Tenho estado meio deprimida. Quase que todos os dias eu reconsidero meu doutorado, faço planos de ir trabalhar na Tailandia, dar aula na China, voltar para o conforto da minha casa no Brasil. Faz 10 anos que eu moro direto fora do Brasil. Eu na verdade, nem sei direito como seria morar em sao paulo. Fica assim quase que tão vago como morar na Tailandia, ou na China. Minha suposta pesquisa em Israel é muito interessante, mas as vezes confesso, da uma preguica. Começar tudo de novo, num outro pais, numa outra lingua. Quantas vezes eu ja fiz isso mesmo? 6 paises, 7 cidades, e Ja nem sei mais em quantas casas. Quantos ola, quantos adeus.
Esses dias eu estava conversando com minha amiga Sabrina. Que ta la em Boston fazendo pos doutorado em fisica. Ela que tbm mudou tanto. Tambem estava exausta. Cansada de tanta mudanca. Tanta instabilidade. Nao que a vida de todo mundo não seja sempre instável. Mas nos nos especializamos nisso: ficar mudando de país atras sei lá do que. Os encontros vao ficando cada vez mais valiosos, porque a solidão existencial tbm aumenta... ainda mais assim quando nos nao temos a ilusao, nem a realidade de ser parte de um grupo fisico que tenha raiz em algum lugar.
Acho que seria hora de voltar a fazer vipassana. Lembrar me mais uma vez de manter equanimidade diante de tanta mudança. As vezes tenho a impressão que por nos fazermos responsáveis por essas escolhas de ficar cruzando tantas fronteiras nos dá essa enorme angústia. Sempre imaginando onde será o lugar mais adequado. Num lugar a familia, no outro o sol, no outro a comunidade academica e intelectual a qual nos acostumamos. Tudo espalhado. E fazer escolha é ter que escolher que parte sua faz mais sentido. IMpossivel, no reconhecimento de toda nossa incoerencia humana.
Como mostram as pesquisas psicologicas escolha demais aumenta e muito a angustia.... no entanto, given the option, acho que ninguem escolhe ter menos escolhas. Quando eu sento toda segunda-feira com meu grupo de doutorandos fico pensando nisso. Todas essas nossas escolhas. Sentamos a volta de uma mesa, na Selgiman Library, na mesma sala onde Malinowski comecou a tradicao dos seminarios de sexta feira no departamento da LSE.
Segunda-feira nos sentamos para falar das nossas pesquisas. Nunca penso muito nessa conexao dessa sala com a tradicao da antropologia britanica. Nao. Eu olho a minha volta e vejo uma grega que vai para amazonia peruana, uma colobiana que vai para o ecuador, uma holandesa que vai a India, uma alemã, um americano, e um italiano que vão para a China, um americano que vai para Jamaica, um russo que vai para Siberia, 3 ingleses, um que vai para a Siria, outro para as Filipinas, e um para Amazonia, e eu uma brasileira que quer se meter entre Palestinos e Israelenses. Tirando os 3 ingleses, todos nos ja somos estrangeiros aqui, e ainda assim escolhemos ir fazer trabalho de campo num outro lugar distante.
O que será no fundo que buscamos encontrar? Eu sei todas as nossas explicacoes antropologicas, filosoficas, politicas, cognitivas. Essas que nos colocamos nos formularios, nos nossos proposals. O que eu nao sei muito bem, é oque no fundo de cada uma dessas pessoas incriveis que eu encontro toda segudna feira, faz com que elas queiram ir parar no meio de uma tribo na amzonia, ou numa fabrica chinesa. Nem eu sei direito o que me faz ir a Israel.
Sem dúvida acho que vamos buscando sentido. No entanto, se sentido já nos falta agora, me pergunto o que acontecerá na volta. Depois de dois anos vivendo de observar uma sociedade alien. O que acontece quando de repente tudo comeca parecer fazer sentido e esse é o sinal que é hora de voltar. Como se alguem viesse mais uma vez e arrancasse o tapete por debaixo dos nossos pés. Eu sei que eu ja escrevi aqui antes, que acho importante cultivar o estranhamento das coisas. Não sei se é idade, o frio, ou simplesmente um momento passageiro. So sei que chega uma hora que o estranhamento de tudo cansa. E dá uma saudade, uma vontade de voltar ao principio onde tudo era familiar. Mas assim como as escolhas.... sabendo que elas existem, ainda que eu saiba que ter muitas delas me faz infeliz, eu acabo sempre.... cruzando mais uma fronteira.
And herein lies the tragedy of the age:not that men are poor,.. all men know something of poverty;not that men are wicked,.. who is good? Not that men are ignorant,..what is the thruth? Nay, but that men know so little of man. W.E.B du Bois (The souls of Black Folk)
quinta-feira, março 10, 2011
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
Opressão e Hipocrisia
Os protestos do Marrocos foram brandos, especialmente se comparado ao que está acontecendo no resto do mundo Arabe. O mundo realmente esta em chamas, volatil! Eu estou resfriada, e meio febril, mas nao desligo a Al Jazeera em Ingles. Que verdadeiro absurdo o que esta acontecendo na Libia enquanto a ONU, a NATO, e todas as outras ligas ficam "drafting resoluções". Quando eu comecei a ouvir a Al Jazeera ouvi um soldado explicando de Bengazhi, segunda cidade da Libia, que 130 soldados de Benghazi tinham sido mortos pelos soldados de Tripoli por se recusarem a atirar na população . I sso aconteceu se bem me lembro sabado ou domingo.
Meu amigo Shmri, refusenik ( israelense que se recusa a ir ao exercito, e no caso dele passou dois anos preso com ato de resistencia civil, escrevendo da prisao para uma revista) me mandou uma mensagem me perguntando se eu tava ouvindo o que estava acontecendo na Libia. Ele que trabalha no Global Governance da LSE me explicou que o Saif, filho do Gaddafi, tinha tbm estudado na LSE e que o David Held ( supervisor do Saif e do Smhri) dizia que ele seria a nova face da Libia.
Durou bem pouco a ilusão, só até nos ouvirmos pela Al Jazeera o discurso do Saif falando de guerra civil, de governo islamico ou ditadura, de rios de sangue, de lutar até a última bala. Como assim? Todo mundo que eu conheco que conheceu o Saif dizia que ele era um moderado. Continuamos pelos dias seguintes ouvindo a Al Jazeera, vendo as imagens que algumas pessoas conseguiam mandar. O caos na praça verde, Benghazi ser tomada pelo protestantes, noticias de helicopteros atirando na populacao, noticias das milicias que o Gaddafi contratou. E ontem durante o dia eu ouvi uma hora e meia de um discurso insano de um lider completamente fora da realidade. A unidade de um pais mais importante do que as pessoas. Usou a china, usou a russia e mais muitos outros exemplos de dar calafrios.
Hoje assisti numa outra cidade a populacao rasgar o livro verde da libia ( uma tipo constituicao de onde ontem gaddafi leu umas ameaças brutais). Entre essas noticias aperecia tbm o Yemem, a Argelia, Bahrain, e o terremoto na Nova Zelandia. Uma ONU ridicula explicava que era feriado nos eua, e depois marcava um encontro para a tarde de terça. Claro ninguem quer se compremeter. Como é que a China ou a Russia vao apoiar protestos. Cada segundo que se passa no entanto nos assistimos de camarote mais alguem sendo morto na LIbia.
Da ONU saiu um press release bem bunda. "Condenamos a violencia" ou uma coisa ridicula qq como essa. Ouvi uma pessoa dizendo da Libia. Isso nao é suficiente nos precisamos de ajuda! Não dá para nao pensar na hipocrisia da Europa preocupada com o oleo e os imigrantes. Nao da para eu nao lembrar de Bush venting sobre ir la para o Iraque exportar democracia. É a chance agora... As pessoas estao la implorando ajuda. Fechem o ceu pelo menos!
Enquanto tudo que eh gente do governo fala da uma guerra civil, das pessoas que eu ouco da Libia se fala de uniao. Uniao em remover um tirano. Sera que o ocidente vai ter que finalmente confrontar sua hipocrisia? Quando nao é mais possivel usar ladainha de democracia e liberdade ja que o povo esta na rua expressando sua liberdade e sendo massacrado por ditadores tanto tempo mantidos ou pelo menos aceitos pela comunidade internacional por decadas.?
E ao mesmo tempo é claro ameaças do Gaddafi de explodir as pipelines! Recebi uma mensagem no Couch Surfing ontem. Um marroquino pedia para ficar na minha casa. Expliquei que eu nao podia recebe-lo na data, mas perguntei como estavam as coisas por la. Nao disse muito. So expressei meu apoio. A resposta que recebi foi de arrepiar. Um menino. 23 anos que falou com uma clareza. Sabe de uma coisa eu vou colocar as palavras dele
"Oh jules, thank you for carring, I didnt stop listening to al jazeera the whole day, I have both of them now, arabic and english, And right now i am listening to a libyan student speaking from sweeden that the ANIMAL called Kedafi threaten them with bringing them back home and killing all their families if they speak, god, I cant keep on listening, he is crying, are the arab so cheap, no body moves? no one, italia is given its lands to the lybian airforce plan to fly from, No one have said a word; he wants to burn all libya before he leave it, he says I made libya I will destroy it, no body moves? of course thats what Bilderbeg club wants, whatever we call them, the G20, the capitalists, everyone who makes a money from firing a bullet, god Jules, i cant write right now, am really shaking right now, cant write cant focus, things in Morocco are fine, the king is a good person but the thieves around him should be hunged, they been for years on power, they get rich, they seal our blood and brain for nothing, can u imagining that I as a computer engineering can work with nothing but some euros a month for a european company, 'outsoucring', it doesnt even cover the cost of the education, things sucks, and sucked since forever for us, if you are online i do have a facebook i rather chat than write, no worries about the cant host thing, I wont come till march, mid march, thats for now, i dont know if things will stay the same, this is a new Era for us, a revolution one"
São pessoas como essas que estão fazendo a revolução. E elas não são muito diferentes de mim ou de voce. Não se deixem enganar que elas sejam. As pessoas são as mesmas. Exaustas de tanta opressao e hipocrisia!
Meu amigo Shmri, refusenik ( israelense que se recusa a ir ao exercito, e no caso dele passou dois anos preso com ato de resistencia civil, escrevendo da prisao para uma revista) me mandou uma mensagem me perguntando se eu tava ouvindo o que estava acontecendo na Libia. Ele que trabalha no Global Governance da LSE me explicou que o Saif, filho do Gaddafi, tinha tbm estudado na LSE e que o David Held ( supervisor do Saif e do Smhri) dizia que ele seria a nova face da Libia.
Durou bem pouco a ilusão, só até nos ouvirmos pela Al Jazeera o discurso do Saif falando de guerra civil, de governo islamico ou ditadura, de rios de sangue, de lutar até a última bala. Como assim? Todo mundo que eu conheco que conheceu o Saif dizia que ele era um moderado. Continuamos pelos dias seguintes ouvindo a Al Jazeera, vendo as imagens que algumas pessoas conseguiam mandar. O caos na praça verde, Benghazi ser tomada pelo protestantes, noticias de helicopteros atirando na populacao, noticias das milicias que o Gaddafi contratou. E ontem durante o dia eu ouvi uma hora e meia de um discurso insano de um lider completamente fora da realidade. A unidade de um pais mais importante do que as pessoas. Usou a china, usou a russia e mais muitos outros exemplos de dar calafrios.
Hoje assisti numa outra cidade a populacao rasgar o livro verde da libia ( uma tipo constituicao de onde ontem gaddafi leu umas ameaças brutais). Entre essas noticias aperecia tbm o Yemem, a Argelia, Bahrain, e o terremoto na Nova Zelandia. Uma ONU ridicula explicava que era feriado nos eua, e depois marcava um encontro para a tarde de terça. Claro ninguem quer se compremeter. Como é que a China ou a Russia vao apoiar protestos. Cada segundo que se passa no entanto nos assistimos de camarote mais alguem sendo morto na LIbia.
Da ONU saiu um press release bem bunda. "Condenamos a violencia" ou uma coisa ridicula qq como essa. Ouvi uma pessoa dizendo da Libia. Isso nao é suficiente nos precisamos de ajuda! Não dá para nao pensar na hipocrisia da Europa preocupada com o oleo e os imigrantes. Nao da para eu nao lembrar de Bush venting sobre ir la para o Iraque exportar democracia. É a chance agora... As pessoas estao la implorando ajuda. Fechem o ceu pelo menos!
Enquanto tudo que eh gente do governo fala da uma guerra civil, das pessoas que eu ouco da Libia se fala de uniao. Uniao em remover um tirano. Sera que o ocidente vai ter que finalmente confrontar sua hipocrisia? Quando nao é mais possivel usar ladainha de democracia e liberdade ja que o povo esta na rua expressando sua liberdade e sendo massacrado por ditadores tanto tempo mantidos ou pelo menos aceitos pela comunidade internacional por decadas.?
E ao mesmo tempo é claro ameaças do Gaddafi de explodir as pipelines! Recebi uma mensagem no Couch Surfing ontem. Um marroquino pedia para ficar na minha casa. Expliquei que eu nao podia recebe-lo na data, mas perguntei como estavam as coisas por la. Nao disse muito. So expressei meu apoio. A resposta que recebi foi de arrepiar. Um menino. 23 anos que falou com uma clareza. Sabe de uma coisa eu vou colocar as palavras dele
"Oh jules, thank you for carring, I didnt stop listening to al jazeera the whole day, I have both of them now, arabic and english, And right now i am listening to a libyan student speaking from sweeden that the ANIMAL called Kedafi threaten them with bringing them back home and killing all their families if they speak, god, I cant keep on listening, he is crying, are the arab so cheap, no body moves? no one, italia is given its lands to the lybian airforce plan to fly from, No one have said a word; he wants to burn all libya before he leave it, he says I made libya I will destroy it, no body moves? of course thats what Bilderbeg club wants, whatever we call them, the G20, the capitalists, everyone who makes a money from firing a bullet, god Jules, i cant write right now, am really shaking right now, cant write cant focus, things in Morocco are fine, the king is a good person but the thieves around him should be hunged, they been for years on power, they get rich, they seal our blood and brain for nothing, can u imagining that I as a computer engineering can work with nothing but some euros a month for a european company, 'outsoucring', it doesnt even cover the cost of the education, things sucks, and sucked since forever for us, if you are online i do have a facebook i rather chat than write, no worries about the cant host thing, I wont come till march, mid march, thats for now, i dont know if things will stay the same, this is a new Era for us, a revolution one"
São pessoas como essas que estão fazendo a revolução. E elas não são muito diferentes de mim ou de voce. Não se deixem enganar que elas sejam. As pessoas são as mesmas. Exaustas de tanta opressao e hipocrisia!
domingo, fevereiro 20, 2011
Pensamentos no trem: De Jean Rouch ao Mundo Arabe
Mais uma vez estou em movimento. Mas nao estamos sempre em movimento? Em movimento na minha mente quer dizer cruzando alguma fronteira imaginada, e sabendo disso, esperando que isso de alguma forma mude algo. Essa cruzada nem se quer é muito cruzada. So vou até ali, até Paris, só por uns dias. De certa maneira tão mais perto que muito lugar na Inglaterra. E com o tanto de frances que se ouve nas ruas de Londres…. Nao chega nem sequer a realmente ser uma grande mudança :)
Depois de receber pessoas por quase um mes sem parar pelo Couch Surfing, paramos. Paramos depois da doce Severine, francesa, que vive num vilarejo de mil pessoas em Devon. Severine que morou na Eslovaquia, e Croacia, e que tao pouco se imagina vivendo em lugar nenhum.
Chorei de rir ouvindo as estorias da vida no country side britanico. Ela nos contou que participa quase de tudo que acontece, encontros, bingos e até do book club das senhoras da cidade. Contou que sempre se surpreende com os pensamentos dessas senhoras que ficam a maior parte do tempo em casa, e que moram num vilarejo de 1000 pessoas. Como ela colocou… “quando vc para para ouvir todo mundo é interessante :)”
Nem preciso dizer que meu encontro com Severine foi inspirador né? Encontrar pessoas assim que acham beleza nesses pequenos detalhes sempre me encanta. E só de pensar que eu que estava em meio a uma tempestade de Couch Surfing requests quase não a recebi....
A mensagem no Couch Surfing de Severine começava “ Fancy a tea talking about Jean Rouch”. Achei aquilo intrigante,Jean Rouch , é pouco conhecido , um cineasta do cinema verite de quem alias eu ja escrevi antes aqui. Jean Rouch tinha sido seu professor. Segundo ela, uma dessas pessoas que é melhor conhecer pelos filmes que ao vivo. Um pouco arrogante, e desiludido com a nova geração. "A grande geração ja passara". Nos perguntamos o que ele acharia dos Egipcios que não só demoveram o Mubarak do poder mas depois todo o governo.
Eu que assisti pelo Democracy Now, e Al Jazeera a noticia da queda do Mubarak …e vi as pessoas na praça fiquei tão emocionada. Não sei se vcs viram nos dias que se seguiram… Algumas centenas de pessoas ainda na praça Tahrir… e os militares vindo remove-los. Os egipcios sentaram no chão. Não atacaram ninguem. Sentaram. E ao ouvir a noticia milhares de pessoas sairam de suas casas e foram se juntar aos protestantes nas ruas. E assim o governo inteiro caiu!
Eu não sei o que acontecerá agora. Não sou especialista em questões egipcias. O que parece nao ter sido uma desvantagem em prever o futuro :) Sei que dependendo do jornal que se le NY times, Guardian, Al Jazeera, Haaretz ( e note que eu me mantive nos mais “de esquerda”) a perpectiva muda muito.
Enfim, esse post vai de lugar nenhum, a lugar algum. Vai como meus pensamentos pelo trem. Quanta coisa acontecendo nesse comeco de millenio.
Esse post começou na terca dia 15 quando eu estava no trem vindo a Paris. E agora eu volto a escrever nele da Gare du Nord. Ao rele-lo vi o tanto de coisa que eu ainda tenho para dizer. Coisas que aconteceram em Paris e que se ligam tanto a tudo que eu tinha escrito antes. Para que este post nao fique enorme so vou falar de uma das muitas coisas. Queria falar do meu jantar com meu querido professor Maurice Bloch, que tbm falou do Jean Rouch. Queria falar do Argelino que eu encontrei na rua. Mas eu so vou terminar falando da Leila.
Leila, minha querida amiga marroquina, com quem morei em NY e de quem tambem ja tanto falei estara na noite do dia 20 fazendo parte dos protestos no Marrocos. Esses protestos que se espalham. Toda essa volatilidade do mundo arabe agora. Na sua pagina do Facebook vi que eles marroquinos da classe alta nao sabiam muito bem do que se tratava o protesto, e nem tao pouco onde era. Todos pediam a ela, Leila, que tomasse cuidado.
Leila, minha querida Leila, explicava que eles que podiam fazer alguma coisa de diferente na sociedade marroquina tinham que ir. Tinham que ouvir, que assitir que protestar que pelo menos realmente entender o que estava acontecendo. Eu escrevi a ela que tomasse cuidado. E eu que as vezes vou la naqueles protestos das ruas europeias… naqueles protestos que ja nos causam furia ficar kettled… mas que no fundo sabemos que nao muda nada, e nada realmente nos acontece nao pude deixar de ficar emocionada em pensar na coragem dos egipcios, dos tunisiamos… no povo da libia sendo morto a queima roupa, nos 30 mil soldados na argelia, e na minha amiga que eh de mundo divido… da classe alta francesa marroquina… mas que nao deixa nunca de tentar entender o mundo mais a fundo, mais de perto.
