sábado, julho 26, 2008

A vida

Eu sei que faz muito tempo que eu não escrevo mas são tantas as coisas que tem acontecido, que quando eu penso em escrever fico sem saber no que focar. Mal de quem passa muito tempo sem falar nada :) No entanto, esse período de digestão dos meus sentimentos talvez tenha sido importante. Minha avó, tias, e prima estão aqui em Londres, eu estive na Grécia por 10 dias com elas na semana passada, estou indo para Romenia na próxima semana, e desisti de ir a India e ao Nepal em setembro. Não por falta de vontade, mas por não poder fazer tudo já que eu escolhi ir para a Romênia passar o mês num acampamento de Yoga. E tem Yoga na Romênia?? Tem. E eh sobre isso que eu quero escrever hoje. Sobre o acampamento de Yoga na Inglaterra onde fui passar uma semana faz mais ou menos um mês.

Eu decidi ir a este tal acampamento no ultimo minuto. Tinha tido uma semana difícil, ou melhor, um ano cheio de reviravoltas, e quando eu angustiadíssima liguei para o meu professor de Yoga ele me perguntou porque eu não me juntava a eles no acampamento de Yoga. Eu nem sabia do acampamento, fazia tempos que nem estava indo a Yoga, mas eu estava tao desesperada que aceitei na hora, aceitei embarcar numa viagem no dia seguinte. Depois de horas de mudança de opinião, as 11:30 da noite do Domingo ficou decidido que eu iria para o Ashram no dia seguinte as 7 da manha.

Eu acordei nervosa, ansiosa, perdida, e sem vontade de ir. Tinha medo de me sentir totalmente fora de lugar, presa sem acreditar em nada, num lugar cheio de pessoas diferentes de mim. Coloquei minha mochila nas costas, e decidi que iria, assim como se fosse fazer trabalho de campo, como se fosse para uma experiencia antropológica.

Eu me juntei ao acampamento de yoga e meditação não inteiramente aberta a ele, mas tambem nao totalmente fechada. Eu fui meio assim por acaso e logo no primeiro dia algo aconteceu. Eu que sempre analiso rituais, simbolismos, comportamento social, talvez na tentativa de me afastar do evento, eventualmente me abandonei. Isso aconteceu num momento que dançamos juntos de olhos fechados. Eu dancei e enquanto eu dançava, e sentia as pessoas a minha volta, eu transbordei em lagrimas, em "energia" que eu não conseguia entender. Pela primeira vez nem tentei. E de repente, eu senti como se estivesse reencontrando com partes minhas que eu tinha perdido em algum lugar.

Aos poucos eu fui sendo reapresentada a criança, a mulher, a artista, a musicista etc.. Elas estavam la, mesmo eu tendo lutado tao fortemente contra elas, elas continuavam la, pedindo para sair, para respirar, para vir a tona. E eu percebi que eu nem sabia quando, ou como, ou por que eu tinha resolvido ser um dia apenas a cientista social. Eu tinha por alguma razao rejeitado a tudo que eu sou sem nem saber direito o porque. E de repente, me pareceu tao claro o porque eu tinha ficado doente. O porque eu tinha lutado organicamente contra meu cerebro. E eu senti a musica em mim, em cada celula, assim como eu nao havia sentido em muito tempo. Eu senti a perfeicao daquilo tudo, o ritmo, a harmonia, um total sentido.


Os dias que se seguiram foram importantes, as meditacoes, as sessoes de Yoga, a vida comunal, mas eu guardo o primeiro dia como o mais importante. Durante a semana, eu tive todos os tipos de pensamentos, experiencias, sentimentos, e no final eu me senti como se tivesse completado um circulo. Eu tinha comecado a constuir uma pontezinha entre as partes tao segregadas de mim.

Eu eu mudei em muitos aspectos e mudanca nao e sempre tao facil. Eu continuo me sentindo espantada com todas essas coisas novas dentro de mim que eu nao entendo direito. Eu sinto um amor enorme pelas pessoas a volta. Eh claro que eu ainda analiso muito, ainda tenho muitas duvidas. No entanto, eu sinto que o acampamento de yoga, foi o apice de um processo que comecou um ano atras com a minha doenca, e de ser apresentada ao Yoga como caminho e nao apenas posturas. O acampamento foi parte desse acordar, desse "wake up call" para me trazer de volta a viver a vida, porque enquanto eu ficava so assistindo e analisando eu estava aos poucos matando tudo o que eu sou.

Um comentário:

Cristiana Bertazoni disse...

Oi Julieta,

Tudo bem?
Muito legal seu último post. Acho que me identifiquei com a última linha.

Abraços,
Cristiana