terça-feira, outubro 21, 2008

Dos Viajantes do Mundo



Hoje eu quero falar da Natalie, Australiana que eu conheci em Rishikesh. Logo na primeira noite em que chegamos fomos jantar num pequeno restaurante Nepales a beira do Ganjes. O restaurante era todo feito de Bambu e havia uma mesa que contornava todas as paredes ( eu sei que nao ta muito bem explicado :). A volta dessa tabua havia almofadas. Chegamos cedo, o restaurante ainda estava vazio e pudemos escolher portanto, o lugar que se tornaria o nosso preferido: perto de uma arvore ( dentro do restaurante) e de frente ao Ganjes. Sentamo-nos e logo depois apareceu um casal de dread locks, roupas etnicas, bonitos, que nos cumprimentaram enquanto sentavam nao muito longes de nos. Nem sei como foi, mas de repente estavamos conversando, e logo em seguida mudamos-nos para bem perto deles. Natalie e Andras ( pronunciado Andrash). Ela Australiana e ele Hungaro.

Logo de cara eu fiquei fascinada por ela. Seu estilo, sua calma, seu jeito de falar. E eu de cara percebi que ela era uma pessoa com muitas estorias para contar... mas dessas pessoas que vive uma vida tão espetacular o tempo todo que já nem percebe mais o espetáculo da vida, afinal esses momentos que para nos parecem absolutamente fantasticos, sao para elas o dia-a-dia. Natalie era assim, tinha viajado o mundo por anos, e nem sabia muito bem há quantos anos viajava ou em quantos lugares tinha estado. Não é nem que ela achasse essas perguntas tolas, ela simplesmente não tinha parado para pensar. Ficamos amigas imediatamente. E eu perguntei tudo e mais um pouco nos dias que se seguiram.

Natalie viaja há uns 14 anos. Quando tinha 18 teve um namorado que tinha viajado o mundo afora, e ela adorava ouvi-lo falar dos lugares onde tinha estado. Num certo dia depois de muito ouvir, decidiu que ela ia ve-los tambem. Ia passar 3 meses viajando. E assim, nao mais que de repente os 3 meses viraram 3 anos. Como? "Eu ia indo, fazendo arte, crafts, ficando na casa das pessoas que eu conhecia pelo caminho, pegando carona...." E de fato, ela chegou a America do Sul de carona num yacht. Foi parar na Colombia, onde passou 8 meses. Arrumou um namorado, e saiu de la deportada por ter ficado alem do que era permitido no seu visto. Viajou grande parte da America do Sul. A Colombia continua sendo para ela, um dos seus lugares favoritos. E pelos colombianos ela tem um grande amor.

Depois desses 3 anos, ela voltou a Australia, e nunca mais ficou um ano inteiro em casa. Passava 6 meses em casa, 6 meses na Asia. Ja tinha estado na India dezenas de vezes, mas ela gostava mesmo era do Paquistão, onde tinha estado 6 vezes sozinha. "Como sozinha Nat? " As pessoas são maravilhosas no Paquistao, eu sempre sou acolhida nas suas casas!" "Voce nunca teve problemas ??? " Nao, eu adoro os paquistaneses".

A essa altura, eu ja meio brincando, pergunto a ela "e o Afeganistão? " Eu fui ao Afeganistão num visto do Taliban, um pouquinho antes do Afeganistao ser atacado." Ela nao podia entrar sozinha como mulher entao, ficou na fronteira esperando alguem que fosse entrar para entrar junto. E assim, ela entrou com um total desconhecido, num país onde mulher não tem la muitos direitos. " Nat, o que voce foi fazer la????" " Fui ver. Todo mundo dizia que as mulheres eram apedrejadas na rua, que isso e que aquilo e eu quis ir la ver se aquilo que aparecia na televisao era mesmo verdade". E oque ela viu? Bom isso fica para o proximo post, por que a visita dela ao Afeganistao é digna de um filme.

No entanto, sobre o que eu queria escrever nesse post, é sobre o sentimento que desperta em mim encontrar pessoas como a Natalie. Encontrar pessoas como ela me faz questionar a realidade do mundo que acreditamos existir, e do mundo que de fato existe. O perigo real, e esse que nos é imbutido. Eu mesma viajei a Bolivia, o Peru, o Marrocos sozinha contra todo tipo de conselho. Em todos os lugares eu me senti perfeitamente segura. Podemos debater é claro que o sentimento de segurança é abstrato. Mas será que estes reports também nao o são? É claro, que ela é meio maluca de se meter nesses lugares sozinha e sem muito preparo. Mas seria a vida dela de pura sorte? 14 anos de pura sorte? Ou será que no que muitos chamam de ingenuidade está a capacidade dela de realmente conhecer o outro? Não o outro que trabalha no hotel, mas o outro na sua casa, comer da sua comida, beber da sua agua. São perguntas. Eu nao tenho as respostas. O que eu sei, é que esses encontros, assim como as minhas viagens sempre me fazem perceber como o mundo que nos é pintado é muito distante do que deve ser o real.

2 comentários:

rodrigo.coelho disse...

“O mundo que nos é pintado é muito distante do que deve ser o real”. Concordo muito com isso. Cada pessoa experimenta uma realidade diferente e a história oficial é apenas uma destas visões, a escolhida por algúem poderoso o suficiente para impor a verdade.

Jornalismo é um pouco isso, a consagração de uma visão eleita como oficial, em meio a várias outras. E vira verdade também porque o ser humano não curte complicar tanto as coisas, precisa de respostas simples e gosta de achar que entende vários assuntos. Daí que é mais simples achar que o Paquistão é pior que Parelheiros, o que, na minha experiência, não é.

Escreve logo a história da menina no Afeganistão, vai.

Anônimo disse...

Juju querida que saudade!!! Nossa, AMEI seu blog. Pelo jeito a vida vai bem em Londres ( ou fora :)! Eu continuo aqui no MIT, terminei minha tese essa semana... e ja tenho um post doc meio que definido. Sometimes I feel like going travelling for 14 years as well! Manda noticias! Saudade
Gui