Estou de volta ao Brasil. Não eu não planejava voltar. Não não é porque de repente depois de 11 anos eu tenha decidido que era fundamental eu tomar parte no carnaval para não perder minha cidadania :) Eu tive que voltar assim de repente porque eu quebrei o pé. Como sempre a estoria com mais detalhe está lá no meu blog em Ingles aqui.
O pior de quebrar o pé na Tailandia é ter que explicar o evento. Eu até pensei em inventar que tinha sido um acidente de moto ( tao comum por lá), ou que eu estava bêbada ( também compreensível para eles), ou que eu tava tentando escalar alguma arvore, ou estrutura ( qualquer pessoa que me conhece acreditaria nisso). Mas não, ter que dizer que eu cai as 8 da manha, andando numa superfície plana sem que absolutamente nada estivesse fora do lugar ( alem de mim) gerava inevitavelmente um desconforto geral. Os místicos a minha volta concluíram " É um sinal que é hora de você parar e voltar para casa. Há coisas para resolver." Os céticos que a minha alimentação não estava completa.
E eu que fui de fundamentalista ateia a aceitar todos os oleos e Reiki para ajudar no processo de cura acabei por concordar com eles. De fato, vai ver que há algo para eu fazer no Brasil. Sem duvida o mais obvio é que eu preciso parar quieta por um tempo. E já que não há praticamente nada alem de escrever e tocar violão que eu possa fazer sem ficar exausta vai ver que é escrever e compor e passar tempo com minha família e amigos. Vai ver que depois de ir praticando a compaixão e de encontrar humanidade em gente que fala toda a sorte de língua e tem todo tipo de pratica eu finalmente estou preparada para fazer isso em casa. Vai ver.
Claro que tudo isso imaginado la da beira do Mekong na boca dos esotéricos fica mais obvio, muito mais obvio do que nas 30 horas de voo, fica ainda menos certo quando você chega e quase tudo aponta para a incerteza do que é mesmo que é que eu tenho que aprender aqui? O que é que eu tenho que escrever? As estórias da minha própria vulnerabilidade e contradicões, do meu encontro com os esotéricos, um livro de ficção das pessoas presas entre diferentes mundos, as estórias que ficaram sem serem escritas? Sobre os Tibetanos? Os Indianos? Os Palestinos? Os Israelenses? A Kashemira? A India? Os viajantes? Os perdidos entre mundos? Da comum experiência dos viajantes de encontrarem no mundo algo muito diferente do que prevêem os biólogos evolutivos e os cientistas políticos. Do fato que nenhum viajante se surpreende que eu sempre tenha encontrado ajuda e altruísmo em todos os cantos onde estive independente de crença e língua e cultura? Em que língua mesmo que eu escrevo tudo isso?
Eu vivo de encontros e estórias. Quando ouço uma pessoa me contar uma estória é como se de repente eu entrasse em Kairós ( o tempo perfeito Grego, em oposição a cronos- o tempo cronológico). Quando kairos se instala e tudo para eu ouço com tudo que eu sou. Tudo para e eu começo a tentar engolir todo detalhe para eu poder depois dividir o mais acuradamente possível. Como é mesmo que eu explico esse momento para uma pessoa que ta lá na Kashemira, ou na Palestina, ou sentada no seu escritório de direito em sao paulo ? Levou uma vida inteira para eu me aceitar como contadora de estorias. Contar estória eu sei porque eu amo as estorias das pessoas.... porque eu as escuto com tudo que eu sou. Agora já essa estoria de escrever... escrever mesmo.... Escrever um livro.. aí eu não sei. Porque tudo que eu escrevo segue a minha regra de pontuação que segue as sinapses do meu cérebro e não o professor Pasquale. Tudo que eu escrevo hoje em dia segue a minha norma culta, que naturalmente nao tem nada de culta, ela é originária da mistura de varias línguas, da tentativa de se comunicar em gesto e som uma herança de ficar cruzando fronteira, de ir simplificando as frases ao essencial.
