Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

De Volta A Casa

Estou de volta ao Brasil. Não eu não planejava voltar. Não não é porque de repente depois de 11 anos eu tenha decidido que era fundamental eu tomar parte no carnaval para não perder minha cidadania :) Eu tive que voltar assim de repente porque eu quebrei o pé. Como sempre a estoria com mais detalhe está lá no meu blog em Ingles aqui.

O pior de quebrar o pé na Tailandia é ter que explicar o evento. Eu até pensei em inventar que tinha sido um acidente de moto ( tao comum por lá), ou que eu estava bêbada ( também compreensível para eles), ou que eu tava tentando escalar alguma arvore, ou estrutura ( qualquer pessoa que me conhece acreditaria nisso). Mas não, ter que dizer que eu cai as 8 da manha, andando numa superfície plana sem que absolutamente nada estivesse fora do lugar ( alem de mim) gerava inevitavelmente um desconforto geral. Os místicos a minha volta concluíram " É um sinal que é hora de você parar e voltar para casa. Há coisas para resolver." Os céticos que a minha alimentação não estava completa.

E eu que fui de fundamentalista ateia a aceitar todos os oleos e Reiki para ajudar no processo de cura acabei por concordar com eles. De fato, vai ver que há algo para eu fazer no Brasil. Sem duvida o mais obvio é que eu preciso parar quieta por um tempo. E já que não há praticamente nada alem de escrever e tocar violão que eu possa fazer sem ficar exausta vai ver que é escrever e compor e passar tempo com minha família e amigos. Vai ver que depois de ir praticando a compaixão e de encontrar humanidade em gente que fala toda a sorte de língua e tem todo tipo de pratica eu finalmente estou preparada para fazer isso em casa. Vai ver.

Claro que tudo isso imaginado la da beira do Mekong na boca dos esotéricos fica mais obvio, muito mais obvio do que nas 30 horas de voo, fica ainda menos certo quando você chega e quase tudo aponta para a incerteza do que é mesmo que é que eu tenho que aprender aqui? O que é que eu tenho que escrever? As estórias da minha própria vulnerabilidade e contradicões, do meu encontro com os esotéricos, um livro de ficção das pessoas presas entre diferentes mundos, as estórias que ficaram sem serem escritas? Sobre os Tibetanos? Os Indianos? Os Palestinos? Os Israelenses? A Kashemira? A India? Os viajantes? Os perdidos entre mundos? Da comum experiência dos viajantes de encontrarem no mundo algo muito diferente do que prevêem os biólogos evolutivos e os cientistas políticos. Do fato que nenhum viajante se surpreende que eu sempre tenha encontrado ajuda e altruísmo em todos os cantos onde estive independente de crença e língua e cultura?  Em que língua mesmo que eu escrevo tudo isso?

Eu vivo de encontros e estórias. Quando ouço uma pessoa me contar uma estória é como se de repente eu entrasse em Kairós ( o tempo perfeito Grego, em oposição a cronos- o tempo cronológico). Quando kairos se instala e tudo para eu ouço com tudo que eu sou. Tudo para e eu começo a tentar engolir todo detalhe para eu poder depois dividir o mais acuradamente possível. Como é mesmo que eu explico esse momento para uma pessoa que ta lá na Kashemira, ou na Palestina, ou sentada no seu escritório de direito em sao paulo ? Levou uma vida inteira para eu me aceitar como contadora de estorias. Contar estória eu sei porque eu amo as estorias das pessoas.... porque eu as escuto com tudo que eu sou. Agora já essa estoria de escrever... escrever mesmo.... Escrever um livro..  aí eu não sei. Porque tudo que eu escrevo segue a minha regra de pontuação que segue as sinapses do meu cérebro e não o professor Pasquale. Tudo que eu escrevo hoje em dia segue a minha norma culta, que naturalmente nao tem nada de culta, ela é originária da mistura de varias línguas, da tentativa de se comunicar em gesto e som uma herança de ficar cruzando fronteira, de ir simplificando as frases ao essencial.

