quarta-feira, julho 07, 2010

Hand In Hand



Acho que nao contei aqui que me inscrevi para fazer doutorado na LSE. Como quase tudo na minha vida foi meio por acaso. Eu escrevi um paper e meu supervisor disse que seria um bom projeto, esse projeto virou um outro projeto, eu fui meditar para descobrir se queria mesmo fazer doutorado, nao descobri e uns dias antes de me inscrever para receber dinheiro do departamento minha supervisora Rita Astuti, me disse que achava que eu nao estava motivada para esse projeto. Era verdade. Ela sentou comigo e disse "let's think together". Sugeriu que eu voltasse para casa e lesse mais que talvez mudasse meu projeto de trabalhar com ortodoxos judeus, para budistas. Voltei, li, li, li e por acaso cai no site de um grupo de escolas em Israel chamado Hand in Hand De acrodo com o site "each school is co-directed by Arab and Jewish co-Principals; and each classroom is co-taught by Jewish and Arab teachers. Students at each grade level are balanced between Arab and Jewish children. Students at all grade levels are taught in both Hebrew and Arabic, learning to treasure their own culture and language while understanding the difference of others around them."

Adorei a idéia de trabalhar com essas pessoas. Afinal de contas sao pessoas que estão fazendo uma escolha difícil no estado de Israel de mandar seus filhos sejam eles árabes ou judeus para uma escola de ideologia tao alternativa porque acreditam que so no encontro e respeito desses dois grupos pode haver paz. Antropólogos sao muito críticos sobre escolas. Escolas sao veículos pelos quais estados constroem cidadãos, onde ha o desvalorizamento de cultura local ( como no caso de populações tribais que sao forcadas a irem a escola), ha um milhão de estudo de como educação reinforça divisões de classe, poder etc. Essa escola, portanto, ja é interessante por isso, já que ela eh "anti-establishment". Ela busca uma compreensão entre esses dois grupos que durante tanto tempo estiveram em conflito. Eu nao pretendo aqui entrar nas mil outra complicadas nuances ( por exemplo a difícil distinção Árabe X Judeu, os diferentes Judeus etc). Para o meu post basta dizer que essa escola tenta trazer esses grupos que se consideram distintos numa mesma escola, sendo ensinado em Arabe e Hebraico por duas professoras ao mesmo tempo.

O meu interesse é vasto tanto antropológico, como cognitivo. Interessa-me muito como as crianças "essentialize" essas categorias sociais. E como joint action ( acao conjunta) influencia no processo de "othering". Mas eu nao vou chatea-los com esses detalhes. Tudo isso é para dizer que provavelmente eu devo comecar meu doutorado no semestre que vem, e em um ano ir fazer trabalho de campo em Israel.

Por isso, quando o Adam meu flatmate anunciou que seu filho de 9 anos que é Israelense viria para Londres, fiquei curiosa em saber como ele concebia dessas categorias. Ele é timido e no comeco mal falou comigo. Depois de jogarmos dias de futebol, eu aprender a tocar uma musica que ele gosta no violao, fazermos yoga, acrobacias, jogos da copa do mundo ele virou meu amigo. Assim que ontem, nao queria ir comer fora a nao ser que eu fosse junto. Fui, e no meio do jantar o Adam, contou a ele que talvez eu fosse a Israel trabalhar numa escola.

Seu filho me olhou, e disse " como que vc vai fazer se vc nao fala hebraico?!?!" Eu respondi que eu iria aprender. QUe eu queria aprender Arabe tbm porque a escola onde eu ia trabalhar era metade Judia metade Arabe. Ele ficou mudo. Parou um segundo e disse " Jules, change the school. that is not a good idea! Os Arabes sao todos maus!". Perguntei a ele como ele sabia disso. Ele explicou que todo mundo sabe. Eu perguntei se ele conhecia todos os arabes do mundo, ele concordou que nao, e eu disse entao que era impossivel para ele saber se eles eram todos maus! Lembrem-se essa conversa era com uma criança por isso eu estava tentando faze-lo pensar, tentando descobrir como ele pensa, nao tentando ataca-lo.

"I jsut know."

Adam comecou a explicar que ha pessoas boas e más na inglaterra, no brasil, no africa do sul, na franca, na Italia, em Israel... enfim no mundo todo. ( eu queria ate questionar o maniqueismo mas diante de uma crianca de 9 achei melhor follow through com a divisao bom e mau). Seu filho nao convencido disse " Isso é verdade para o mundo todo menos para os Arabes e os Alemães!"

Expliquei para ele que a guerra tinha sido ha muito tempo. Que os alemaes sao boas pessoas. Ele deixou isso passar mas disse " But no the Arabs! Eles sao todos maus!!!" Ele olhava para mim perplexo como se eu e o Adam tivessemos fazendo uma piada. Como se estivessemos dizendo algo do tipo " se vc soltar o prato no ar ele nao cai no chao!"