Entao eu termino esse post mais uma vez sem ponto final. Apenas com meu pensamento nessas pessoas que tem a coragem de ir a rua. QUe estao exausta dos abusos. E cansa é claro ver as revolucoes serem roubadas do povo e o poder ser sempre restabelecido para continuar satisfazendo os interesses das elites do ocidente. Ainda assim eu termino pensando que o Jean Rouch estava errado…
Depois de receber pessoas por quase um mes sem parar pelo Couch Surfing, paramos. Paramos depois da doce Severine, francesa, que vive num vilarejo de mil pessoas em Devon. Severine que morou na Eslovaquia, e Croacia, e que tao pouco se imagina vivendo em lugar nenhum.
Chorei de rir ouvindo as estorias da vida no country side britanico. Ela nos contou que participa quase de tudo que acontece, encontros, bingos e até do book club das senhoras da cidade. Contou que sempre se surpreende com os pensamentos dessas senhoras que ficam a maior parte do tempo em casa, e que moram num vilarejo de 1000 pessoas. Como ela colocou… “quando vc para para ouvir todo mundo é interessante :)”
Nem preciso dizer que meu encontro com Severine foi inspirador né? Encontrar pessoas assim que acham beleza nesses pequenos detalhes sempre me encanta. E só de pensar que eu que estava em meio a uma tempestade de Couch Surfing requests quase não a recebi....
A mensagem no Couch Surfing de Severine começava “ Fancy a tea talking about Jean Rouch”. Achei aquilo intrigante,Jean Rouch , é pouco conhecido , um cineasta do cinema verite de quem alias eu ja escrevi antes aqui. Jean Rouch tinha sido seu professor. Segundo ela, uma dessas pessoas que é melhor conhecer pelos filmes que ao vivo. Um pouco arrogante, e desiludido com a nova geração. "A grande geração ja passara". Nos perguntamos o que ele acharia dos Egipcios que não só demoveram o Mubarak do poder mas depois todo o governo.
Eu que assisti pelo Democracy Now, e Al Jazeera a noticia da queda do Mubarak …e vi as pessoas na praça fiquei tão emocionada. Não sei se vcs viram nos dias que se seguiram… Algumas centenas de pessoas ainda na praça Tahrir… e os militares vindo remove-los. Os egipcios sentaram no chão. Não atacaram ninguem. Sentaram. E ao ouvir a noticia milhares de pessoas sairam de suas casas e foram se juntar aos protestantes nas ruas. E assim o governo inteiro caiu!
Eu não sei o que acontecerá agora. Não sou especialista em questões egipcias. O que parece nao ter sido uma desvantagem em prever o futuro :) Sei que dependendo do jornal que se le NY times, Guardian, Al Jazeera, Haaretz ( e note que eu me mantive nos mais “de esquerda”) a perpectiva muda muito.
Enfim, esse post vai de lugar nenhum, a lugar algum. Vai como meus pensamentos pelo trem. Quanta coisa acontecendo nesse comeco de millenio.
Esse post começou na terca dia 15 quando eu estava no trem vindo a Paris. E agora eu volto a escrever nele da Gare du Nord. Ao rele-lo vi o tanto de coisa que eu ainda tenho para dizer. Coisas que aconteceram em Paris e que se ligam tanto a tudo que eu tinha escrito antes. Para que este post nao fique enorme so vou falar de uma das muitas coisas. Queria falar do meu jantar com meu querido professor Maurice Bloch, que tbm falou do Jean Rouch. Queria falar do Argelino que eu encontrei na rua. Mas eu so vou terminar falando da Leila.
Leila, minha querida amiga marroquina, com quem morei em NY e de quem tambem ja tanto falei estara na noite do dia 20 fazendo parte dos protestos no Marrocos. Esses protestos que se espalham. Toda essa volatilidade do mundo arabe agora. Na sua pagina do Facebook vi que eles marroquinos da classe alta nao sabiam muito bem do que se tratava o protesto, e nem tao pouco onde era. Todos pediam a ela, Leila, que tomasse cuidado.
Leila, minha querida Leila, explicava que eles que podiam fazer alguma coisa de diferente na sociedade marroquina tinham que ir. Tinham que ouvir, que assitir que protestar que pelo menos realmente entender o que estava acontecendo. Eu escrevi a ela que tomasse cuidado. E eu que as vezes vou la naqueles protestos das ruas europeias… naqueles protestos que ja nos causam furia ficar kettled… mas que no fundo sabemos que nao muda nada, e nada realmente nos acontece nao pude deixar de ficar emocionada em pensar na coragem dos egipcios, dos tunisiamos… no povo da libia sendo morto a queima roupa, nos 30 mil soldados na argelia, e na minha amiga que eh de mundo divido… da classe alta francesa marroquina… mas que nao deixa nunca de tentar entender o mundo mais a fundo, mais de perto.
Entao eu termino esse post mais uma vez sem ponto final. Apenas com meu pensamento nessas pessoas que tem a coragem de ir a rua. QUe estao exausta dos abusos. E cansa é claro ver as revolucoes serem roubadas do povo e o poder ser sempre restabelecido para continuar satisfazendo os interesses das elites do ocidente. Ainda assim eu termino pensando que o Jean Rouch estava errado…
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
Galhos, Vacas e Antropologia
Eu que detesto despedidas acabei de arrumar um jeito de me meter ainda mais nelas.... couchsurfing. Hoje o Chi foi embora. Ontem a noite fizemos uma festa do Oriente Medio para sua despedida. Eu sei, eu sei... não faz sentido nenhum, mas fazer o que a idéia surgiu... e assim passamos, eu e alguns amigos do meu doutorado, dancando até hoje de manhã.
Chi partiu me deixando com algumas coisas na mão: um selo do Taiwan e uma nota do dinheiro da Mongolia... Pois é, bem que ele tinha explicado que os asiaticos prestavam muita atenção no comportamento dos outros. Ele lembrava do meu sonho de ir a Mongólia. E partiu dizendo que se fossemos arvores, e alguem quisesse me encontrar, que teria que ir seguindo os galhos, que vao se dividindo, e se dividindo, e se dividindo ate chegar em mim. "Voce ta la na ponta. Vocé muito especial. Pouca gente vai te entender de verdade. Bem pouca, vc vive voando por ai." Disse isso de maneira doce, mas eu senti uma enorme solidão. O que será que quer dizer eu estar la na ponta? Enquanto todo mundo ta no chão ?
Ele também me disse que o meu otimismo tinha pegado um pouco nele, isso me animou um pouco mais. Por fim me disse que eu podia sempre contar com ele. Quando eu fiz uma sacolinha de frutas e nozes para ele levar na viagem de onibus até Paris antes de partir para Madagascar ele riu e disse " Para Jules, eu ja te devo demais, desse jeito eu vou voltar na proxima vida como sua vaca."
Eu ri, e fui la levar a porta um viajante que ficou aqui em Londres 10 dias. 8 desses dias na minha casa. Fiquei imaginando que logo logo ele cruza para Madagascar, de onde eu sei tanta coisa, por ter como professores Maurice Bloch, e Rita Astuti. Ele planejando a viagem a Africa por estrada que nem sabemos se realmente funciona. Chegara no Sudão do Sul alguma hora. Um Taiwanes por la descobrindo os caminhos que se ligam na minha mente ao Michael Palin indo de polo a polo.
Fiquei pensando nas coisas tolas. Como de certa forma parte minha vai estar por aí andando pela Africa. Alguma parte que eu troquei sem nem se quer ter percebido. Um atomo, um pensamento, um amendoim esquecido no bolso. Ainda mais estranho foi pensar que eu que gosto tanto de viajar senti assim: que viajar ficando na casa dos outros assim.. deve ser dificil demais. Maravilhoso demais e dificil demais.
Eu aprendi tanto conversando com o Chi. Nada da historia da China, do conflito de Taiwan, nem das suas viagens. Ele falou de tudo isso é claro. Tudo isso podia ter sido lido num livro. Eu aprendi um pouco sobre como é outra maneira de pensar. E isso para mim uma hard core cognitivista é impressionante. Observa-lo na festa. Observar seus comentarios. Suas perguntas. Um Taiwanes muito diferente dos outros que eu ja conheci. E eu não to querendo aqui enfatizar nem similaridade cultural, nem diferença individual. Mas levando toda essa diferença meta-representacional a sério diz o que sobre a nossa cognição ? Meu deus.... será que eu to me convertendo para o lado dos antroplogos culturais e sociais ? Não, talvez seja so uma parte do Chi que ficou por aqui.. talvez seja uma parte dos antropologos tipicamente sociais com quem tenho passado tanto tempo ultimamente....
Chi partiu me deixando com algumas coisas na mão: um selo do Taiwan e uma nota do dinheiro da Mongolia... Pois é, bem que ele tinha explicado que os asiaticos prestavam muita atenção no comportamento dos outros. Ele lembrava do meu sonho de ir a Mongólia. E partiu dizendo que se fossemos arvores, e alguem quisesse me encontrar, que teria que ir seguindo os galhos, que vao se dividindo, e se dividindo, e se dividindo ate chegar em mim. "Voce ta la na ponta. Vocé muito especial. Pouca gente vai te entender de verdade. Bem pouca, vc vive voando por ai." Disse isso de maneira doce, mas eu senti uma enorme solidão. O que será que quer dizer eu estar la na ponta? Enquanto todo mundo ta no chão ?
Ele também me disse que o meu otimismo tinha pegado um pouco nele, isso me animou um pouco mais. Por fim me disse que eu podia sempre contar com ele. Quando eu fiz uma sacolinha de frutas e nozes para ele levar na viagem de onibus até Paris antes de partir para Madagascar ele riu e disse " Para Jules, eu ja te devo demais, desse jeito eu vou voltar na proxima vida como sua vaca."
Eu ri, e fui la levar a porta um viajante que ficou aqui em Londres 10 dias. 8 desses dias na minha casa. Fiquei imaginando que logo logo ele cruza para Madagascar, de onde eu sei tanta coisa, por ter como professores Maurice Bloch, e Rita Astuti. Ele planejando a viagem a Africa por estrada que nem sabemos se realmente funciona. Chegara no Sudão do Sul alguma hora. Um Taiwanes por la descobrindo os caminhos que se ligam na minha mente ao Michael Palin indo de polo a polo.
Fiquei pensando nas coisas tolas. Como de certa forma parte minha vai estar por aí andando pela Africa. Alguma parte que eu troquei sem nem se quer ter percebido. Um atomo, um pensamento, um amendoim esquecido no bolso. Ainda mais estranho foi pensar que eu que gosto tanto de viajar senti assim: que viajar ficando na casa dos outros assim.. deve ser dificil demais. Maravilhoso demais e dificil demais.
Eu aprendi tanto conversando com o Chi. Nada da historia da China, do conflito de Taiwan, nem das suas viagens. Ele falou de tudo isso é claro. Tudo isso podia ter sido lido num livro. Eu aprendi um pouco sobre como é outra maneira de pensar. E isso para mim uma hard core cognitivista é impressionante. Observa-lo na festa. Observar seus comentarios. Suas perguntas. Um Taiwanes muito diferente dos outros que eu ja conheci. E eu não to querendo aqui enfatizar nem similaridade cultural, nem diferença individual. Mas levando toda essa diferença meta-representacional a sério diz o que sobre a nossa cognição ? Meu deus.... será que eu to me convertendo para o lado dos antroplogos culturais e sociais ? Não, talvez seja so uma parte do Chi que ficou por aqui.. talvez seja uma parte dos antropologos tipicamente sociais com quem tenho passado tanto tempo ultimamente....
quinta-feira, fevereiro 03, 2011
Ano Novo Chines

Hoje começou o ano do coelho. Eu nunca tinha celebrado o ano novo chines, mas como a Iva minha housemate é malay-chinese por parte de mãe, e celebra todos os anos o ano novo chines com a mãe, ela propos que nos celebrassemos aqui. No dia, que ela propos eu nunca imaginei que a celebracao, a nossa celebracao fosse ser tão divertida. Concordamos que iriamos.
Logo em seguida recebemos um couch request ( um pedido para ficar em casa pelo couch surf ) do Chi. Chi um chines de Taiwan explicava na mensagem que estava viajando por um ano, e que viajaria mais dois. Na hora que eu li soube imediatamente que queria conhece-lo. Eu NUNCA conheci um viajante Chines antes. Já conheci turistas. Agora viajantes, desses que ficam anos por aí normalmente são Europeus, Australianos, Americanos...
Chi chegou. Reservado, e ao mesmo tempo muito falante para um Chines. Nos encantamos todos com ele. Ele que saiu de Taiwan, de la foi para Hong Kong cruzou a China por terra, depois a MOngolia, depois a Russia, entrou na EUropa pela estonia e foi descendo até a Grécia. De lá veio para Europa Ocidental e subiu até o Reino Unido. Daqui voa para Madagascar e pretende ir subindo a Africa até o Egito que até lá esperemos que as coisas estejam mais resolvidas. Depois fará o Oriente Médio, o sudeste Asiatico e entao voara para a America Central e descera para América do Sul. Ufa... só escrever isso já cansa :)
Claro que eu tenho um milão de coisas para dizer do Chi. Dos milhões de perguntas que eu fiz...As pessoas ele acha se dividem mais entre pessoas do campo e das cidades, do que realmente de paises.As pessoas do campo em qualquer lugar vem falar ocm ele. Sentam para comer, ainda que nao possam realmente conversar, ainda que não se compreendam... "we have a great meal". As pessoas do campo são parecidas em todos os lugares. A Europa ocidental ele achou um pouco desapontadora as pessoas são mais parecidas aqui que nos outros lugares onde esteve. Ele pensa com uma clareza. Fala de uma maneira tão delicada, ponderada que nos deixa todos encantados. Claro que eu o convidei para celebrar o ano Chines.
Depois enquanto estava contando sobre ele na minha aula de doutorado, resolvi apresenta-lo a Desiree. Desiree é alema e fará sua pesquisa em Taiwan e na China. Saindo da aula encontrei Anting. Anting é uma chinesa que estuda filosofia da ciencia na China e está de passagem nos visitando na LSE. Reservada fala bem pouco ingles, e como eu sei que ela quase nunca fala com ninguem eu a convidei tambem.
Nos encontramos em Leceister Square. E fomos juntos andando pela China Town. Encontramos um restaurante que nos coubesse. Entramos sentamos e pedimos comida para dividir. Chinese style. Na mesa uma Chinesa, um Taiwanes(?), um holandes, um australiano, uma alemã, uma brasileira, e uma chinese-malay/francesa. No final do jantar propus mais uma vez o ritual. Aquele onde cada um fala o que tem para falar.
Foi tão tocante. Iva nos agradeceu por ser sua familia aqui. Chi agradeceu pois nunca imaginou que teria uma celebracao. EU agradeci o encontro. todos falaram de viajar, da impermanencia de tudo. Quase todos nos naquela mesa nao sabemos muito bem onde estaremos daqui a 3 meses.
O que mais me tocou foi Anting. Ela me agradeceu. Explicou -me que nunca tinha passado um ano novo sem a familia e que o teria passado sozinha no quarto dela se não fosse o meu convite. Contou me que eu tinha sido a primeira pessoa a sorrir para ela, a primeira pessoa a abraça-la, a unica pessoa a convida-la para ir no bar da faculdade. Contou me que toda a familia dela sabe sobre mim. E eu fiquei emocionada. Muito emocionada. EU a convidei sabendo que ela era reservada. Sabendo que falar pouco ingles faz a vida dela dificil. NUnca imaginei que esses pequenos gestos pudessem significar tanto.
Esse ano novo chines me lembrou mais uma vez o poder das palavras e dos gestos. Nos nunca sabemos o que acontece com eles depois que os soltamos pelo ar. Eles tem que ser o nosso melhor, o nosso mais verdadeiro porque eles vão encontrando pessoas por aí. Eles vão transformando o mundo por aí. E as vezes a vida nos permite ver um pouquinho como eles transformam o mundo, e quando é para o melhor, quando é trazendo conforto e alegria a outra pessoa, é sem dúvida um grande presente.
quarta-feira, janeiro 26, 2011
Circulos
Quando eu fui para Israel em Setembro fiquei na casa do Netanel em Jerusalem. ELe, que é guia turistico, teve a paciencia de me contar 4000 anos de historia em uma longa caminhada. Passou dias comigo me mostrando todos os detalhes de Jerusalem. Eu, como já deve ter ficado bem claro, presto mais atenção em gente, do que predios. Então enquanto eu ouvia atentamente ao meu guia privado, especialista em todos os segredos historicos e arqeuologicos de Jerusalem, eu secretamente me distraia olhando os ortodoxos com seus chapeus, os Cristãos alugando suas cruzes, as mulheres e suas perucas, as crianças que corriam, os homens arabes tomando seus chá sentados numa mesa qualquer numa daquelas milhares de ruelas.
Eu olhava para o que ele me explicava, eu prestava atencao; no entanto, o que me chocava, e entretia sempre mais era imaginar que por aqueles milhares de anos as pessoas andavam naquelas ruelas, que o chao é marcado dos passos, de milhares de pessoas com milhares de duvidas existenciais, certezas religiosas, preocupações mundanas sempre carregadas nas pernas dessas pessoas.... sempre ficando ali no chao daquela cidade que se pudesse falar faria tão pouco sentido como faz sendo vista.
Netanel me levou aos mercados, aos lugares secretos, a econtros do couch surfing, me contou as lendas, as historias, cozinhou para mim, me explicou os caminhos todas as vezes que eu ligava perdida. Falamos de viajantes, do gato, da mae, de musica da irmã. Um pouco sobre o exerctio... bem pouco porque quando eu fiquei na casa de Netanel eu ja tava meio que emocionalmente exausta. Combinando a personalidade reservada dele, a minha exaustao quanto a questões tao emocionais como a questão Palestina na minha estadia em sua casa nos nunca falamos nada sobre isso.
E agora aqui em Londres, em meio ao turbilhão de mudanças, perguntas sobre que caminho seguir, como é que eu recomeço, faço doutorado, largo doutorado? Mudo de volta para o Brasil, vou para Romenia, para a Tailandia? eu recebi esses dias aqui em casa o Netanel. Fazia 4 meses que não nos viamos. E a chegada dele trouxe um pouco de calma... afinal não dá para ficar deprimida com um visitante. Não to querendo contrariar os gregos :)
Netanel foi nosso primeiro Couch Surfer nessa casa. Foi incrivel. Incrivel como sempre é. Eu fui sem dúvida pior anfitriã e pior hóspede do que ele.... que ja chegou trazendo alento, zatar e canela de Jerusalem. Chegou ja cozinhando. Chegou de mansinho, ficou bem quietinho. Eu nao pude contar a historia de nada pq eu nao sei a historia de nada. Eu tava mais para calada considerando as circusntancias.
Ontem a noite no entanto, no nosso ultimo jantar que ele cozinhou para todos nós propus que fizessemos o ritual da minha despedida. Dessa vez o bastião da fala foi um "nao sei como se chama" budista. Como um prayer bell daqueles de girar com a escritura dentro. Quem começou foi a Iva agradecendo a vinda de Netanel. Agradecendo por aprender sobre esse jeito de viajar sem sair de casa. Eu não vou falar do que todo mundo falou pois levaria muito tempo. Como sempre foi bonito.
Agora o que me tocou mesmo foi o que Netanel contou. Netanel que nao é um ativista me contou que ele já tinha estado na Palestina como soldado. Tinha estado carregando fuzil, com as costas na parede e com medo. Que faz 2 semanas organizou um grupo de couchsurfing para ir a Palestina. Foi pela primeira vez como civil. Entrou no campo de refugiados. Conversou em broken arabic. Quando disse que era Judeu foi tratado com total surpresa. Depois que voltou para Jerusalem recebeu um palestino em sua casa. Um couchsurfer. Contou das conversas. E conclui dizendo:
"Antes de eu ir, eu achava que para melhorar a situacao a Palestina precisava ser melhorada materialmente. A situacao la é terrivel. Eu achava que o principal para vivermos em paz era que eles pudessem melhorar economicamente. Agora que eu fui la, sem fuzil, sem estar com as costas na parede eu sei que isso não é o suficiente. É importante mas não é o suficiente. Agora eu sei que a unica coisa que realmente pode nos levar a paz é contato."