E é claro que a norma culta ajuda a um texto ficar claro. E palavras grafadas erradas levam até os que se julgam menos elitistas a desconsiderar um pensamento. Lembro de ficar chocada de ver como a estrutura social do Marrocos era marcada na Lingua. Minha amiga que é da classe dominante fala frances, e o arabe marroquino dela é praticamente inexistente. Ele existe para falar com a babá.

No entanto, eu nao cresci tao diferente assim. Eu cresci ouvindo as pessoas rirem dos erros cometidos pelas pessoas mais "simples". Eu também apesar de toda a minha leitura de literatura pos-colonial, apesar de me sentir aberta, ja muitas vezes levei um pensamento menos a serio porque a pessoa nao concordou o verbo corretamente com o sujeito. Eu que adoro me imaginar sem aceitar arbitrariamente distinções me lembro de me sentir incrivelmente desconfortável por ao chegar pela primeira vez a Tailandia no vilarejo rural onde fui voluntariar nao ter coragem de beber a agua que eles me deram. Fiz mil ginasticas na mente mas no final o que aquilo queria dizer é que apesar de toda a minha ideologia eu achava que agua que eles bebiam nao era segura o suficiente para mim. Aconteceu agora mais uma vez no Hospital na fronteira entre o Laos e a Tailandia. Eu nao me importei de ir lá para males menores, mas quando quiseram me operar la eu quase morri do coracao. Verdade que eu ia morrer do coracao em qualquer hospital do mundo por que eu sou medrosa por natureza. É verdade que eu nem se quer conseguia ler o formulário de consentimento que eu tinha que assinar. E nem entender as enfermeiras ou os medicos. Mas no fundo apesar de toda a minha ideologia havia um sentimento no fundo elitista. "Eu mereço um tratamento melhor. Ja que eu posso te-lo eu vou embora."

Minha amiga Robin que estava voluntariando no Nepal sentiu esse mesmo sentimento. Depois de ficar doente semanas pegou o avião e foi embora. Ficou internada com Tiphus na California sentindo esse mesmo desconforto que eu. Como é que resolvemos isso? Eu não sei. Na minha cabeça fico imaginando que quase todo mundo no muno que pode ter um tratamento melhor e na sua língua o teria feito. Minimiza o meu desconforto. Também vou dando graças a deus por essa nossa capacidade inerente de conseguir ter ideias muito contraditórias na mente.... em termos cognitivos " é uma dissonância cognitiva".

Bom, o que será que eu vim fazer aqui no Brasil? Eu não sei. Agora que eu to presa aqui pelo meu pezinho eu vou vir aqui mais dividir esses pensamentos meio inúteis e ao mesmo tempo profundos demais. Quando eu cai la na Asia. A coisa que mais me deixou triste era não poder mais ouvir e contar estorias. Quando eu comecei a viajar ha anos eu criei uma lista de e-mails. Era para contar as estórias das pessoas e do que eu ia encontrando pelo caminho. Essa lista foi crescendo aos poucos. Virou varias listas com centenas de pessoas. Quando eu fiquei no Oriente Médio e cruzei de Israel a Palestina ficando nas casas tanto de Israelenses como de Palestinos desconhecidos que fui encontrando pelo caminho a lista cresceu ainda mais. Então as pessoas das estórias me pediam para serem parte da minha lista. E eis que hoje em dia ela tem gente do mundo todo que me escreve em resposta. Fiquei triste que eu não ia mais escrever para eles nem ler suas reações e pensamentos.

Quando quebrei o pé depois de relatar todo o drama de estar num hospital por 11 horas sem entender NADA.... terminei por dizer que era meu ultimo e-mail. Recebi então e-mails de gente que eu nem se quer conhecia mas estava em alguma lista minha (por alguém ter me mandado o nome). Recebi emails de gente de tudo que é lugar me dizendo que tanto fazia onde eu estava que eu sempre ia ter estórias e que eu tinha que  sempre conta-las. Eles estavam viciados nelas. Fiquei feliz. Muito feliz. Então eu estou aqui de volta a terras brasilis. Não sei direito para fazer o que. Não sei direito por quanto tempo.... Mas vou contando as estórias.