E é claro que a norma culta ajuda a um texto ficar claro. E palavras grafadas erradas levam até os que se julgam menos elitistas a desconsiderar um pensamento. Lembro de ficar chocada de ver como a estrutura social do Marrocos era marcada na Lingua. Minha amiga que é da classe dominante fala frances, e o arabe marroquino dela é praticamente inexistente. Ele existe para falar com a babá.
No entanto, eu nao cresci tao diferente assim. Eu cresci ouvindo as pessoas rirem dos erros cometidos pelas pessoas mais "simples". Eu também apesar de toda a minha leitura de literatura pos-colonial, apesar de me sentir aberta, ja muitas vezes levei um pensamento menos a serio porque a pessoa nao concordou o verbo corretamente com o sujeito. Eu que adoro me imaginar sem aceitar arbitrariamente distinções me lembro de me sentir incrivelmente desconfortável por ao chegar pela primeira vez a Tailandia no vilarejo rural onde fui voluntariar nao ter coragem de beber a agua que eles me deram. Fiz mil ginasticas na mente mas no final o que aquilo queria dizer é que apesar de toda a minha ideologia eu achava que agua que eles bebiam nao era segura o suficiente para mim. Aconteceu agora mais uma vez no Hospital na fronteira entre o Laos e a Tailandia. Eu nao me importei de ir lá para males menores, mas quando quiseram me operar la eu quase morri do coracao. Verdade que eu ia morrer do coracao em qualquer hospital do mundo por que eu sou medrosa por natureza. É verdade que eu nem se quer conseguia ler o formulário de consentimento que eu tinha que assinar. E nem entender as enfermeiras ou os medicos. Mas no fundo apesar de toda a minha ideologia havia um sentimento no fundo elitista. "Eu mereço um tratamento melhor. Ja que eu posso te-lo eu vou embora."
Minha amiga Robin que estava voluntariando no Nepal sentiu esse mesmo sentimento. Depois de ficar doente semanas pegou o avião e foi embora. Ficou internada com Tiphus na California sentindo esse mesmo desconforto que eu. Como é que resolvemos isso? Eu não sei. Na minha cabeça fico imaginando que quase todo mundo no muno que pode ter um tratamento melhor e na sua língua o teria feito. Minimiza o meu desconforto. Também vou dando graças a deus por essa nossa capacidade inerente de conseguir ter ideias muito contraditórias na mente.... em termos cognitivos " é uma dissonância cognitiva".
Bom, o que será que eu vim fazer aqui no Brasil? Eu não sei. Agora que eu to presa aqui pelo meu pezinho eu vou vir aqui mais dividir esses pensamentos meio inúteis e ao mesmo tempo profundos demais. Quando eu cai la na Asia. A coisa que mais me deixou triste era não poder mais ouvir e contar estorias. Quando eu comecei a viajar ha anos eu criei uma lista de e-mails. Era para contar as estórias das pessoas e do que eu ia encontrando pelo caminho. Essa lista foi crescendo aos poucos. Virou varias listas com centenas de pessoas. Quando eu fiquei no Oriente Médio e cruzei de Israel a Palestina ficando nas casas tanto de Israelenses como de Palestinos desconhecidos que fui encontrando pelo caminho a lista cresceu ainda mais. Então as pessoas das estórias me pediam para serem parte da minha lista. E eis que hoje em dia ela tem gente do mundo todo que me escreve em resposta. Fiquei triste que eu não ia mais escrever para eles nem ler suas reações e pensamentos.
Quando quebrei o pé depois de relatar todo o drama de estar num hospital por 11 horas sem entender NADA.... terminei por dizer que era meu ultimo e-mail. Recebi então e-mails de gente que eu nem se quer conhecia mas estava em alguma lista minha (por alguém ter me mandado o nome). Recebi emails de gente de tudo que é lugar me dizendo que tanto fazia onde eu estava que eu sempre ia ter estórias e que eu tinha que sempre conta-las. Eles estavam viciados nelas. Fiquei feliz. Muito feliz. Então eu estou aqui de volta a terras brasilis. Não sei direito para fazer o que. Não sei direito por quanto tempo.... Mas vou contando as estórias.
