quarta-feira, janeiro 12, 2011

Ponto e virgula

Cruzei as mil fronteiras imaginadas, que no céu parecem ainda mais absurdas, dormindo. Acordada as vezes me vinha umas lembrancas soltas. Nossa quanta coisa aconteceu enquanto eu estive no Brasil. Quanta coisa dentro de mim. Cheguei a uma Londres nem tão fria nem tão cinza. Cheguei já com uma mensagem de texto de um amigo yogi me desejando as boas vindas. Sorri, não há nada melhor do que ser acolhida assim de cara por amigos que voce não imaginava que saberiam a duração da sua ausencia.

No meu último post eu estava assim, me sentindo sem ponto final. Estava totalmente fora de lugar. Querendo ficar e tendo que ir. Inventando mil cenarios onde em todos eu parecia estranhamente fora de lugar. Tudo isso tem a ver com o tempo. Em grego, aparentemente, existe a diferença entre Chronos ( o tempo cronologico) e Kairos ( o tempo, o momento supremo). Aliás isso é tão parecido com o BUdismo. A impermanencia de tudo é no Chronos. Estar sempre presente deve ser Kairos. Acontece que nesses momentos Kairos dá um medo de perde-los no tempo. No Chronos :)

Eu tava assim perdida em Chronos. Correndo atras daquele Kairos que só podia existir quando existiu. Sempre na frente ou sempre atras. Eu morria diariamente umas 10 mil vezes tentando encontrar. Até o dia da minha despedida. Aquela que no
último post eu esperava me sentindo sem ponto final.

Chegaram as pessoas. Amigos de varias partes. De varias idades. De varias ideias. E ali no encontramos. Primeiro em estorias de viagens, estorias engraçadas. Depois já no final da noite, Malu Barciotte, que eu tinha conhecido na Lapinha, e que ja tinha feito o ritual das lanternas que tanto mexera comigo propos um outro ritual. Eu não me lembro muito bem o nome do Ritual. Ele bascimanete consiste em ouvir o outro. Sentamos em circulo e escolhemos o bastião da fala. Eu escolhi a estátua africana. Uma cabeça de mulher que minha avó trouxe de uma viagem que fez a Africa. Maluh começou por explicar as regras. Quem segura a cabeça fala. Fala quem é o que pensa, o que faz, alias fala o que quiser. E nos todos ouvimos. Ouvimos com tudo. Sem interromper. Ainda que tivessemos mil perguntas, ainda que discordassemos, apenas ouvimos. E como é dificil só ouvir :) Quando concorda-se com uma ideia diz-se "Hou!". E no final da sua fala que dura o tempo que vc quiser termina-se por dizer " Eu sou ..., falei, Hei!" e nos respondemos "Hou".

O que sempre me impressiona em rituais é como é fácil para nós humanos nos conectarmos a eles. Vide o poder de religioes, futebol, exercitos. Fazer coisas juntos, sincronizar comportamento tem uma coisa evolutivamente, e cognitivamente muito forte. Então ali sentados em circulo observando as regras em pouco tempo o ritual ficou profundo. Maluh comecou falando de Arete. De acordo com Wikipedia Arete vem "de excelência, ligado à noção de cumprimento do propósito ou da função a que o indivíduo se destina. [1] No sentido grego, a virtude coincide com a realização da própria essência, e portanto a noção se estende a todos os seres vivos. Segundo Sócrates, a virtude é fazer aquilo que a que cada um se destina. Aquilo que no plano objetivo é a realização da própria essência, no plano subjetivo coincide com a própria felicidade."

Maluh começou ali falando do que fazia, ela que eh geneticista, artista e mais um milhao de coisas, falou de baixar um pouco a bandeira dos direitos e levantar a bandeira da responsabilidade. Em seguida falou Diego, que por ser filosofo, começou de Arete mesmo. Fiquei pensando dentro de mim naquela sincronicidade. E o resto da noite foi assim. EU que conhecia a todos pensava "meu deus, tantas coisas estão sendo ditas aqui que tantas pessoas precisam ouvir". Como é possivel uma coisa dessa que as vezes aquela coisa exata que precisa ser ouvida se transborda assim da boca do outro?

O nosso ritual foi profundo. Tão profundo que todos que participaram escreveram algo sobre o ritual, ou mensagens para mim. Fiquei pensando como ali, em tão pouco tempo as pessoas se conectaram com suas essencias. Mesmo as pessoas que falaram menos pareciam tão conectadas a tudo que estava sendo dito.

Minha buscas ali foram parcialmente resolvidas. Aquele sentimento de solidão que eu senti tantas vezes no Brasil se preencheu. Se preenche sempre no encontro com o outro. E esse outro tá em todo o lugar. Cheguei desencontrada e saí convencida que em qualquer lugar se encontra gente que tem as mesmas buscas. Ainda que as vivam de maneira muito distintas. Saí com um sentimento inabalavel de otimismo, de amor, de gratidão.

E saí sem precisar de ponto final. Me sentindo assim, num ponto e virgula. Afinal de contas a vida continua.

Um comentário:

Janine Fragoso disse...

Lindas, suas palavras e você, Ju!

Fiquei extremamente sentida por ter perdido esse momento tão especial... A Dé também.

Mas, ainda assim, como já te disse, aquele encontro foi realmente muito acolhedor... pelas pessoas que conheci, pelas palavras que ouvi... Ficou sim uma sensação de "tem muita gente no mundo que pensa como eu"...
Obrigada por nos proporcionar esse momento tão especial...

Um beijo igualmente especial,
Nine.

P.S.: Seus textos são incríveis! Dá vontade de sentar com você, um dia, para conversar sobre cada um deles... :)