quarta-feira, junho 20, 2007

As sombras da romãzeira

Acabei ontem de ler As sombras da romãzeira que é o primeiro livro do Quinteto Islâmico de Tariq Ali. Acabei meio sentindo uma apunhalada no estômago, não sei de quem, nem sei porque. O livro é sobre uma família muçulmana ( e isso para ser tão redutor) tentando sobreviver na Espanha depois da queda de Granada. Um livro sobre um pouco da história islâmica e da reconquista cristã durante o reinado dos reis católicos da Espanha. Um romance, mas desses que me fazem pensar em Jean Rouch. E eu explico porque...

Meu primeiro contato com Jean Rouch, antropólogo e cineasta conhecido pelo cinema vérité (cinema verdade), foi numa aula de filme etnográfico. Assisti Chronique d'un été , projeto de Rouch com o sociólogo Edgar Morin e filmado em 1960 na França, numa das minhas primeiras aulas. O filme começa com uma discussão entre Morin e Rouch para descobrir se era possível ou não atuar sinceramente na frente de uma câmera. Para explorar esse tema, eles pedem para pessoas, que eles encontram no meio das ruas de Paris, discutirem temas sobre a sociedade francesa e felicidade enquanto são filmadas. Como é de se esperar, assim que elas começam a falar para câmera, elas se transformam. O final do filme é brilhante pois Morin e Rouch reúnem todas essas pessoas para se assistirem. A cena é bárbara pois muitas delas não concordam com suas imagens e fica claro que se transformaram em personagens. Um outro filme que assistimos que me tocou muito foi Pyramide Humaine, mas dedicarei um tópico inteiro a esse filme.

Depois de assistir a alguns filmes de Rouch, na época, resolvi fazer uma pesquisa sobre o cineasta. Lembro-me de encontrar uma entrevista onde ele contava como começou esse interesse que o levou ao cinéma vérité. Rouch contou, que quando era criança tinha sido levado para assistir Nanook of the North (documentário do Flaherty de 1922 sobre os Inuit ) e que tinha ficado encantado com o filme, com a vida dos Inuit, que saiu do cinema fascinado. Um pouco depois foi levado por sua mãe a assistir Robin Hood (1927). Durante o filme, no entanto, ele começou a chorar. Quando a mãe perguntou porque ele chorava, ele explicou que era porque muitas pessoas estavam morrendo e ele estava triste. A mãe, imagino que tenha achado engraçado, explicou que aquilo era um filme, e que não era verdade, que eram atores e que as mortes eram de ´mentirinha´. Para surpresa da mãe, diante dessa explicação, o pequeno Rouch começou a chorar mais. Chorava pois se era tudo mentira então todos aqueles Inuit também eram! A mãe, explicou que não, que o Nanook era um documentário, ou seja, era verdadeiro, e que o Robin Hood era ficção. Foi aí, segundo Rouch, que ele decidiu que ele ia dedicar a vida para descobrir quão mentira era um documentário e quão verdade uma ficção.

E foi assim que eu me senti lendo as agruras da familia de Umar. Transportada a um outro mundo. Um mundo de ficção mas desses que dizem mais sobre realidade, do que o dia a dia.

Um comentário:

Lígia disse...

Bom dia!

Acabei de ler o livro Sombras da Romãzeira e tenho a mesma sensação relatada.

Compreender o passado para transformar o presente, é garantir um futuro mais feliz.

Parabéns!