mandada para India escreveu. Generalizações, discriminações,ofensas a torto e a direito. Tão irônico para quem foi para lá para se inspirar sobre amor.
Depois li sobre um menino de 5 anos na Paraisópolis que tinha aprendido com o pai varios paises e capitais. O pai o ensinou com uma lousinha e um Atlas.
E então, eu percebi que a minha paixão vem de querer aprender mais sobre o outro. O meu fascínio por mapas me levou a antropologia, a viajar sempre que posso, a querer aprender sobre outras culturas. Os mapas, como os livros e as línguas nos despertam para outras vidas, outros lugares. E viajar de fato reforça esse aprendizado, mas não acho que crie o desejo, o interesse.
O interesse pelo mundo, pelo outro, não sei de onde vem, mas este interesse está no pai que mostra o altas ao filho de cinco anos. Mostra o atlas das diferentes vidas, das diversas oportunidades. O interesse pelo o outro, este que falto a escritora.
E é verdade, nem toda viagem é fácil. Algumas nos levam ao limite. Quando eu estive em Hong Kong voltei mentalmente exausta, e as sinapses só começaram a acontecer no avião. o Marrocos levou me corpo a se rebelar, mas aos poucos eu entendi que não foi contra, mas a meu favor. Em nome de mais integração corpo e mente versus corpo sob a mente.
E é uma pena que muitas vezes no fechemos e nos rebelemos contra o diferente, contra o outro. Sem perceber que no fundo temos medo de nós mesmos. De abandonar conceitos, hábitos e idéias a que estamos habituados mas que muitas vezes nem são tão nossas.
Minha mãe sempre os adorou, nunca deixou, nenhum nome de cidade, rio, que ela não conhecesse, passar sem averiguar onde ficava, que latitude, longitude etc..
Lembro-me de bem pequena, na escola francesa onde estudei, ouvir Jerome dizer que sabia todas as capitais do mundo. Achei aquilo impossível.Tentei pensar o lugar mais difícil que eu conhecia, e só consegui dizer Sri Lanka. Ao que ele respondeu sem dificuldade Colombo. É bem verdade, que naquela época era mais fácil já que quase todos os ´istãos´ainda faziam parte da União Soviética.
Já na Universidade, Joss, minha ex-flatmate, pegou uma aula de geografia da Africa. Como eu que tinha que tomar a lição acabei aprendendo muito sobre os países africanos. Aí eu quis aprender onde todos os países e suas capitais ficavam, e durante um bom tempo eu soube até as ilhas do Pacífico.
Depois Joss e eu achamos que aquilo era pouco, devíamos destinar cada semana a aprender um pouco sobre algum lugar. Fizemos isto de maneira mais informal que imaginávamos, através de aulas, amigos, e livros. E é incrível como as pessoas ficam felizes em perceber que você que nasceu num outro mundo, sabe alguma coisa do lugar onde ela veio.
No começo somos exigentes, temos sonhos de grandeza, achando que deviam saber mais do que rio de janeiro, futebol e carnaval. Mas quando alguém de Bishkek ou Bandar Seri Begawan sabe 3 informações sobre o seu país enquanto você não sabe nem onde fica o dele, fica-se mais humilde.
Tenho um amigo que diz que se aprende sobre outros lugares viajando. E eu concordo que viajar ajuda muito, mas não acho nem que seja fundamental, e nem que garanta que se aprenda. Afinal tem quem viaja sem querer que nada mude, sem aprender coisa nenhuma.
Ontem por acaso eu cai num site chamado amores expressos. Um projeto, se nao me engano, da companhia da letras. Aparentemente, escritores brasileiros foram mandados para passar um tempo em diversas cidades no mundo e quando voltassem teriam que escrever uma crônica sobre amor. Fiquei absoluamtne perplexa com o que a escritora mandada para India escreveu. Generalizações, discriminações,ofensas a torto e a direito. Tão irônico para quem foi para lá para se inspirar sobre amor.
Depois li sobre um menino de 5 anos na Paraisópolis que tinha aprendido com o pai varios paises e capitais. O pai o ensinou com uma lousinha e um Atlas.