O pior de quebrar o pé na Tailandia é ter que explicar o evento. Eu até pensei em inventar que tinha sido um acidente de moto ( tao comum por lá), ou que eu estava bêbada ( também compreensível para eles), ou que eu tava tentando escalar alguma arvore, ou estrutura ( qualquer pessoa que me conhece acreditaria nisso). Mas não, ter que dizer que eu cai as 8 da manha, andando numa superfície plana sem que absolutamente nada estivesse fora do lugar ( alem de mim) gerava inevitavelmente um desconforto geral. Os místicos a minha volta concluíram " É um sinal que é hora de você parar e voltar para casa. Há coisas para resolver." Os céticos que a minha alimentação não estava completa.
E eu que fui de fundamentalista ateia a aceitar todos os oleos e Reiki para ajudar no processo de cura acabei por concordar com eles. De fato, vai ver que há algo para eu fazer no Brasil. Sem duvida o mais obvio é que eu preciso parar quieta por um tempo. E já que não há praticamente nada alem de escrever e tocar violão que eu possa fazer sem ficar exausta vai ver que é escrever e compor e passar tempo com minha família e amigos. Vai ver que depois de ir praticando a compaixão e de encontrar humanidade em gente que fala toda a sorte de língua e tem todo tipo de pratica eu finalmente estou preparada para fazer isso em casa. Vai ver.
Claro que tudo isso imaginado la da beira do Mekong na boca dos esotéricos fica mais obvio, muito mais obvio do que nas 30 horas de voo, fica ainda menos certo quando você chega e quase tudo aponta para a incerteza do que é mesmo que é que eu tenho que aprender aqui? O que é que eu tenho que escrever? As estórias da minha própria vulnerabilidade e contradicões, do meu encontro com os esotéricos, um livro de ficção das pessoas presas entre diferentes mundos, as estórias que ficaram sem serem escritas? Sobre os Tibetanos? Os Indianos? Os Palestinos? Os Israelenses? A Kashemira? A India? Os viajantes? Os perdidos entre mundos? Da comum experiência dos viajantes de encontrarem no mundo algo muito diferente do que prevêem os biólogos evolutivos e os cientistas políticos. Do fato que nenhum viajante se surpreende que eu sempre tenha encontrado ajuda e altruísmo em todos os cantos onde estive independente de crença e língua e cultura? Em que língua mesmo que eu escrevo tudo isso?
Eu vivo de encontros e estórias. Quando ouço uma pessoa me contar uma estória é como se de repente eu entrasse em Kairós ( o tempo perfeito Grego, em oposição a cronos- o tempo cronológico). Quando kairos se instala e tudo para eu ouço com tudo que eu sou. Tudo para e eu começo a tentar engolir todo detalhe para eu poder depois dividir o mais acuradamente possível. Como é mesmo que eu explico esse momento para uma pessoa que ta lá na Kashemira, ou na Palestina, ou sentada no seu escritório de direito em sao paulo ? Levou uma vida inteira para eu me aceitar como contadora de estorias. Contar estória eu sei porque eu amo as estorias das pessoas.... porque eu as escuto com tudo que eu sou. Agora já essa estoria de escrever... escrever mesmo.... Escrever um livro.. aí eu não sei. Porque tudo que eu escrevo segue a minha regra de pontuação que segue as sinapses do meu cérebro e não o professor Pasquale. Tudo que eu escrevo hoje em dia segue a minha norma culta, que naturalmente nao tem nada de culta, ela é originária da mistura de varias línguas, da tentativa de se comunicar em gesto e som uma herança de ficar cruzando fronteira, de ir simplificando as frases ao essencial.