Meus olhos se encheram de lágrimas. Assim como se enchem agora. Esses dias eu vi um TED talk onde uma escritora turca começava contando que foi criada pela mae secular, e a avó muito mistica. A avó, ela explicou, sempre recebia pessoas que vinham benzer suas verrugas e marcas na pele. A avó benzia e fazia um circulo com uma caneta a volta da marca. Os pacientes voltavam com as marcas desaparecidas. A autora explicou que dizia a avó que se intrigava com o poder da fé. A avó então disse a neta " Sem duvida a fe move montanhas, mas nao se esqueça do poder dos circulos. Tudo que vc fecha em um circulo, rodeia acaba se destruindo,se consumindo... desaparece"
Ouvindo o meu amigo que não é um ativista sair do seu circulo para encontrar o outro de outra cultura me toca. Não é necessario abandonar a sua identidade para encontrar o outro. Agora ficar só no seu grupo, no seu circulo é bem perigoso. Eu concordo com a autora turca que fala do poder das estórias. Estória nos levam a conhecer o outro. E como vcs bem sabe eu acredito no poder dos encontros. Encontro, amor e compaixão são realmente as unicas coisas verdadeiramente subversivas.
Eu olhava para o que ele me explicava, eu prestava atencao; no entanto, o que me chocava, e entretia sempre mais era imaginar que por aqueles milhares de anos as pessoas andavam naquelas ruelas, que o chao é marcado dos passos, de milhares de pessoas com milhares de duvidas existenciais, certezas religiosas, preocupações mundanas sempre carregadas nas pernas dessas pessoas.... sempre ficando ali no chao daquela cidade que se pudesse falar faria tão pouco sentido como faz sendo vista.
Netanel me levou aos mercados, aos lugares secretos, a econtros do couch surfing, me contou as lendas, as historias, cozinhou para mim, me explicou os caminhos todas as vezes que eu ligava perdida. Falamos de viajantes, do gato, da mae, de musica da irmã. Um pouco sobre o exerctio... bem pouco porque quando eu fiquei na casa de Netanel eu ja tava meio que emocionalmente exausta. Combinando a personalidade reservada dele, a minha exaustao quanto a questões tao emocionais como a questão Palestina na minha estadia em sua casa nos nunca falamos nada sobre isso.
E agora aqui em Londres, em meio ao turbilhão de mudanças, perguntas sobre que caminho seguir, como é que eu recomeço, faço doutorado, largo doutorado? Mudo de volta para o Brasil, vou para Romenia, para a Tailandia? eu recebi esses dias aqui em casa o Netanel. Fazia 4 meses que não nos viamos. E a chegada dele trouxe um pouco de calma... afinal não dá para ficar deprimida com um visitante. Não to querendo contrariar os gregos :)
Netanel foi nosso primeiro Couch Surfer nessa casa. Foi incrivel. Incrivel como sempre é. Eu fui sem dúvida pior anfitriã e pior hóspede do que ele.... que ja chegou trazendo alento, zatar e canela de Jerusalem. Chegou ja cozinhando. Chegou de mansinho, ficou bem quietinho. Eu nao pude contar a historia de nada pq eu nao sei a historia de nada. Eu tava mais para calada considerando as circusntancias.
Ontem a noite no entanto, no nosso ultimo jantar que ele cozinhou para todos nós propus que fizessemos o ritual da minha despedida. Dessa vez o bastião da fala foi um "nao sei como se chama" budista. Como um prayer bell daqueles de girar com a escritura dentro. Quem começou foi a Iva agradecendo a vinda de Netanel. Agradecendo por aprender sobre esse jeito de viajar sem sair de casa. Eu não vou falar do que todo mundo falou pois levaria muito tempo. Como sempre foi bonito.
Agora o que me tocou mesmo foi o que Netanel contou. Netanel que nao é um ativista me contou que ele já tinha estado na Palestina como soldado. Tinha estado carregando fuzil, com as costas na parede e com medo. Que faz 2 semanas organizou um grupo de couchsurfing para ir a Palestina. Foi pela primeira vez como civil. Entrou no campo de refugiados. Conversou em broken arabic. Quando disse que era Judeu foi tratado com total surpresa. Depois que voltou para Jerusalem recebeu um palestino em sua casa. Um couchsurfer. Contou das conversas. E conclui dizendo:
"Antes de eu ir, eu achava que para melhorar a situacao a Palestina precisava ser melhorada materialmente. A situacao la é terrivel. Eu achava que o principal para vivermos em paz era que eles pudessem melhorar economicamente. Agora que eu fui la, sem fuzil, sem estar com as costas na parede eu sei que isso não é o suficiente. É importante mas não é o suficiente. Agora eu sei que a unica coisa que realmente pode nos levar a paz é contato."
Meus olhos se encheram de lágrimas. Assim como se enchem agora. Esses dias eu vi um TED talk onde uma escritora turca começava contando que foi criada pela mae secular, e a avó muito mistica. A avó, ela explicou, sempre recebia pessoas que vinham benzer suas verrugas e marcas na pele. A avó benzia e fazia um circulo com uma caneta a volta da marca. Os pacientes voltavam com as marcas desaparecidas. A autora explicou que dizia a avó que se intrigava com o poder da fé. A avó então disse a neta " Sem duvida a fe move montanhas, mas nao se esqueça do poder dos circulos. Tudo que vc fecha em um circulo, rodeia acaba se destruindo,se consumindo... desaparece"
Ouvindo o meu amigo que não é um ativista sair do seu circulo para encontrar o outro de outra cultura me toca. Não é necessario abandonar a sua identidade para encontrar o outro. Agora ficar só no seu grupo, no seu circulo é bem perigoso. Eu concordo com a autora turca que fala do poder das estórias. Estória nos levam a conhecer o outro. E como vcs bem sabe eu acredito no poder dos encontros. Encontro, amor e compaixão são realmente as unicas coisas verdadeiramente subversivas.
quarta-feira, janeiro 12, 2011
Ponto e virgula
Cruzei as mil fronteiras imaginadas, que no céu parecem ainda mais absurdas, dormindo. Acordada as vezes me vinha umas lembrancas soltas. Nossa quanta coisa aconteceu enquanto eu estive no Brasil. Quanta coisa dentro de mim. Cheguei a uma Londres nem tão fria nem tão cinza. Cheguei já com uma mensagem de texto de um amigo yogi me desejando as boas vindas. Sorri, não há nada melhor do que ser acolhida assim de cara por amigos que voce não imaginava que saberiam a duração da sua ausencia.
No meu último post eu estava assim, me sentindo sem ponto final. Estava totalmente fora de lugar. Querendo ficar e tendo que ir. Inventando mil cenarios onde em todos eu parecia estranhamente fora de lugar. Tudo isso tem a ver com o tempo. Em grego, aparentemente, existe a diferença entre Chronos ( o tempo cronologico) e Kairos ( o tempo, o momento supremo). Aliás isso é tão parecido com o BUdismo. A impermanencia de tudo é no Chronos. Estar sempre presente deve ser Kairos. Acontece que nesses momentos Kairos dá um medo de perde-los no tempo. No Chronos :)
Eu tava assim perdida em Chronos. Correndo atras daquele Kairos que só podia existir quando existiu. Sempre na frente ou sempre atras. Eu morria diariamente umas 10 mil vezes tentando encontrar. Até o dia da minha despedida. Aquela que no
último post eu esperava me sentindo sem ponto final.
Chegaram as pessoas. Amigos de varias partes. De varias idades. De varias ideias. E ali no encontramos. Primeiro em estorias de viagens, estorias engraçadas. Depois já no final da noite, Malu Barciotte, que eu tinha conhecido na Lapinha, e que ja tinha feito o ritual das lanternas que tanto mexera comigo propos um outro ritual. Eu não me lembro muito bem o nome do Ritual. Ele bascimanete consiste em ouvir o outro. Sentamos em circulo e escolhemos o bastião da fala. Eu escolhi a estátua africana. Uma cabeça de mulher que minha avó trouxe de uma viagem que fez a Africa. Maluh começou por explicar as regras. Quem segura a cabeça fala. Fala quem é o que pensa, o que faz, alias fala o que quiser. E nos todos ouvimos. Ouvimos com tudo. Sem interromper. Ainda que tivessemos mil perguntas, ainda que discordassemos, apenas ouvimos. E como é dificil só ouvir :) Quando concorda-se com uma ideia diz-se "Hou!". E no final da sua fala que dura o tempo que vc quiser termina-se por dizer " Eu sou ..., falei, Hei!" e nos respondemos "Hou".
O que sempre me impressiona em rituais é como é fácil para nós humanos nos conectarmos a eles. Vide o poder de religioes, futebol, exercitos. Fazer coisas juntos, sincronizar comportamento tem uma coisa evolutivamente, e cognitivamente muito forte. Então ali sentados em circulo observando as regras em pouco tempo o ritual ficou profundo. Maluh comecou falando de Arete. De acordo com Wikipedia Arete vem "de excelência, ligado à noção de cumprimento do propósito ou da função a que o indivíduo se destina. [1] No sentido grego, a virtude coincide com a realização da própria essência, e portanto a noção se estende a todos os seres vivos. Segundo Sócrates, a virtude é fazer aquilo que a que cada um se destina. Aquilo que no plano objetivo é a realização da própria essência, no plano subjetivo coincide com a própria felicidade."
Maluh começou ali falando do que fazia, ela que eh geneticista, artista e mais um milhao de coisas, falou de baixar um pouco a bandeira dos direitos e levantar a bandeira da responsabilidade. Em seguida falou Diego, que por ser filosofo, começou de Arete mesmo. Fiquei pensando dentro de mim naquela sincronicidade. E o resto da noite foi assim. EU que conhecia a todos pensava "meu deus, tantas coisas estão sendo ditas aqui que tantas pessoas precisam ouvir". Como é possivel uma coisa dessa que as vezes aquela coisa exata que precisa ser ouvida se transborda assim da boca do outro?
O nosso ritual foi profundo. Tão profundo que todos que participaram escreveram algo sobre o ritual, ou mensagens para mim. Fiquei pensando como ali, em tão pouco tempo as pessoas se conectaram com suas essencias. Mesmo as pessoas que falaram menos pareciam tão conectadas a tudo que estava sendo dito.
Minha buscas ali foram parcialmente resolvidas. Aquele sentimento de solidão que eu senti tantas vezes no Brasil se preencheu. Se preenche sempre no encontro com o outro. E esse outro tá em todo o lugar. Cheguei desencontrada e saí convencida que em qualquer lugar se encontra gente que tem as mesmas buscas. Ainda que as vivam de maneira muito distintas. Saí com um sentimento inabalavel de otimismo, de amor, de gratidão.
E saí sem precisar de ponto final. Me sentindo assim, num ponto e virgula. Afinal de contas a vida continua.
No meu último post eu estava assim, me sentindo sem ponto final. Estava totalmente fora de lugar. Querendo ficar e tendo que ir. Inventando mil cenarios onde em todos eu parecia estranhamente fora de lugar. Tudo isso tem a ver com o tempo. Em grego, aparentemente, existe a diferença entre Chronos ( o tempo cronologico) e Kairos ( o tempo, o momento supremo). Aliás isso é tão parecido com o BUdismo. A impermanencia de tudo é no Chronos. Estar sempre presente deve ser Kairos. Acontece que nesses momentos Kairos dá um medo de perde-los no tempo. No Chronos :)
Eu tava assim perdida em Chronos. Correndo atras daquele Kairos que só podia existir quando existiu. Sempre na frente ou sempre atras. Eu morria diariamente umas 10 mil vezes tentando encontrar. Até o dia da minha despedida. Aquela que no
último post eu esperava me sentindo sem ponto final.
Chegaram as pessoas. Amigos de varias partes. De varias idades. De varias ideias. E ali no encontramos. Primeiro em estorias de viagens, estorias engraçadas. Depois já no final da noite, Malu Barciotte, que eu tinha conhecido na Lapinha, e que ja tinha feito o ritual das lanternas que tanto mexera comigo propos um outro ritual. Eu não me lembro muito bem o nome do Ritual. Ele bascimanete consiste em ouvir o outro. Sentamos em circulo e escolhemos o bastião da fala. Eu escolhi a estátua africana. Uma cabeça de mulher que minha avó trouxe de uma viagem que fez a Africa. Maluh começou por explicar as regras. Quem segura a cabeça fala. Fala quem é o que pensa, o que faz, alias fala o que quiser. E nos todos ouvimos. Ouvimos com tudo. Sem interromper. Ainda que tivessemos mil perguntas, ainda que discordassemos, apenas ouvimos. E como é dificil só ouvir :) Quando concorda-se com uma ideia diz-se "Hou!". E no final da sua fala que dura o tempo que vc quiser termina-se por dizer " Eu sou ..., falei, Hei!" e nos respondemos "Hou".
O que sempre me impressiona em rituais é como é fácil para nós humanos nos conectarmos a eles. Vide o poder de religioes, futebol, exercitos. Fazer coisas juntos, sincronizar comportamento tem uma coisa evolutivamente, e cognitivamente muito forte. Então ali sentados em circulo observando as regras em pouco tempo o ritual ficou profundo. Maluh comecou falando de Arete. De acordo com Wikipedia Arete vem "de excelência, ligado à noção de cumprimento do propósito ou da função a que o indivíduo se destina. [1] No sentido grego, a virtude coincide com a realização da própria essência, e portanto a noção se estende a todos os seres vivos. Segundo Sócrates, a virtude é fazer aquilo que a que cada um se destina. Aquilo que no plano objetivo é a realização da própria essência, no plano subjetivo coincide com a própria felicidade."
Maluh começou ali falando do que fazia, ela que eh geneticista, artista e mais um milhao de coisas, falou de baixar um pouco a bandeira dos direitos e levantar a bandeira da responsabilidade. Em seguida falou Diego, que por ser filosofo, começou de Arete mesmo. Fiquei pensando dentro de mim naquela sincronicidade. E o resto da noite foi assim. EU que conhecia a todos pensava "meu deus, tantas coisas estão sendo ditas aqui que tantas pessoas precisam ouvir". Como é possivel uma coisa dessa que as vezes aquela coisa exata que precisa ser ouvida se transborda assim da boca do outro?
O nosso ritual foi profundo. Tão profundo que todos que participaram escreveram algo sobre o ritual, ou mensagens para mim. Fiquei pensando como ali, em tão pouco tempo as pessoas se conectaram com suas essencias. Mesmo as pessoas que falaram menos pareciam tão conectadas a tudo que estava sendo dito.
Minha buscas ali foram parcialmente resolvidas. Aquele sentimento de solidão que eu senti tantas vezes no Brasil se preencheu. Se preenche sempre no encontro com o outro. E esse outro tá em todo o lugar. Cheguei desencontrada e saí convencida que em qualquer lugar se encontra gente que tem as mesmas buscas. Ainda que as vivam de maneira muito distintas. Saí com um sentimento inabalavel de otimismo, de amor, de gratidão.
E saí sem precisar de ponto final. Me sentindo assim, num ponto e virgula. Afinal de contas a vida continua.
domingo, janeiro 09, 2011
Sem ponto final
É chegada mais uma vez a hora de eu partir. Já pensei umas mil maneiras de não partir. Mil coisas que poderiam dar errado e me prender aqui. Será que eu sempre faço isso. Confesso que eu já não sei mais se sou tão viajante, ou se por viver tanto essas mudanças o tempo todo acabei acreditando que sou. O que eu sei é que nessa manha faz sol la fora e a idéia de voltar para uma Londres gelada e sem luz é bem pouco charmosa.
Minha estadia no Brasil teve 4 fases. Um calendario lunar :) A primeira fase sempre começa comigo vindo tensa me escondendo no meu cantinho indo visitar a "maquina", fazendo meu exames, esperando o resultado, recebendo-os celebrando os e aos pouquinhos saindo da toca.
Na segunda fase eu fui me acalmar lá no sul com minha prima recem coincida de fato, mas como ja expliquei aqui, conhecida de muito tempo de dentro. Passei com ela o tempo da paz. Fazendo nada alem de ter conversas inspiradoras, caminhadas em meio ao verde, yoga, comendo comida organica, me encontrando com pessoas muito especiais. Renovando todas as baterias. Lembro de pensar enquanto estava na Lapinha que de fato 2010 tinha sido tranquilo que eu nem se quer precisava descansar tanto. Mas como a vida escreve certo por linhas tortas eu compreenderia depois que eu nao estava me renovando por esgotamento com o passado, eu estava me preparando para encarar o que viria no futuro.
A terceia fase foi o Rio de Janeiro. E o Rio de Janeiro foi tudo que há de intenso para mim. Sol demais, emoções demais, encontros demais, reencontros fortes.. e ainda uma despedida epica numa noite chuvosa onde eu acabei passando uma das piores noites da minha vida tentando fugir de um ataque um amigo meu. Foi epico. Chovia, eu chorava ele gritava. E eu que já tava meio esgotada antes da tal noite parti do Rio assim como quem foge esperando encontrar no deslocamento um cessar para toda o turbilhão e reviravoltas do dentro.
Então chegou a quarta fase: Ubatuba com minha familia. A fase de reavaliar tudo. O que é mesmo que eu to fazendo? Porque mesmo quero ir fazer minha pesquisa de campo em Israel? Porque é que eu moro em Londres? Porque é que eu deixo aqui tantas pessoas que eu amo? Perguntas, muitas perguntas sem resposta. Morria umas dez vezes por dia por não entender muito bem o tempo das coisas. Alguem que tiver lendo aí da uma luz. Como é que a gente sabe se quebra tudo? Ou se espera o furor passar? Não sei. Então eu nadei pedindo a todos os orixas e todo aquele resto de coisa que eu nunca nem sei quem é que tirasse ali no mar tudo. Andei a praia de ponta a ponta umas mil vezes. Fiz Yoga em todos os pedacos do meu jardim, em todas as partes da praia, em todos os pedacos de mim. Meditei na areia, na pedra, sentindo areia, sentindo o mar, sentindo os sons. Conversei com desconhecidos, com familia e até tive a chance de conhecer o grande flautista Toninho Carrasqueira e tocar com ele e seus amigos no Hotel da Dona Antonieta amiga da minha mãe.
Pronto e aí chegou a hora de partir. Voltei para Sao Paulo num choro silencioso de quem realmente nao sabe o que fazer. Será que toda vez eu passo por isso? Eu nem sei mais. Como é que a gente aprende a ficar no tempo nas coisas o tempo todo? Sem querer que ele se estenda ? Mas ao mesmo tempo como sera que a gente sabe que talvez nao esteja mais vivendo o tempo das coisas e por isso fica querendo fazer todo os resto se estender. Nao sei. E toda a meditacao do mundo nao resolveria, porque quando isso bate, bate assim sem vc querer se anestesiar, sem querer deixar passar.
Entao eu sento aqui na sala. Sento mais uma vez esperando meus queridos amigos aparecerem para dizer adeus. Muitas vezes esses adeus sao" Olas" pq na minha estadia eu nunca consigo ver todo mundo que eu queria ver. E sao nessas despedidas que eles vem dizer "Ola e Adeus" junto. E eu fico sempre com um nó na garganta. Sempre tento me convencer que isso é só até eu chegar do outro lado e me refaço nos outros encontros. Eu sei que um post devia ter conclusao... Normalmente eu concluo nisso em saber que do outro lado as coisas se resolvem mas nesse exato momento eu to me sentindo assim sem ponto final.