Terça-feira, Janeiro 24, 2012

O poder das estorias

Eu ouvi uma vez no Ted Talk a Isabel Allende dizer que quando perguntam a ela como eh que ela inventa personagens que ela se surpreende. "Eu nao precisa inventa-las elas estao a minha volta o tempo todo." Hoje eu acredito nisso mais do que nunca. Claro que quase toda vida eh interessante se voce para para escuta-la. No entanto, ha algumas vida que sao surpreendentes e eu tenho tido a sorte de encontra-las o tempo todo. Quase todo dia para mim eh um dia assim. Eu que sempre gostei de gente mal leio livros ou vejo filmes hoje em dia. Eu simplesmente sento no jardim e escuto a vida das pessoas que passam por aqui.

Quando passa a minha frente uma estoria dessas que faz parecer que o tempo parou, e que nada mais existe eu fico imaginando os contadores de estorias do mundo arabe , ou melhor todas as tradicoes orais espalhadas do mundo. Toda vez que uma estoria dessas aparece eu fico como bebe na frente dos teletubies. Eu fico grudada tentando visualizar cada lugar, tentando sentir cada sentimento, tentando guardar cada detalhe para depois poder dividi-los com as pessoas que sao parte do meu mundo. Um mundo cada vez mais espalhado. Eu saio como crianca contando a todos no caminho desse "livro" que eu acabei de ler.

Eu conto do senhor Escoces de mais de 80 anos viajando sozinho de roupa de explorador me conta seu tempo dando aula na Arabia Saudita dos anos 60 com rosto iluminado como de crianca. Da gratidao que ele sente por ter visto as familias, as casas, os desertos. Eu nunca estive na Arabia Saudita mas tendo estado em alguns desertos, e tenho conhecido Saudis e Arabes de outras partes eu sinto meu nariz secar, o gosto doce do cha, a hospitalidade de deixar voce desconcertado.

Eu ouco o Californiano de 70 anos que passou a vida com os monges Budistas Tibetanos. Eu nunca estive no Tibete mas eu estive com os Tibetanos do exilio em Mc Leod. Entao eu vejo na minha mente as roupas vinho, as bolsas de pano, as malas (contas de meditar), os debates tibetanos. Posso ate ouvir o som do bater de palma quando um ponto eh feito no debate.

Eu ouco a estoria da senhora de 76 anos que aos 40 saiu para ver o mundo, deixando para tras uma vida academica, um casamento infeliz e indo parar na Cashemira e se apaixoando por um homem Kashmir, muculmando, casado de la. Eu nao me apaixonei na Cashemira mas sei o que eh largar a vida inteira e sair pelo mundo. Eu nao estive no meio da guerra que ela viu mas eu vejo na minha mente as mesquitas exatas onde algumas decadas atras ela assistiu criancas serem exterminadas. Eu nao vi o exercito Indiano atirar em crianca nas shikaras ( barquinho de madeira nos lagos de Srinagar), mas eu vi soldados carregando fuzis, arrame farpado, sinais dizendo frases do tipo " Eu sou soldado eu mato."

Eu ouco a estoria do chileno que vive na Franca e que foi preso duas vezes terminando por se exilar em Paris. Eu nunca estive no Chile, eu nunca estive presa mas ouco as estorias dos Palestinos, e Sirios que foram preso por serem dissidentes politicos. Ou a estoria do Angolano que viveu a guerra civil Africana e depois saiu a viver pela Asia. Ou a Albaniana que saiu fugida da guerra civil no porao de um navio que foi aportar na Italia para ser mandado de volta. A segunda tentativa de escapar num barquinho pequeno correndo o risco de afundar como tantos outros. Ou a estoria do casal Israelense que como parte do seu ativismo criou um programa de monitorar o Knesset e deixou o seu pais como ato politico.

Sao tantas as estorias. Sao tantas estorias tao diferentes mas tao parecidas. Em comum elas tem uma coisa: essas pessoas todas nao acreditam muito em distincoes entre nacioalidades, racas, religioes. Em comum essas pessoas ainda tem experanca na humanidade. No poder de mudar tudo. De sair e transformar e sobreviver e buscar seja la um lugar onde as suas ideias politicas sejam aceitas, ou onde uma vida faca mais sentido. Em comum essas pessoas tem partes espalhadas em pedacos distintos de terras. Essas pessoas compreendem o mundo hoje em dia em multipla linguas. Elas sao complexas. Carregam em si muita dor e muito amor.