E é claro que a norma culta ajuda a um texto ficar claro. E palavras grafadas erradas levam até os que se julgam menos elitistas a desconsiderar um pensamento. Lembro de ficar chocada de ver como a estrutura social do Marrocos era marcada na Lingua. Minha amiga que é da classe dominante fala frances, e o arabe marroquino dela é praticamente inexistente. Ele existe para falar com a babá.
No entanto, eu nao cresci tao diferente assim. Eu cresci ouvindo as pessoas rirem dos erros cometidos pelas pessoas mais "simples". Eu também apesar de toda a minha leitura de literatura pos-colonial, apesar de me sentir aberta, ja muitas vezes levei um pensamento menos a serio porque a pessoa nao concordou o verbo corretamente com o sujeito. Eu que adoro me imaginar sem aceitar arbitrariamente distinções me lembro de me sentir incrivelmente desconfortável por ao chegar pela primeira vez a Tailandia no vilarejo rural onde fui voluntariar nao ter coragem de beber a agua que eles me deram. Fiz mil ginasticas na mente mas no final o que aquilo queria dizer é que apesar de toda a minha ideologia eu achava que agua que eles bebiam nao era segura o suficiente para mim. Aconteceu agora mais uma vez no Hospital na fronteira entre o Laos e a Tailandia. Eu nao me importei de ir lá para males menores, mas quando quiseram me operar la eu quase morri do coracao. Verdade que eu ia morrer do coracao em qualquer hospital do mundo por que eu sou medrosa por natureza. É verdade que eu nem se quer conseguia ler o formulário de consentimento que eu tinha que assinar. E nem entender as enfermeiras ou os medicos. Mas no fundo apesar de toda a minha ideologia havia um sentimento no fundo elitista. "Eu mereço um tratamento melhor. Ja que eu posso te-lo eu vou embora."
Minha amiga Robin que estava voluntariando no Nepal sentiu esse mesmo sentimento. Depois de ficar doente semanas pegou o avião e foi embora. Ficou internada com Tiphus na California sentindo esse mesmo desconforto que eu. Como é que resolvemos isso? Eu não sei. Na minha cabeça fico imaginando que quase todo mundo no muno que pode ter um tratamento melhor e na sua língua o teria feito. Minimiza o meu desconforto. Também vou dando graças a deus por essa nossa capacidade inerente de conseguir ter ideias muito contraditórias na mente.... em termos cognitivos " é uma dissonância cognitiva".
Bom, o que será que eu vim fazer aqui no Brasil? Eu não sei. Agora que eu to presa aqui pelo meu pezinho eu vou vir aqui mais dividir esses pensamentos meio inúteis e ao mesmo tempo profundos demais. Quando eu cai la na Asia. A coisa que mais me deixou triste era não poder mais ouvir e contar estorias. Quando eu comecei a viajar ha anos eu criei uma lista de e-mails. Era para contar as estórias das pessoas e do que eu ia encontrando pelo caminho. Essa lista foi crescendo aos poucos. Virou varias listas com centenas de pessoas. Quando eu fiquei no Oriente Médio e cruzei de Israel a Palestina ficando nas casas tanto de Israelenses como de Palestinos desconhecidos que fui encontrando pelo caminho a lista cresceu ainda mais. Então as pessoas das estórias me pediam para serem parte da minha lista. E eis que hoje em dia ela tem gente do mundo todo que me escreve em resposta. Fiquei triste que eu não ia mais escrever para eles nem ler suas reações e pensamentos.
Quando quebrei o pé depois de relatar todo o drama de estar num hospital por 11 horas sem entender NADA.... terminei por dizer que era meu ultimo e-mail. Recebi então e-mails de gente que eu nem se quer conhecia mas estava em alguma lista minha (por alguém ter me mandado o nome). Recebi emails de gente de tudo que é lugar me dizendo que tanto fazia onde eu estava que eu sempre ia ter estórias e que eu tinha que sempre conta-las. Eles estavam viciados nelas. Fiquei feliz. Muito feliz. Então eu estou aqui de volta a terras brasilis. Não sei direito para fazer o que. Não sei direito por quanto tempo.... Mas vou contando as estórias.