Minha estadia no Brasil teve 4 fases. Um calendario lunar :) A primeira fase sempre começa comigo vindo tensa me escondendo no meu cantinho indo visitar a "maquina", fazendo meu exames, esperando o resultado, recebendo-os celebrando os e aos pouquinhos saindo da toca.
Na segunda fase eu fui me acalmar lá no sul com minha prima recem coincida de fato, mas como ja expliquei aqui, conhecida de muito tempo de dentro. Passei com ela o tempo da paz. Fazendo nada alem de ter conversas inspiradoras, caminhadas em meio ao verde, yoga, comendo comida organica, me encontrando com pessoas muito especiais. Renovando todas as baterias. Lembro de pensar enquanto estava na Lapinha que de fato 2010 tinha sido tranquilo que eu nem se quer precisava descansar tanto. Mas como a vida escreve certo por linhas tortas eu compreenderia depois que eu nao estava me renovando por esgotamento com o passado, eu estava me preparando para encarar o que viria no futuro.
A terceia fase foi o Rio de Janeiro. E o Rio de Janeiro foi tudo que há de intenso para mim. Sol demais, emoções demais, encontros demais, reencontros fortes.. e ainda uma despedida epica numa noite chuvosa onde eu acabei passando uma das piores noites da minha vida tentando fugir de um ataque um amigo meu. Foi epico. Chovia, eu chorava ele gritava. E eu que já tava meio esgotada antes da tal noite parti do Rio assim como quem foge esperando encontrar no deslocamento um cessar para toda o turbilhão e reviravoltas do dentro.
Então chegou a quarta fase: Ubatuba com minha familia. A fase de reavaliar tudo. O que é mesmo que eu to fazendo? Porque mesmo quero ir fazer minha pesquisa de campo em Israel? Porque é que eu moro em Londres? Porque é que eu deixo aqui tantas pessoas que eu amo? Perguntas, muitas perguntas sem resposta. Morria umas dez vezes por dia por não entender muito bem o tempo das coisas. Alguem que tiver lendo aí da uma luz. Como é que a gente sabe se quebra tudo? Ou se espera o furor passar? Não sei. Então eu nadei pedindo a todos os orixas e todo aquele resto de coisa que eu nunca nem sei quem é que tirasse ali no mar tudo. Andei a praia de ponta a ponta umas mil vezes. Fiz Yoga em todos os pedacos do meu jardim, em todas as partes da praia, em todos os pedacos de mim. Meditei na areia, na pedra, sentindo areia, sentindo o mar, sentindo os sons. Conversei com desconhecidos, com familia e até tive a chance de conhecer o grande flautista Toninho Carrasqueira e tocar com ele e seus amigos no Hotel da Dona Antonieta amiga da minha mãe.
Pronto e aí chegou a hora de partir. Voltei para Sao Paulo num choro silencioso de quem realmente nao sabe o que fazer. Será que toda vez eu passo por isso? Eu nem sei mais. Como é que a gente aprende a ficar no tempo nas coisas o tempo todo? Sem querer que ele se estenda ? Mas ao mesmo tempo como sera que a gente sabe que talvez nao esteja mais vivendo o tempo das coisas e por isso fica querendo fazer todo os resto se estender. Nao sei. E toda a meditacao do mundo nao resolveria, porque quando isso bate, bate assim sem vc querer se anestesiar, sem querer deixar passar.
Entao eu sento aqui na sala. Sento mais uma vez esperando meus queridos amigos aparecerem para dizer adeus. Muitas vezes esses adeus sao" Olas" pq na minha estadia eu nunca consigo ver todo mundo que eu queria ver. E sao nessas despedidas que eles vem dizer "Ola e Adeus" junto. E eu fico sempre com um nó na garganta. Sempre tento me convencer que isso é só até eu chegar do outro lado e me refaço nos outros encontros. Eu sei que um post devia ter conclusao... Normalmente eu concluo nisso em saber que do outro lado as coisas se resolvem mas nesse exato momento eu to me sentindo assim sem ponto final.
quarta-feira, dezembro 29, 2010
Encontros
Eu estou acostumada a me sentir só em continentes distantes. Achar alento nos pequenos momentos de reconhecimento, em ver coisas tolas que em terras longinquas me trazem tao perto de me sentir parte de um todo. Quase nunca me importa me sentir só em lugares que eu nao falo a lingua. É sempre no encontro com o viajante, um outro "wanderer" existencial que eu me sinto em casa. E apesar de eu saber de tudo isso muito conscientemente, inconscientemente eu de alguma forma sempre espero que aqui no Brasil eu me sinta mais em casa. Eu não sei direito porque eu espero isso, porque o lugar "parecer" familiar só evidencia na verdade o quão arbitrario tudo é. Assim, que muitas vezes aqui no Brasil eu me sinto mais só do que em outros lugares do mundo. Eu sei que é uma ilusão, a solidao deve ser a mesma, mas é em meio a esperar o familiar e não importa quanto eu me prepare para isso, la dentro eu sempre espero encontrar um sentimento de casa. Nao encontro. Nao encontro em lugar fixo nenhum, e acho que nunca vou encontrar, eu encontro nos encontros...
E quando esses encontros acontecem meu deus como eu me emociono. Eu fico tão grata. Acessar ali com um outro alguem algo de privado, de secreto, de unico de individual. Algo que eu mesma nem lembrava que sentia tanta falta. E eu tento engolir tudo, ficar ali naquele momento o tempo que eu puder ficar, porque é tudo impermanente, e na minha vida de eternas mudanças o impermanente é tão evidente. Lembro do ultimo café da manhã que eu tomei com minha amiga Sabrina Rabello ( alias cd dela esta lançado!!!) em Londres, antes dela se mudar para começar um post doc em Boston. Lembro de querer estar ali tanto, porque tudo aquilo que nos dividiamos, quem eu era com a Sa ia ter que por um tempo indeterminado ficar suspenso. Lembro de no dia seguinte de sua partida ter algo para dizer para ela, que so ela no mundo todo poderia entender. Lembro de sentar no ponto de onibus sentindo uma saudade, uma falta de ar por mais uma vez ter que recriar o mundo sem a minha amiga por perto.
Lembro de sentir isso também quando parti da Asia. Sentada no aeroporto eu tentava imaginar mil maneiras de voltar para o Rio Mekong. Meu mestrado para acabar, minha vida suspensa em Londres, e eu querendo voltar para o norte da Tailandia. Lembro de mal conceber durantes as noites como seria se eu nao pudesse nunca mais voltar para a Asia. Lembro de no Hospital, quando eu ainda nao sabia o que eu tinha, de pensar meu deus eu quero ver o mundo, eu quero subir pedra e arvore, eu quero aprender a rir em outras linguas e se eu nao puder fazer mais nada?
E lembro é claro tambem dos momentos de encontro. E qualquer triagem que eu faça aqui será injusta. Deixará de fora momentos e pessoas importantes. Porque eu quase sempre to 100% por cento nos lugares onde estou. Lembro dos tambores berberes tocando na minha pele no deserto do Sahara, do vendedor de rede no litoral do Brasil, do meu encontro com SS Karmapa na India, sentir todos os musculos enquanto eu tentava descer uma pedra no sul da Asia, o molejo do elefante, o abraço inusitado de Tangmo, minha aluna tailandesa. Lembro de gargalhar com Horm, e Aoh na varanda de um vilarejo minusculo sem entender quase nada. Gargalhar em meio a trovoadas e falta de luz enquanto Aoh massageava Horm. Lembro de me sentir dentro da casa bombardeada no Iran quando minha amiga Sara apavorada veio ao meu quarto no dia que os EUA invadiram o Iraq falar de suas memorias de infancia. Lembro de ouvir a Joss, em Ny, me contar com todos os detalhes do mundo sobre o presente que ela tinha ganhado de uma menina tibetana. Ou entao, de ouvir Elisa me contar shakespeare dentro do Jardim Botanico, sentir o piado dos passarinhos na pele. Em todos esses momentos eu senti uma gratidao enorme por poder ouvir essas estorias, por poder estar la.
Na Lapinha, agora nesse final de ano, eu tive encontros assim. Primeiro o meu encontro com minha prima que mexeu muito comigo. Depois com mulheres que tinham tantas estorias lindas para contar. Mulheres que se encontraram como mulheres. Se encontraram nas minha estotias pouco ortodoxas. E por sentirem se a vontade ouvindo as minhas contavam as suas. Como somos parecidos no mundo era tudo que eu pensava.
Conheci na Lapinha uma mulher excepcional. Claudia Alcantara. Quando ouvi a estoria da sua vida disse imediatamente que escreveria sobre ela. Ela me explicou que ja tinham escrito. Eu expliquei que nao era que eu ia escrever para ninguem publicar. Eu escreveria no meu blog onde eu transbordo assim meio sem sentido e quase ninguem le. FIcamos amigas. Claudia é uma grande empreendedora. A mente dela não para nunca. Paramos juntas para meditar. E eu ouvi ela contar suas estorias. Claudia que criou a Cadiveu uma empresa que faz cosmeticos para cabelereiros, criou tbm um salao, e uma loja de produtos organicos. Cadiveu é um nome de uma tribo. Eu não sabia nada sobre eles. E nem tao pouco sobre cosmeticos.
Ontem fui ao salao da Claudia. Praticamente brincamos de boneca :) Ela me penteou. E eu pude conhecer a loja organica dela. Ela me mostrou um vaso pintado pelos Cadiveu e me contou sobre eles. Me contou sobre como ela criou tudo que criou. Seu sucesso, e sua beleza não estão para mim na estoria comercial de sucesso. Mas numa coisa bonita que ela me disse. "Ju, atraves do meu trabalho eu to podendo dar trabalho, e ajudar muita gente. Eu tento ajudar os Indios o maximo que eu posso. Eu me encantei pelo arte deles." Fui ouvindo seu planos e fui ficando emocionada. Eu vivo num mundo academico, esse outro mundo é muito alien para mim.
"Eu criei tudo que eu tenho. Comecei do nada. Eu não me importo com o dinheiro em si. Dinheiro é importante para eu poder continuar criando, ajudando as pessoas a minha volta, eu acho que temos que fazer o bem."
Caminhamos juntas até minha casa. Queria ter dito a ela que ela não começou do nada. Ela começou do tudo. Do que realmente importa. Não disse, as vezes essas coisas ficam no silencio. E eu senti aquela coisa de encontro. Que eu sinto as vezes nos momentos mais distintos. Com pessoas as vezes tão diferentes de mim. Acho que são pessoas que querem um mundo melhor. Que constroem diariamente um mundo melhor. Não precisa ser nada megalomaniaco, mas alguma conviccao que o mundo está sim mudando, e que nós nas interações diaria somos parte do mundo que se forma.
Em um desses encontros muito profundos e intensos que eu tive me disseram. "Voce nao ta 100% aqui. 100% por cento é ficar. é nao ir embora." Pensei tanto sobre isso. Talvez ter a partida determinada faça com que eu tente estar muito mais pois tenho pouco tempo. As vezes me dá medo eu me abrir tanto assim, e amar tanto assim. As vezes é exaustivo ser eu. Mas o que é que eu posso fazer..... eu não sei ser outra pessoa.
E quando esses encontros acontecem meu deus como eu me emociono. Eu fico tão grata. Acessar ali com um outro alguem algo de privado, de secreto, de unico de individual. Algo que eu mesma nem lembrava que sentia tanta falta. E eu tento engolir tudo, ficar ali naquele momento o tempo que eu puder ficar, porque é tudo impermanente, e na minha vida de eternas mudanças o impermanente é tão evidente. Lembro do ultimo café da manhã que eu tomei com minha amiga Sabrina Rabello ( alias cd dela esta lançado!!!) em Londres, antes dela se mudar para começar um post doc em Boston. Lembro de querer estar ali tanto, porque tudo aquilo que nos dividiamos, quem eu era com a Sa ia ter que por um tempo indeterminado ficar suspenso. Lembro de no dia seguinte de sua partida ter algo para dizer para ela, que so ela no mundo todo poderia entender. Lembro de sentar no ponto de onibus sentindo uma saudade, uma falta de ar por mais uma vez ter que recriar o mundo sem a minha amiga por perto.
Lembro de sentir isso também quando parti da Asia. Sentada no aeroporto eu tentava imaginar mil maneiras de voltar para o Rio Mekong. Meu mestrado para acabar, minha vida suspensa em Londres, e eu querendo voltar para o norte da Tailandia. Lembro de mal conceber durantes as noites como seria se eu nao pudesse nunca mais voltar para a Asia. Lembro de no Hospital, quando eu ainda nao sabia o que eu tinha, de pensar meu deus eu quero ver o mundo, eu quero subir pedra e arvore, eu quero aprender a rir em outras linguas e se eu nao puder fazer mais nada?
E lembro é claro tambem dos momentos de encontro. E qualquer triagem que eu faça aqui será injusta. Deixará de fora momentos e pessoas importantes. Porque eu quase sempre to 100% por cento nos lugares onde estou. Lembro dos tambores berberes tocando na minha pele no deserto do Sahara, do vendedor de rede no litoral do Brasil, do meu encontro com SS Karmapa na India, sentir todos os musculos enquanto eu tentava descer uma pedra no sul da Asia, o molejo do elefante, o abraço inusitado de Tangmo, minha aluna tailandesa. Lembro de gargalhar com Horm, e Aoh na varanda de um vilarejo minusculo sem entender quase nada. Gargalhar em meio a trovoadas e falta de luz enquanto Aoh massageava Horm. Lembro de me sentir dentro da casa bombardeada no Iran quando minha amiga Sara apavorada veio ao meu quarto no dia que os EUA invadiram o Iraq falar de suas memorias de infancia. Lembro de ouvir a Joss, em Ny, me contar com todos os detalhes do mundo sobre o presente que ela tinha ganhado de uma menina tibetana. Ou entao, de ouvir Elisa me contar shakespeare dentro do Jardim Botanico, sentir o piado dos passarinhos na pele. Em todos esses momentos eu senti uma gratidao enorme por poder ouvir essas estorias, por poder estar la.
Na Lapinha, agora nesse final de ano, eu tive encontros assim. Primeiro o meu encontro com minha prima que mexeu muito comigo. Depois com mulheres que tinham tantas estorias lindas para contar. Mulheres que se encontraram como mulheres. Se encontraram nas minha estotias pouco ortodoxas. E por sentirem se a vontade ouvindo as minhas contavam as suas. Como somos parecidos no mundo era tudo que eu pensava.
Conheci na Lapinha uma mulher excepcional. Claudia Alcantara. Quando ouvi a estoria da sua vida disse imediatamente que escreveria sobre ela. Ela me explicou que ja tinham escrito. Eu expliquei que nao era que eu ia escrever para ninguem publicar. Eu escreveria no meu blog onde eu transbordo assim meio sem sentido e quase ninguem le. FIcamos amigas. Claudia é uma grande empreendedora. A mente dela não para nunca. Paramos juntas para meditar. E eu ouvi ela contar suas estorias. Claudia que criou a Cadiveu uma empresa que faz cosmeticos para cabelereiros, criou tbm um salao, e uma loja de produtos organicos. Cadiveu é um nome de uma tribo. Eu não sabia nada sobre eles. E nem tao pouco sobre cosmeticos.
Ontem fui ao salao da Claudia. Praticamente brincamos de boneca :) Ela me penteou. E eu pude conhecer a loja organica dela. Ela me mostrou um vaso pintado pelos Cadiveu e me contou sobre eles. Me contou sobre como ela criou tudo que criou. Seu sucesso, e sua beleza não estão para mim na estoria comercial de sucesso. Mas numa coisa bonita que ela me disse. "Ju, atraves do meu trabalho eu to podendo dar trabalho, e ajudar muita gente. Eu tento ajudar os Indios o maximo que eu posso. Eu me encantei pelo arte deles." Fui ouvindo seu planos e fui ficando emocionada. Eu vivo num mundo academico, esse outro mundo é muito alien para mim.
"Eu criei tudo que eu tenho. Comecei do nada. Eu não me importo com o dinheiro em si. Dinheiro é importante para eu poder continuar criando, ajudando as pessoas a minha volta, eu acho que temos que fazer o bem."
Caminhamos juntas até minha casa. Queria ter dito a ela que ela não começou do nada. Ela começou do tudo. Do que realmente importa. Não disse, as vezes essas coisas ficam no silencio. E eu senti aquela coisa de encontro. Que eu sinto as vezes nos momentos mais distintos. Com pessoas as vezes tão diferentes de mim. Acho que são pessoas que querem um mundo melhor. Que constroem diariamente um mundo melhor. Não precisa ser nada megalomaniaco, mas alguma conviccao que o mundo está sim mudando, e que nós nas interações diaria somos parte do mundo que se forma.
Em um desses encontros muito profundos e intensos que eu tive me disseram. "Voce nao ta 100% aqui. 100% por cento é ficar. é nao ir embora." Pensei tanto sobre isso. Talvez ter a partida determinada faça com que eu tente estar muito mais pois tenho pouco tempo. As vezes me dá medo eu me abrir tanto assim, e amar tanto assim. As vezes é exaustivo ser eu. Mas o que é que eu posso fazer..... eu não sei ser outra pessoa.
quinta-feira, dezembro 23, 2010
Encontros Inusitados
Estou ficando na casa do meu grande amigo Fellipe Gamarano Barbosa. Fellipe é cineasta, ele ve o mundo assim de uma maneira só dele. As vezes discutimos por causa disso porque eu vejo de uma maneira so minha. As discussões duram pouco pois somos amigos há tempo demais. Da casa dele saí de manhã para encontra uma outra amiga nossa que estudou conosco em NY. Marcamos o encontro no BiBi sucos o unico lugar que eu sei ir aqui no rio. Eu sei porque é logo aqui do lado. Assim que todo mundo que eu tenho que encontrar, eu encontro la. O Bibi é um lugar muito popular então na hora de almoço está sempre cheio.
Esperei do lado de fora minha amiga chegar enquanto eu observava a movimentação lá dentro. Quando ela finalmente chegou, entramos e eu pedi a dois senhores sentados numa mesa se podiamos divivir a mesa com eles. Eles concordaram, e começamos uma breve conversa sobre como era meio triste o fato das pessoas ficarem sentadas sozinhas em mesas de 4 lugares enquanto tinha gente que esperava de pe. Sentamos de uma maneira que minha amiga Elisa ficou na frente do meu vizinho e eu na frente do dela.
Tivemos conversas paralelas e por uma hora eu realmente nao tive a menor ideia sobre o que estava acontecendo com ela. A minha frente estava David. Um senho de 74 anos, muito em forma, muito gentil e que parecia emocionalmente abalado. Perguntei se ele estava bem e ele me explicou que estava muito tenso, sua filha diabetica tinha sofrido uma operação de 8 horas. Ela, ele me explicou era uma pessoa dificilima. Se recusava a ter enfermeiros terapeutas, nao comia e vive entrando em coma. Ele tem que ligar o dia inteiro para ver se ela comeu e quando ela nao atende ele sabe que tem que sair correndo porque ela deve estar em coma. " Quando ela entra em coma na cama tudo bem, eh facil, mas quando eh no chao e eu tenho que dar agua com açucar com conta gotas ajoelhado no chao me arrebenta! eu tenho 74 anos!"
Eu quando ouço essas coisas sempre quero trazer uma palavra de alivio. Ali eu nao sabia o que dizer. Propunha solucoes todas tentadas. " MInha filha eh muito revoltada! vc nao entende ela bate o pe e nao faz". Eu queria dizer " Entao deixa! O senhor nao pode ficar 24 horas por dia tomando conta da sua filha!". Impossivel de dizer isso. Como dizer a um pai que ja viu a filha quase morrrer um milhao de vezes para deixa-la e ver o que acontece? Entao eu ouvi em silencio. Ele me contou que tomava conta da filha, a sobrinha tinha tido cancer 5 vezes, o irmao tem 91 anos. Fui ouvindo sem saber o que dizer. Eu so dizia "Davi, o senhor precisa tomar pelo menos 5 minutos por dia para meditar! Pare por um segundo e fique com vc. Esqueca todos os outros!". "Eu nao posso minha filha, eu tenho que cuidar deles!!!" Eu ouvia, e sempre insistia na minha ideia " 2 minutos no banho fecha o olho e larga tudo!". Conversamos muito. E ao final ele que me explicou que era meio medium me contou que tudo que eu fizesse eu faria bem, daria certo. Eu agradeci as palavras.
