sexta-feira, novembro 21, 2008

No Meio do Caminho

Faz três semanas que eu comecei a voluntariar numa escola pública aqui de Londres. Faz parte de um programa da LSE, e tirando eu e uma meia duzia de gatos pingados, eu tenho a impressão que a maioria dos voluntários esta fazendo isso só para ficar bonito no curriculum. Pelo menos foi a impressão que eu tive, mesmo porque na apresentação do programa la na LSE, a coordenadora passou 5 minutos falando na importância da experiencia para o individuo, mais 5 na diferença que faz para os alunos da escola publica, e uns 50 citando estatísticas que mostram que empregadores preferem empregados que tenham voluntariado. Enfim, o importante é que ela conseguiu muito voluntários, que tanto faz a motivação, ajudarão pela simples presença, e atenção que dispensarão com alunos.

Na minha primeira visita a escola, encontrei mais 7 estudantes da LSE. Eu estava um pouco preocupada que a escola fosse muito rígida ( eu sou muito mais da linha de escolas democráticas). La chegando meus medos se dissiparam, a escola uma bagunça, a diretora uma simpatia, e a alegria que ela estava de nos receber era evidente. Nos perguntou com qual idade queríamos trabalhar, e tirando eu, todo mundo escolheu o ultimo ano da escola primaria, os alunos de 11 anos. De fato, eles tem bastante necessidade, por causa de um exame que tem que fazer nessa fase. Eu pedi para ficar com as crianças de sete anos, porque eu acho fascinante essa fase de estar aprendendo a ler, escrever, compreender um texto. Enfim, a minha escolha foi meio intuitiva, guiada por um interesse em cognição, por querer ver esse processo de "socialização", "hopefully" ajudar nessa fase de fundamento de base, e é claro porque as crianças de 7 são umas fofuras!!!

A diretora nos levou para visitar, a escola, e nos fomos interrompendo classe, depois de classe, e quando finalmente chegamos na classe dos de 11. Ela nos apresentou. Eles estavam assistindo um discurso do Obama :), e ela parou e disse: " Guys, eu quero apresentar vocês a essas pessoas, eles são voluntários, eles são especialistas na área deles, estudam na UNIVERSIDADE, e vão vir aqui no tempo livre deles, para ensinar VOCÊS, ajudar VOCÊS !!!" Ela falou isso, super dramática, e eu fiquei meio sem saber o que achar, mas ao ver a reação daquelas crianças de 11 anos, que eu imaginei que ia ser tipicamente de pré-adolescente (ou seja: nem ligar, ou bufar, e ficar infeliz com mais uns adultos na aula deles), fiquei super emocionada. TODAS as crianças da classe, gritaram "YES!!!!! Really????? para estudar conosco??? todos eles??? aqui??YES!!! YES!!!!"

Assim, que na próxima, semana cheguei e fui recebida por uma mulher de pijama. Era um dia especial na escola, para arrecadação de dinheiro para uma caridade. Fui levada a minha classe, e obviamente me apaixonei. Não, sério, tudo que eu sei é teórico. De ler. De estudar. Tudo que eu sei é de ver crianças de amigos, crianças de escola privada, de pais informados. Agora, numa classe pobre, de criança de tudo que é lugar. Nossa, isso é outra coisa. Por que aqueles processos cognitivos que ficamos discutindo na minha aula, de domínios específicos, e não sei mais o que, de repente ganham outra dimensão. E a politica, e o processo violento que é ser educado , socializado ( e aqui eu digo em qualquer sistema, em qualquer escola), da para ver..ali na pratica. É incrível.

Eu não quero falar hoje, das coisas que eu acho erradas. Ou das praticas que eu questiono. Especialmente, porque hoje o professor da minha classe, um bonito e motivado professor que no primeiro dia mal tinha falado comigo se aproximou. Perguntou se eu estava fazendo curso para ser professora. Eu disse que não, que era voluntaria. " A voce é da Universidade então?" Eu confirmei. e ele disse meio que brincando, "você esta aqui para ver o que a gente faz de errado ? :)", "e ali meio brincando ele expôs o medo dele, da intrusa." Eu disse " Não! eu to aqui porque eu estudo cognição, e eu quero ajudar, e por que eu me interesso em educação" "Eu na verdade devia ter dito, " nao na universidade a gente não sabe nada, você que devia ir ver la as coisas que dizemos sobre aprendizado!!!!" " E ele sorriu e me disse "se você quiser fazer alguma coisa, uma atividade, ensinar alguma coisa, ou pesquisar fique a vontade! " Depois disso ele me envolveu em todas as atividades, eu ajudei crianças a ler, a escrever, a inventar frases, a fazer ginastica. E eu sai radiante de la.

Só quando eu cheguei em casa que eu pensei no significado de tudo isso. Eu nunca imaginei que um professor tao exuberante pudesse estar intimidado por causa de uma aluna. Ele estava intimidado pelo fato de eu estar na universidade, uma universidade reconhecida. E que eu sem pratica nenhuma fosse juga-lo. E ele estava certo. Pois é o que nós fazemos. Nos julgamos, teorizamos, sem ter muita noção da realidade. Mas ele veio até o meio do caminho para sondar ao que eu vinha, e eu fui até o meio do caminho para dizer que eu não sou um perigo. E nesse meio, pudemos nos unir para dar mais atenção para varias crianças.

2 comentários:

Charô disse...

Olá,

comecei aacompanhar eu blogue recentemente.Prazer!
(...)
Minha experiência diz que o voluntariado aqui no BR tb serve a propaganda. Uma tristeza.
(...)
Os professores são como a gente né? Só nasceram um pouquinho antes. ;)

Um abraço!

Julieta de Toledo Piza Falavina disse...

Oi Charo! Prazer :) obrigada por ter visitado o meu blog! Voce voluntaria no que?