Quando eu reconheco uma delas. Uma dessas que voce ve passando com mais tempo do que o tempo que viveram eu sento e escuto. Eu paro em silencio. Na velhice elas ainda guardam o sorriso de crianca. Uma luz que violencia nenhuma foi capaz de apagar. Eu escuto em admiracao e silencio. Eu sempre tenho meus olhos com lagrimas. E eu sempre explico a elas que vou escrever suas estorias. Quase todas me dizem que eh bobagem que eu o faca. E eu explico que nao. Nao eh bobagem. Eu acredito no poder das estorias. Essas estorias nos dao forca para acordar no dia seguinte, para lutar contra mais uma injustica, para mudar alguma coisa que ta errada, para escrever mais uma estoria. Essas estorias vao transformando o mundo a nossa volta. Vao nos lembrando sempre que a vida eh muito mais complexa,muito mais cinza que somos convencidos diariamente que eh.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

O que vemos no Mundo

Eu tive uma experiencia meio intensa aqui esses dias. Tentando resumir ao maximo no maior momento de total existencialismo eu acordei no meio da noite com um homem tentando entrar na minha casa. Um ptencial estuprador. Eu aqui na beira do rio Mekong. Nao quero repetir toda a estoria porque ja contei ela demais. Quem quiser saber detalhes eu escrevi um longo post no meu blog ingles aqui.

Esse post eu nao quero falar do que aconteceu mas sim das respostas que eu recebi ao meu email coletivo. Respostas de amor, preocupacao que vieram do Brasil, da Europa, do Oriente Medio, dos EUA, da Australia e ate mesmo da Africa. Eu recebi mensagens de gente do mundo todo. Pessoas que estiveram na minha vida de formas distintas em niveis de intensidade distintos mas que de alguma forma se sentiram tocados e resolveram me mandar a suas opinioes. Os seus conselhos. As suas sugestoes. Me senti confortada, intrigada e grata.

A vasta maioria das pessoas me escreveu para dizer que tinham se emocionado e que estavam felizes por eu estar bem. Houve uma parte que me lembrava de fechar a porta. A grande maioria das pessoas que eu conheco contaram como um ou outro evento tragico os tinha ensinado como eu a ver o mundo mais positivamente. Nao a focar no um incidente tragico mas no fato de aquilo ser tao chocante significar que na verdade eh raro.

Houve apenas um pequeno, bem pequeno numero de pessoas que me escreveu para falar o contrario. Meu irmao me escreveu para falar do egosimo inerente ao homem. Da violencia. Meu amigo soldado que defende a ocupacao da Palestina me escreveu para me dizer era por isso que Israel mantinha o exercito como eh. POr cause dessa maldade que existe.

Fiquei intrigada com esses emails que eles escreveram, mas tambem feliz de ver que o cinismo deles eh minoria dentre o grupo de pessoas que eu conheco. Eu sei que o email deles vem de se preocuparem. De quererem que eu evite me expor a riscos que eles julgam desnecessarios.

Eu concordo que eu posso fechar a porta que da para o rio. Esse eh um risco desnecessario. No entanto, eu nao concordo que eu tenha que deixar de ir ouvir as estorias das pessoas. De cruzar o mundo confiando.

Eu queria escrever esse post para dizer mais uma vez que a minha experiencia no mundo eh de enorme altruismo. Eu fui a milhares de lugares que me mandaram nao ir. Eu fiz couchsurfing na Palestina, fiquei na casa de gente que conheci pelo caminho na India, na Kashemira, em Israel, na Italia, na Franca, na Bolivia etc. Eu recebi na minha casa totais desconhecidos inumeras vezes. O que eu aprendi tomando esses riscos?