Ao meu lado, Elisa minha amiga teve uma conversa bem menos inspiradora. Ela que é atriz conversou com outro Davi o ator da escolhinha do professor Raimundo SambariLove. Eu nao o reconheci porque eu sou pessima com essas coisas, alem de nao ter visto a escolhina muitas vezes.
De noite, fui com Fellipe a um bar aqui perto de casa. Sentamos, e ele comecou uma conversa com um senhor que eu tao pouco tinha reconhecido. O senhor estava fazendo um filme sobre musica e compositores. Fellipe falou para o senhor de mim, e me mandou sentar com ele. Das grandes coincidencias. O senho era o Eduardo Coutinho. De quem eu confesso nunca tinha ouvido falar ate assistir o filme sobre o qual escrevi no ultimo post. Sentei me com ele e disse tudo aquilo que escrevi aqui. Conversamos sobre antropologia, filosofia e muitos outros ia. Ele me falou para mandar as musicas. Eu achando aquilo tudo meio estranho. Eu que componho assim por diletantismo fiquei sem saber direito oque dizer. Nao fazia nem 12 horas que eu tinha escrito sobre ele, sobre o filme dele.
Voltei para casa, e o ultimo pensamento que tive antes de deitar nao foi sobre o E. Coutinho. A conversa com o Coutinho foi muito interessante mas oque me tocou foi o outro encontro, o outro que me deixou bem mais feliz. Foi o Davi. Logo antes de sair do Bibi ele me olhou e disse "Me desculpe! Eu joguei toda essa carga em cima de vc! Eu te contei tudo sobre tudo isso." Eu expliquei que ele nao precisava pedir desculpa, que eu esperava que ele parasse 2 minutos por dia para se recarregar. Que eu tinha ficado tocada ounvindo tudo. E entao ele disse " Julieta. Voce é uma pessoa muito muito especial. Encontrar voce aqui foi a melhor coisa que aconteceu no meu ano todo. Muito obrigada por vc ter me ouvido!"
Meu olhos se encheram de lagrimas. E eu entendi que as vezes nao temos que dizer nada. As vezes as pessoas sao colocadas no nossa caminho para serem ouvidas, para nos ouvirem. Ouvir mesmo. Ouvir com tudo que ta ali. E eu ouvi, e foi um presente muito grande para mim apenas ouvir. E no final ainda ouvir de um homem tao bom que nosso inusitado encontro tenha trazido um pouco de alento.
Esperei do lado de fora minha amiga chegar enquanto eu observava a movimentação lá dentro. Quando ela finalmente chegou, entramos e eu pedi a dois senhores sentados numa mesa se podiamos divivir a mesa com eles. Eles concordaram, e começamos uma breve conversa sobre como era meio triste o fato das pessoas ficarem sentadas sozinhas em mesas de 4 lugares enquanto tinha gente que esperava de pe. Sentamos de uma maneira que minha amiga Elisa ficou na frente do meu vizinho e eu na frente do dela.
Tivemos conversas paralelas e por uma hora eu realmente nao tive a menor ideia sobre o que estava acontecendo com ela. A minha frente estava David. Um senho de 74 anos, muito em forma, muito gentil e que parecia emocionalmente abalado. Perguntei se ele estava bem e ele me explicou que estava muito tenso, sua filha diabetica tinha sofrido uma operação de 8 horas. Ela, ele me explicou era uma pessoa dificilima. Se recusava a ter enfermeiros terapeutas, nao comia e vive entrando em coma. Ele tem que ligar o dia inteiro para ver se ela comeu e quando ela nao atende ele sabe que tem que sair correndo porque ela deve estar em coma. " Quando ela entra em coma na cama tudo bem, eh facil, mas quando eh no chao e eu tenho que dar agua com açucar com conta gotas ajoelhado no chao me arrebenta! eu tenho 74 anos!"
Eu quando ouço essas coisas sempre quero trazer uma palavra de alivio. Ali eu nao sabia o que dizer. Propunha solucoes todas tentadas. " MInha filha eh muito revoltada! vc nao entende ela bate o pe e nao faz". Eu queria dizer " Entao deixa! O senhor nao pode ficar 24 horas por dia tomando conta da sua filha!". Impossivel de dizer isso. Como dizer a um pai que ja viu a filha quase morrrer um milhao de vezes para deixa-la e ver o que acontece? Entao eu ouvi em silencio. Ele me contou que tomava conta da filha, a sobrinha tinha tido cancer 5 vezes, o irmao tem 91 anos. Fui ouvindo sem saber o que dizer. Eu so dizia "Davi, o senhor precisa tomar pelo menos 5 minutos por dia para meditar! Pare por um segundo e fique com vc. Esqueca todos os outros!". "Eu nao posso minha filha, eu tenho que cuidar deles!!!" Eu ouvia, e sempre insistia na minha ideia " 2 minutos no banho fecha o olho e larga tudo!". Conversamos muito. E ao final ele que me explicou que era meio medium me contou que tudo que eu fizesse eu faria bem, daria certo. Eu agradeci as palavras.
Ao meu lado, Elisa minha amiga teve uma conversa bem menos inspiradora. Ela que é atriz conversou com outro Davi o ator da escolhinha do professor Raimundo SambariLove. Eu nao o reconheci porque eu sou pessima com essas coisas, alem de nao ter visto a escolhina muitas vezes.
De noite, fui com Fellipe a um bar aqui perto de casa. Sentamos, e ele comecou uma conversa com um senhor que eu tao pouco tinha reconhecido. O senhor estava fazendo um filme sobre musica e compositores. Fellipe falou para o senhor de mim, e me mandou sentar com ele. Das grandes coincidencias. O senho era o Eduardo Coutinho. De quem eu confesso nunca tinha ouvido falar ate assistir o filme sobre o qual escrevi no ultimo post. Sentei me com ele e disse tudo aquilo que escrevi aqui. Conversamos sobre antropologia, filosofia e muitos outros ia. Ele me falou para mandar as musicas. Eu achando aquilo tudo meio estranho. Eu que componho assim por diletantismo fiquei sem saber direito oque dizer. Nao fazia nem 12 horas que eu tinha escrito sobre ele, sobre o filme dele.
Voltei para casa, e o ultimo pensamento que tive antes de deitar nao foi sobre o E. Coutinho. A conversa com o Coutinho foi muito interessante mas oque me tocou foi o outro encontro, o outro que me deixou bem mais feliz. Foi o Davi. Logo antes de sair do Bibi ele me olhou e disse "Me desculpe! Eu joguei toda essa carga em cima de vc! Eu te contei tudo sobre tudo isso." Eu expliquei que ele nao precisava pedir desculpa, que eu esperava que ele parasse 2 minutos por dia para se recarregar. Que eu tinha ficado tocada ounvindo tudo. E entao ele disse " Julieta. Voce é uma pessoa muito muito especial. Encontrar voce aqui foi a melhor coisa que aconteceu no meu ano todo. Muito obrigada por vc ter me ouvido!"
Meu olhos se encheram de lagrimas. E eu entendi que as vezes nao temos que dizer nada. As vezes as pessoas sao colocadas no nossa caminho para serem ouvidas, para nos ouvirem. Ouvir mesmo. Ouvir com tudo que ta ali. E eu ouvi, e foi um presente muito grande para mim apenas ouvir. E no final ainda ouvir de um homem tao bom que nosso inusitado encontro tenha trazido um pouco de alento.
quarta-feira, dezembro 22, 2010
Das Tendencias Humanas
Um amigo meu me disse uma vez "deve ser exaustivo ser você, seu sistema empático é forte demais." Eu ri. Provavelmente porque ele tava rindo, se tivesse chorando provavelmente eu teria chorado. Sera realmente tudo culpas dos neurônios espelho, de um sistema empático muito forte, ter nascido na América do Sul? Sei la. Tudo isso misturado e provavelmente mais um monte de coisa que eu devo ter deixado esquecida.
Eu to no Rio. E eu sinto demais. É quente demais. Os re-encontros são profundos demais, até os novos encontros me movimentam demais. Um outro amigo, tbm antropólogo me disse Tel Aviv e Rio são parecidas. Ele que morou tbm em Beirute acha isso de la tbm. Quanta intensidade. As coisas no Rio são exageradamente bonitas, e caóticas. Exageradamente para mim as vezes um pouco superficiais. Não digo isso como Paulistana que desgosta do Rio. Eu acho que essa superficialidade que eu encontro aqui ta la nos shoppings, nas boates, nas ruas do Jardim. Coexistindo tbm um milhão de outros mundos...pq nessas cidades caóticas tudo coexiste lado a lado.
Fellipe, me levou para ver o ultimo filme "secreto" do Eduardo Countinho. Foi no Instituto Moreira Salles, e foi secreto pq o filme é inteiro sobre um dia na TV aberta brasileira. Antes de escrever aqui pensei e fui fazer uma pesquisa para ver quao secreto esse filme era, afinal eu tbm nao quero que o Coutinho seja processado. Quem quiser ler informações aqui estão.
Eu nunca assisto televisao. Alias nao tenho uma televisao. Entao um filme inteiro de clipes da TV aberta foi particularmente dificilimo para mim. Nao pelo conteudo pq nao me surpreende tanto o que esta na TV brasileira. Tudo isso é sabido. É sem duvida um retrato assustador da sociedade brasileira. Eu tao pouco achei muito especial. POdia ao me ver ter sido um projeto de escola. Enfim, eu assisti o filme e quando ele acabou e o painel de discussao começou eu estava curiosa para ver o que as pessoas diriam. E o que o Coutinho dizia.
Ele disse muito, mas eu achei que não disse quase nada. Disse que não adianta fingir que a TV não esta aí que nos precisamos entender o porque tem tanto poder. O que as pessoas que assistem pensam. Que precisava ser feito um trabalho serio. Eu calada pensava dentro de mim: Então façam, vcs estão falando de um estudo antropológico mande alguém numa comunidade e observem as pessoas ver tv, ouçam o que elas tem a dizer... idealmente façam testes implícitos. Isso é claro da bem mais trabalho.
Depois ele disse que precisávamos entender porque esses programas tinham tanto sucesso. Uma vez mais a chata acadêmica dentro de mim pensava " ué.... testa... coloca algum num mri, num eeg...poe os programas. Investiga, tenham perguntas empíricas. Teste-as. Nao é difícil de ter proposições. Todos esses programas devem "play" em tendencias muito ingrained muito ligadas a nossa estoria evolucionaria.
Como sempre a grande pergunta para mim é o quanto estimular essas tendencias realmente muda alguma coisa. Isso tbm é uma pergunta empirica. Ou melhor, o quanto conteudo afeta estruturas cognitivas. Eu acho que é muito importante entender o homem como ele é como todas essas tendencias a categorizar, essencializar, gostar do seu grupo mais do que o outro, querer ser belo, etc etc etc... para que possamos desenvolver melhores sistemas educationais, planos politicos, filosofias.
Colocar la um filme com varios pedacos de TV eu acho que faz muito muito muito pouco. Ainda tem uma certa parte da experiencia que faz o espectador ali na sala do IMS se sentir tao dierente tao distinto das massas. Nao é. Nao somos.
Quando eu estava na Lapinha a Maluh, uma mulher excepcional que trabalha em um milhao de projetos artísticos e de paz criou uma atividade. Ela nos ensinou a fazer uma lanterna de cartolina de sao joao. Fizemos todos juntos numa sala. Nos que nao nos conhecíamos fomos trocando material, ajudando uns aos outros, nos concentrando na execução de um coisa nova. A noite, ascendemos nossas lanternas.
Maluh propôs uma caminhada em silencio. Que observássemos a luz. Fomos em silencio pelos arredores da Lapinha. Ouvindo os sapos, e diferentes ruídos pela noite. Um exercício tao filosófico. Não dá para olhar para a própria luz, você tem que olhar para a pessoa da frente. A sua luz ali na cara ofusca.. ela tem que ficar meio de lado, iluminar o caminho do outro. Caminhamos em silencio. E aquela brincadeira em segundos virou um ritual.
Meu primo de 11 anos tomou a dianteira. Ele que adora computadores e internet estava no ritual dele. Andando guiando, uma senhora de 74 anos também estava no ritual dela. NO ritual nosso. Ao final. nos juntamos para dizer um pouco do que tinha acontecido. Todo mundo tinha algo para dizer.
Eu agradecia a Malu porque ali naquele instante, eu lembrei de uma coisa preciosa. Nos temos todas essas tendencias. A tendencia a ter liberações químicas e aditivas quando assistindo programas de TV ruim, e tendencia de criar um ritual magico. A Maluh me contou que quando foi fazer um projeto na Febem levou tinta para os meninos pintarem. Eles la com toda aquela bagagem pintaram coisas lindas, coloridas. Acho que tudo isso eh para dizer isso. O retrato da TV brasileira diz um pouco sobre nossa sociedade. Não muito. Nossas tendencias são muitas. Estimulemos as que nos torna mais sociais, e mais humanos.
Eu to no Rio. E eu sinto demais. É quente demais. Os re-encontros são profundos demais, até os novos encontros me movimentam demais. Um outro amigo, tbm antropólogo me disse Tel Aviv e Rio são parecidas. Ele que morou tbm em Beirute acha isso de la tbm. Quanta intensidade. As coisas no Rio são exageradamente bonitas, e caóticas. Exageradamente para mim as vezes um pouco superficiais. Não digo isso como Paulistana que desgosta do Rio. Eu acho que essa superficialidade que eu encontro aqui ta la nos shoppings, nas boates, nas ruas do Jardim. Coexistindo tbm um milhão de outros mundos...pq nessas cidades caóticas tudo coexiste lado a lado.
Fellipe, me levou para ver o ultimo filme "secreto" do Eduardo Countinho. Foi no Instituto Moreira Salles, e foi secreto pq o filme é inteiro sobre um dia na TV aberta brasileira. Antes de escrever aqui pensei e fui fazer uma pesquisa para ver quao secreto esse filme era, afinal eu tbm nao quero que o Coutinho seja processado. Quem quiser ler informações aqui estão.
Eu nunca assisto televisao. Alias nao tenho uma televisao. Entao um filme inteiro de clipes da TV aberta foi particularmente dificilimo para mim. Nao pelo conteudo pq nao me surpreende tanto o que esta na TV brasileira. Tudo isso é sabido. É sem duvida um retrato assustador da sociedade brasileira. Eu tao pouco achei muito especial. POdia ao me ver ter sido um projeto de escola. Enfim, eu assisti o filme e quando ele acabou e o painel de discussao começou eu estava curiosa para ver o que as pessoas diriam. E o que o Coutinho dizia.
Ele disse muito, mas eu achei que não disse quase nada. Disse que não adianta fingir que a TV não esta aí que nos precisamos entender o porque tem tanto poder. O que as pessoas que assistem pensam. Que precisava ser feito um trabalho serio. Eu calada pensava dentro de mim: Então façam, vcs estão falando de um estudo antropológico mande alguém numa comunidade e observem as pessoas ver tv, ouçam o que elas tem a dizer... idealmente façam testes implícitos. Isso é claro da bem mais trabalho.
Depois ele disse que precisávamos entender porque esses programas tinham tanto sucesso. Uma vez mais a chata acadêmica dentro de mim pensava " ué.... testa... coloca algum num mri, num eeg...poe os programas. Investiga, tenham perguntas empíricas. Teste-as. Nao é difícil de ter proposições. Todos esses programas devem "play" em tendencias muito ingrained muito ligadas a nossa estoria evolucionaria.
Como sempre a grande pergunta para mim é o quanto estimular essas tendencias realmente muda alguma coisa. Isso tbm é uma pergunta empirica. Ou melhor, o quanto conteudo afeta estruturas cognitivas. Eu acho que é muito importante entender o homem como ele é como todas essas tendencias a categorizar, essencializar, gostar do seu grupo mais do que o outro, querer ser belo, etc etc etc... para que possamos desenvolver melhores sistemas educationais, planos politicos, filosofias.
Colocar la um filme com varios pedacos de TV eu acho que faz muito muito muito pouco. Ainda tem uma certa parte da experiencia que faz o espectador ali na sala do IMS se sentir tao dierente tao distinto das massas. Nao é. Nao somos.
Quando eu estava na Lapinha a Maluh, uma mulher excepcional que trabalha em um milhao de projetos artísticos e de paz criou uma atividade. Ela nos ensinou a fazer uma lanterna de cartolina de sao joao. Fizemos todos juntos numa sala. Nos que nao nos conhecíamos fomos trocando material, ajudando uns aos outros, nos concentrando na execução de um coisa nova. A noite, ascendemos nossas lanternas.
Maluh propôs uma caminhada em silencio. Que observássemos a luz. Fomos em silencio pelos arredores da Lapinha. Ouvindo os sapos, e diferentes ruídos pela noite. Um exercício tao filosófico. Não dá para olhar para a própria luz, você tem que olhar para a pessoa da frente. A sua luz ali na cara ofusca.. ela tem que ficar meio de lado, iluminar o caminho do outro. Caminhamos em silencio. E aquela brincadeira em segundos virou um ritual.
Meu primo de 11 anos tomou a dianteira. Ele que adora computadores e internet estava no ritual dele. Andando guiando, uma senhora de 74 anos também estava no ritual dela. NO ritual nosso. Ao final. nos juntamos para dizer um pouco do que tinha acontecido. Todo mundo tinha algo para dizer.
Eu agradecia a Malu porque ali naquele instante, eu lembrei de uma coisa preciosa. Nos temos todas essas tendencias. A tendencia a ter liberações químicas e aditivas quando assistindo programas de TV ruim, e tendencia de criar um ritual magico. A Maluh me contou que quando foi fazer um projeto na Febem levou tinta para os meninos pintarem. Eles la com toda aquela bagagem pintaram coisas lindas, coloridas. Acho que tudo isso eh para dizer isso. O retrato da TV brasileira diz um pouco sobre nossa sociedade. Não muito. Nossas tendencias são muitas. Estimulemos as que nos torna mais sociais, e mais humanos.
segunda-feira, dezembro 20, 2010
Na Calada Da Noite
Estou escrevendo este texto no avião. Indo de Curitiba ao Rio. Já perdi a conta de quantas vezes eu cruzei as fronteiras imaginarias pelo céu. A terceira vez que cheguei a Mut Mee, minha casa em Nong Khai na fronteira da Tailandia com o Laos depois de ter dado a volta pelo sudeste asiatico, cheguei de madrugada. Tudo estava fechado. Entrei, e sentei nas grandes mesas cobertas por telhados de sape. Fiquei incrivelmente feliz ali. De volta. Lembro de pensar no livro da Liz Gilbert, na sua chegada ao Ashram na India, bem no meio da noite quase de madrugada. Lembro dela explicar, que seu avo dizia que uma galinha para ser aceita no galinheiro, tinha que ser assim, colocada no meio da noite. Dessa maneira quando todas as galinhas acordassem era como se a nova galinha nunca tivesse partido. Pensei isso aquele dia. Pensei isso todas as vezes que cheguei em algum lugar assim, de mansinho, aos pouquinhos.