E então, eu percebi que a minha paixão vem de querer aprender mais sobre o outro. O meu fascínio por mapas me levou a antropologia, a viajar sempre que posso, a querer aprender sobre outras culturas. Os mapas, como os livros e as línguas nos despertam para outras vidas, outros lugares. E viajar de fato reforça esse aprendizado, mas não acho que crie o desejo, o interesse.
O interesse pelo mundo, pelo outro, não sei de onde vem, mas este interesse está no pai que mostra o altas ao filho de cinco anos. Mostra o atlas das diferentes vidas, das diversas oportunidades. O interesse pelo o outro, este que falto a escritora.
E é verdade, nem toda viagem é fácil. Algumas nos levam ao limite. Quando eu estive em Hong Kong voltei mentalmente exausta, e as sinapses só começaram a acontecer no avião. o Marrocos levou me corpo a se rebelar, mas aos poucos eu entendi que não foi contra, mas a meu favor. Em nome de mais integração corpo e mente versus corpo sob a mente.
E é uma pena que muitas vezes no fechemos e nos rebelemos contra o diferente, contra o outro. Sem perceber que no fundo temos medo de nós mesmos. De abandonar conceitos, hábitos e idéias a que estamos habituados mas que muitas vezes nem são tão nossas.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Sonhos

Quando eu estive no ano passado na Eslovênia para visitar minha amiga Vesna ( mais info em tópicos anteriores), ela resolveu me levar até a Croácia para conhecer a Dalmácia e visitar sua tia. Eu sei que eu já escrevi sobre a bondade de Jelka no passado mas nunca cheguei a relatar a visita que ela nos fez fazer a uma senhora Croata no pequeno vilarejo de Stankovic.
Stankovic é um vilarejo de uma rua. Ou melhor, um vilarejo que cresceu a volta da estrada que passa pela Dalmácia. Tem aproximadamente 20 casa, sendo a da Jelka praticamente auto-sustentável. Um pouco depois que eu cheguei a Stankovic, Darko ,o irmão de Jelka que morava numa outra cidade, telefonou. Vesna contou-lhe que estava visitando e que tinha trazido uma amiga brasileira com ela. Acordamos no dia seguinte com Darko chegando no seu carrinho vermelho, vestido com a camisa brasileira de futebol, ávido para dizer nomes de jogadores brasileiros, e as poucas palavras de inglês que ele conhecia. Vesna me explicou que ele não era totalmente ´normal´mas que era uma ótima pessoa ( palavras dela e eu sei que normalidade e um tópico mais complexo). Saímos com ele o dia inteiro, passamos por cidade lindas, e tiramos muitas fotos do seu adorado carro. Fotos que ele não parava de planejar, e não cansava de admirar na minha máquina. No final da tarde voltamos para casa.
Assim, que chegamos Jelka nos pediu para visitar uma senhora muito velha que morava sozinha numa das casas do vilarejo. Jelka contou nos que a mulher estava um pouco triste, mas que nossa visita a alegraria. Jelka, uma das pessoas mais bondosas que eu já conheci, visitava a senhora freqüentemente. Não simplesmente para fazer companhia, mas também para limpar a casa da senhora, e para trazer-lhe comida.
Caminhamos até a casa, fomos entrando no terreno enquanto Jelka batia palmas e chamava pela senhora.Chamava, chamava e nada. Já estava escuro,Jelka entrou na casa enquanto Vesna e eu olhávamos na horta. Depois de uns 5 minutos comecei a ficar com medo que tropeçássemos na senhora morta em algum lugar. Mas não, um pouco depois ela veio, corcunda, bem velha, andando bem devagar, e explicou que estava na casa dos vizinhos.
Entramos na casa que era quarto, sala, cozinha no mesmo ambiente. Enquanto Jelka acendia o fogão, para aquecer a casa, e tirava uns potes com comida que ela tinha trazido, a mulher resmungava. Eu me senti transportada para uma outra era, num outro mundo. Assim como se o tempo tivesse parado e voltado a andar devagar como um daqueles monges que tocam um sininho a cada passo. A luz era fosca, as cores amareladas,e a mulher se lamentava. Jelka dizia coisas agradáveis e Vesna traduzia-me tudo. A mulher mandava ela me contar sobre o segundo marido, com quem tinha permanecido casada 40 anos, e que agora tinha morrido.O primeiro era péssimo, mas aos 40 anos ela tinha encontrado o segundo, um ótimo homem,e que agora ela estava só.
