sábado, maio 01, 2010

Vipassana II- Das Flores



"What a strange thing!
to be alive
beneath cherry blossoms."
— Kobayashi Issa

Enquanto as milhoes de estorias borbulham dentro de mim, eu é claro não tenho tanto tempo como gostaria para escrever. Tenho que estudar para minha prova que será no 17 de maio. Não posso reclamar pois com meu horario regulado gracas ao retiro, e minha concentração bem mais aguda estudar tem sido mais prazeroso, mais fácil e muito menos overwhelming. Desde que voltei mandei um email a alguns amigos, aqueles em quem pensei durante o retiro. Aqueles que eu achei que de alguma maneira aproveitariam uma oportunidade como essa. E eis que recebi algumas respostas, algumas perguntas que me fizeram pensar mais a respeito da minha experiencia.

Como eu fiz em meu e-mail vou tentar livremente explicar mais ou menos como eu compreendi Vipassana. Basicamente nos 3 primeiros dias do retiro somos ensinados a sentar e prestar atencao na respiracao, só isso, mais nada. Apenas a respiracao sem vocalizacoes, ou mentalizacoes para que se aprenda a focar a mente, para que a mente fique aguda o suficiente para se poder praticar Vipassana.

Vipassana é baseada no seguinte: a ideia que sofrimento vem do padrao da nossa mente de nunca estar no presente. De sermos jogados do passado ao futuro por nossas emocoes e pensamentos o tempo todo. Sempre reagimos com aversao ao que nao gostamos e com apego ao que queremos e como tudo é impermanente sofremos. Mas tudo que existe no presente sao sensacoes. Por isso, Buda acreditava que se aprendessemos a nos tornar totalmente conscientes das nossas sensacoes e aprendessemos a ficar equanimes ( nao reagir com apego ou aversao a elas) quebrariamos profundamente o padrao de reacao da mente. Vipassana, portanto, treina voce a ficar consciente das sensacoes corporais ( calor, dor, formigamento, vibracoes etc) e a praticar equanimidade ( nao reagir, observar as sensacoes "como um cientista" objetivamente).

Entao, durante os ultimos 7 dias aprende-se a observar o corpo todo. Comecando pela cabeca, e pedacinho por pedacinho scaneando o corpo e observando as sensacoes até chegar as pontas dos dedos do pé. 3 vezes ao dia, faz se uma determinacao de sentar-se por uma hora sem se mexer observando o que é que se passe, o que é que se sinta com desapego, pois tudo é impermanente. Durante o retiro, observa silencio nobre. Silencio de fala, gestos, pensamento etc...

Eu tive é claro muitas duvidas filosofico cognitivas. Ficar em silencio foi facil. Uma vez la ha uma sensacao de enorme apoio, de enorme gratidao. Como nao se paga nada para ir quando vc chega, e conforme os dias passam, e observa-se como tudo é bem mantido, fica cada vez mais evidente que tudo aquilo so é possivel porque as pessoas que la estiveram antes de vc doaram dinheiro para que essa oportunidade tambem fosse dada a outras pessoas. Toda a deliciosa comida que se come é preparada por voluntarios que além de meditar acordam ainda mais cedo para cozinhar para vc.

Eu tive muita sorte com o tempo. Os dias estavam lindos. A primavera estava chegando e simbolicamente eu sentia a vida voltando. Confesso que nao reparei nas flores quando cheguei. Talvez tenha sido no terceiro dia quando eu ja estava realmente concentrada que reparei que as cerejeiras na frente do meu quarto estavam florescendo. Compreendi profundamente dessa vez Kurosawa num dos seus "Sonhos". Entendi mais os japoneses que falam tanto da beleza das cerejeiras em flor. As festas (hanami) para ver as cerejeiras em flor(sakura) acontecem no Japao desde o seculo VII.

Há alguns preceitos que se observa quando se pratica Vipassana, e um deles é nao matar. Nos meus tres primeiros dias eu passei mal, tive diarreia, e muita dor de estomago, mas observando o silencio, e nao tendo muito o que fazer fiquei em silencio. Minha companheira de quarto que deve ter reparado minhas massagens no estomago, colocou ao lado da minha cama um pequeno vidrinho. Quando eu voltei ao quarto, sem olhar para ela, evitando qualquer comunicacao reparei a presenca de um vidrinho verde desconhecido no meu lado da mesinha. Fiquei surpresa, peguei o vidrinho e vi que era um remedio natural para dor de estomago.