Eu aprendi que nos somos todos muito parecidos, capazes de mal e bem. Na maioria das vezes no entanto somos bons. Eu aprendi que em qualquer lugar que voce esteja as pessoas sao, se voce trata-las com respeito, sempre abertas e altruistas. Eu aprendi que ideologia nos separa mas a humanidade nos conecta. Eu aprendi que medo paraliza e que quem tem medo se tranca dentro das suas prisoes luxuosas e ve na excessao a regra. Eu aprendi que quem sai para ver o mundo tem muito mais fe na humanidade porque a nossa experiencia eh de sempre encontrar desconhecidos que nos ajudam por nada alem de que ser bom eh melhor que ser mal. Eu aprendi que quando alguem te ajuda voce quer passar para frente esse sentimento de gratidao. Eu aprendi que tempo que voce conhece uma pessoa nao se correlaciona com quao profundo pode ser o encontro que voces tem.

Acima de tudo eu aprendi que enxergamos no mundo o que projetamos. E que projetar no mundo o bem sempre cria uma vida melhor para quem projeta e para quem esta a volta. Enquanto os meus amigos que apoiam a ocupacao ilegal da Palestina continuarem achando que eles tem que se proteger nao havera nunca paz no Oriente Medio. Enquanto no Brasil as pessoas nao enxergarem o problema criado pela desiguldade eles continuarao andando nos seus carros blindados sentindo-se vitimas de injustica e impunidade. Enquanto tivermos medo de encontrar o outro, aquele de quem sempre ouvimos falar tao mal. Enquanto ficarmos na ideologia em vez de na humanidade. Enquanto nao encaramos que sim somos todos capazes do bem e do mal, mas que dependendo da escolha que fazemos criamos nao so o mundo que vivemos mas tambem a percepcao que temos dele.

Sim eu concordo eu posso trancar a porta de tras da minha casa esse eh um risco desnecessario, encontrar o outro, nunca eh.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Descobertas do Caminho

Eh dificil escrever dois blogs ao mesmo tempo. Traduzir entao eh uma chatisse so. Fico sempre na duvida se escrevo estorias distintas. Continuo na frente do Mekong. Trabalhando na Mut Mee. Meu trabalho eh praticamente pura diversao. Eu recebo as pessoas.O lugar eh informal o que significa que eu passo a maior parte do tempo no jardim conversando com os viajantes. E como ha viajantes nos ultimos tempos! Quase que todo mundo que passa por aqui esta viajando por meses. Pessoas de todas as idades. Tenho encontrado mais e mais aposentados rodando o mundo.

O meu penultimo post no meu blog em ingles tinha sido sobre as familias viajantes. Tenho passado muito tempo com essa ultima familia que apareceu por aqui. Eles sao verdadeiramente fascinantes. Ida, a mae, trabalhava para Unicef, Cyril, o pai, para o mercado financeiro, e os dois filhos, Raphael 3, e Victor, 8 tinham uma vida normal de crianca na Europa. Ida nasceu e cresceu na Albania e saiu fugida da guerra civil quando tinha 18 anos. Cyril frances tinha pais viajantes que o levaram ja crianca para viajar pela a Asia. Perguntei a eles como eh que eles tinham decidido largar tudo e sair pelo mundo para viajar por dois anos. Conforme os dias foram passando as razoes foram explicadas mais a fundo.

"Saimos para passar ferias e ficamos 24 horas por dia juntos. Foi um tempo tao bom. Quando voltamos para casa todo mundo ficou meio deprimido. Eu passava 10 horas com meus colegas de trabalho e duas horas do dia com meus filhos acordados. Quando uma amiga minha morreu eu entrei em depressao. Para que estamos fazendo tudo isso? Victor ja tem 8 anos. A vida ta passando.. daqui a pouco ele tera 18 e vai embora e eu nao vou ter passado tempo com ele"

Resolveram largar tudo. Largar os trabalhos importantes, o conforto da casa em Genebra para viajar como familia. Passar o tempo todo juntos a se descobrirem. A Franca, tem um sistema de educacao a distancia. O cyril da aula 2 horas por dia ao Victor. A cada 6 semanas ele tem provas controladas pela franca. Viajam com os livros.