Perguntei a ele entao se ele nao gostava de NENHUM arabe! Ele concordou que nao gostava! Entao eu disse: " E seu eu te contasse que eu sou Arabe?"

_Jules, I know you are not! You are Brazilian!

_Well, I am Arab Brazilian, porque minha mae eh do LIbano". disse séria apesar de nao ser verdade.

Ele pensou, pensou, pensou e disse " Nao voce entao nao eh Arabe"

_ Claro que eu sou! Voce nao eh Judeu porque sua mae é Judia? EU sou Arabe pq minha mae eh Arabe.

Ele ficou em silencio um tempao pensando ai virou para mim e disse:

" Well, As mulheres Arabes sao boas pessoas, sao so os homens que sao maus."

Eu comecei a rir..porque o reasoning foi mais ou menos assim: " 1. Os arabes sao maus, 2. Eu gosto dela!...... entao ou ela nao pode ser arabe ou eu preciso adequar o meu pensamento! E ele o fez.

De um lado me fez perceber o quao fora de discussao esta a ideologia. O quao forte ela eh numa crianca de 9 anos que tem um pai Ingles. Do outro, me deu um certo otimismo de imaginar que sem duvida nenhuma se vamos conseguir jamais alguma diferença em processos de minizar os efeitos de ver o oturo como inimigo isso tem que ser feito nao na ideologia mas no encontro dessas pessoas. Na acao conjunta. No brincar. It is a long shot e eu sei que há muitas pessoas que nao querem que isso aconteça. Isso coupled com a tendencia do nosso cerebro de classificar em grupos dos quais pertencmeos ou nao. Mas eu sou otimista, e tbm acredito na nossa natureza social, e altruista. Por isso espero que sim, que essa escola consiga fazer essas criancas que se concebem tao distintamente a andarem hand in hand.

5 comentários:

Gabi Goulart Mora disse...

Juli, talvez vc já conheça, mas a história e o projeto tem TUDO a ver com o documentário 'Promises', que vi há quase 10 anos e nunca esqueci. O cara leva as crianças de um lado pro outro, pra começar a brincar, jogar e tentar desconstruir o que já estava tão cristalizado naquelas cabecinhas.

Dá uma olhada: http://en.wikipedia.org/wiki/Promises_(film)

O trailler do filme tá no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=9Ryzl0CE5fc

No filme tem um diálogo do diretor com uma criança que é praticamente igual ao seu. Só que a criança era árabe e o diretor judeu-americano.

Beijos e parabéns pelo doutora e pela escolha de um tema tão apaixonante!!!

Julieta de Toledo Piza Falavina disse...

Oi querida. Obrigada. Me diverti com a estoria da lagartixa. mas se ela eh do tamanho dos geckoes la tailandia eu entendo o seu medo :)


Nossa, eu tbm vi Promises ha muito tempo atras! Ainda morava em NY na epoca. Preciso ver de novo pq me lembro bem vagamente!


Vou ate escrever da minha ultima conversa com o filho do Adam ontem num novo post pq foi engracado!

Quanto ao doutorado... ontem recebi noticia que ganhei uma studentship do departamento :) talvez eu va mesmo fazer pq vc tem razao esse tema eh bem mais apaixonante do que a chatisse que eu tinha inventado antes :)

bom, eu acho que te mando um email que eh melhor :)

saudade. adorei ler que vc acha que chamar mulher de vaca nao devia ser ofensa ! eu tbm acho. e tbm tinha a mesma impressao antes de ir a india que ser sagrada significava outra coisa.. :) saudade. quando vc passa por aqui?

Pa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pa disse...

Ju, eu amei isso. Me toca particularmente, vc sabe. E que contadora de histórias vc se tornou. Bem, acabo de me dar conta de que gostei de vc logo de cara porque vc contava histórias. Saudades. Aliás, saudades desses papos de vcs duas aí acima. Vou pedir um peppermint tea :-)

Julieta de Toledo Piza Falavina disse...

Paulinha querida, obrigada!

Sabe que a minha avó é uma verdadeira contadora de estórias! E eu sempre digo a ela que ela deveria escrever. Ela diz que nao que não tem nada de interessante para contar. Eu acho uma pena, pq estorias, assim como fotos ( e outras coisas tbm..) sao possibildiades de visitar por uns minutos outros mundos, outras realidades. E no fundo toda estória é interessante! Por isso eu acho que gosto tanto de viajar, por que alem de viver o local diferente é comum encantar viajantes que tem estórias incríveis!

Saudade tbm. nos vemos em breve!!!!