É incrivel, como pequenos gestos como esses te tocam. Fazia 3 dias que eu estava em silencio e eu sabia que apesar do silencio estavamos ali uma no apoio da outra, e todos mutualmente se apoiando em silencio. Eu nao podia dizer obrigada, nao podia escrever obrigada, resolvi que em agradecimento colocaria uma flor no seu lado da mesa. Como eu não queria matar nada, inclusive uma flor, procurei uma flor que estivesse caida. Coloquei-a do lado da mesa que ficava perto a cama de Liz.

Os dias foram passando, e a cada dia eu olhava para as cerejeiras para ver como elas estavam naquele dia. Sentia-me tocada por meu retiro acompanhar o desabrochar das cerejeiras. No final dos 10 dias elas estavam completamente em flor. Eu finalmente entendi ali toda a literatura japonesa que eu ja tinha lido. Não é apenas que elas sejam lindas, mas é o processo que acontece todos os anos, um processo impermanente, onde nehum dia é igual ao outro, onde, as petalas voam, onde tudo se move em direcao a perfeicao, ao que pode parecer um momento fugaz de beleza, ao qual vc nao pode se apegar. Eu observei o processo, e entendi experiencialmente a beleza de uma cerejeira em flor. A breve, fugaz, impermanente beleza da cerejeira apesar de "breathtaking" não é o seu maior poder. O mais tocante é observar o processo diario. O mais poderoso talvez seja a permanencia do impermanente. Observar as cerejeiras desabrocharem, e saber que apesar da primavera ser todas as vezes diferente, ela é sempre primavera. Observar uma cerejeira em flor é observar a coexistencia do tempo cronologico e o ciclico.

No decimo dia, quando o silencio foi levantado Liz veio me dizer obrigada pela flor no seu lado da mesinha. Expliquei a ela que tinha pegado uma flor morta pois nao queria matar uma flor. Ela eh claro ja tinha compreendido isso no nosso silencio. E é claro que se eu tivesse colhido uma flor viva, ela teria sido morta no ato. No entanto, de alguma maneira ali a impermanencia da vida e da beleza da flor se mesclaram. A gratidao, no entanto, simbolizada na impermanencia do material se dissociou do material.

6 comentários:

Anônimo disse...

Julieta,

Obrigada. Faz muito tempo que eu ouço falar em Vipassana e por isso queria te agradecer por colocar uma explicacao tao tocante e detalhada. Vim parar aqui por acaso e me viciei. Seu blog é lindo. Barbaro mesmo! Nota-se que quase tudo que vc escreve é profundo, e espontaneo. O tal pintor do onibus tinha razao: voce é uma artista. Vc pinta com suas palavras.

Parabéns,

Helena Vieria

Anônimo disse...

Juju

Saudade! Fiquei morrendo de vontade de fazer um retiro desses...

Luli

Anônimo disse...

"Observar uma cerejeira em flor é observar a coexistencia do tempo cronologico e o ciclico."

:)

simples e profundo... lindo!

Karol disse...

Julieta, te desejo muitas visões, respirações e pensamentos de cerejeiras! Parabéns por aproveitar essa oportunidade. A beleza já existe em você, por existir, mas com certeza você desabrochou milhões de botões.

Roberta disse...

great experience! vamos conversar depois de sua prova!
beijos querida! parabens pelo post!

Julieta de Toledo Piza Falavina disse...

Queridas Obrigada!!!

Helena, pois é eu sempre ouvia e ouvia, e na verdade so quando eu voltei que eu percebi que nunca eu tinha realmente procurado saber o que vipassana era. Se vc tem curiosidade va! Eu por acaso encontrei co mmeu amigo Lama Tibetano um dia antes. E ele ter me dito para take it lightly foi super importante. Pq fica mais facil de ir :) Obrigada por suas palavras!

Luli,

Saudade tbm!! Como voce ta? E por onde voce anda?

Anonimo,

obrigada :)

Karol,

Obrigada :) Vc soa como alguem que ja esteve num retiro, have you? :)

Beta,
Obrigada! E agora que estou livre da minha prova podiamos marcar alguma coisa ne!!!
beijos