Eu fiquei encantada de cara quando os conheci. O pequeno Raphael saiu pelo jardim procurando Budas para regar como nos templos. Os dois cuidavam um do outro. Estavam interessados por tudo. Quando viram as minhas fotos queriam saber quem eram aquelas criancas na Kashemira. A estoria deles.

Ontem a noite Ida me contou sua fuga da Albania. As pessoas nas ruas armadas. 24 horas num porao de barco ate a Italia para ser mandada de volta. A outra tentativa. O se esconder nos trens ate ir parar no Luxemburgo.

"Eu ja comecei uma vida do 0. Voce acha que o mais dificil eh a fuga. Nao eh. O dificil eh voce se integrar a sociedade. Sem papeis. Sem existir de fato."

Conforme ela ia contando a estoria meus olhos se enchiam de lagrimas. Passava em mim as estorias de todos os refugiados que eu encontrei pelo caminho. Os palestinos, os Tibetanos, o Angolano. Meus olhos se enchiam de lagrima nao de tristeza mas de admiracao da forca de sobrevivencia que existe em cada um de nos. As vezes nos esquecemos dela.

Meus olhos se enchiam de lagrima por me sentir tao grata de encontrar essas pessoas pelo caminho. Pessoas que decidem fazer as coisas diferente. Saem do sistema. Sobrevivem e percebem o que agora me parece obvio: o que realmente vale a pena na vida sao os encontros. Sao as nossas relacoes com as outras pessoas.

"Minha amiga nunca fazia nada. Estava trabalhando para se aposentar. Para descansar na velhice. A velhice nao chegou. Nos decidimos que era isso. Nos iamos partir. Ver o mundo eh um bonus. Agora encontras as pessoas, e nos conhecermos como familia eh o que nos queriamos fazer. De longe parece dificil mas agora parece tao obvio que mal consigo entender porque nao fizemos antes?"

Cyril entao completa " Se ha dois anos alguem me mandasse ir viajar por 2 anos com a minha familia eu ia dizer que ele tava louco. eu nao estava preparado para entender. Agora eh claro para mim o que vale a pena na vida. Eu nao quero esperar o final da minha vida para fazer essa avaliacao".

Meus olhos permanecem cheios de lagrimas o tempo todo. Tudo me toca. Uma mistura de estar doente com uma febre que nunca parte, com um existencialismo que nunca totalmente me deixa, com admiracao pelas pessoas que passam pelo caminho, com uma inabilidade de ficar totalmente no presente.

Ao meu lado, meu novo amigo Andre, que esta acabando um ano de viagem. Meio ano na Africa. meio na Asia. Sandra, sua mulher, agora no Camboja, ele prestes a partir para um retiro de vipassana amanha.Os dois tambem com um futuro meio incerto. Depois de viverem pelos ultimos 4 anos em Londres nao sabem agora para onde vao. Onde eh que a nova vida comeca.

Eh comum essa duvida. As pessoas me perguntam a mesma pergunta o tempo todo. "e depois voce vai fazer o que?"

Eu nao sei. Dia 24 do mes que vem eu tenho passagem para finalmente conhecer Burma ( insh'allah). Depois quero voltar a India. Depois parece tao longe, tao incerto.

Viver o sonho de sair assim pelo mundo sem rumo, sem data de volta tem disso. No caminho voce encontra um monte e gente que ta fazendo a mesma coisa. Um monte de gente interessante. Um monte de gente que tao pouco sabe o que vai fazer quando voltar, um monte de gente que nao sabe para onde vai voltar. Um monte de gente que sabe certamente que a vida que vivia antes nao eh a certa.

Eh isso que nos descobrimos pelo caminho que o que importa sao as pequenas coisas. O basico. Familia, amigos, um abrigo, alguma coisa para comer, sol, e o tempo de aproveitar essas coisas. O resto eh meio ilusao. Uma ilusao que nos prende diariamente em celas luxuosas e tecnologicas e cheias de coisas. Num conforto de uma certeza da rotina que na verdade tao pouco eh tao certa assim. Sim nos saimos pelo mundo e ficamos assim mais vulneraveis, mais moles, mais tocados pelas pequenas coisas. Falar a sua lingua, um abraco, reencontrar alguem. Nos saimos sem saber direito que nunca mais seremos capazes voltar. Mas quando o existencialismo bate assim no amago tem sempre alguem que aparece e te lembra "Lembra. Porque mesmo que vce saiu?" E ai ironicamente percebe-se que saimos porque aquilo ali, seja o que era, nao queriamos mais.

