sexta-feira, maio 13, 2011

Firaz

Firaz tem 22 anos. Quando cheguei a Nablus na Palestina entrei numa casa meio que surreal. Tinha vindo de minivan de Ramallah cidade que serve temporariamente como capital administrativa da Palestina. Quando o taxi me deixou no endereço que Sam meu host tinha explicado por telefone ao senhor Palestino que sentou ao meu lado na viagem (e nao partiu sem antes ter certeza que eu estava dentro de um taxi indo na direcao certa) Firaz veio falar comigo. “Are we looking for you?”. Eu sorri e disse que nao sabia. “ Are you here for Sam, right?” Eu estava, Sam era meu host do couch surfer em Nablus. Cruzei a rua, entrei num prédio e segui Firaz, e outro rapaz, Yahya 25 ate o segundo andar. Entrei , cruzei o corredor entrei num sala com muitas cadeiras e uma mesa cheia de uma variedade de frutas, e então me levaram a um quarto.

Senti me meio que como num filme em algum lugar meio alem da realidade. No quarto, havia umas cortinas amarelas que davam uma luminosidade toda especial. Uma cama enorme onde Sam falando no telefone estava sentado. A volta varias cadeiras, 6 laptops, muitos telefones, varios meninos, e uma menina. Lorna, 23, tbm couchsurfer me ofereceu café. Sentei e de repente apareceu um homem trazendo café árabe para mim. Lorna, riu, “ se acostume, daqui para frente eh assim. Eles vão fazer tudo para voce.”

Fui conhecendo aos poucos os meninos. Por alguma razao Firaz veio e sentou se ao meu lado num momento que eu estava sozinha. Contou me sua estoria “ voce sabia, que antes da Lorna vir aqui eu nunca tinha falado com nenhuma mulher fora da minha familia?” Eu nao sabia eh claro. Ele me explicou que as escolas eram todas separadas. “Entao quando ela chegou e falou comigo meu coração bateu forte, e eu não sabia direito o que dizer.”

Lorna rindo disse “ eu disse, tudo bem Firaz eu sei que vc não gosta de mim por isso nao fala comigo.” Alguns minutos depois ele se aproximou dela e disse “ vc ja andou de burro?”. Sua primeira frase a uma mulher tinha sido essa. Lorna contou chorando de rir. Os outros meninos que sempre tiravam sarro de Firaz continuaram rindo. Firaz como sempre nem ligou. Se aproximou de mim e foi contando sua estoria.

Contou do sangue correndo nas veias de nervoso, contou das vezes que nao passou nos exames da escola, contou de ficar as vezes muito deprimido. Para quem nunca tinha falado com uma mulher antes, ele de repente se abriu completamente.

Horas depois quando Firaz que é um devoto muçulmano, descobriu que eu meditava e fazia yoga ficou animadíssimo. Mil perguntas. E eu completamente intrigada por ele querer saber tanto sobre todo esse mundo tao longe de Nablus na Palestina. Brincando disse que eu sabia ler mão.

Peguei a mão dele e no meio de todos comecei a repetir o que ele tinha me contado. “ Firaz estou vendo aqui na sua mao que vc nunca tinha falado com uma mulher, etc, etc”. Eu estava obviamente brincando, e ele meio que percebendo dizia “ isso tudo eu que te contei”

“Voce esta duvidando da minha habilidade, da minha competência de “palm reader”. Os meninos riam, Lorna ria, quando Firaz do nada diz “ por acaso diz alguma coisa ai sobre eu querer me matar?”

Todos os meninos que sempre tiram sarro dele emudeceram. A mao dele na minha e eu sem hesitar sabendo que ele queria falar disso disse naturalmente:

“ Diz sim, diz que vc quando ta deprimido , quando nao passa nos seus exames, quando sofre as vezes pensar em morrer. Mas tudo bem, todo mundo pensa isso de vez em quando.”

Disse isso e continuei lendo o que ele tinha me contado. No final, ele olhou para mim e disse:

“ Voce nao sabe ler mao, vc repetiu tudo que eu falei!”

“Sinto muito eu sou uma ótima palm reader tá tudo escrito ai : )”

“ E tem mais, isso do suicidio eh mentira!”

“Sinto muito Fayez, o que ta escrito ta escrito” disse brincando pois tudo tava em tom de brincadeira.

“Ta bom, eh verdade, mas foi so uma vez”

Eu nao conseguia acreditar que ele estava abertamente falando de algo tao privado em meio a umas 8 pessoas. Eu percebi que ele queria falar disso entao perguntei o que tinha acontecido.

“Uma vez eu quase me joguei de uma montanha, mas ai varias pessoas vieram me salvar.”

“Firaz, como eles sabiam que voce estava la?”

“ eu tinha ligado para um amigo meu. Voce acha que eu sou louco?”

“Firaz vc nao queria morrer. Voce queria ajuda. Voce precisava de atencao e fez muito bem de pedir. Todos nos precisamos de ajuda.”

Assim, foi logo o meu primeiro encontro com Firaz. Fiquei intrigada com sua sensibilidade. Fiquei impressionada com a sensibilidade dos outros meninos que sempre tiram sarro dele mas ali naquele segundo ficaram em silencio respeitando aquele momento. Logo ali de cara, Firaz e eu ficamos conectados. Firaz por ser tao espontâneo me mostrou muito sobre o mode of thinking palestino muçulmano de um menino que nao fala com meninas. Com toda sua sensibilidade me impressionaria muitas outras vezes. Mas eu vou contando isso aos poucos. Levou apenas um encontro para comprovar para mim o que eu ja sabia, que as estorias e imagens que nos contam sobre o jovens da Palestina como violentos, como incapazes de pensamento critico é longe de real. E levou muitos outros encontros para eu ir percebendo cada vez mais o tamanho da generosidade desses meninos que eu encontrei.

2 comentários:

mag disse...

Julieta,
Q bom ter noticias... e quantas novidades!!
Vamos seguir aqui as suas "aventuras",
boa sorte

claudia alcantara disse...

Ju, to aqui em um momento de descanso e lendo teu blog pelo celular. È indescritivel a emoçao que sinto lendo suas vivencias, o modo como você descreve tudo faz a gente imaginar que estava junto contigo, na mesma cena, é quase possivel visualizar as cores....você tem essa capacidade de contar as coisas de um modo unico, uma escritora de tempos modernos....adoro! Continue contando sempre que possivel as emocoes que você viveu, tudo isso e muito enriquecedor para a gente que te segue! Beijos amiga, que saudades! Espero te ver em breve. Muitos beijos. Com carinho, Claudia