Num certo momento, Darko apareceu, explicou para Vesna que tinha planos e que ela devia traduzi-los. Como ele não podia viajar o mundo como Vesna e eu, ele tinha decidido fazer a mesma quilometragem com o carro dele. Faria isso, explicou ele, mesmo que ele tivesse que dar 1000 voltas dentro da Croácia. Enquanto seus planos mudavam para uma viagem intercontinental onde ele nos levaria até a Rússia passando por Albania, e Romênia, a senhora tentava se lembrar em que país da América do Sul ele tinha um filho perdido. Depois a viagem iria até a China, e a senhora falava de um outro filho esquecido. E a Vesna já não sabia mais o que traduzir e eu me sentia num filme.
E ali no meio de uma conversa em outra língua, num outro mundo eu compreendia os tons, e compreendia principalmente a humanidade daquilo tudo. Ali no meio de um vilarejo remoto, com poucas casas, sem internet, sem televisão, sem ajuda do governo aquelas pessoas tinham uma vida. Em outros lugares estariam talvez em asilos, ou sendo profissionalmente tratadas. Ali nos seus limites podiam viver. E mais que isso faziam parte da sociedade e tinham sonhos.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Thé à la Menthe

Uma das minhas mais antigas memórias é de uma mamadeira de 'chá' de camomila que me davam quando eu era criança. Eu odiava aquele negócio morno e doce para dedéu. Depois de muito meditar cheguei a conclusão que só podia ser a Cre, minha babá, que me dava aquilo, minha mãe jamais concordaria em dar açúcar para criança e minha avó jamais chamaria uma infusão de chá. Assim que fiquei traumatizada por infusões de camomila e mais ainda por bebidas quentes e doces.
Tomava infusões raramente no Brasil, um pouco mais em NY, bastante em Amsterdã e o tempo todo em Londres. Essa mudança se deve a Olga minha vizinha russa em Amsterda que freqüentemente me chamava para tomar chá na casa dela. Eu gostava muito mais do sarcasmo brilhante e pessimista dela do que de chás e infusões, mas depois de tantas tardes passadas por lá nem se quer tomo mais café.
Assim que quando me contaram que no Marrocos a vida girava em torno de um bule que despeja chá das alturas eu me animei. Infusão de hortelã sempre foi uma das minhas favoritas e eu mal via a hora de provar a famosa infusão marroquina. Acontece que quando o grande dia chegou e eu provei o meu primeiro gole em Marrakech eu quase desmaiei. O famoso ´thé à la menthe ´ nada tinha a ver com a infusão de hortelã que eu conhecia, e nem se quer com a da Leila, minha ex-roomate marroquina. Lembrei-me então que todas as vezes que Leila fazia a bebida ela reclamava dizendo que estava longe de ser como a do Marrocos. Assim que totalmente despreparada o meu primeiro gole no Marrocos foi um verdadeiro choque. Eu ficava o tempo todo imaginando a pessoa preparando e colocando colheres e mais colheres de açúcar. Mas eu estava enganada como ficaria claro mais para frente. Depois desse primeiro, nunca mais bebi nenhum, ou melhor nunca mais até a nossa viagem ao deserto.
Na nossa viagem, como eu já comentei antes, fiquei amiga do motorista Abdul. Por eu ser a única fluente em francês ficava com a incunbencia de todas as perguntas,e o privilégio de todas as explicações. É verdade que muitas delas, para mim pareciam mitos, por exemplo ele me garantiu que as mulheres andavam de negro pois era mais fresco... Outras eu realmente não tinha como julgar. O chá era um exemplo, eu sempre imaginei que o hábito deve ter originado de beber água fervida (mais seguro), e de ser difícil de resfriar uma bebida no deserto. Abdul me garantiu que não, que na verdade chá quente deixa as pessoas com menos sede. Não sei se isso é verdade, mas também não discuti. Depois de horas e mais horas conversando, Abdul me perguntou se podíamos dar carona ao sobrinho dele. Naturalmente concordamos, e foi assim que eventualmente paramos para o meu segundo chá.