Sexta-feira, Janeiro 13, 2012

Feliz Ano Novo


Faz muito, muito tempo que eu nao escrevo aqui. Eu estou na Tailandia. Eu nao escrevo aqui pois como sempre quando viajo acabo mandando emails coletivos. Esses e-mails sao em Ingles pois eh assim que me comunico com meus amigos espalhados pelo mundo. Esses e-mails estao agora na integra no meu blog ingles www.translatingthoughts.blogspot.com

Eu estou na Tailandia. Depois de sair de Londres passar pela Italia fui a India. E depois de muitas turbulencias voltei aqui ao Mekong. Naquela Guesthouse de que tanto ja falei. A Mut Mee. Reencontrar Julian, meu amigo e dono, me buscando no aeroporto foi incrivel. Ver diariamente o sol se por diferentemente me deixa sempre impressionada. Como pode o Mekong se pintar em tantas cores?

Eu agora levo uma vida simples. Trabalhando numa Guesthouse e conhecendo pessoas incriveis. Fico aqui ate Fevereiro e ai devo finalmente ir conhecer Burma. Depois disso. Bom depois disso eu nao sei. Mas era isso que eu queria fazer. Ir sem rumo. Vou indo.

Se nao escrevo aqui nao eh por preferir escrever em Ingles. Eh porque ingles eh a lingua que eu consigo atingir a maior parte dos meus amigos e familia no Brasil, e todos esses outros do mundo. Mas prometo que vou tentar voltar mais aqui. Contar as estorias das pessoas desse lados :)

Feliz Ano Novo!

Sábado, Agosto 20, 2011

Around the World

Eu tenho escrito em ingles. Por isso vou colocar no meu outro blog. Quem quiser le vai la. Ta meio dificil de fazer as duas coisas :) Obrigada pelas mensagens

http://translatingthoughts.blogspot.com/

Sábado, Agosto 13, 2011

De volta a India

Poucos dias de India, ainda nao consegui deixar Delhi. Cada parte do meu corpo se faz mais presente, minha alma dolorida de uma dor assim tao velha como o proprio tempo. Quis fugir e ir direto a Tailandia voltar ao conforto do Gaia no Mekong. A India nao deixou. A India eh assim ela fala, grita, te empurra e eh melhor vc entender logo oque ela esta dizendo. Ou melhor, eh melhor vc entender logo que ela te vira do avesso e que eh voce mesmo que tem que curar as feridas.
Como eu poderia ter me esquecido de tudo isso? Tinha apenas uma vaga memoria da overdose sensorial que senti aqui, quando aqui estive ha 2 anos. Naquela epoca eu buscava o metafisico para me curar.
Lembro de ir a um templo Hindu em Londres no dia que "fugi" do hospital. No dia, que me foi dito que eu tinha uma anomalia no cerebro.
Naquele dia, eu que em nada cria, alem do processo cientifico, e em Dennet, Harris Dawkins e seus seguidores liguei para o meu unico amigo remotamente espirtiual. Ele entao me levou a esse templo. Naquele dia eu me prometi que viria a India. Cheguei em Delhi acompanhada do Haiko e juntos fomos para terra da yoga, e depois para a cidade onde vive o Dalai Lama.
Agora eu volto so. So em meio a milhoes. A solidao se faz mais presente. Eu que queria parar e descansar tenho que lutar contra meus fantasmas. Fui eu mesma, que disse que estava pronta nao foi? A India tbm te lembra isso: uma respiracao de cada vez, um passo de cada vez, e te obriga a ignorar o que vem de fora. Eh no dentro que eu tenho que chegar. Procurei ajuda e ela me foi negada. Em meio a milhoes sou obrigada a me lembrar que a busca do dentro eh solitaria.