sexta-feira, julho 15, 2011

Narrativas alternativas

O meu doutorado, aquele que eu abandonei, era para ter pesquisa em Jerusalem com criancas judias e palestinas numa escola de coexistencia. Nao, eu nao sou Judia, e nem tampouco Arabe. Como foi que eu fui parar nisso? eu já nao tenho a menor ideia. O que eu sei é que hoje em dia eu tenho uma relacao de amor e odio com o oriente medio. Essa alias é uma relacao muito comum. Dificil viver la, mais dificil ainda imaginar que para la nunca mais se volta. Na primeira vez que eu fui a Israel quem le meu blog deve se lembrar que eu fiz couchsurfing o tempo todo. Dessa vez, eu fiquei na casa dos ex -desconhecidos e agora amigos em Israel, e passei um mes ficando na casa de entao desconhecidos e agora tbm amigos na Palestina.

Quem tem amigos em Israel pode imaginar o tipo de reacao que eu recebi quando disse que ficaria na casa de estranhos pelo couch surfing na Palestina. De previsao de "harrassement" a morte. Se vc esta lendo isso faça o seguinte experimento: escreva "brazilians" no google images, depois "palestinians", depois "israelis". Assim como brasileiros nao sao so praia e futebol e carnaval, na palestina nao ha so criancas machucadas, "terroristas" e tao pouco em Israel é so soldado do IDF.

Eu cruzei o muro. E como eu falei no ultimo post os muros tem aquele poder de deixar a gente ficar imaginando as imagens do google como representativas. Eu escrevi muito do que me aconteceu aos meus amigos, e como me tem sido pedido muito que eu escreva aqui vou tentar revisitar o que escrevi, o que vivi, para trazer as narrativas alternativas. Eu aviso desde já que essa viagem é meio sem volta... nada é mais branco no preto. Nao ha nada de coerente por aquelas terras.... alias será que existe algo de coerente na humanidade? Eu sofri e sofro por ter amigo dos dois lados. No entanto acho que as estorias tem que ser contadas. As estorias tem poder pois elas nos lembram da humanidade que o muro tenta apagar.

Eu estou para embarcar para India e vou viajar com um Israelense que eu conheci na comunidade da India do Couch Surfing. Meu teste inicial a ele foi contar que tinha passado um mes no west bank. Se o cara fosse um total radical ja se desculparia e discretamente nao falaria mais comigo. No entanto, ele se mostrou interessado. Ele se emocionou ouvindo minhas estorias. Filho de mae iraniana e pai iraquiano tao pouco pode jamais voltar a casa da mae no Iran. Ele tem amigos palestinos de nablus que trabalham ilegalmente em Israel. Fiquei surpresa. Como assim? Um judeu Israelense com amigos Palestinos muculmanos ilegais? No entanto, ele entende, talvez isso de ter uma casa para qual nao possa voltar o faca o compreender. Nao sei. Como as pessoas reagem as coisas é sempre um mistério.

"Podemos ser amigos mas só até um certo ponto porque na verdade é muito dificil para eles serem eles mesmo aqui. vc nao imagina como é dificil. Eu odeio politica. Meus amigos de esquerda, que sao super contra a ocupacao so querem falar do conflito mas quando eu trago meus amigos palestinos eles nao sabem como trata-los como humanos!. O mais basico eles nao sabem! Voce nao pode imaginar!" Eu expliquei que posso, que imagino que senti na pele.

Esses dias um dos amigos dele foi pego sem documentos. "Oque vai acontecer com ele?" perguntei. Ser preso, deportado, mas depois ele volta. Nos ate temos uma brincadeira. Ele sempre me diz que o bom de ele ser preso é que ele pode trazer comida que presta de Nablus para eu comer porque a mae dele cozinha melhor do que niguem. E isso é o que me quebra de vez, ele nem se revolta."

É isso eu vou tentar escrever aqui sobre esses mundos secretos. O mundo das mulheres que eu conheci no Hamam, o mundo dos religiosos que respeitaram a minha falta de fe, o mundo dos meninos entediados em Nablus, o mundo dos meus amigos israelense que tem medo, que tao pouco querem ser odiados no exterior, ou tao pouco adorado por fascistas, o mundo da depressao dos soldados do IDF que se justificam o tempo todo. O mundo das pessoas que dizem as coisas mais chocantes, mais abusrdas, mas que no fundo como todos nos mudam de pensamento, tem varias narrativas. Um mundo que nao é esse das imagens do goodle. Se vc quer saber um pouco mais da complexidade de ser humano no oriente medio, assim vista por uma nao expert nao judia, nao arabe, nao inglesa, nao americana... uma brasileira a passeio, venha aqui e leia. Eu nunca achei que o que eu ecrevesse tivesse importancia. Sempre escrevo por escrever, mas essas estorias eu acho que tem que ser lidas. As vozes dessas muitas pessoas que as vezes dizem coisas brancas, ou pretas mas na maior parte do tempo vivem no cinza. Essas estorias tem que ser ouvidas. E ja que a historia nao envolveu minha familia nem o meu pais nessa politica eu acabo tendo um acesso a informacao realmente invejavel. Se quiser venha, eu prometo que conto os segredos que eu descobri da nossa incoerente humanidade, mudo os nomes, mas mantenho as vozes.

3 comentários:

Paula Gabriel disse...

Nada do que fazemos é sem propósito... descobrir isso é só questão de tempo. To fascinada pelo que vc descobriu sobre o seu dom. E, claro, virei aqui pra conferir tudo. Boa viagem, todos os dias. Beijo

mag disse...

Que bom reencontra-la animada novamente!

Virei aqui com certeza...

Uma otima viagem! em todos os sentidos!

Julieta de Toledo Piza Falavina disse...

Paulinha. Obrigada por tudo! De verdade! Bom, sera que eh isso mesmo? que eu sou contadora de estorias ? :)

mag, obrigada querida!!!