Paramos no meio da estrada, numa casa simples, e Abdul virou se para mim e disse ' vocês tem sorte, meu amigo vai lhes oferecer um chá´. Com toda essa sorte eu não podia explicar que eu não queria beber. Juntei o que tínhamos levado de doces no carro para contribuir de alguma maneira. Estenderam uma toalha no chão do lado de fora da casa, em cima da terra, onde sentamo-nos todos para assistir a preparação ritualística do chá. Primeiro veio a água fervida, depois um pó(que na caixa estava escrito gun powder.. pólvora... ), depois as folhas da menta. Aí passa a água, joga fora, põe mais agua, as folhas de hortelã e então veio uma pedra de mais ou menos 16cm2 de açúcar. O bule metade da pedra, e eu esperando para ver o que aconteceria. Abdul entalou pedra abaixo, colocou um pouco de água e despejou o chá nos nosso 4 copos. Copos pequenos. Para poder servir o quinto, ele teve que fazer mais chá, com é claro mais açúcar. E ali o mistério se resolveu, eu estava enganada não eram colheres, eram meteoritos.
terça-feira, dezembro 04, 2007
Acordando no Saara

Quando finalmente descemos dos camelos, foi que sentimos o que tinha acontecido com nossas pernas. Meio bambas, meio moles, meio doloridas afundaram na areia. Hassan nos levou até nosso acampamento. Na frente da cabana havia uns tapetes, uma mesa redonda, e almofadas a volta. Deitamos os 3 olhando para o céu estrelado. Naquele momento eu soube que eu estaria para sempre ligada ao Haiko e a Dri. Dividir um momento desses marca! Enquanto apreciávamos as estrelas, Hassan nos trouxe chá. Aliás eu preciso de um post só para escrever sobre os chás no Marrocos!

Depois veio o Tagine, o meu e da Dri só de legumes, o do Haiko ja nem me lembro mais do que. Depois vieram frutas e outros quitutes mais. Ali no meio do deserto Hassan nos preparou uma refeição deliciosa. Sem nem pensar em escorpiões ou cobras dormimos do lado de fora. No deserto ao contrário do que dizem não fez frio. Temperatura agradável a noite toda, adormecemos olhando as estrelas!
No dia seguinte, acordei muito cedo. Aos poucos todos acordaram, e começamos a nos mobilizar para ver o sol nascer. Dri estava morrendo de dor de barriga, e eu também sentia um pouco. No meio do deserto não é nada fácil. Assistimos ao sol nascer e nos preparamos para partir. Com todos os lenços amarrados na cabeça subimos em nossos camelos. Não eram nem 7 da manhã e já fazia calor. O vento começou a aumentar, areia a voar e cada vez mais eu agradecia ter todos aqueles véus. Conforme fomos indo o tempo foi piorando: mais calor, mais sol e mais vento. O vento de certa forma aliviava o calor, mas a areia que vinha junto com ele machucava. Fomos indo, e apesar de ser muito engraçado, e inesquecível, mal víamos a hora de chegar de volta ao hotel e tomar um banho.
Eventualmente avistamos nosso carro muito antes do que esperávamos. Ficamos encantados com a idéia do Abdul de ir nos buscar. Descemos suando, melados de areia, exaustos, e descobrimos que o carro tinha atolado. Tentamos desatola-lo, mas nao houve jeito, tivemos que subir de novo no camelo. Voltar ao camelo foi desesperador, mais depois de mais meia hora de sofrimento estávamos de volta ao hotel. Descemos rapidamente, desesperadas ( eu e Dri), para ir ao banheiro e tomar banho. Lembramos-nos então que as coisas estavam no carro, aquele que estava atolado no deserto.
* Fotos by Adriana Torres.
Rumo a India e Nepal!
Quando eu tinha 15 anos, fiz um intercambio de um ano na Austrália. Morei numa cidade pequena, e um dia fui convidada para fazer um trekking no sul do país . Eu nunca tinha feito um trekking antes mas como me garantiram que seria tranquilo juntei-me ao grupo. O trekking duraria 4 dias e 3 noites. Como teríamos que carregar toda a comida, bebida e barraca que usaríamos resolvi não levar mais quase nada. Meu maior medo era passar sede, por isso levei 10 litros de agua.
No primeiro dia estava animadíssima. Aliás todos nós estávamos. Caminhamos, e caminhamos, e caminhamos até chegar num lugar meio sem saída, e o líder constatar que estávamos uns 10km fora da rota. Era o primeiro dia, ninguém se importou muito. Quando a tarde começou a cair, paramos. Fazia um friozinho, fizemos fogueiras, marshmallow derretido, e fomos dormir.