Foi meio assim minha chegada a sao Paulo dia 26 de novembro. Cheguei e fiquei quietinha, sem ligar para ninguem, porque nesse ano como nos ultimos vim para visitar a famosa “maquina”. Fui fazer meu exame de ressonancia, e dessa vez tão tranquila, ou quem sabe tao cansada, até adormeci dentro da maquina de ressonancia magnetica. E fiquei mais uma semana meio quieta esperando par air la correndo e fazer o que eu sempre faço, pegar o meu exame, e abri-lo, e procurar a unica coisa que faz sentido para meus olhos nao medicos. A conclusao. E mais uma vez ela dizia: “nenhuma nova alteração”. E eu chorei como sempre choro na percepção da fragilidade e da força da vida.
Alguns dias depois da minha chegada minha mãe me convidou para ir com ela a AACD onde ela voluntaria ja faz alguns anos. Ela sempre conta as estórias, e quando eu meio que ameaço ficar um pouco emocionada ela explica. “Não precisa ficar emocionada, a AACD é um lugar muito alegre! As crianças riem muito”. Eu fico tocada quando minha mãe diz isso. De fato, muito do sofrimento que vemos está nos nossos olhos. Nem sempre dificuldade é sinonimo de tristreza. Então que quando eu fui com ela a AACD, cheguei la do meu jeito. De mansinho, observando de longe com cuidado… fui me apaixonando pela professora uma mulher excepcional, que da aulas para 35 criancas de 5 anos de manha numa escola da prefeitura, e a tarde na AACD. A vivacidade, a alegria, o empenho, a dedicação são totalmente comoventes. A professora, faz de um tudo, compra coisas do seu proprio dinheiro, livros, estorias, faz fotografias, e aqueles alunos de fato são alegres, e apaixonados por ela. Minha mãe tem razão não é um lugar triste. São muitas e muitas risadas.
Depois disso eu fui parar em Curitiba, com uma prima que eu so realmente conheci ao vivo em junho. É incrivel como podemos nos conectar tanto com alguem em tão pouco tempo. Eu, já expliquei aqui um milhão de vezes que não sou nacionalista. Eu também nao sou parcial. Nao gosto de alguem so porque é da minha familia. Raramente tenho esse sentimentos que ligações de sangue importem muito. Acho que contruismo os nossos relacionamentos, e que vamos escolhendo pessoas que admiramos para respeitar e admirar. E essa minha prima apareceu assim, para dividir coisas de alma.
Com ela vim a Lapinha, um spa no parana. Um lugar lindo. Um lugar tranquilo. Um lugar verde. Organico. Não é um spa tipico. As pessoas que estao la nao sao obsessivas com emagrecer. Nao. A lapinha é cheia de pessoas que estão voltando lá para descansar, para se acalmar, algumas até para engordar. É tudo tranquilo, tudo num clima bem de paz. E ali eu fiz muitos amigos, e conheci pessoas realmente incriveis e eu pude “reconhecer” a minha prima, porque conhecer eu ja devia conhecer em algum lugar da alma, em alguma outra dimensao, em alguma outra coisa bem pouco racionalizavel.. E hoje eu saí de lá assim, bem cedo, bem de madrugada para que quando amanhaecesse fosse como se eu nunca tivesse partido, nunca tivesse estado.
Eu acordei e no silencio da noite sentei com minha prima no pequeno sofa, mal concebendo como a vida pode trazer alguem a sua vida assim. Alguem que nao existia na sua vida e de repente a vida é impensavel sem a existencia daquela pessoa. Parece que ela sempre esteve la. E eu sentei ali, tao grata, tao tocada, tao feliz, tao dificil, tao cheia de sentimentos, tao emocionada. Entao, foi bom sair bem assim dentro da madrugada. Dirigir no silencio da noite, torcendo para o taxista falar pouco porque qualquer conversar casual é meio que profanar aquele momento tão puro, tao cheio de emoção. Só consegui partir da Mut Mee tambem assim, sem dizer adeus a ninguem. Porque nessa vida de cruzar tantas fronteiras, eu vivo tendo que dizer adeus. E quando sou eu que parto é mais fácil ir assim na calada da noite.
ps: escrito dia 17/12
Foi meio assim minha chegada a sao Paulo dia 26 de novembro. Cheguei e fiquei quietinha, sem ligar para ninguem, porque nesse ano como nos ultimos vim para visitar a famosa “maquina”. Fui fazer meu exame de ressonancia, e dessa vez tão tranquila, ou quem sabe tao cansada, até adormeci dentro da maquina de ressonancia magnetica. E fiquei mais uma semana meio quieta esperando par air la correndo e fazer o que eu sempre faço, pegar o meu exame, e abri-lo, e procurar a unica coisa que faz sentido para meus olhos nao medicos. A conclusao. E mais uma vez ela dizia: “nenhuma nova alteração”. E eu chorei como sempre choro na percepção da fragilidade e da força da vida.
Alguns dias depois da minha chegada minha mãe me convidou para ir com ela a AACD onde ela voluntaria ja faz alguns anos. Ela sempre conta as estórias, e quando eu meio que ameaço ficar um pouco emocionada ela explica. “Não precisa ficar emocionada, a AACD é um lugar muito alegre! As crianças riem muito”. Eu fico tocada quando minha mãe diz isso. De fato, muito do sofrimento que vemos está nos nossos olhos. Nem sempre dificuldade é sinonimo de tristreza. Então que quando eu fui com ela a AACD, cheguei la do meu jeito. De mansinho, observando de longe com cuidado… fui me apaixonando pela professora uma mulher excepcional, que da aulas para 35 criancas de 5 anos de manha numa escola da prefeitura, e a tarde na AACD. A vivacidade, a alegria, o empenho, a dedicação são totalmente comoventes. A professora, faz de um tudo, compra coisas do seu proprio dinheiro, livros, estorias, faz fotografias, e aqueles alunos de fato são alegres, e apaixonados por ela. Minha mãe tem razão não é um lugar triste. São muitas e muitas risadas.
Depois disso eu fui parar em Curitiba, com uma prima que eu so realmente conheci ao vivo em junho. É incrivel como podemos nos conectar tanto com alguem em tão pouco tempo. Eu, já expliquei aqui um milhão de vezes que não sou nacionalista. Eu também nao sou parcial. Nao gosto de alguem so porque é da minha familia. Raramente tenho esse sentimentos que ligações de sangue importem muito. Acho que contruismo os nossos relacionamentos, e que vamos escolhendo pessoas que admiramos para respeitar e admirar. E essa minha prima apareceu assim, para dividir coisas de alma.
Com ela vim a Lapinha, um spa no parana. Um lugar lindo. Um lugar tranquilo. Um lugar verde. Organico. Não é um spa tipico. As pessoas que estao la nao sao obsessivas com emagrecer. Nao. A lapinha é cheia de pessoas que estão voltando lá para descansar, para se acalmar, algumas até para engordar. É tudo tranquilo, tudo num clima bem de paz. E ali eu fiz muitos amigos, e conheci pessoas realmente incriveis e eu pude “reconhecer” a minha prima, porque conhecer eu ja devia conhecer em algum lugar da alma, em alguma outra dimensao, em alguma outra coisa bem pouco racionalizavel.. E hoje eu saí de lá assim, bem cedo, bem de madrugada para que quando amanhaecesse fosse como se eu nunca tivesse partido, nunca tivesse estado.
Eu acordei e no silencio da noite sentei com minha prima no pequeno sofa, mal concebendo como a vida pode trazer alguem a sua vida assim. Alguem que nao existia na sua vida e de repente a vida é impensavel sem a existencia daquela pessoa. Parece que ela sempre esteve la. E eu sentei ali, tao grata, tao tocada, tao feliz, tao dificil, tao cheia de sentimentos, tao emocionada. Entao, foi bom sair bem assim dentro da madrugada. Dirigir no silencio da noite, torcendo para o taxista falar pouco porque qualquer conversar casual é meio que profanar aquele momento tão puro, tao cheio de emoção. Só consegui partir da Mut Mee tambem assim, sem dizer adeus a ninguem. Porque nessa vida de cruzar tantas fronteiras, eu vivo tendo que dizer adeus. E quando sou eu que parto é mais fácil ir assim na calada da noite.
ps: escrito dia 17/12
quarta-feira, dezembro 01, 2010
domingo, novembro 28, 2010
Sentimentos Viscerais Pouco Explicados
Eu não sou especialista em violência no rio. Aliás eu não sou especialista em quase nada que vá alem de sentimentos viscerais de situações que pareçam estranhamente fora de lugar. Quarta-feira passada houve um protesto estudantil no reino unido. Os estudantes de escolas e de muitas universidades se juntaram para protestar contra o aumento das "fees" que o governo está propondo. O novo ajuste propõe triplicar o valor das anuidades.
Eu não fui ao protesto... acompanhei o que NAO estava acontecendo pela mídia. Explico. A mídia começou a mostrar imagens de violência, de fogo, de brigas etc.. levando o povo a focar na suposta violência e não na razão do protesto. Como muitos amigos meus da LSE estavam la eu sabia que depois poderia ter acesso a um outro lado da estoria.
O que aconteceu foi que a policia prendeu por 9 horas 4 mil estudantes numa área aberta. A pratica que é chamada de "kettling" incitou um pouco de violência numa pequena minoria. A maioria dos estudantes que estava la percebeu que a van da policia abandonada vazia no meio de Whitehall so podia ser parte de algum plano.
E o plano era provavelmente esse: frustrar os estudantes.... desmotiva-los de participarem em outros protestos e de criar as imagens que a mídia queria ver. Foi assim, que minha amiga Aude reportou que enquanto eles congelavam de frio helicópteros da midia os sobrevoavam. Jornalistas entravam e saiam acompanhados de segurança na area onde estudantes estavam presos..sem água, banheiro, comida numa temperatura que caia.
David Graeber, intelectual americano, que foi despedido de Yale por suas visões politicas ( David é um anarquista), apanhou dos seguranças da SKY news. Eu que já participei de uma lecture onde Maurice Bloch o apresentou como sendo a mente mais brilhante da geração, eu que ja até tomei cha com David me enfureci. Eu não vi toda essa manipulação. No entanto acredito mais nos olhos dos meus colegas de doutorado, definitivamente pessoas não-violentas, as fotografias do jornal.
De fato, as pessoas colocaram fogo. De acordo com varias pessoas que eu ouvi, o fogo era para minimizar o frio que eles estavam passando. Quando um fogo ficou um pouco maior, os estudantes chamaram a policia e pediram ajuda. A policia negou ajuda e quem veio foi é claro a Midia! Mais uma foto para sua coleção.
Aude minha amiga, contou que por umas duas horas não tinha entendido o que estava acontecendo. Resolveu ir embora e quando chegou na barreira disse:
"Excuse- me I need to go home"
O policial olhou para ela e disse
" Eu nao posso deixar vc passar pois tenho medo que vc destrua a cidade."
Aude ainda perplexa no dia seguinte quando eu a encontrei, me disse que nunca imaginou que isso pudesse acontecer na Europa. "Eu me senti tão manipulada! Realmente uma palhaçada!"
Perguntei a ela se ter ficado presa no frio 9 horas tinha feito com que ela resolvesse numca mais participar num protesto.
"You know. I think two thirds of the people will probably not come back. But those that will will be prepared. Next time I will bring a tent, and clothes, and food... and lets just play their game!"
Meus houseomates, australianos, que nao sao estudantes ficaram tão furiosos com a manipulação que decidriam que da proxima vez eles tambem participariam do protesto.
Eu não tenho a menor idéia do que realmente está acontecendo no rio de janeiro. Tenho certeza no entanto, uma certeza dessas viscerais pouco explicadas, que o que está acontecendo pouco tem a ver com o que esta sendo mostrado na midia. Quem está pagando o preço do que a mídia quer nos botar goela a baixo é sem duvida (como sempre) as pessoas mais fracas.
Podemos especular a quem interessa ter o povo convencido dessas narrativas "midiáticas"? Podemos especular sobre como as pessoas que estão lá, que viram o outro lado da estória vão reagir no dia seguinte... Eu que morava em NY quando 9/11 aconteceu, eu que inventei de fazer um doutorado sobre uma escola de coexistência entre Palestinos e Judeus Israelenses. Eu que fico tentando aprender mais sobre mecanismos cognitivos tenho mais um desses sentimentos viscerais pouco explicados: sinto que usar medo para manipular a opinião pública é eficaz, mas a longo prazo sem dúvida um desastre.
Eu não fui ao protesto... acompanhei o que NAO estava acontecendo pela mídia. Explico. A mídia começou a mostrar imagens de violência, de fogo, de brigas etc.. levando o povo a focar na suposta violência e não na razão do protesto. Como muitos amigos meus da LSE estavam la eu sabia que depois poderia ter acesso a um outro lado da estoria.
O que aconteceu foi que a policia prendeu por 9 horas 4 mil estudantes numa área aberta. A pratica que é chamada de "kettling" incitou um pouco de violência numa pequena minoria. A maioria dos estudantes que estava la percebeu que a van da policia abandonada vazia no meio de Whitehall so podia ser parte de algum plano.
E o plano era provavelmente esse: frustrar os estudantes.... desmotiva-los de participarem em outros protestos e de criar as imagens que a mídia queria ver. Foi assim, que minha amiga Aude reportou que enquanto eles congelavam de frio helicópteros da midia os sobrevoavam. Jornalistas entravam e saiam acompanhados de segurança na area onde estudantes estavam presos..sem água, banheiro, comida numa temperatura que caia.
David Graeber, intelectual americano, que foi despedido de Yale por suas visões politicas ( David é um anarquista), apanhou dos seguranças da SKY news. Eu que já participei de uma lecture onde Maurice Bloch o apresentou como sendo a mente mais brilhante da geração, eu que ja até tomei cha com David me enfureci. Eu não vi toda essa manipulação. No entanto acredito mais nos olhos dos meus colegas de doutorado, definitivamente pessoas não-violentas, as fotografias do jornal.
De fato, as pessoas colocaram fogo. De acordo com varias pessoas que eu ouvi, o fogo era para minimizar o frio que eles estavam passando. Quando um fogo ficou um pouco maior, os estudantes chamaram a policia e pediram ajuda. A policia negou ajuda e quem veio foi é claro a Midia! Mais uma foto para sua coleção.
Aude minha amiga, contou que por umas duas horas não tinha entendido o que estava acontecendo. Resolveu ir embora e quando chegou na barreira disse:
"Excuse- me I need to go home"
O policial olhou para ela e disse
" Eu nao posso deixar vc passar pois tenho medo que vc destrua a cidade."
Aude ainda perplexa no dia seguinte quando eu a encontrei, me disse que nunca imaginou que isso pudesse acontecer na Europa. "Eu me senti tão manipulada! Realmente uma palhaçada!"
Perguntei a ela se ter ficado presa no frio 9 horas tinha feito com que ela resolvesse numca mais participar num protesto.
"You know. I think two thirds of the people will probably not come back. But those that will will be prepared. Next time I will bring a tent, and clothes, and food... and lets just play their game!"
Meus houseomates, australianos, que nao sao estudantes ficaram tão furiosos com a manipulação que decidriam que da proxima vez eles tambem participariam do protesto.
Eu não tenho a menor idéia do que realmente está acontecendo no rio de janeiro. Tenho certeza no entanto, uma certeza dessas viscerais pouco explicadas, que o que está acontecendo pouco tem a ver com o que esta sendo mostrado na midia. Quem está pagando o preço do que a mídia quer nos botar goela a baixo é sem duvida (como sempre) as pessoas mais fracas.
Podemos especular a quem interessa ter o povo convencido dessas narrativas "midiáticas"? Podemos especular sobre como as pessoas que estão lá, que viram o outro lado da estória vão reagir no dia seguinte... Eu que morava em NY quando 9/11 aconteceu, eu que inventei de fazer um doutorado sobre uma escola de coexistência entre Palestinos e Judeus Israelenses. Eu que fico tentando aprender mais sobre mecanismos cognitivos tenho mais um desses sentimentos viscerais pouco explicados: sinto que usar medo para manipular a opinião pública é eficaz, mas a longo prazo sem dúvida um desastre.
segunda-feira, novembro 22, 2010
Mais uma Volta ao Redor do Sol
Sexta feira foi meu aniversário, e eu todo ano escrevo aqui o quanto gosto de fazer aniversário. Eu paro e penso sempre nas voltas ao sol, e hoje em dia meus amigos ao inves de dizerem "Feliz Aniversário" me perguntam das tais volas :) Sinal de que me conhecem bem, ou então de que leram meu blog :) Esta vez portanto, nao vou falar do tanto de emoção que me causa esse pensamento tolo.
Meu aniversario dura mais do que o de muita gente, pois eu começo sempre recebendo mensagens de pessoas de outros fusos que começam a celebra-lo antes, e eu vou celebrando ate o ultimo meridiano. Comecei acordando bem cedo e indo para LSE para o meu seminario de cultura e cognicao. Um seminario so para nos os estranhos do ninho. Dan Sperber tinha vindo de Paris para substituir Maurice Bloch que esta nos EUA.
Aude, minha amiga francesa, que fez seu trabalho de campo na Mongolia chegou trazendo um bolo com vela para celebrar meu aniversario. Entao enquanto ouviamos Dan falar do seu ultimo paper sobre "epistemic vigilance", enquanto faziamos perguntas e comentarios comiamos o bolo da Aude. Nao fazia nem sequer um mes, que ela tinha trazido um bolo para celebrar os 71 anos do Bloch. Bloch que é parente do Durkheim e do Mauss. Bloch que é um dos antropologos que eu mais admiro. Tão surreal é as vezes a vida.
De noite, fiz uma festa. Aquele tipo de festa que vc nao pode convidar todo mundo que quer porque a casa é pequena. E vai convidando todo amigo que encontra porque nao imagina celebrar o aniversario sem mais aquela pessoa. E como sempre essas pessoas vieram. De mundos totalmente diferentes. Os neurologistas, neurocientistas, os antropologos cognitivos, os sociais, os diplomatas, os yogis, os que nao tão nem ai para nada de academico, os que nao concebem a vida sem ciencia, os espirituais, os ateus, os agnosticos, os artistas, os esportistas, os cozinheiros, os tudo isso junto e misturado, e os nada disso.. E ali naquela misutra toda como sempre eu celebrei a vida... dançando, cantando, tocando, virando de ponta cabeca, fazendo acrobacias... e me surpreendendo sempre com a riqueza da diversidade. Tinha gente aqui na minha casa de todos os continentes. E o que eu gosto mais de tudo é observar essas pessoas que nao se conheciam antes, que vem de mundos tão distintos se misturarem, se encontrarem.
Todo o ano eu me animo para o meu aniversario. Todo o ano as pessoas se animam e me desejam feliz aniversario. Esse ano, pela primeira vez, muita gente que ta longe me perguntou "vc nao ta com medo, afinal voce ja esta chegando perto do 30? Ja ta ansiosa, angustiada etc etc etc?"
É um pensamento estranho esse. Nunca tinha me ocorrido que eu devia estar tensa, ansiosa, e que um numero externo tivesse um acesso secreto ao meu mundo interno. Acho que se eu tivesse medo seria de "nao chegar" aos 30, aos 40, aos 50, 60, 70, 80, e vendo a minha vó viajando o mundo aos 86... de nao chegar bem como ela aos 90!
Que paranoia é essa que aflige tantas pessoas num mundo que nos que temos acesso a tantas coisas, podemos viver muitas vezes tao bem e por tanto tempo ? Eu gosto das voltas ao sol, pq volta é movimento. E movimento é vida! E as voltas vão continuando.. nao sabemos bem até quando... mas enquanto elas vão continuando eu vou celebrando a vida.
Meu aniversario dura mais do que o de muita gente, pois eu começo sempre recebendo mensagens de pessoas de outros fusos que começam a celebra-lo antes, e eu vou celebrando ate o ultimo meridiano. Comecei acordando bem cedo e indo para LSE para o meu seminario de cultura e cognicao. Um seminario so para nos os estranhos do ninho. Dan Sperber tinha vindo de Paris para substituir Maurice Bloch que esta nos EUA.
Aude, minha amiga francesa, que fez seu trabalho de campo na Mongolia chegou trazendo um bolo com vela para celebrar meu aniversario. Entao enquanto ouviamos Dan falar do seu ultimo paper sobre "epistemic vigilance", enquanto faziamos perguntas e comentarios comiamos o bolo da Aude. Nao fazia nem sequer um mes, que ela tinha trazido um bolo para celebrar os 71 anos do Bloch. Bloch que é parente do Durkheim e do Mauss. Bloch que é um dos antropologos que eu mais admiro. Tão surreal é as vezes a vida.
De noite, fiz uma festa. Aquele tipo de festa que vc nao pode convidar todo mundo que quer porque a casa é pequena. E vai convidando todo amigo que encontra porque nao imagina celebrar o aniversario sem mais aquela pessoa. E como sempre essas pessoas vieram. De mundos totalmente diferentes. Os neurologistas, neurocientistas, os antropologos cognitivos, os sociais, os diplomatas, os yogis, os que nao tão nem ai para nada de academico, os que nao concebem a vida sem ciencia, os espirituais, os ateus, os agnosticos, os artistas, os esportistas, os cozinheiros, os tudo isso junto e misturado, e os nada disso.. E ali naquela misutra toda como sempre eu celebrei a vida... dançando, cantando, tocando, virando de ponta cabeca, fazendo acrobacias... e me surpreendendo sempre com a riqueza da diversidade. Tinha gente aqui na minha casa de todos os continentes. E o que eu gosto mais de tudo é observar essas pessoas que nao se conheciam antes, que vem de mundos tão distintos se misturarem, se encontrarem.
Todo o ano eu me animo para o meu aniversario. Todo o ano as pessoas se animam e me desejam feliz aniversario. Esse ano, pela primeira vez, muita gente que ta longe me perguntou "vc nao ta com medo, afinal voce ja esta chegando perto do 30? Ja ta ansiosa, angustiada etc etc etc?"
É um pensamento estranho esse. Nunca tinha me ocorrido que eu devia estar tensa, ansiosa, e que um numero externo tivesse um acesso secreto ao meu mundo interno. Acho que se eu tivesse medo seria de "nao chegar" aos 30, aos 40, aos 50, 60, 70, 80, e vendo a minha vó viajando o mundo aos 86... de nao chegar bem como ela aos 90!
Que paranoia é essa que aflige tantas pessoas num mundo que nos que temos acesso a tantas coisas, podemos viver muitas vezes tao bem e por tanto tempo ? Eu gosto das voltas ao sol, pq volta é movimento. E movimento é vida! E as voltas vão continuando.. nao sabemos bem até quando... mas enquanto elas vão continuando eu vou celebrando a vida.
quinta-feira, novembro 18, 2010
Agridoce
Ta chegando a epoca. Aquela época meio agri-doce. A época que eu vou ao Brasil ( doce) para fazer minha anual ressonancia magnética (amargo:). Eu já escrevi aqui várias vezes do sentimento meio ambivalente que eu tenho quanto a máquina .Entao chega essa época do ano, e ainda que eu nao perceba eu vou ficando um pouco tensa.
Hoje foi um dia daqueles. Daqueles que tudo parece parar de fazer sentido. Porque mesmo que eu quero ir a Israel? Fazer o que? Aprender Hebraico para que? Doutorado por que?? Um sentimento que vem se prolongando. Por causa dele, resolvi procurar algum Israelense em Londres que me me ajudasse a entender melhor a cultura, a lingua etc. E que melhor maneira do que usar o meu adorado CouchSurfing? Fiz uma busca usando como critério pessoas que falassem Hebraico e que estivessem em Londres.
Foi um exercicio assim meio ao acaso. E não é que eu encontrei um" devout pacifist activist". Escrevi imediatamente para ele, e dois dias depois fui encontra-lo. Como o mundo vai me parecendo cada vez menor ele nao so morava perto de mim, como trabalhava na LSE.
Nos encontramos num cafe meio "hip", e começamos a conversar. Hoje em dia eu já nem acho mais estranho marcar encontros com totais desconhecidos. São segundos de desconhecimento e aí eu já me sinto a vontade. E ele me contou de toda sua experiencia. Muito distinta daquelas das pessoas que eu tinha conhecido em Israel. Ele, um refusenik ( Israelense que conscientemente escolhe nao fazer parte do exercito) escolheu ser preso por dois anos, como ato de resitencia civil.
Não, que ele tenha chegado me dizendo isso. Na verdade, ele nao acha isso nada demais. "Era a unica escolha que eu podia ter! Eu discordo do sistema, tenho amigos Palestinos, acho o que acontece por la uma tragédia, e o pior de tudo uma tragédia que poderia ser evitada!." Meu novo amigo, trabalha com um Palestino na LSE num projeto chamado "New Approaches" e que busca desenvolver novas maneiras em lidar com o conflito. Para eles em vez de pensar no conflito como dois lados distintos, deviamos pensar nele como uma coisa unica...e que os fundamentalistas dos dois lados beneficiam da guerra. Ele que estudou "Global Governance" acredita que o conflito tem que ser "internacionalizado". Pessoas que cometem crimes devem ser levada a Corte Internacional de Haia. ( Essa é um simplificação enorme do projeto deles).
Quando eu contei a um dos meus hosts em Israel que eu tinha conhecido um "Israeli Peace Activist", ele quis saber o nome. Quando eu expliquei quem era, ele me contou que tinha lido seus artigos quando tinha acabado de entrar para o exercito. "Muito facil nao ir para guerra e ficar preso!" Foi seu comentário. "Voce acha que ele é um traidor?" perguntei "Nao. So acho que ele é fraco! Eu tenho os mesmos medos e a mesma "moral" que ele. Mas eu fui para o exercito!"
Como sempre eu nao insisto em nada. Eu ouço e fico sempre me perguntando.... "O que mesmo eu vou fazer por lá?"
Hoje foi um dia daqueles. Daqueles que tudo parece parar de fazer sentido. Porque mesmo que eu quero ir a Israel? Fazer o que? Aprender Hebraico para que? Doutorado por que?? Um sentimento que vem se prolongando. Por causa dele, resolvi procurar algum Israelense em Londres que me me ajudasse a entender melhor a cultura, a lingua etc. E que melhor maneira do que usar o meu adorado CouchSurfing? Fiz uma busca usando como critério pessoas que falassem Hebraico e que estivessem em Londres.
Foi um exercicio assim meio ao acaso. E não é que eu encontrei um" devout pacifist activist". Escrevi imediatamente para ele, e dois dias depois fui encontra-lo. Como o mundo vai me parecendo cada vez menor ele nao so morava perto de mim, como trabalhava na LSE.
Nos encontramos num cafe meio "hip", e começamos a conversar. Hoje em dia eu já nem acho mais estranho marcar encontros com totais desconhecidos. São segundos de desconhecimento e aí eu já me sinto a vontade. E ele me contou de toda sua experiencia. Muito distinta daquelas das pessoas que eu tinha conhecido em Israel. Ele, um refusenik ( Israelense que conscientemente escolhe nao fazer parte do exercito) escolheu ser preso por dois anos, como ato de resitencia civil.
Não, que ele tenha chegado me dizendo isso. Na verdade, ele nao acha isso nada demais. "Era a unica escolha que eu podia ter! Eu discordo do sistema, tenho amigos Palestinos, acho o que acontece por la uma tragédia, e o pior de tudo uma tragédia que poderia ser evitada!." Meu novo amigo, trabalha com um Palestino na LSE num projeto chamado "New Approaches" e que busca desenvolver novas maneiras em lidar com o conflito. Para eles em vez de pensar no conflito como dois lados distintos, deviamos pensar nele como uma coisa unica...e que os fundamentalistas dos dois lados beneficiam da guerra. Ele que estudou "Global Governance" acredita que o conflito tem que ser "internacionalizado". Pessoas que cometem crimes devem ser levada a Corte Internacional de Haia. ( Essa é um simplificação enorme do projeto deles).
Quando eu contei a um dos meus hosts em Israel que eu tinha conhecido um "Israeli Peace Activist", ele quis saber o nome. Quando eu expliquei quem era, ele me contou que tinha lido seus artigos quando tinha acabado de entrar para o exercito. "Muito facil nao ir para guerra e ficar preso!" Foi seu comentário. "Voce acha que ele é um traidor?" perguntei "Nao. So acho que ele é fraco! Eu tenho os mesmos medos e a mesma "moral" que ele. Mas eu fui para o exercito!"
Como sempre eu nao insisto em nada. Eu ouço e fico sempre me perguntando.... "O que mesmo eu vou fazer por lá?"
quarta-feira, novembro 10, 2010
Gal
Esses dias eu ouvi Maria, minha amiga Grega que também faz doutorado comigo explicar que nos (eu e ela) navegamos o mundo atraves dos nossos sentidos. O jovem, Philip, que aos 21 anos tbm está fazendo doutorado conosco explicou que nos precisavamos compreender que eles os jovens britanicos navegavam o mundo "through their own insecurity." Nao era uma resposta que eu ou a Maria esperavamos ouvir do Philip. É engraçado como essas expressoes ditas meio ao acaso, as vezes ficam. Hoje li um Israelense explicando no Couch Surfing que ele se sente uma esponja ambulante.
E a combinação de me sentir uma esponja ambulante guiada por meus sentidos me fez pensar é claro em viajar. Talvez a estimulação mais forte a todos os meus sentidos tenha acontecido na India. No entanto, ainda que eu me lembre dos momentos sublimes, e desesperadores na India, a alguma coisa em Israel que penetrou ainda mais. Talvez seja o simples fato de que ali, o berço das religioes do livro, que é tao parte da nossa sociedade, eu conseguisse compreender a incompreensibilidade das coisas um pouco melhor. Nao sei. Só sei que eu tinha dito que aqui escreveria sobre a minha viagem, e por uma ou outra razão sempre evito.
Cheguei no aeroporto Ben Gurion, querendo ser esponja, querendo entender, ver, sentir tudo que ouvesse para sentir. Nao sei, se faria alguma diferenca eu nao querer. Parece-me que por la nao há jeito. É tudo ao extremo, é tudo forte, é tudo demais. Como tinha chegado tarde, achei melhor ir com o Mexicano que eu tinha conhecido no voo para o hostel. Quando liguei para dizer isso a Omri, meu primeiro host, ele disse que nao havia problema ser tarde, que ele tinha que trabalhar mas seu melhor amigo,Gal, que tinha vindo de Tel Aviv, me receberia em Jerusalem.
Entao, eu peguei a van, e fui parar en Nahlaot, um bairro muito antigo de Jerusalem. Assim que cheguei na esquina indicada, de mochila nas costas para minha primeira aventura como CS num lugar TOTALMENTE desconhecido, fiquei empolgada. "Nossa, eu estou em Jerusalem!!!". Minutos depois apareceram Gal e Omri de moto. Eu nao sabia quem era quem. Disse um breve ola para Omri, que tinha que ir trabalhar, e fiquei com Gal.
Gal nunca tinha ouvido falar em Couch Surfing. Entao, eu que nunca tinha de fato couchsurfed tive um encontro especial. Nos dois ali descobrindo como é que isso acontece. Me levou para casa do Omri, e sentamos para conversar. Ele queria saber porque eu estava la, sobre o que seria minha pesquisa, porque Israel etc..
Como a minha pesquisa envolve Palestinos, e eu ainda nao sabia muito bem o que isso significava em Israel, eu comecei como sempre começo explicando que eu apesar de nao nacionalista, e de achar que fronteiras sao arbitrarias, e quanto mais eu viajo mais eu acho que nos somos parecidos no mundo todo, por ser do brasil nao estava muito acostumada com todas essas divisoes etnicas. Ele ouviu em silencio. Expliquei que acima de tudo eu era uma idealista, que eu esperava que pudessemos viver num mundo que passassemos por cima dessas diferenças meta-representacionais. Ele continuou me olhando em silencio. Expliquei, mecanismos cognitivos, teorias antropologicas, e a minha muito modesta opiniao. Ele continuou em silencio.
"Gal, are you offended? or bored? should I stop?"
Ele me olhou de um jeito so dele. E disse " I am sad for Omri. Amanha quando ele te fizer essas perguntas vc vai dar a versao editada. Eu tive a sorte de ouvir tudo que voce tem para dizer. Eu passei a semana procurando uma coisa inspiradora. Um projeto, um livro. E agora eu sei, que era isso que eu precisava ouvir."
Eu fiquei desconcertada. Nao esperava ouvir isso de um engenheiro israelense. E depois de toda essa introducao fui aprender tudo e mais um pouco sobre o Gal. Que voluntaria ensinando crianas pobres alem de trabalhar em um milhao de projetos diferentes. Quando era mais ou menos meia noite eu percebi que precisava comer. Saimos por Jerusalem. E eu que achava que tudo estaria fechado me surpreendi ao encontrar varios locais abertos. Ele escolheu um bar de tapas espanholas. Nao era exatamente o meu plano. Haveria muitos outros dias para comer a comida local. Entao ali, naquele bar eu conheci a vida noturna, pouco convencional de Israel. O casal gay ao meu lado, a ameixa preparada com queijo e molho oriental, o bartender que tinha viajado o mundo e queria me fazer beber alguma bebida de aniz que eu nao me lembro o nome. Ali na primeira noite eu conheci quem se tornaria o meu melhor amigo em Israel. O CS me daria muitos outros amigos, e muitas outras estorias inspiradoras. No entanto, o meu melhor amigo, foi ali, na primeira noite, por causa do CS mas sem nem nunca ter ouvido falar disso.
E a combinação de me sentir uma esponja ambulante guiada por meus sentidos me fez pensar é claro em viajar. Talvez a estimulação mais forte a todos os meus sentidos tenha acontecido na India. No entanto, ainda que eu me lembre dos momentos sublimes, e desesperadores na India, a alguma coisa em Israel que penetrou ainda mais. Talvez seja o simples fato de que ali, o berço das religioes do livro, que é tao parte da nossa sociedade, eu conseguisse compreender a incompreensibilidade das coisas um pouco melhor. Nao sei. Só sei que eu tinha dito que aqui escreveria sobre a minha viagem, e por uma ou outra razão sempre evito.
Cheguei no aeroporto Ben Gurion, querendo ser esponja, querendo entender, ver, sentir tudo que ouvesse para sentir. Nao sei, se faria alguma diferenca eu nao querer. Parece-me que por la nao há jeito. É tudo ao extremo, é tudo forte, é tudo demais. Como tinha chegado tarde, achei melhor ir com o Mexicano que eu tinha conhecido no voo para o hostel. Quando liguei para dizer isso a Omri, meu primeiro host, ele disse que nao havia problema ser tarde, que ele tinha que trabalhar mas seu melhor amigo,Gal, que tinha vindo de Tel Aviv, me receberia em Jerusalem.
Entao, eu peguei a van, e fui parar en Nahlaot, um bairro muito antigo de Jerusalem. Assim que cheguei na esquina indicada, de mochila nas costas para minha primeira aventura como CS num lugar TOTALMENTE desconhecido, fiquei empolgada. "Nossa, eu estou em Jerusalem!!!". Minutos depois apareceram Gal e Omri de moto. Eu nao sabia quem era quem. Disse um breve ola para Omri, que tinha que ir trabalhar, e fiquei com Gal.
Gal nunca tinha ouvido falar em Couch Surfing. Entao, eu que nunca tinha de fato couchsurfed tive um encontro especial. Nos dois ali descobrindo como é que isso acontece. Me levou para casa do Omri, e sentamos para conversar. Ele queria saber porque eu estava la, sobre o que seria minha pesquisa, porque Israel etc..
Como a minha pesquisa envolve Palestinos, e eu ainda nao sabia muito bem o que isso significava em Israel, eu comecei como sempre começo explicando que eu apesar de nao nacionalista, e de achar que fronteiras sao arbitrarias, e quanto mais eu viajo mais eu acho que nos somos parecidos no mundo todo, por ser do brasil nao estava muito acostumada com todas essas divisoes etnicas. Ele ouviu em silencio. Expliquei que acima de tudo eu era uma idealista, que eu esperava que pudessemos viver num mundo que passassemos por cima dessas diferenças meta-representacionais. Ele continuou me olhando em silencio. Expliquei, mecanismos cognitivos, teorias antropologicas, e a minha muito modesta opiniao. Ele continuou em silencio.
"Gal, are you offended? or bored? should I stop?"
Ele me olhou de um jeito so dele. E disse " I am sad for Omri. Amanha quando ele te fizer essas perguntas vc vai dar a versao editada. Eu tive a sorte de ouvir tudo que voce tem para dizer. Eu passei a semana procurando uma coisa inspiradora. Um projeto, um livro. E agora eu sei, que era isso que eu precisava ouvir."
Eu fiquei desconcertada. Nao esperava ouvir isso de um engenheiro israelense. E depois de toda essa introducao fui aprender tudo e mais um pouco sobre o Gal. Que voluntaria ensinando crianas pobres alem de trabalhar em um milhao de projetos diferentes. Quando era mais ou menos meia noite eu percebi que precisava comer. Saimos por Jerusalem. E eu que achava que tudo estaria fechado me surpreendi ao encontrar varios locais abertos. Ele escolheu um bar de tapas espanholas. Nao era exatamente o meu plano. Haveria muitos outros dias para comer a comida local. Entao ali, naquele bar eu conheci a vida noturna, pouco convencional de Israel. O casal gay ao meu lado, a ameixa preparada com queijo e molho oriental, o bartender que tinha viajado o mundo e queria me fazer beber alguma bebida de aniz que eu nao me lembro o nome. Ali na primeira noite eu conheci quem se tornaria o meu melhor amigo em Israel. O CS me daria muitos outros amigos, e muitas outras estorias inspiradoras. No entanto, o meu melhor amigo, foi ali, na primeira noite, por causa do CS mas sem nem nunca ter ouvido falar disso.
segunda-feira, novembro 01, 2010
O Mundo de Kathleen
Resolvi que queria visitar Kathleen no Hospital. Liguei e ao perguntar se eu podia fazer uma visita, a enfermeira respondeu entusiasmada que sim e me explicou que Kathleen não tem família. Assim que lá cheguei, no Royal London Hospital, que de real não tem nada, fui me encaminhando a Wellington Ward onde me disseram que ela estava. Surpreendi- me com o fato de que as informações nesse hospital eram escritas tanto em Ingles como em Hindi. Eventualmente cheguei até a tal ala que é fechada. Fiquei me perguntando como seria que Katheen aos 89 anos teria escapado de la.
As enfermeiras ficaram surpresas com minha visita, e vieram perguntar detalhes do meu encontro com Kathleen. Onde é que eu a tinha encontrado, a que horas, como tinha percebido que ela estava perdida etc. Respondi a todas as perguntas e me surpreendi quando uma das enfermeiras me explicou que Kathleen era muito veloz :)
Levaram-me entao a ala onde ela estava. Cheguei bem na hora do jantar, e ela deitada na cama comia muito alegremente. Nas outras camas, as senhoras e senhores que la estavam, pareciam estar em bem pior situacao. Kathleen, apesar de estar na cama, e de ter soro na mão, parecia ótima.
Ela olhou para mim e nao me reconheceu. Perguntei a ela se ela sabia quem eu era. E ela disse que nao. "I am sorry. Have we met?"
Perguntei a ela, se ela se lembrava que tinha fugido do hospital na noite anterior. Ela disse que nao e num tom muito amigável continuou "Would you care to tell me about it ?". De um jeito que é só dela, bem ingles, bem musicado. E eu contei. Ela ouviu tudo como quem ouve uma estoria de ficção. "Was it cold?". "It was, I was very worried to find out if you were fine". " I am fine I suppose."