No dia seguinte, amanheceu chovendo. Era supostamente a estação seca, então todos ficaram chocados. Daí em diante, para mim foi só miséria. Chovia e fazia frio o tempo todo! Não havia onde se proteger, tudo molhado, a cabana nem tão impermeável, minha calcinha, minhas meias, minha camiseta em sopa. Durante a noite eu rezava para amanhecer e poder andar para que eu parasse de sentir frio, durante o dia eu torci meu pé e rezava para chegar a noite e parar de andar. Basta dizer que eu não me lembro de quase nada dessa viagem, não lembro da paisagem, das pessoas, só me lembro de olhar para o pé da pessoa da frente. Lembro de passar um frio desgraçado, e de querer chegar em casa o quanto antes para tomar um banho bem quente. Eventualmente, chegamos, e eu nunca mais quis fazer trekking nenhum que durasse mais de um dia.
Nunca mais até a semana passada. Quando conversando com o Haiko,e procurando passagens par ir ao Brasil no ano que vem, cai num site com passagens muito baratas para India. Haiko que passou 6 meses entre India, Nepal, Tailandia e Laos não se opôs. Compramos então nossas passagens para Setembro do ano que vem. E se tudo correr bem, farei o meu segundo trekking nos Himalaias. Eu sei que há uma certa injustiça nisso. Eu que nunca fiz trekking em lugar nenhum ir direto a um dos lugares mais desejados pelos merecedores alpinistas. Eu sei, eu soube disso também quando viajei pela Bolivia sem saber geologia para realmente apreciar todas aquelas formações. Mas eu prometo que me preparo melhor dessa vez, para apreciar tudo, e para poder contar aqui depois. E é verdade eu posso não ser uma ´montanhista´que vá poder realmente aproveitar completamente a experiência, mas como antropóloga quem sabe eu já mereça um pouquinho mais.
No primeiro dia estava animadíssima. Aliás todos nós estávamos. Caminhamos, e caminhamos, e caminhamos até chegar num lugar meio sem saída, e o líder constatar que estávamos uns 10km fora da rota. Era o primeiro dia, ninguém se importou muito. Quando a tarde começou a cair, paramos. Fazia um friozinho, fizemos fogueiras, marshmallow derretido, e fomos dormir.
No dia seguinte, amanheceu chovendo. Era supostamente a estação seca, então todos ficaram chocados. Daí em diante, para mim foi só miséria. Chovia e fazia frio o tempo todo! Não havia onde se proteger, tudo molhado, a cabana nem tão impermeável, minha calcinha, minhas meias, minha camiseta em sopa. Durante a noite eu rezava para amanhecer e poder andar para que eu parasse de sentir frio, durante o dia eu torci meu pé e rezava para chegar a noite e parar de andar. Basta dizer que eu não me lembro de quase nada dessa viagem, não lembro da paisagem, das pessoas, só me lembro de olhar para o pé da pessoa da frente. Lembro de passar um frio desgraçado, e de querer chegar em casa o quanto antes para tomar um banho bem quente. Eventualmente, chegamos, e eu nunca mais quis fazer trekking nenhum que durasse mais de um dia.
Nunca mais até a semana passada. Quando conversando com o Haiko,e procurando passagens par ir ao Brasil no ano que vem, cai num site com passagens muito baratas para India. Haiko que passou 6 meses entre India, Nepal, Tailandia e Laos não se opôs. Compramos então nossas passagens para Setembro do ano que vem. E se tudo correr bem, farei o meu segundo trekking nos Himalaias. Eu sei que há uma certa injustiça nisso. Eu que nunca fiz trekking em lugar nenhum ir direto a um dos lugares mais desejados pelos merecedores alpinistas. Eu sei, eu soube disso também quando viajei pela Bolivia sem saber geologia para realmente apreciar todas aquelas formações. Mas eu prometo que me preparo melhor dessa vez, para apreciar tudo, e para poder contar aqui depois. E é verdade eu posso não ser uma ´montanhista´que vá poder realmente aproveitar completamente a experiência, mas como antropóloga quem sabe eu já mereça um pouquinho mais.
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