"You know Kathleen, I remember your brithday! It is on the 22/12/1920. You will be 90 this year!"
Ela olhou para mim por um longo tempo. Como quem pensa na informacao. Como se a tivesse verificando em algum arquivo dentro do cérebro e de repente o encontrasse. Desmanchou-se num sorriso "my god, you have a very good memory!". Contei a ela tudo que eu tinha aprendido sobre ela na noite anterior. De onde ela era, o nome do marido, que ela era costureria. E a cada informacao ela ficava mais encantada. Ali enquanto comia com muita elegancia o seu jantar.
Expliquei para ela que tinha vindo ve-la porque eu tinha prometido que viria, e que eu eu queria ver se ela estava bem. Foi uma conversa bem misteriosa. Dessas que faz voce ficar pensando... como será que o cerebro funciona. Havia em Kathleen uma mistura de infancia, com velhice. Uma docura, com cansaço. Um realismo concreto interligado pelo o onirico.
Depois de um longo tempo, expliquei para ela que eu tinha que ir. Ela fez umas perguntas e no final me agradeceu. "I don't remember getting lost, but thank you for coming to see me."
E eu saí de la com todos esses sentimentos misturados. Sentindo que ela estava bem. Curiosa querendo saber informações onde ela mora, com quem, quem traz comida etc e sentindo que por eu não ser da familiar eu não podia perguntar. Ou melhor, até perguntei mas as respostas de Kathleen são do passado, e as das enfermeiras são da burocracia. Senti uma mistura de tristeza por ela ser só, com alegria por ela já nem mais conceber isso tão bem. No fim, a "natureza" na sua aparente crueldade é ao mesmo tempo generosa. Será que existe no mundo alguma coisa que seja uma coisa só?
As enfermeiras ficaram surpresas com minha visita, e vieram perguntar detalhes do meu encontro com Kathleen. Onde é que eu a tinha encontrado, a que horas, como tinha percebido que ela estava perdida etc. Respondi a todas as perguntas e me surpreendi quando uma das enfermeiras me explicou que Kathleen era muito veloz :)
Levaram-me entao a ala onde ela estava. Cheguei bem na hora do jantar, e ela deitada na cama comia muito alegremente. Nas outras camas, as senhoras e senhores que la estavam, pareciam estar em bem pior situacao. Kathleen, apesar de estar na cama, e de ter soro na mão, parecia ótima.
Ela olhou para mim e nao me reconheceu. Perguntei a ela se ela sabia quem eu era. E ela disse que nao. "I am sorry. Have we met?"
Perguntei a ela, se ela se lembrava que tinha fugido do hospital na noite anterior. Ela disse que nao e num tom muito amigável continuou "Would you care to tell me about it ?". De um jeito que é só dela, bem ingles, bem musicado. E eu contei. Ela ouviu tudo como quem ouve uma estoria de ficção. "Was it cold?". "It was, I was very worried to find out if you were fine". " I am fine I suppose."
"You know Kathleen, I remember your brithday! It is on the 22/12/1920. You will be 90 this year!"
Ela olhou para mim por um longo tempo. Como quem pensa na informacao. Como se a tivesse verificando em algum arquivo dentro do cérebro e de repente o encontrasse. Desmanchou-se num sorriso "my god, you have a very good memory!". Contei a ela tudo que eu tinha aprendido sobre ela na noite anterior. De onde ela era, o nome do marido, que ela era costureria. E a cada informacao ela ficava mais encantada. Ali enquanto comia com muita elegancia o seu jantar.
Expliquei para ela que tinha vindo ve-la porque eu tinha prometido que viria, e que eu eu queria ver se ela estava bem. Foi uma conversa bem misteriosa. Dessas que faz voce ficar pensando... como será que o cerebro funciona. Havia em Kathleen uma mistura de infancia, com velhice. Uma docura, com cansaço. Um realismo concreto interligado pelo o onirico.
Depois de um longo tempo, expliquei para ela que eu tinha que ir. Ela fez umas perguntas e no final me agradeceu. "I don't remember getting lost, but thank you for coming to see me."
E eu saí de la com todos esses sentimentos misturados. Sentindo que ela estava bem. Curiosa querendo saber informações onde ela mora, com quem, quem traz comida etc e sentindo que por eu não ser da familiar eu não podia perguntar. Ou melhor, até perguntei mas as respostas de Kathleen são do passado, e as das enfermeiras são da burocracia. Senti uma mistura de tristeza por ela ser só, com alegria por ela já nem mais conceber isso tão bem. No fim, a "natureza" na sua aparente crueldade é ao mesmo tempo generosa. Será que existe no mundo alguma coisa que seja uma coisa só?
terça-feira, outubro 26, 2010
Going Home
Acabo de chegar em casa depois de uma dessas noites excepcionais. Fui assistir um concerto e quando estava voltando para casa, no ponto de ônibus vi uma senhora que parecia perdida olhando para o ponto. Está frio aqui em Londres, uns 10 graus. A senhora estava num vestidinho rosa que parecia ser uma camisola, um sapatinho que parecia de quarto, e eu na rua ja tinha percebido que ela devia estar perdida, mas ainda não tinha percebido de onde exatamente.
Fui até a ela e perguntei para onde ela estava indo. Ela pareceu surpresa com minha pergunta mas me explicou e eu na verdade não entendi. Perguntei se ela estava perdida e ela disse que não. Explicou que queria ir para casa. Perguntei se ela sabia como chegar em casa e ela apontou para o ponto de ônibus a nossa frente. Li todas paradas de todos os ônibus que paravam no ponto e quando o primeiro ônibus chegou entramos.
Ela colocou o dedo na maquina do oyster card, pois não tinha bilhete e o motorista perguntou a ela para onde ela ia. Ela respondeu e ele deu o assunto por encerrado. Eu apontei para ele o fato que ela devia estar perdida mas ele nao soube muito bem o que fazer. Disse apenas que o onibus dele estava indo naquela direção Que direção eu nao perguntei pois percebi que nao faria diferença.
A senhora entrou e sentou-se. Foi então, que eu percebi no seu braço a pulseira de hospital, os curativos, e uma agulha (dessas para quem ta recebendo soro) na mao. Uma menina muçulmana de véu e vestida toda de negro foi até a senhora e explicou que sabia onde ela ia e que portanto a levaria até lá.
Saíram do ônibus. Todos nos que ficamos la dentro começamos a nos perguntar o que aconteceria com a senhora nessa noite gelada perdida em Londres. Claramente ela tinha fugido do hospital. Eu sabia que não ia conseguir dormir sem saber se essa senhora estaria vagando sozinha pelas ruas de Londres, então virei para o Haiko e disse "vamos descer desse ônibus e encontrar a velhinha porque precisamos ter certeza que ela está bem e precisamos leva-la de volta ao hospital!"
Ele concordou, descemos, andamos um pouco e encontramos a menina muçulmana que como nós tinha se dado conta da situação e a estava levando a uma estacão de ônibus para que pudesse pedir ajuda. Fomos os 4 juntos. A senhora na sua camisola de hospital, a muçulmana de véu preto, eu de vestido de inverno , meia calca e bota, Haiko de casaco de inverno. Pode se dizer que eramos um grupo eclético. Enquanto eu tentava engajar a senhora numa conversa que a fizesse ficar conosco e não tentar uma nova fuga, a menina muçulmana foi procurar ajuda.
A senhora queria a todo custo partir. Eventualmente conseguimos convence-la a entrar num oinbus parado para sair do frio. Antes disso a menina muçulmana tirou seu próprio casaco e o colocou em cima da senhora. Entramos os quatro no ônibus. A senhora a minha frente não compreendia porque o ônibus nao saia do lugar. A muçulmana do meu lado junto comigo tentava explicar que o ônibus estava atrasado.
E ficamos ali esperando que a policia chegasse. A policia chegou e a senhora nao ficou muito feliz com a ideia de ir ao hospital. Negava ter estado la internada. O policial gentil, e ao mesmo tempo realista a confrontava com o fato que ela estava com a pulseira do hospital. Quando eu olhei sua pulseira descobri sua idade: 90 anos!
A senhora era lucida. E não queria voltar ao hospital. Passamos pelo menos uma hora nesse ônibus e em alguns momentos eu parecia estar num filme. Haiko em silencio observando tudo, a doce muçulmana sentada ao meu lado, eu tentando explicar para senhora que nos estávamos preocupados com ela, os policiais ingleses, o motorista do ônibus, e até um passageiro bêbado e dorminhoco que tinha ficado no andar de cima do ônibus e apareceu pedindo desculpas pelo transtorno.
Partimos quando a senhora estava já na ambulância. Eu nao fiquei sabendo o nome da muçulmana mas ao ir embora ela me agradeceu. Como disse o Haiko foi tocante ela me agradecer por eu estar ali com uma pessoa tão estranha a ela como a mim. E eu disse um obrigada de volta que na hora nao teve muito sentido. Agora que eu sentei aqui para escrever tudo isso ele faz mais sentido. O meu obrigada a menina de véu é por ela ser tão excepcional e me lembrar que há pessoas no mundo que param para ajudar os outros. Não podemos parar sempre, mas quando paramos essas conexões ainda que breves, ainda que anonimas tornam evidente o quanto faz muito mais sentido viver num mundo onde tomamos conta uns dos outros.
Quando o policial disse "we are here because we care" a senhora discordou. Eu insisti dizendo que nos estávamos sim preocupados. Ela olhou para mim e para a muçulmana e disse " The two of you I know, but the police is just meddling with my affairs" :) Kathlin tem 90 anos, é casada com Albert, e é uma east ender. Uma senhora lúcida, e que tinha fugido do hospital. Como eu também já fugi uma vez eu a compreendo :)
Fui até a ela e perguntei para onde ela estava indo. Ela pareceu surpresa com minha pergunta mas me explicou e eu na verdade não entendi. Perguntei se ela estava perdida e ela disse que não. Explicou que queria ir para casa. Perguntei se ela sabia como chegar em casa e ela apontou para o ponto de ônibus a nossa frente. Li todas paradas de todos os ônibus que paravam no ponto e quando o primeiro ônibus chegou entramos.
Ela colocou o dedo na maquina do oyster card, pois não tinha bilhete e o motorista perguntou a ela para onde ela ia. Ela respondeu e ele deu o assunto por encerrado. Eu apontei para ele o fato que ela devia estar perdida mas ele nao soube muito bem o que fazer. Disse apenas que o onibus dele estava indo naquela direção Que direção eu nao perguntei pois percebi que nao faria diferença.
A senhora entrou e sentou-se. Foi então, que eu percebi no seu braço a pulseira de hospital, os curativos, e uma agulha (dessas para quem ta recebendo soro) na mao. Uma menina muçulmana de véu e vestida toda de negro foi até a senhora e explicou que sabia onde ela ia e que portanto a levaria até lá.
Saíram do ônibus. Todos nos que ficamos la dentro começamos a nos perguntar o que aconteceria com a senhora nessa noite gelada perdida em Londres. Claramente ela tinha fugido do hospital. Eu sabia que não ia conseguir dormir sem saber se essa senhora estaria vagando sozinha pelas ruas de Londres, então virei para o Haiko e disse "vamos descer desse ônibus e encontrar a velhinha porque precisamos ter certeza que ela está bem e precisamos leva-la de volta ao hospital!"
Ele concordou, descemos, andamos um pouco e encontramos a menina muçulmana que como nós tinha se dado conta da situação e a estava levando a uma estacão de ônibus para que pudesse pedir ajuda. Fomos os 4 juntos. A senhora na sua camisola de hospital, a muçulmana de véu preto, eu de vestido de inverno , meia calca e bota, Haiko de casaco de inverno. Pode se dizer que eramos um grupo eclético. Enquanto eu tentava engajar a senhora numa conversa que a fizesse ficar conosco e não tentar uma nova fuga, a menina muçulmana foi procurar ajuda.
A senhora queria a todo custo partir. Eventualmente conseguimos convence-la a entrar num oinbus parado para sair do frio. Antes disso a menina muçulmana tirou seu próprio casaco e o colocou em cima da senhora. Entramos os quatro no ônibus. A senhora a minha frente não compreendia porque o ônibus nao saia do lugar. A muçulmana do meu lado junto comigo tentava explicar que o ônibus estava atrasado.
E ficamos ali esperando que a policia chegasse. A policia chegou e a senhora nao ficou muito feliz com a ideia de ir ao hospital. Negava ter estado la internada. O policial gentil, e ao mesmo tempo realista a confrontava com o fato que ela estava com a pulseira do hospital. Quando eu olhei sua pulseira descobri sua idade: 90 anos!
A senhora era lucida. E não queria voltar ao hospital. Passamos pelo menos uma hora nesse ônibus e em alguns momentos eu parecia estar num filme. Haiko em silencio observando tudo, a doce muçulmana sentada ao meu lado, eu tentando explicar para senhora que nos estávamos preocupados com ela, os policiais ingleses, o motorista do ônibus, e até um passageiro bêbado e dorminhoco que tinha ficado no andar de cima do ônibus e apareceu pedindo desculpas pelo transtorno.
Partimos quando a senhora estava já na ambulância. Eu nao fiquei sabendo o nome da muçulmana mas ao ir embora ela me agradeceu. Como disse o Haiko foi tocante ela me agradecer por eu estar ali com uma pessoa tão estranha a ela como a mim. E eu disse um obrigada de volta que na hora nao teve muito sentido. Agora que eu sentei aqui para escrever tudo isso ele faz mais sentido. O meu obrigada a menina de véu é por ela ser tão excepcional e me lembrar que há pessoas no mundo que param para ajudar os outros. Não podemos parar sempre, mas quando paramos essas conexões ainda que breves, ainda que anonimas tornam evidente o quanto faz muito mais sentido viver num mundo onde tomamos conta uns dos outros.
Quando o policial disse "we are here because we care" a senhora discordou. Eu insisti dizendo que nos estávamos sim preocupados. Ela olhou para mim e para a muçulmana e disse " The two of you I know, but the police is just meddling with my affairs" :) Kathlin tem 90 anos, é casada com Albert, e é uma east ender. Uma senhora lúcida, e que tinha fugido do hospital. Como eu também já fugi uma vez eu a compreendo :)
segunda-feira, outubro 25, 2010
Ser Humano
Tenho estado ocupada. Entre aulas, palestras, a impossível tarefa de aprender hebraico, a maravilhosa oportunidade de encontrar e conhecer os meus colegas de doutorado, ensaiando as minhas musicas com um amigo para fazer um show, e ainda tendo mudado de casa! Sim, aquela casa, aquela da Nigeriana, e das estorias que me servem para um dia escrever um livro ficou para trás. Um novo endereço que ficou para trás, para o novo vieram dois dos meus antigos vizinhos, os amigos que eu ganhei naquele turbilhão de emoções. Shane e Iva.
Sobre Israel eu já falei tanto para as pessoas que eu encontrei que eu sinto que ta meio esgotado o que eu tenho a dizer. Talvez seja um pouco de medo de voltar a um ninho de emoções pouco compreendidas. Sentei ontem aqui e comecei 3 post distintos. Todos assim sem alma :) sem graça e aí tive que sair de casa para encontrar meu amigo Chris, meu melhor amigo da LSE, que fez mestrado comigo e que partia hoje para fazer trabalho de campo em Moçambique.
Nos encontramos também no sabado, e muitas e muitas vezes antes disso. Somos muito amigos, e eu ainda comecei a ensina-lo portugues assim que nos últimos meses foram dezenas de horas que passamos conversando sobre os mais variados temas. Sempre rimos muito, e nunca levamos nada muito a sério. Foi igual ontem. Eu mais uma vez indo ao Goodenough College que sempre me traz lembrança de amigos que partiram para dizer adeus para mais um.
Sentamos para tomar um chá e enquanto falávamos só bobagens foi tudo bem. No entanto, eventualmente chegou a hora de eu dizer adeus. Um adeus temporário afinal ele so fica no Moçambique dois anos, e depois eu fico em Israel tbm só 2 anos (o só é irônico) . E aí não deu. Eu transbordei em lagrimas (daquelas que você ta tentando engolir com os olhos).... "When do we see each other again?" ele perguntou " Vou estar em Nampula semana que vem, mas voce vai ta em Maputo então nos desencontramos" brinquei... "acho que então só em pelo menos 2, ou 3 anos". E os meus olhos encheram de lagrimas como enchem agora. Pois é claro que esse adeus não é só ao Chris. Esse adeus, é mais um adeus da pilha de "Adeus" exaustivos que nos que vivemos em Londres (uma cidade que ninguem para nunca) temos que dar. Esse adeus nos lembra sempre a impermanência de tudo.
E impermanência me faz sempre lembrar da minha meditação vipassana e ouvir Goenka dizer para estarmos presente! Chego em casa, e encontro Shane e Iva que eu já aprendi a amar, e ODEIO o pensamento de que eles também voltam a seus países eventualmente. Digo isso em voz alta, e enquanto Iva concorda Shane nos lembra "let's be in the present!" E eu volto ao presente para aproveitar o que esta aqui.
Mentalmente eu quero que o Chris tenha o melhor trabalho de campo no mundo. Emocionalmente eu queria ele aqui. Israel foi assim também. Esse descompasso entre mecanismo cognitivos, pensamentos ideológicos e realidades emocionais. Como é difícil (as vezes) ser humano.
Sobre Israel eu já falei tanto para as pessoas que eu encontrei que eu sinto que ta meio esgotado o que eu tenho a dizer. Talvez seja um pouco de medo de voltar a um ninho de emoções pouco compreendidas. Sentei ontem aqui e comecei 3 post distintos. Todos assim sem alma :) sem graça e aí tive que sair de casa para encontrar meu amigo Chris, meu melhor amigo da LSE, que fez mestrado comigo e que partia hoje para fazer trabalho de campo em Moçambique.
Nos encontramos também no sabado, e muitas e muitas vezes antes disso. Somos muito amigos, e eu ainda comecei a ensina-lo portugues assim que nos últimos meses foram dezenas de horas que passamos conversando sobre os mais variados temas. Sempre rimos muito, e nunca levamos nada muito a sério. Foi igual ontem. Eu mais uma vez indo ao Goodenough College que sempre me traz lembrança de amigos que partiram para dizer adeus para mais um.
Sentamos para tomar um chá e enquanto falávamos só bobagens foi tudo bem. No entanto, eventualmente chegou a hora de eu dizer adeus. Um adeus temporário afinal ele so fica no Moçambique dois anos, e depois eu fico em Israel tbm só 2 anos (o só é irônico) . E aí não deu. Eu transbordei em lagrimas (daquelas que você ta tentando engolir com os olhos).... "When do we see each other again?" ele perguntou " Vou estar em Nampula semana que vem, mas voce vai ta em Maputo então nos desencontramos" brinquei... "acho que então só em pelo menos 2, ou 3 anos". E os meus olhos encheram de lagrimas como enchem agora. Pois é claro que esse adeus não é só ao Chris. Esse adeus, é mais um adeus da pilha de "Adeus" exaustivos que nos que vivemos em Londres (uma cidade que ninguem para nunca) temos que dar. Esse adeus nos lembra sempre a impermanência de tudo.
E impermanência me faz sempre lembrar da minha meditação vipassana e ouvir Goenka dizer para estarmos presente! Chego em casa, e encontro Shane e Iva que eu já aprendi a amar, e ODEIO o pensamento de que eles também voltam a seus países eventualmente. Digo isso em voz alta, e enquanto Iva concorda Shane nos lembra "let's be in the present!" E eu volto ao presente para aproveitar o que esta aqui.
Mentalmente eu quero que o Chris tenha o melhor trabalho de campo no mundo. Emocionalmente eu queria ele aqui. Israel foi assim também. Esse descompasso entre mecanismo cognitivos, pensamentos ideológicos e realidades emocionais. Como é difícil (as vezes) ser humano.
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